6. RELASJON TIL ANSATTE PÅVIRKER HVERDAGEN
6.2 U LIKE ROLLER
O câncer, como doença progressiva e na maior parte das vezes, incurável, pode associar seus efeitos deletérios à cronicidade dos sintomas, ameaçando as pessoas idosas, que geralmente vivenciam as pressões angustiantes, emergentes do envelhecimento. Um dos problemas mais delicados de se lidar com o agravamento da doença é a presença da dor, que segundo, Burlá e Py (2004), é causadora de grande angústia, pois está associada a um estímulo doloroso e conseqüente ruptura na qualidade de vida. Apesar de subjetiva, liga-se a fenômenos complexos, de difícil acesso. Intitulada de dor total, envolve tanto a dor física quanto a dor de origem psicológica, baseada no contexto de vida do indivíduo. A dor do câncer associa-se às debilidades físicas e aos sentimentos negativos (incompreensão, desamparo, isolamento e abandono) e, além de insuportável, promove desespero e desistência da vida. É uma dor total e intensa que ameaça o ser como um todo, desestabilizando-o (KOVÁCS, 2004). Para Pimenta, Koizuml e Teixeira (1997), a necessidade de utilização de recursos de enfrentamento é evidente, pois o paciente precisa sentir-se seguro e estável, já que a enfermidade causa um intenso desgaste e diversos desajustes pessoais.
Com o passar do tempo, na maior parte das vezes os sintomas do câncer se agravam em intensidade e ocorrem com maior freqüência, não adiantando intervir no processo, pois a doença de base se torna irreversível. Clinicamente, quando se trata de câncer, em momentos de crise, a hospitalização é necessária. Além dos aspectos objetivos da terminalidade, citados no trabalho, a percepção subjetiva acompanha o modo como o paciente encara e lida com a doença. Na hospitalização, o paciente emite tanto comportamentos que demonstram satisfação quanto insatisfação em relação aos cuidados. Burlá (2002) menciona o risco de morte eminente quando há mudança do sensório, presença recente de confusão mental, fadiga
intensa, recusa alimentar e flutuação dos sinais vitais sem causa aparente. É importante salientar que a saúde do paciente é instável diante desses sinais.
Silva (1979), apud Diogo; Cachioni; Néri (2004), afirma a respeito da experiência de hospitalização que, independente do motivo, causa impressões negativas no paciente. Diogo; Cachioni; Neri (2004) acreditam que o hospital seja um forte agente estressor, pois o associam à insegurança, à instabilidade do quadro clínico e ao temor do prognóstico. O tratamento que recebe por parte da equipe médica, às vezes não qualificado, compromete a relação saudável entre hospital e paciente. Também o temor da morte reforça a impressão negativa do ambiente.
O enfrentamento tem-se mostrado uma saída para lidar com os eventos aversivos na terminalidade. Segundo Lazarus e Folkman, (1984), pode promover recursos cognitivos e emocionais de enfrentamento. Trentine et al. (2005) em pesquisa calcada na teoria de enfrentamento como recurso motivacional, observa que idosos em condições crônicas de saúde tendem a utilizar estratégias de enfrentamento numa tentativa de minimizar problemas. Segundo Trentini os idosos utilizaram estratégias focalizadas na emoção representadas pela manifestação da fé, do trabalho, e busca de amparo na família, lidando assim, com o envelhecimento e a doença em pesquisa com o câncer em estágio final. Já o enfrentamento focalizado no problema, manifestou-se pela busca de recursos médicos e cuidados com o corpo. Os achados da pesquisa revelaram que os participantes utilizaram múltiplas estratégias de enfrentamento para enfrentar a mesma situação estressante e que essas se apresentaminter- relacionadas e, da mesma forma que o humor humano, podem se caracterizar como incertas. “Ao mesmo tempo em que enfrentam pela fé, trabalho e busca de ajuda, podem enfrentar pela rejeição (TRENTINE et al., 2005, p.14)”.
Pargament (1997), ao investigar a função da religiosidade na vida do ser humano, percebe significante participação no processo de solução de problemas, pois oferece direção, apoio e esperança. Em suas pesquisas, salienta a influência da religiosidade no processo de representação da realidade, por meio da qual as pessoas buscam significar sua vida com o Sagrado, como foco. Em seu modelo de compreensão do fenômeno religioso, mostra seus importantes benefícios, na confrontação com a morte. No contexto real, a religiosidade associa-se a um bem-estar físico e psicológico. Entretanto, no contexto espiritual, os pacientes esperam que a religiosidade faça uma ponte entre a terra e o transcendente. Dentre as funções da religiosidade, citam-se: tentar resolver problemas, controlar desafios ou recursos que permitam encarar a doença com menos dificuldade, além de promover benefícios que auxiliem no tratamento ou na cura de enfermidades.
Reed (1987), ao observar idosos hospitalizados sob cuidados paliativos, constatou um elevado índice de espiritualidade, maior que em idosos saudáveis ou portadores de doenças curáveis. A autora entende a espiritualidade como um indicador humano para a capacidade de transcendência, fonte de recursos na terminalidade. Em seu estudo, observa que a espiritualidade atua diretamente no temor da morte, ao promover a diminuição do medo, da solidão e do desconforto, sentimentos comuns em pacientes que se encontram nesse contexto.
A religiosidade também é empregada para motivar esperança de cura e caminhos para a organização da vida durante a reabilitação. Zago (2007), realizando estudo com pacientes brasileiros portadores de câncer, de ambos os sexos, com idade entre 51 e 72 anos, verificou que as crenças religiosas articulam o enfrentamento do estigma da doença. Em pesquisa realizada com cinco capelães que atendiam idosos portadores de câncer vivendo sob cuidados paliativos, Teixeira e Lafrève (2003) chamam atenção para três pontos importantes em relação à experiência religiosa dos pacientes: o primeiro é que a fé religiosa ajuda-os a encarar a própria doença; o segundo, é que a fé religiosa adquire contexto conservador na vida dos idosos com câncer; e o terceiro, é que o discurso coletivo assinala que os idosos são mais reconciliadores com a vida e mais bem preparados para as adversidades.
Diversos são os estudos que têm comprovado a relação positiva entre religiosidade e doença, tanto no âmbito físico quanto psíquico. Em pesquisa realizada com pacientes infectados pelo vírus do HIV, Siegel (2002) observa benefícios associados às práticas religiosas e espirituais em suas vidas: a) conforto sentimental e emocional; b) controle da vida; c) sustentação social; d) relação com o transcendente; e) aceitação da doença; f) auxílio na preservação da saúde; g) alívio de medos e incertezas diante da morte; h) e no caso dos pacientes portadores do vírus do HIV, facilita a auto-aceitação, diminuindo a autopunição e a culpa. Tais benefícios sugerem mecanismos potenciais pelos quais o ER afeta o ser humano, ajustando-o psicologicamente.
Koenig, Pargament e Nielsen (1998), em pesquisa realizada no contexto hospitalar, buscaram investigar o emprego ou não do enfrentamento religioso, associando-o à saúde clínica dos pacientes. Geralmente, aqueles que se encontram hospitalizados expressaram atitudes de ER, variando entre positivas ou negativas, dependendo da forma como encaravam a doença e a religião. Também a tradição religiosa pode promover uma discrepância na forma de ajustar e moldar as avaliações dos eventos feitas pelos indivíduos.
Apesar das pesquisas relatadas comprovarem a eficácia do fenômeno religioso no final de vida de doentes diagnosticados como fora de possibilidades terapêuticas, o caminho religioso pelos quais desenvolvem e empregam o enfrentamento é desconhecido. Segundo
Koenig, Pargament e Nielsen (1998), a possibilidade de uso desse mecanismo ser positivo ou negativo também deve ser estudada. Sendo assim, buscou-se nesta pesquisa, perceber o fenômeno religioso, compreendendo sua relação e possível utilização pelo idoso com câncer, sob cuidados paliativos. A seguir, serão demonstrados o método do trabalho e o processo de sistematização com que se desenvolveu a pesquisa.