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2. TEORETISK RAMMEVERK

2.4 F ENGSELETS SÆREGNE TREKK

2.4.3 Krenkelsesprosessen

O quarto aspecto investigou a percepção dos entrevistados a respeito dos resultados da estratégia de mediação de conflitos no âmbito escolar.

Três pontos importantes devem ser contemplados nas relações escolares que envolvem a mediação: suprir a necessidade mutuamente – as pessoas se relacionam com o propósito de suprir algumas de suas necessidades. Quando a necessidade suprida é apenas de uma pessoa, o relacionamento sofre. Mas nem sempre é fácil identificar a necessidade do outro.

De acordo com Melendo (1998), o indivíduo precisa estar preparado para aceitar a maneira peculiar do outro; relacionar-se um com o outro ao longo tempo – o importante dos relacionamentos é que eles tenham continuidade. Essa continuidade gera o desenvolvimento do relacionamento e o ganho de conhecimento, que é utilizado para tornar as relações futuras o mais produtiva possível; compartilhar sentimentos, pensamentos e ideias – relacionar-se ultrapassa a troca de informações factuais e abrange a troca de informações a respeito de sentimentos, pensamentos e ideias, de modo que a troca é um processo interativo.

Um olhar, um sorriso, um gesto e a aproximação física constituem formas não verbais de interação entre pessoas. O contrário, quando uma pessoa nos vira as costas ou fica em silêncio, também é uma forma de interação. Os gestos também são uma forma de comunicação.

Para Melendo (1998), comunicação é um fator imperativo para as relações, constitui uma necessidade e um desejo do ser humano. O ser humano sente a necessidade e precisa se comunicar, se relacionar e ao mesmo tempo conhecer os outros e ser conhecido por eles. A comunicação influencia no bem-estar do indivíduo, ela está para as relações humanas como o ar está para a vida.

É muito interessante descobrir que os atores educacionais também buscam esta valorização das relações, mais compreensão por parte dos seus pares e principalmente comprometimento. Essas expectativas estão presentes no cotidiano escolar e muitas vezes passam despercebidas, e aparentemente são conflitos fáceis de serem solucionados, a partir de uma reflexão e de um planejamento eficiente voltado para tais necessidades.

A estratégia mediática desenvolvida na instituição, segundo os entrevistados, trouxe muitas contribuições tanto para os alunos individualmente como para o coletivo – a escola. As declarações dos entrevistados indicam que alunos que participaram do processo mudaram significativamente o comportamento:

A pessoa que está em conflito muda muito com a mediação, porém quem está fazendo o curso se aprofunda no conhecimento. (E5)

O curso de mediação ajudou muito na melhoria do clima da escola. Quem estava envolvido com algum conflito foi convidado a fazer a mediação. A gente notou uma melhora muito grande. Tanto os alunos quanto os professores perceberam isso. Houve uma melhora bem satisfatória. Esse ano os próprios representantes de turma foram convidados a fazer o curso de mediação de conflitos. (E14)

Os atores entrevistadores deixaram claro que a mediação é desenvolvida na instituição investigada como processo de transformação. Quando as relações são pacíficas, tudo fica mais fácil. No depoimento abaixo, percebe-se que, antes da mediação, a autoestima de alguns meninos era prejudicada por fatores econômicos, como a baixa renda familiar.

A autoestima destes meninos era bastante prejudicada em função desses acontecimentos sociais, da baixa renda dos seus familiares. O que eu pude observar é que a mediação faz com que um menino que inicialmente não tem projeção nenhuma, não acredita na sua capacidade, que ele se veja, de repente, como protagonista de uma modificação dentro da escola. Então eu acho que eles ganham muito em articulação verbal. Ganham muito em autoconfiança. Eu acho que isso faz a diferença no ser humano de uma forma bastante visível. (E2)

A reflexão sobre os próprios atos é uma das habilidades mais destacadas pelos entrevistados. Isto é muito importante para as relações sociais dentro da escola.

Do aluno, do crescimento pessoal do menino. É refletir mesmo antes de agir. Essa análise das razões das coisas, eu acho que é o que faz abrir a pessoa pra ouvir. (E3)

Eu mudei muito, comecei a pensar melhor, a pensar mais. Aqui na escola, graças a esse curso, ela não é tão violenta assim. Ter uma briga aqui é raro. Não é igual às outras escolas. A pessoa pensa mais. (E9)

Na medida em que você trabalha, discute o conflito você estará evitando os confrontos. Ultimamente não se tem notado violência física dentro da escola. (E14)

A participação na estratégia de mediação de conflitos contribuiu para que os alunos praticassem o ato de pensar sobre as causas de suas ações, ou seja, procurassem ouvir o outro e pensar antes de agir. A palavra “transformação” aparece na fala da maioria dos entrevistados. Ora transformação, ora mudança. Mudança de tratamento nas relações com as pessoas.

