DEL 2 – PROSSESSRAPPORT
8 Diskusjon
DE SI, DOS OUTROS E DE ESTADO”
Mestrando: Rondon Marques Rosa
Orientação: Prof. Dr. Cláudio Lúcio Mendes.
Nascido ao final da década de 1960 na periferia de Belo Horizonte, faço parte de uma geração que teve a televisão como companheira e janela para o que via como configuração da sociedade. O encantamento e o desenvolvimento de habilidades levaram-me a escolher o audiovisual como objeto de trabalho. A prática e a docência na área trouxeram questionamentos que não encontraram eco nas teorias que conhecia desde minha formação. A busca de entender mais sobre a relação da comunicação com o campo da educação trouxe-me a esta pesquisa de mestrado. Desde então, começo a entender que as duas áreas as quais estou ligado, uma por formação e a outra pela pequisa, têm relações íntimas e muitas semelhanças entre si. Pesquisas, inquéritos, materiais didáticos, reportagens, seminários e até dissertações como esta, que defendo hoje, buscam traduzir com suas palavras uma realidade, um fato, uma verdade.
Ancorado nos conceitos de Michel Foucault restringi-me à inquirição das técnicas e tecnologias de composição da verdade nos meios audiovisuais educativos, com foco especial na TV Escola. No entendimento de que os jogos de poder norteiam toda relação efetivada no meio social busquei a identificação da metalidade que pudesse caracterizar e suscitar a discussão dos procedimentos envolvidos nas produções e propostas de uso dos meios educativos audiovisuais. De antemão são descartadas as vertentes de pensamento baseadas na confiança plena da capacidade de representar a realidade nos diversos formatos de texto, assim como não é adotado o sentido oposto de negação completa da relação entre a representação e a realidade. Busco mapear os caminhos trilhados na produção de conteúdos e políticas nos materiais didáticos que tem como base a televisão e, por sua constituição, seus antecedentes o rádio e o cinema.
A escolha do foco direcionado à produção da TV Escola deve-se ao reconhecimento da mesma como política pública ligada ao Ministério da Educação, mesmo que a operacionalização do processo de produção e transmissão seja executado pela Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto. Enquanto estratégia de governo foram investigadas a maneira que essas instâncias são arroladas no processo de construção do conhecimento. Como
é produzida a verdade nos formatos mais usuais de canais educativos, em específico na TV Escola? Como se estabelecem os interesses e a subjetivação do sujeito? Como é a relação do poder-saber e essas produções?
A dissertação está estruturada em sete capítulos, distribuídos em quatro grandes grupos: conceitos teórico-metodológicos, digressão histórica da mídia audiovisual educativa, conceituação e análise dos princípios de constituição da verdade e, por fim, as considerações finais.
O primeiro capítulo retoma os conceitos de verdade, poder-saber e governo propostos por Michel Foucault ao longo de suas obras. A verdade é vista como resultante de processos de relação social, construída nas relações, nos jogos de poder que permeiam o cotidiano. Além de consequência, a verdade também é propulsora das condições de poder-saber. Entre os efeitos dessa constituição de subjetividades estão a formatação da conduta da conduta constituindo o que é conhecido como governo de Estado, governo de si e governo dos outros. O “exame” é um desses recursos que pesam sobre o aluno como risco subjetivo de controle e punição. A ele Foucault acrescenta outro que, articulado, é ferramenta usual para a produção da verdade de si: a “confissão”.
Por outro lado, a estruturação de uma economia política da verdade é detelhada por Foucault com a proposição de cinco vertentes possíveis: a primeira relacionada ao discurso científico, a segunda baseada na produção econômica, a terceira refere-se à verdade como objeto de difusão e do consumo, na quarta vertente o uso é feito sob o controle dos aparelhos políticos e econômicos, e, finalizando, a vertente de constituição da economia política da verdade que tem o seu uso como objeto do debate ideológico.
No capítulo de contextualização histórica da mídia educativa no Brasil, é feito um breve relato do desenvolvimento da mídia audiovisual educativa ao longo do último século. Mesmo o foco sendo as produções televisivas para a Educação, o levantamento parte das iniciativas relacionadas ao cinema e ao rádio para pontuar o envolvimento das propostas de ensino e as influências nos caminhos a serem seguidos pela televisão. É possível verificar a agilidade na implantação do viés educativo para as atividades envolvendo o cinema. As projeções iniciadas em 1895 na França já podiam ser conferidas no ano seguinte no Rio de Janeiro e em menos de 15 anos foi criada uma filmoteca com caráter científico e pedagógico no Museu Nacional. A produção de conteúdos específicos é incentivada como a contribuição da Comissão Rondon com filmes sobre os Índios Nambikuaras, em 1912. Nesse mesmo período já iniciavam as experiência com a transmissão de sons que deram origem ao rádio brasileiro em 1923, com a Rádio Sociedade do Rio de janeiro que dedicava-se ao caráter
educativo utilizando a Revista Electron como recurso para a disseminação dos conteúdos das “lições de história do Brasil, de inglêz, de francêz, de portuguez, de physica, de história natural” (ROQUETTE-PINTO, 1926, p. 12).
A implantação de emissoras de televisão plenamente educativas foi mais lenta com iniciativas frustradas. O primeiro experimento oficial ocorreu em 1939 em uma parceria do governo de Getúlio Vargas como III Reich poucos meses antes da Segunda Guerra Mundial, o que paralisou o processo por onze anos. Em 1950, mesma época de criação da emissoras comerciais, cinco projetos foram apresentados no viés educativo mas, por interesses políticos e ausência de recursos, não foram implantados. No período militar as ações educativas do audiovisual ganham corpo no viés de conduta da conduta atrelada à necessidade do controle de uma sociedade cada vez mais urbana. A Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa é criada para atender a demanda de produção mas, mesmo com êxito em suas ações, dividiu nesse período o apoio às suas atividades com o financiamento do governo militar à Rede Globo de Televisão da Fundação Roberto Marinho. No período da redemocratização do Brail a TVE deu origem à TV Escola, hoje vinculada ao Ministério da Educação. Contemporaneamente, o que se percebe é o uso para a conformação de padrões profissionais demandantes de uma formação continuada e, por consequência, a adequação aos padrões de comportamento de grande domínio tecnológico.
Abrindo a sequência de quatro capítulos de análises das práticas educativas, o terceiro mostra como a construção da verdade está relacionada a uma formatação econômica e política, com base no sistema capitalista. Entre os propósitos estão as diretrizes traçadas pelos organismos internacionais, em destaque o Banco Mundial e a UNESCO, que desemboca na formatação das políticas públicas do Governo Federal brasileiro. A capacidade docente fica relacionada aos conhecimentos e habilidades midiáticas e informacionais para que eles tenham condição adequada de desenvolver nos alunos as competências do aprendizado autônomo e continuado. Esses parâmetros definem a distribuição de recursos e o entendimento da necessidade das Tecnologias de Informação e Comunicação como meio para o maior atingimento de seu público-alvo. Entre as questões apresentadas no conteúdo da TV Escola estão a replicação das demandas de sujeitos condicionados às demandas de um mercado da Educação, que é tratado como mercadoria de um Estado gerencial.
No entanto, o governo brasileiro não possui uma única política voltada à implantação de tecnologias educativas, unindo as mídias impressas, audiovisuais e eletrônicas. Esses recursos estão envolvidos, direta ou indiretamente, em uma série de programas do campo da Educação que estão divididos com base mais nos públicos aos quais se destinam do que na
organização de sistemas únicos de introdução das ferramentas aos processos pedagógicos. Dos 21 programas analisados, grande parte está voltado à mensuração dos dados relacionados ao sistema educacional, o que é tido como a referência do sucesso das políticas de investimento na área.
Além das metas estruturais de implantação do programa, os materiais disponibilizados pela TV Escola apresentam uma sistemática de apresentação dos envolvidos em sua produção dentro da perspectiva indicada por Foucault como a do polemista. Nas entrevistas em vídeo, o nome e um breve currículo de cada participante é apresentado no início do programa no sentido de mostrar as competências e o valor inquestionável das afirmativas. A mesma técnica é usada no texto diagramado que traz a formação e linhas de pesquisa ao fim da primeira página de cada artigo. O aspecto ressaltado é a formação na área, geralmente com pesquisas de mestrado ou doutorado. Também são usuais as informações funcionais como cargos públicos e privados.
A produção de verdades no fomento ao consumo de modelos de sucesso é o mote para o capítulo quatro. Um modelo apontado por Foucault está na definição de uma sexualidade heteronormativa como exemplo a ser seguido por toda a sociedade, sendo estabelecido como fértil, produtivo e proclamador das verdades. O fértil passa a ter uma relação direta com o reservado, com o íntimo, com o que acontece às portas fechadas, no contato único de duas pessoas criadas por um ser divino com destino de se completarem e, com base e através de seu amor, gerar uma prole. O que é exposto, diverso, múltiplo, é visto como estéril e, portanto, fora do padrão, uma aberração. A posição frente às questões sexuais define o lugar da potência do discurso ou do silêncio.
É por priorizar a voz dos que são vistos como mais produtivos que, no material da TV Escola, as condutas bem-sucedidas são replicadas em reportagens tanto em vídeo quanto nos meios impressos. A divulgação reiterada de práticas é uma metodologia que pode culminar em um processo de conformação de práticas, visto que as mesmas tendem a ser copiadas pelos pares. É nessa busca de sucesso que percebo a constituição de verdades que permeiam o campo da mídia e que suscitam as demandas de formação continuada, de reformulação de projetos, do maior envolvimento comunitário e até na busca de avaliações meritocráticas dos alunos.
No quinto capítulo são mostrados os arrolamentos da constituição da verdade com os aparelhos de controle e no confronto social. Alguns espaços são usuais na constituição de padrões de veridicção, entre eles, as universidades que se estruturam em um patamar diferenciado de centralização do conhecimento. Entretanto, nem todo processo está sob o
controle rígido das propostas de governo. A resistência é possível e usual diante da apropriação diferenciada de cada indivíduo, sendo que as condutas disseminadas podem gerar comportamentos fora dos padrões esperados. A presença e o impacto da tecnologia nas escolas é afluência e conflito de posições. As novas tecnologias são potencializadoras da democratização e inclusão de leitores e escritores, ao mesmo tempo que as mudanças na produção e circulação podem causar discriminação e exclusão.
A TV Escola conforma-se como uma espécie de oráculo sendo colocada como referência do conhecimento. É imposto ao docente um ciclo de análise e aplicabilidade de conceitos e práticas em um processo ininterrupto denominado formação continuada. Mesmo sendo vistas como necessidade, a constante formação e o uso das tecnologias não ocorrem dentro do planejado. Assim como são construídas as necessidades também surgem nos confrontos sociais valores, escolhas, preferências, mentalidades que escapam ao controle.
Fechando o ciclo analítico, as práticas científicas são avaliadas como procedimento de estabelecimentos de verdades. Nesse viés são apresentadas duas origens para os procedimentos de inquérito: o jurídico e o religioso. A primeira relacionada com o império de Carlos Magno (séculos VIII e IX) e ligada ao surgimento da noção de Estado. O inquérito constitui o processo de coletar as informações de quem teria presenciado um delito e poderiam descrever o ocorrido. A segunda, com um viés religioso, tem emergência na Idade Média. Centrada na noção da ofensa, estabelece o conceito de infração, independentemente da noção de pecado.
Na atualidade, essa técnica de inquérito é recorrente, podendo ser detectada nas propostas da TV Escola. