2. TEORETISK RAMMEVERK
2.2 F ENGSELSSTRAFFENS GRUNNPRINSIPPER
No decorrer das entrevistas, pôde-se apreender que conflitos ao se tornarem problemas extrapolam os assuntos relativos à sala de aula. Freire (1998) reforça que ensinar não se esgota no conteúdo, mas sim abrange a promoção de condições para se tornar sujeito na construção da própria aprendizagem – criticamente.
O cotidiano escolar é repleto de conflitos que às vezes resultam em violência, outras vezes são resultados de violências. Violências múltiplas: simbólica, estrutural, física. Os atores escolares são sujeitos ativos e passivos da violência que ocorre no interior da escola. Outras vezes os conflitos que produzem a violência escondem um “conflito-de-fundo”, denominação usada para retratar uma situação conflituosa que foi provocada por uma situação antecedente. Jares (1991, p. 108) define conflito como “un tipo de situación en la que las personas o grupos sociales buscan o perciben metas opuestas, afirman valores antagónicos o tienen intereses divergentes.”3Na maioria das vezes ocorrem conflitos devido às dificuldades relacionais dos alunos com eles próprios e com os colegas. Dificuldades na forma de expressão, na recepção da mensagem. A violência estrutural pode ser desencadeadora de conflitos.
Caliman (2008), nos dois primeiros capítulos do seu livro, analisa os estudos de Marx e Maslow sobre as necessidades humanas e a relação da frustração das
3 Tradução: “um tipo de situação na qual as pessoas ou grupos sociais buscam ou percebem metas
necessidades fundamentais. No primeiro capítulo, o autor cita a proposta de socialismo apresentada por Marx, em que as necessidades do homem se dividem em naturais – dirigidas ao sustento e à sobrevivência; essenciais – indispensáveis para que o membro de determinada sociedade se sinta em situação normal de vida; sociais – necessidades socialmente produzidas e que podem ser satisfeitas pelo meio social do indivíduo; e as necessidades radicais – que são despertadas pela consciência de classe, pelo dever de superar as consequências produzidas pelo capitalismo, uma vez que leva o homem a privar-se de sua riqueza humana em prol da riqueza material.
Nesse capítulo, ainda é apresentada pelo autor a teoria em que Maslow idealizou a pirâmide da hierarquia das necessidades humanas, na qual sistematiza cinco delas: fisiológicas, de segurança, sociais, de estima e de autorrealização. O autor faz uma pequena narrativa sobre a reflexão da qualidade de vida, enfatizando que as necessidades humanas são vinculadas com a temática enquanto função das relações entre necessidades-recursos; abaixo de determinado limite da satisfação das necessidades fundamentais, a qualidade de vida fica comprometida.
A forma de lidar com o conflito é que orienta suas consequências, conduzindo a ações positivas e preventivas. Blin e Deulofeu (2005) concebem a estratégia de mediação como uma alternativa para solucionar problemas no âmbito escolar, em especial, como forma de abertura para o diálogo a fim de romper a lógica da concorrência e de restabelecer uma dinâmica de negociação. Sem dúvida, o conflito está presente nas relações humanas. Segundo Blin e Deulofeu (2005), o conflito durante longo tempo foi considerado um problema, no entanto, ele pode produzir bons resultados e promover mudanças, pois é inerente à construção do sujeito quando este desenvolve a consciência de si mesmo, a sua identidade e promove seu reconhecimento social.
Kant (apud GAARDER, 2005) sinaliza que o homem tem a visão do mundo de acordo com o conhecimento que dele adquire. Se as pessoas sabem como agir, imediatamente visualizam alternativas de ação. Alternativas de ação são requisitos para conviver em comunidade. Para Aristóteles, a denominação “homem” só subsiste se ele vive em comunidade, pois são as relações sociais que o realizam. Delors (1999) ressalta que mais do que preparar as crianças para uma dada sociedade, é importante fornecer-lhes forças e referências intelectuais que os
possibilitem compreender o mundo que os rodeia e comportar-se nele como atores responsáveis e justos.
Ao viver e conviver no mundo coletivo, o ser humano depara-se com conflitos. Conflitos internos e com os outros. Também Chrispino e Chrispino (2002) entendem que o conflito é inerente ao ser humano e que está sempre presente nas relações sociais. Todos os entrevistados concebem o conflito como algo inerente às relações humanas, que está presente no dia-a-dia da escola. Jares (2011) corrobora esse entendimento quando compreende que o conflito “es natural, necesario y potencialmente positivo para las personas e grupos sociales [...] es consubstancial e inevitable a la existência humana.”4
Alguns entrevistados mantêm a visão do conflito como algo negativo, porém alertam que a forma de administrá-lo é que determina sua constituição como fato negativo ou positivo:
Dependendo do que você faz com o conflito, ele pode te atrapalhar ou beneficiar. Isso vai depender do que você faz com o conflito, porque ele sempre vai existir. (E7)
Vai haver conflito a vida inteira. (E14)
Percebe-se que mesmo quem compreende o conflito como fenômeno negativo, entende que se bem administrado, pode produzir efeitos positivos nas partes envolvidas. Jares (2011) lembra os ensinamentos de Sartre de que onde há vida, existe conflito. Esse autor salienta que o conflito tende a ser concebido como um fato real, natural e inevitável à vida humana, a ser visto como um valor, como base para articulação de práticas sociais e educativas libertadoras. Coser (1956 apud JARES, 2011, p. 35) entende que “el conflito intragrupal e intergrupal es um fator de renovación y câmbio social” e “[...] puede evitar el empobrecimento de la creatividad.”5 Conflitos internos e externos no convívio com os outros seres humanos.Lederach (1983 apud JARES, 2011) diz que o conflito é essencialmente um processo natural a toda sociedade e um fenômeno necessário para a vida humana, que pode se constituir como um fator positivo ou destrutivo de transformação das relações.
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Tradução: “é natural, necessário e potencialmente positivo para as pessoas e grupos sociais [...] é consubstancial e inevitável para a existência humana.” (Trad. desta autora).
5 Tradução: “conflito intragrupal e intergrupal é um fator de renovação e transformação social [...]
A fala de um entrevistado corrobora a ideia de Chrispino e Chrispino (2002), de que o conflito é inerente ao ser humano e que está sempre presente nas relações sociais:
Diariamente a gente tem conflitos, seja de aluno com aluno, seja porque a menina acha que a outra menina está querendo tomar o namorado dela, seja porque o menino acha que o outro menino não está respeitando a namorada dele. Então os conflitos, eles são muitas vezes bobos para nós adultos, mas para os adolescentes eles ganham uma proporção enorme. (E2)
O cotidiano escolar é repleto de conflitos, mas ao se tornarem problemas, extrapolam a sala de aula:
A violência aqui era mais verbal. Aquela coisa assim de ameaça, e a gente foi percebendo que se deixasse poderia chegar numa situação pior. Teve uma vez aqui uma situação bem delicada: um aluno esbarrou no outro. No corredor do primeiro piso. E já foi motivo de uma discussão. Aí a gente conseguiu intervir a tempo pra não virar uma briga. (E14)
Para Warat (2004), as estratégias de mediação de conflitos configuram-se como um meio para o exercício da cidadania, pois conduzem ao reconhecimento e à aceitação das diferenças, assim como propiciam a iniciativa para tomar decisões. E como instrumento que promove a cidadania, essas estratégias colaboram na formação de atitudes e iniciativas para fomentar políticas com vistas a melhorar a qualidade de vida. Além de os conflitos serem potencialmente geradores de violência, a violência estrutural tende a gerar conflito que produz violência física. Os atores escolares são sujeitos ativos e passivos da violência, que, por vezes, é resultado dos atos e fatos desenvolvidos no interior da escola.
A maioria dos problemas que a gente tem com o aluno em sala de aula é porque ele já trouxe o problema de casa. E aí ele chega à sala de aula transbordando esse problema e a gente vira apenas a gota d’água no processo. (E3)
Ou de fatos anteriores que provocam as situações de conflitos nas relações entre os atores educacionais.
Existe uma série de conflitos e a gente percebe que todos... a maioria por falta de diálogo mesmo. As situações conflituosas em alguns casos geram a violência. Inclusive a violência física. A gente entende que nem sempre as questões interpessoais é que estão relacionadas ao ato violento. Tem questões sociais, tem questões estruturais, tem a questão da violência simbólica que tá muito presente na escola. (E4)
Percebe-se que os motivos e os momentos de conflitos em classe são inúmeros e variados. É necessário controlá-los a fim de evitar ataques pessoais que desencadearão em alterações emocionais, resultando em algum tipo de violência. O entrevistado cita a violência simbólica, enfatizando que ela sempre está presente na escola. Na maioria das vezes ocorrem conflitos devido às dificuldades relacionais dos alunos com eles próprios e com os colegas. Dificuldades na forma de expressão e na recepção da mensagem.
Tem conflito entre todos os segmentos da escola, em todas as áreas. (E5) Blin e Deulofeu (2005, p. 113) alertam para a importância das relações entre as pessoas, e para a necessidade de se instituírem momentos dedicados à demonstração da afetividade, confiança e respeito, abrindo espaço à cooperação e não à concorrência. “Em caso de conflito entre alunos, propor o diálogo e uma estratégia de negociação para chegar a soluções aceitáveis por ambas as partes (fora do horário de aula).” É uma alternativa viável.
Não é bom ter conflito. Mas se souber lidar com ele, pode nos fazer crescer, porque a gente pode tá andando aqui, aí você dá uma tropeçada, aí você pega levanta e isso ajuda você não tropeçar de novo. Falaram que o diálogo é a principal forma de resolver os conflitos. Que é sentar, conversar. (E8) A forma de lidar com o conflito é que orienta suas consequências, conduzindo a ações positivas e preventivas. Blin e Deulofeu (2005) citam a mediação como uma alternativa para solucionar problemas no âmbito escolar, em especial, como forma de abertura para o diálogo a fim de romper a lógica da concorrência e de restabelecer uma dinâmica de negociação.
A escola é um espaço onde se desenvolvem diversas relações, onde os atores escolares agem com interesses, muitas vezes, contraditórios.E isso pode desencadear em atitudes autoritárias.Fullan (2000) alerta que o autoritarismo pode estar oculto em atitudes impessoais. E explica que muitas vezes a escola deveria desenvolver a autonomia, mas cria rotinas e ordens imperativas; deveria considerar as diferenças, mas mantém a impessoalidade; deveria cultivar os prinicípios de cooperação, solidariedade e trabalho em equipe, mas estimula a competição individual e neutraliza grupos; deveria ensinar a descobrir como aprender, mas não aceita o erro como elemento inerente à construção do saber.
As relações entre vivência autoritária e vivência democrática na escola podem estar visíveis ou ocultas. Entre esses polos, existem atitudes e comportamentos que
dependem dos valores e concepções de educação e de características da equipe de trabalho, que influenciam as relações escolares, dando-lhes traços mais ou menos autoritários ou democráticos. Tais vivências fazem parte do cotidiano escolar.
É indubitável a presença do conflito nas relações humanas. Ao analisar o conceito de conflito e suas implicações no ambiente escolar, na percepção de educandos e educadores, pode-se perceber que por meio do desenvolvimento da estratégia de mediação do conflito é possível produzir a transformação tanto das partes envolvidas como da pessoa que está intervindo na situação.
[...] a mediação procura transformar o conflito numa coisa positiva, é mais ou menos uma prática social de transformação de um conflito, porque ali a gente transforma o conflito na base da conversa. (E6)
Em síntese, percebe-se que o conflito, na visão dos entrevistados, pode ser concebido como um fenômeno construtivo ou destrutivo, dependendo da forma como ele é enfrentado. É um fenômeno que sempre existirá nas relações humanas, e na escola está presente seja entre alunos e alunos ou entre esses e outros segmentos.
O “conflito de fundo” surgiu na fala dos entrevistados como um fato antecedente ao conflito escolar, como uma situação conflituosa que é trazida de casa ou da rua pelo aluno ou por outro indivíduo e que o incomoda, interferindo nas suas relações dentro ou fora da escola. Ficou claro na fala dos entrevistados que o conflito, quando não é administrado, pode ser fato gerador de violência, seja verbal ou física. E que o ato violento pode ser oriundo de questões estruturais.
A fala dos atores educacionais que participaram do projeto de mediação de conflitos revela que estão capacitados para identificar e intervir em uma situação conflituosa para prevenir atos violentos, sempre com o uso do diálogo. Também conseguem perceber que o conflito pode ter um ponto ou lado positivo. Portanto, o conflito é um fenômeno inerente às relações humanas e que a forma de administrá- lo pode resultar em valiosa contribuição para o crescimento pessoal em nível relacional.