Todos eles de alguma forma se transformaram. Alguns muito e rapidamente. Outros nem tanto, ou foi menos perceptível; a mudança não teve tanto impacto no processo educacional dele. (E3)

As pessoas que fizeram o curso mudaram, se transformaram, porque antes eles tinham uma maneira alternativa de ver as coisas, tipo “olhou para mim de cara feia, não gosta de mim, então eu vou lá e vou bater.” (E11)

Aprendi a lidar com o conflito lá de casa. Minha mãe e eu discutíamos muito e tal. Aí pegou e eu evitei responder a ela; tipo tratar melhor. (E8)

Mudança de postura, de comportamento, elevação da autoestima, mais confiança em si próprio, fazendo-se líder positivo. A cortesia e a liberdade para conversar são aspectos percebidos na transformação dos alunos após participarem do curso de mediação.

Esses alunos que fizeram essa formação, eles mudaram o jeito de agir [...] e assim pararam de brigar por tanta besteira, entendeu? Exatamente, então, assim de amizade, eles criaram uns vínculos muito fortes entre eles. (E11) A tolerância e a iniciativa para evitar atos de violência também foram citadas como habilidades demonstradas pelos alunos que participaram do curso.

[...] alguns alunos tiveram uma transformação, assim, da lagarta para a borboleta. (E3)

Sair do casulo. Este foi o exemplo utilizado para demonstrar tamanha transformação dos alunos após a participação no curso de mediação. Os alunos tiveram suas vantagens em participar do projeto, representando a escola em congressos. Segundo o entrevistado, não dá para medir os benefícios da mediação.

Então ela aproveitou aquilo, aluna tímida toda a vida, e aí sim o fato dela viajar representando a escola, ir para um congresso falar sobre o que ela estava fazendo; não, na verdade não dá pra medir o tamanho dessa

influência, porque eu acho que muita coisa não vai se manifestar na hora, só depois. (E3)

Alunos críticos, mas que agiam de forma desrespeitosa, tiveram proveito ao aprender a se posicionar diante de uma situação conflituosa, sem provocar ou sentir desgastes pessoais.

A mediação deu a ela argumentos, instrumentalizou ela para ela questionar isso de uma forma mais apropriada. [...] de ela conseguir mobilizar a turma pra fazer uma ação, de chamar o professor e falar, [...] eu acho que isso demonstra uma mudança de maturidade dos meninos muito grande.

O forte da mediação social desenvolvida no âmbito escolar é o processo. Uma das características do processo é provocar a reflexão. O resultado vem aos poucos, com a realização das ações e dos ensinamentos desenvolvidos durante o projeto.

Às vezes pode demorar um pouco mais pra você perceber que aquela pessoa mudou a sua postura. Às vezes você percebe na hora. No outro dia depois da mediação você já percebe. Mas muda sim a relação das pessoas. Mas cada um com seu tempo. (E6)

É uma estratégia que contribui para ampliar a visão de mundo dos participantes e que contagia os que interagem com eles. Desenvolve a autoconfiança, a segurança, o autoconceito, porque são eles que suscitam as alternativas de acordo. Não um acordo formal, mas um acordo de reestruturação de laços de convivência.

[...] perspectiva de que eles podem, de que eles são capazes, de que eles podem ser atores e protagonizarem mudanças importantes tanto na vida deles como no lugar onde eles estiverem. Independente de ser a escola ou a casa deles, mas no ambiente de trabalho, onde eles forem. (E4)

Depois do curso da mediação ela foi entendendo que não era necessário (usar da violência); tinha outras formas de resolver aquele conflito sem partir para a violência. (E5)

Desenvolve, ainda, a capacidade de aceitação do próximo, com valores, experiências e perspectivas diferentes e leva as pessoas a entender seus próprios atos.

Ajudou-me a conhecer mais a mim mesmo [...] eu comecei a compreender mais as coisas, aprendi a ouvir as pessoas, consegui compreender mais, aceitar. [...] eles tinham muitos conflitos: “não vou pegar na sua mão porque você é preto, não gosto de você porque você é gordo...”Nós mediamos e ao final eles estavam recitando poemas, em paz, fizeram vídeos, tiraram fotos e foram até à UnB para passarem a sua experiência, tudo isso como resultado de muita conversa e da nossa mediação. (E5)

Essa estratégia consiste em promover o diálogo crítico entre as partes em conflito, com vistas à transformação ao mesmo tempo do sujeito e da situação de conflito. O diálogo nesse contexto exige alguns elementos que tanto autores renomados como os entrevistados concordam. A escuta ativa constitui um desses elementos. Bauman (2004) lembra que não basta pertencer à conversa. É importante ser inerente ao que se conversa.

É uma estratégia que também desenvolve a capacidade de contextualizar as palavras e as expressões, o que facilita a compreensão dos fatos e evita conflitos. Desenvolve a capacidade de perceber que para cada ação existe mais de uma opção. E a liberdade de escolha é de quem está vivenciando a situação. No relato abaixo, percebe-se que a estratégia implantada na instituição investigada obteve resultados positivos para além dos muros da escola.

Mudou, sim. A mediação me ensinou uma maneira diferente de lidar com todos meus conflitos. Com meus conflitos de dentro de casa, com meus conflitos comigo mesma e com a escola. Mesmo naqueles momentos mais explosivos, mais tensos, a gente consegue parar e pensar no que tá fazendo [...] para você perceber que aquela não é a melhor opção, que você consegue lidar com aquilo de outra maneira. [...] uma experiência muito boa pra mim também, porque a gente vê o lado de cada um, o pensamento, o quê que cada um pensa. (E6)

A participação no projeto influencia muito nas relações sociais, aproximando as pessoas e reatando laços. Sabedoria – sophia, é o que o processo mediático proporciona aos participantes. Também incentiva e proporciona pensar em um projeto de vida. Segundo os entrevistados que participaram do curso de mediação de conflitos, após a implantação do projeto, a escola se transformou. Os alunos adquiriram mais sabedoria, mais calma e segurança para conversar e entender a conversa. O curso também serviu de instrumento para aproximar os participantes. O processo mediático proporciona aos participantes a sabedoria e provoca o discernimento.

Aí acabou que todo mundo até virou amigo. (E7) Quando a gente não está com conflito vive melhor. Ajuda muito na escola. Quando está com problema fica ligado no problema e se esquece dos estudos. A mediação muda a escola porque dá sabedoria pra pessoa. (E8) A mediação veio só acrescentar em todos os projetos da minha vida. Foi muito bom, um sucesso, que se expandiu para outras escolas. (E5) [...] fiquei mais calmo com as pessoas. O curso pra mim foi pensar mais, pensar na vida melhor. Incentivou a gente assim, tipo querer estudar, a querer arranjar um emprego bom. A não querer se perder no mundo. (E9)

Fiz o curso no meio do ano passado e deste dia pra cá nunca mais teve uma briga. Já tem um tempão que não tem briga aqui. A escola é calma. Amenizou muito. Tipo assim, as pessoas estão muito mais calmas, elas pensam mais. (E9)

A administração dos conflitos com sabedoria é componente educativo e desenvolve no ser humano o espírito de sociabilidade. A mediação como estratégia de prevenção, controle ou resolução de conflitos do ambiente escolar é viável, uma vez que contribui para a reflexão, levando o sujeito a pensar antes de agir.

Olha, a escola antes da implantação da mediação era uma escola que ninguém se conhecia, que todo mundo olhava pro outro e pensava: “Ah, essa pessoa deve ser assim assado, não sei o quê.” Tinha muitos conflitos que não tinham sidos revelados e que geravam muitas brigas. Hoje eu vejo a escola como uma máquina de conflitos, que vira e mexe surgem mais e mais conflitos, mas que os alunos aprenderam a questionar. Os alunos são mais críticos, eles participam mais, eles aprenderam a não apenas receber aquilo que os adultos passam pra eles, mas eles aprenderam a questionar, a criticar, a serem pessoas mais ativas na sociedade. Eles conseguem ver a situação em que estão e o que podem alcançar. Eles vão se movimentando mais, eles dizem “é meu direito”; eles aprendem o que é direito deles: “Não, isto é meu direito. Eu tenho direito a isso, então eu tenho que lutar pra isso.” Existe uma grande relação entre direitos humanos e a violência estrutural, por exemplo, você tem direito à saúde, mas os hospitais públicos estão numa situação precária. (E11)

De maneira geral, os entrevistados veem a estratégia de mediação de conflitos como uma forma alternativa de transformar as situações de conflitos e de provocar mudanças nos indivíduos.

Como demonstra o relato do entrevistado abaixo, o próprio corpo docente passou a dar crédito ao projeto, depois que começou a perceber os resultados.

Os meninos que estão fazendo o curso, que estão na sala, eu vejo que eles já estão modificando um pouco as atitudes. (E13)

No início alguns professores aqui, até a própria coordenação, não acreditavam muito no resultado desse curso (projeto). Mas a partir do momento em que começaram a ver o resultado aí eles passaram a acreditar mais e a ter mais confiança. Então eu acho que ajudou muito sim.(E14) Nessa perspectiva, a estratégia desenvolvida na escola investigada tem como função, além de prevenir e administrar conflitos, o ato de formar cidadãos participativos, cooperativos, conscientes do seu papel na escola e na sua comunidade. Formar cidadãos capazes de praticar os atos, questionar, dialogar, reclamar, oferecer, solicitar e intervir. No curso de formação de mediadores são trabalhados temas como ética, cidadania, conversação. Também se procura desenvolver assuntos relacionados aos conflitos intra e interpessoais, para o

desenvolvimento da percepção de que para se viver em comunidade são necessários laços de cordialidade e de amizade.

Os efeitos da mediação não se reduzem às relações no interior da escola. Eles irradiam transformação para a sua comunidade local. Por isso, Candau (1995) ressalta a importância da escola se colocar como espaço de formação de construtores ativos da sociedade em que vivem, e de usufruírem dos seus atributos de cidadãos. A mediação tende a desenvolver, mesmo que de forma lenta, novos comportamentos. Para Blin e Deulofeu (2005, p. 143), “um comportamento pode ser aprendido ou modificado simplesmente por meio da observação de um modelo e das consequências que resultam do seu comportamento.”

As crianças e os adolescentes que participaram do processo de mediação de conflitos aprenderam a lidar de outra forma com as situações adversas, porque passaram a enxergar várias opções de ação para uma situação. Aprenderam a valorizar os laços de amizade, imprimiram mais significados nas relações com os colegas, os professores, os membros da direção e outros membros da comunidade escolar. Delors (1999, p. 101) declara que o aprender a ser – um dos quatro pilares da educação – visa o desenvolvimento da pessoa como ser integral, abrangendo a realização completa do homem, em toda a sua riqueza e complexidade. “É um processo dialético que começa pelo conhecimento de si mesmo para se abrir, em seguida, à relação com o outro. [...] é ao mesmo tempo, um processo individualizado e uma construção social interativa.”

Sintetizando as respostas dos entrevistados relativas aos resultados da mediação de conflitos, pode-se notar que houve uma grande melhora no clima da escola. Os alunos que participaram do curso de formação melhoraram a autoestima, passaram a se comunicar melhor e a fazer a análise das situações que estão vivenciando. Com essas atitudes, o enfrentamento dos conflitos passou a ser mais crítico e consciente. Esses alunos demonstraram mudanças de comportamentos, alguns imediatamente e outros mais lentamente, mas todos demonstraram mudanças, tanto no ambiente escolar como fora dele, nas relações de amizades, de família e de vizinhança.

A participação na estratégia como mediador ou mediando proporcionou a aquisição de conhecimentos para reivindicar seus direitos de forma não violenta, instrumentalizando-os com novas e respeitosas maneiras de argumentar e discutir. Enfim, o projeto de mediação de conflitos desenvolvido na escola dotou os atores

participantes de conhecimentos para conseguir enxergar mais de uma opção para enfrentar um conflito.

As opiniões manifestadas nas entrevistas a respeito dos resultados da implantação do processo de mediação na escola pesquisada demonstraram a importância deste procedimento como forma de empoderamento, de emancipação, de autonomia dos atores educacionais por meio do diálogo, de informações, enfim, do conhecimento, seja ele formal ou informal. Nesse sentido, Padilha (2007 apud GADOTTI 2009, p. 49) afirma que a educação de qualidade abrange todos os espaços e sua comunidade: “a partir de um jardim [...] ou de uma praça, em qualquer lugar, [...] podemos considerar o mundo como educador e educando: o mundo é nosso livro de leitura [...] mediatizando o processo de aprendizagem.”

A mediação como estratégia de resolução ou transformação de conflitos do ambiente escolar é viável, uma vez que contribui para a reflexão, levando o sujeito a pensar antes de agir. Delors (1999) assevera que a educação é uma construção contínua do conhecimento e das aptidões da pessoa ao longo de sua vida, desenvolvendo sua capacidade de discernir e agir. De maneira geral, a estratégia de mediação de conflitos no âmbito escolar é vista como uma forma alternativa de transformar as situações de conflitos e de provocar mudanças de comportamentos nos indivíduos.

Percebe-se que a estratégia tende a contribuir para a socialização – que, no

entender de Caliman (2008, p. 160), é o processo por meio do qual o sujeito interioriza normas, valores e conhecimentos. “É pela socialização que as normas são interiorizadas, os comportamentos são apreendidos e as atitudes de conformidade consolidadas.” Portanto, infere-se da análise dos dados colhidos que a mediação é uma contribuição valiosa para a área escolar na busca da construção da cidadania e, consequentemente, para prevenção da violência.