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Typiske  brukere  av  samkjøring

DEL  2   –  PROSSESSRAPPORT

2   Litteratur

2.4   Typiske  brukere  av  samkjøring

“Olha, minha querida, que belo meio para educar nosso povo”. Essa foi a frase ouvida por Vera Regina Roquette-Pinto (2002-2003, p. 15), neta de Edgar Roquette-Pinto, ao lado da cama do avô adoentado. Um grande aparelho de televisão no quarto fomentava a vontade dele de ver aquele veículo como ferramenta de potencialização da Educação. Experimentos que ele mesmo se encarregou de participar em 1933, quando utilizou os laboratórios da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro para construir um protótipo que usava o disco de kipkov25 como

estrutura mecânica para transmissão. O receptor foi colocado na casa de um amigo dele chamado Flávio Andrade, em decorrência disso, “um artigo na imprensa da época ressaltou o fato de que a primeira imagem transmitida não foi um anúncio comercial ou um retrato do

25Aparelho inventado em 1884 por Paul Nipkow para enviar uma imagem em movimento por meio de um

condutor elétrico. Utilizava a condutividade elétrica do selênio, decompondo a imagem em pontos escuros e luminosos que poderiam ser convertidos em sinais de corrente elétrica.

presidente da República, foram as letras ‘ABI’, de Associação Brasileira de Imprensa” (RIBAS, 1990, p. 179-180).

Mesmo o ensaio de Roquette-Pinto sendo bem sucedido, esta não foi considerada, oficialmente, a primeira transmissão da televisão brasileira, deferência atribuída ao experimento realizado em 4 de junho de 1939, na Feira de Amostras, também no Rio de Janeiro. Os aparelhos trazidos da Alemanha pela empresa Telefunken produziram o envio das imagens e sons ao vivo para dez aparelhos espalhados pelo recinto, no entanto, a tecnologia só possibilitava que isso fosse feito em uma distância reduzida. No pequeno estúdio instalado estavam os primeiros protagonistas de uma transmissão pública da televisão no Brasil: Marília Baptista, Francisco Alves, Herivelto Martins, Dalva de Oliveira, entre outros. O presidente da república àquela época, Getúlio Vargas, “teria feito também um teste, tendo sua sorridente imagem transmitida para os receptores” (MATTOS, 2002, p. 169-170).

A repercussão do novo veículo foi imediata e positiva, apesar dos questionamentos à respeito do aporte da Alemanha e dos interesses que poderiam estar envolvidos nessa negociação. “Esta noite os cariocas poderão conhecer o milagre do século”, dizia a reportagem, com direito à chamada na capa do jornal O Globo daquele 10 de junho de 1939. O veículo, que era patrocinador do evento, vislumbrava que se iniciava ali uma “nova phase de desenvolvimento cultural” (MATTOS, 2002, p. 170) para o Brasil, com o apoio do Departamento Nacional de Propaganda e Difusão Cultural (DNP). O grande êxito da transmissão também foi anunciado pelo jornal Diário de Notícias26 naquele 4 de junho, já que,

no dia anterior, teria ocorrido uma demonstração para a imprensa.

Entre as observações descritas pelo jornal estão a de que o evento fora patrocinado pelo Ministério dos Correios da Alemanha, que enviou uma missão técnica do III Reich.27 O

apoio do país, então governado por Adolf Hitler, não foi visto como uma simples demonstração de capacidade técnica ou uma cortesia entre as nações. A justificativa seria a vontade de fortalecer as relações com os países que “o Terceiro Reich desejava ampliar sua influência comercial e ideológica” (BARBOSA, 2013, p. 259). A Alemanha trazia consigo uma razoável tradição nas transmissões audiovisuais, tanto na produção de equipamentos quanto nas estratégias de uso dos mesmo. Em 1929, implantaram sua primeira emissora e, em 1935, passou a oferecer o serviço de TV pública, recurso importante para a transmissão dos Jogos Olímpicos de Berlim no ano seguinte, quando já possuía a capacidade de atingir a 160

26 Diário de Notícias de 4 de junho de 1939. Disponível em: http://hemerotecadigital.bn.br/. (Acesso em: 29/12/

2013.)

mil espectadores em seis cidades, considerado “o primeiro grande evento televisivo” no mundo.

A implantação da televisão no Brasil revelava interesses explicitados nos conflitos internacionais. Os Estados Unidos também representaram um apoio na disseminação da instalação dessa nova tecnologia em outros países quando abriu, dois meses antes das transmissões no Rio de Janeiro, a Feira Mundial de Nova York, na qual lançou a National Broadcasting Company (NBC), considerada a primeira emissora comercial do mundo. A feira, que contava com um estúdio de televisão, tinha um pavilhão dedicado ao Brasil, onde eram disponibilizados roteiros turísticos organizados por agências de viagens nacionais. O jogo de interesses demonstrado por intermédio das ações de apoio era explícito, tendo, inclusive, o país americano financiado a instalação da primeira usina siderúrgica brasileira na cidade de Volta Redonda. A busca de ambos os lados era no alinhamento de posições políticas que seriam demandadas no conflito internacional que se efetivaria poucos meses depois, quando a Alemanha invadiu a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial com a adesão da Itália e Japão e, do lado contrário, a coalizão de Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética.

O conflito mundial colocou por terra os planos de implantação imediata daquele novo veículo de comunicação cobiçado pela população desde o primeiro momento de transmissão. Os jornais destacavam frequentemente a presença dos ídolos do rádio como principal atração no lançamento da televisão no Rio de Janeiro. “Longas filas se formavam diante do pavilhão e, assombrados e curiosos, os visitantes afluíram, travando assim contato com a caixa mágica de onde saíam as imagens” (BARBOSA , 2013, p. 261). No entanto, tamanho furor com o aparelho de transmissão audiovisual não foi concretizado na expansão imediata desse recurso. O início da Segunda Guerra Mundial interferiu na implantação da televisão em diversos países, entre eles, a própria Alemanha e a Inglaterra que suspenderam suas transmissões nesse período. Os Estados Unidos as mativeram, mas de forma irregular, e a França abortou seus planos de implantação de uma emissora de TV estatal. Além das transmissões, a fabricação de aparelhos receptores também ficou comprometida durante o conflito, pois “as fábricas de televisores foram utilizadas na produção de material bélico” (MATTOS, 2002, p. 166). Nesse período, o rádio permaneceu como maior meio de disseminação de informações e “essencial para o Brasil se aproximar dos países que já haviam experimentado a televisão” (BARBOSA, 2013, p. 263).

Terminado o conflito, a retomada da expansão dessa tecnologia de comunação voltou a ser foco tanto. Mesmo não ocorrendo como prevista, a implantação da televisão brasileira

mantém-se no imaginário como uma ferramente potente, capaz de levar informação e entretenimento a longa distância neste país de grandes dimensões. Apesar da interferência negativa, a guerra também possíbilitou o desenvolvimento das tecnologias de broadcasting, com base nas “pesquisas relacionadas às operações militares e à necessária reconversão das indústrias bélicas em empresas comerciais” (BARBOSA, 2013, p. 264).

Os onze anos que se passaram entre a primeira transmissão oficial no Brasil e a implantação da primeira emissora no país foram cercados de muita frustração e expectativa. Anúncios, como os verificados na revista Seleções do Readers’s Digest, em janeiro de 1944, apresentavam as comodidades que o meio traria quando estivesse ao alcance de quaisquer pessoas, na sala de sua própria casa, sendo que “a ideia de comodidade se sobressai em muitas das reproduções e nos textos que informam as possibilidades tecnológicas” (BARBOSA, 2013, p. 264). Na revista Fon Fon circulavam chamadas anunciando que “a Rádio Ipanema, treinando para a televisão, está apresentando aos seus ouvintes o originalíssimo Concurso de Sereias” (FILHO, 1941, p. 25). No mês seguinte, tendo ocorrido o referido concurso, Sebastião Fonseca descreveu, em forma de soneto, as características de Leonora Amar ao lamentar a ausência da televisão para mostrar a todos tal beleza:

Ela foi, no concurso da Ipanema, A sensação maior! de mão mais cheia.! Votos á bessa! e a tropical sereia Quase conquista a votação suprema!... Quando ela passa, e os passos, sobre a areia, Vão gravando da marcha o lindo poema Cada marcha de pé vale uma algema Que o coração dos homens encadeia!... Mas si, á noite, no rádio, a gente escuta, Longe da praia já, de pele enxuta, Sem ter mais algemado o coração. Que profundo suspiro de cansaço! - Ai, como é diferente Amar no espaço!...

Por que tardas assim televisão?... (FONSECA, 1941, p. 22).

Definitivamente e em sinal aberto, a televisão brasileira teve início apenas no ano de 1950. A inauguração da TV Tupi, no Rio de Janeiro, ocorreu no dia 20 de janeiro, “mas inúmeras dificuldades técnicas contribuíram para um atraso no início das transmissões, o que só ocorreu no ano seguinte” (MATTOS, 2002, p. 171). No mês de setembro daquele ano ocorreram dois fatos marcantes: no dia 10, o presidente Getúlio Vargas falou no vídeo sobre seu retorno à vída política, em uma transmissão experimental. No dia 18, era inaugurada a TV

Tupi Difusora de São Paulo, considerada, oficialmente, “a primeira emissora do Brasil e também a primeira da América do Sul”. Episódios esses que reforçam os interesses políticos e econômicos envolvidos com a implantação desse novo meio de difusão.

Desde o início de sua atividade no Brasil, a televisão ganhou uma chancela de ser o equipamento que poderia reunir tudo o que ocorre no mundo dentro da comodidade do lar de cada um. William (apud BARBOSA, 2013, p. 269) nomeou esse movimento de preservação de seu próprio espaço, sem manter o contato com o exterior, como “privatização móvel”. O olhar volta-se para dentro das casas que passam a ter uma janela aberta para a realidade. Até a disposição dos móveis passa a ser pensada de uma forma que os aparelhos receptos de imagens tornam-se a atração central. Na revista Fon Fon de 24 de maio de 1952, Yeda Fontes discorreu sobre o que seria uma “decoração moderna”. Ao discutir sobre o melhor aproveitamento dos livings, indicou que “na parede maior da sala está o sofá com o seu grupo de interesse para palestras, tendo o cuidado de colocar-se na parede em frente ao conjunto, a televisão ou a vitrola” (FONTES, 1952, p. 16). Até mesmo o nome dado ao primeiro telejornal brasileiro (Imagens do Dia), que estreou no dia 19 de setembro de 1950, caracterizava bem essa proposta de ter a televisão como espaço de conexão com tudo o que acontece do lado de fora da casa, com o mundo real.

Apesar de experiências exitosas, o início das operações televisivas não foi tranquilo, o que reforçou a necessidade da busca de apoio na iniciativa privada. O alto custo dos equipamentos e outros recursos de produção, além da pouca disponibilidade e preço alto dos receptores, apontavam fortemente para a necessidade de patrocínios para arcar com esses custos. A TV Tupi Difusora de São Paulo, sob a coordenação de Assis Chateaubriand, contou com o apoio de “quatro dos maiores anunciantes dos anos 1950 que subsidiavam a iniciativa” (BARBOSA, 2013, p. 274). A Companhia Antarctica Paulista, a Sul América Seguros de Vida, o Moinho Santista e a Organização Francisco Pignatari começaram seus investimentos no novo empreendimento quatro anos antes de sua efetivação em troca de um ano de espaço publicitário, levantando recursos suficientes para a implantação de duas emissoras. Vista como a “mais subversiva máquina de influir na opinião pública” a televisão era considerada, por Chateaubriand (apud BARBOSA, 2013, p. 275), “uma máquina que dá asas à fantasia mais caprichosa e poderá juntar os grupos humanos mais afastados”. E era por acreditar nesse potencial que ele garantiu o início das transmissões, mesmo tendo que contrabandear 200 receptores que foram espalhados em lojas e bares de São Paulo, pois o país não contava ainda com esses aparelhos em nenhuma residência. Isso mudou rápido. No ano seguinte já era atingida a marca de 11 mil televisores. As emissoras também cresceram de forma exponencial

nos anos seguintes, sendo inaugurados, entre 1955 e 1961, mais 21 canais em diversas cidades.

Aquele era um momento de mudanças estruturais de grande densidade na economia brasileira. Depois de encerrado o ciclo agrícola, com mudanças significativas na produção do café para consumo interno e exportação, na década de 1930, o Brasil experimentou alto investimentos para o fortalecimento de sua industrialização. Esse aporte ocorreu principalmente no período pós-guerra, quando o governo de Getúlio Vargas buscava “substituir as importações de bens de consumo não-duráveis pelos produzidos in loco” (MATTOS, 2002, p. 25). Os investimentos na estrutura de produção industrial provocaram uma grande migração da população das áreas rurais para as urbanas, fato que favoreceu sobremaneira o crescimento dos meios de comunicação, em especial as emissoras de rádio, que geralmente estavam instaladas nos grandes centros.

A consequente transformação do produtor rural em operário gerou novas demandas e, por consequência, políticas específicas direcionadas ao atendimento das necessidades do proletariado que passou a integrar uma classe média urbana formada por esses trabalhadores, por pessoas vindas de uma aristocracia decadente e por famílias de migrantes e imigrantes. As cidades de maior porte são destaque nesse processo, já que

o processo de urbanização ocorreu simultaneamente com o desenvolvimento econômico e social. Em 1950, 20% da população era urbana, enquanto 80% vivia na área rural. Em 1975, 60% vivia nas cidades, enquanto 40% permanecia nas áreas rurais. Em 2000, cerca de 80% da população brasileira já vivia nas áreas urbanas (MATTOS, 2002, p. 26).

Quando foi pensado o uso das produções audiovisuais para fins educativos, a referência baseou-se na experiência dos Estados Unidos. Mais de uma década antes da chegada definitiva da televisão no Brasil, os jornais e revistas locais já antecipavam o potencial desse meio, mesmo que, em alguns deles, a ressalva dos altos custos de sua manutenção estivesse presente. O jornal Correio da Manhã é um dos canais de disseminação da proposta de ligação entre as transmissões televisivas e o ensino. No dia 12 de setembro de 195028, na coluna entitulada Televisão e Educação, o periódico ressaltava que a nação

americana é dividida entre duas opiniões sobre o assunto: uma que visualiza grandes contribuições para o ensino e outra que entende que os altos custos inviabilizariam sua disseminação. Por perceber a possibilidade do estudante ter a sensação de vivência de

28 Jornal Correio da Manhã, de 12 de setembro de 1950. Disponível em: http://hemerotecadigital.bn.br/. (Acesso

situações diversas, defendiam que os alunos poderiam “entender mais claramente o desenvolvimento de certos acontecimentos complicados”, já que a abordagem das reportagens televisivas seria mais completa que as da imprensa e do rádio. Os que calculavam o investimento alto para que fosse produtivo na educação do povo defendiam que “as películas cinematográficas e as fotografias podem ser utilizadas com maior vantagem que a TV porque podem ser repetidas tantas vezes quantas sejam necessárias”. Isso daria maior controle ao professor, possibilitando a melhor adaptação às suas práticas. A mesma coluna do Correio da Manhã, no dia 25 de novembro29, diminuía a força dos críticos e pontuava que “alguns

mestres opinam que o vocabulário dos jovens está sendo ampliado pelos programas de TV”. A divergência apresentada agora seria em meio aos profisisonais da Psiquiatria que se dividiam entre o grupo que defendia que o uso do meio de forma controlada não poderia trazer malefícios e o grupo que via a televisão como “uma ameaça porque provoca distúrbios emocionais nas crianças”.

As propostas de integração do meio audiovisual com a Educação são defendidas como extensão dos limites de atingimento da estrutura governamental. “Vou fazer rádio e cinema e, se possível, televisão escolar, coisa que não existe ainda em parte alguma do Brasil” (ZARUR, 1951, p. 48), afirmou o professor Fernando Tude de Souza ao tomar posse como chefe do Serviço de Divulgação do Departamento de Educação de Adultos, pertencente à Secretaria de Educação e Cultura. A coluna veiculada na Revista Fon Fon do mês de julho mostrava a insatisfação do pesquisador com a falta de estabelecimentos escolares e a dificuldade de atingimento nas áreas remotas, como os subúrbios que poderiam ser beneficiados com o uso adequado dos meios de comunicação de massa. Ele toma como parâmetro a cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, ao afirmar que, “onde as crianças ainda se acham sem escolas, o educador sabe como o rádio, o cinema e a imprensa podem ser explorados como instrumentos preciosos, para complementar a falta de escola ou a deficiência da escola” (ZARUR, 1951, p. 48).

Mesmo vista como recurso notável nas ações pedagógicas, essas emissoras não encontraram apoio irrestrito. O plano de implantação da que seria a primeira emissora de televisão educativa do país foi apresentando em 1952 por Roquette-Pinto e José de Oliveira Reis mas, “apesar da outorga da concessão e da aquisição dos equipamentos no mesmo ano, a emissora jamais chegou a funcionar” (PFROMM NETO, 1976, p. 26). A tentativa fracassada foi noticiada pela revista Publicidade e Negócios como O Escândalo da TV Educativa no

29 Jornal Correio da Manhã, de 25 de novembro de 1950. Disponível em: http://hemerotecadigital.bn.br/. (Acesso

Brasil onde as questões políticas foram assinaladas como as responsáveis pelo malogro (MILANEZ, 2007). Maciel (2009) apresenta parte do projeto mal fadado, descrevendo a realização dos estudos, o envio aos fabricantes, o levantamento de preços e a abertura das propostas feita na presença do prefeito João Carlos Vidal na qual sagrou-se campeã a empresa Allan B. Dumont Laboratories, de Nova Jersey, Estados Unidos.

As negociações prosseguiram até que o prefeito Vital foi levado a se exonerar, sendo substituído pelo Coronel Dulcídio Cardoso, o qual não deu continuidade ao projeto de implantação da emissora, sendo o então responsável pelo projeto afastado de suas funções. A prefeitura chegou a pagar 70 mil dólares para a empresa que faria a instalação dos equipamentos, ficando outros 166 mil dólares a serem pagos durante e após a implantação, com a previsão de montagem em apenas 15 dias. Os aparelhos adquiridos foram levados à Nova York e armazenados no cais a espera de autorização de embarque para o Rio de Janeiro, onde a Dumont pagava 40 dólares ao dia pelo depósito. Depois de meses aguardando a retomada do projeto sem sucesso, “a firma norte-americana retirou o material do cais de Nova York e cancelou o contrato que havia feito com a PDF, perdendo assim a municipalidade os 70 mil dólares da prestação inicial” (MILANEZ, 2007, p. 24). A inépcia do governo no processo demonstra que a iniciativa era mais de interesse particular que dos gestores, enquanto uma política de Estado.

Figura 2 – Exemplar da revista PN (Publicidade e Negócios) de 1960. Na capa, foto de

A concessão da que seria a primeira emissora educativa do Brasil foi outorgada pelo Decreto nº. 30.832, publicado no Diário Oficial da União no dia 14 de maio de 195230, para a

Prefeitura do Distrito Federal e definiu que o serviço da estação de radiotelevisão deveria ser prestado “por intermédio da Rádio Emissora Roquette-Pinto”. O decreto estabelecia o prazo de 60 dias para assinatura do contrato, sob pena de nulidade imediata do mesmo e isentou o governo de quaisquer indenizações decorrentes da denegação do registro pelo Tribunal de Contas. Entre as obrigações da concessionária estavam: a exclusividade da contratação de brasileiros para as funções de operador e locutor e, nos demais cargos, a reserva de, pelo menos, dois terços dos funcionários; a interrupção imediata de sua operação diante da requisição da autoridade competende, sem direito à indenização; a prestação de informações ao Departamento dos Correios e Telégrafos, a títulos de fiscalização; a ceder o direito de uso sobre todo o acervo para a União, na garantia de eventual liquidação de débitos.

Entendendo que a posse do serviço de radiodifusão é do Governo Federal, sendo cedido apenas o direito de explorar os canais à órgãos públicos, empresas e instituições, o decreto ressaltou a possibilidade da “desapropriação por necessidade ou utilidade pública e requisições militares”. Apesar de definir que a outorga seria considerada caduca “se, em qualquer tempo, se verificar o emprego da estação para outros fins que não os determinados na concessão”, o decreto da primeira emissora educativa não apresentava, em nenhum momento, as prerrogativas de qual seria o aporte desse meio para o ensino no Brasil. A palavra “educação” ou suas derivadas não foi citada em todo o documento, o que mostra que as intenções de uso estavam mais nos interesses dos solicitantes que na ação política governamental de cessão do direito a exploração do canal.

No mesmo período, além da emissora destinada a Rádio Emissora Roquette-Pinto, outras quatro com pretensos intuitos educativos foram outorgadas e tiveram o mesmo fim inócuo. As concessões para a Superintendência das Empresas Incorporadas ao Patrimônio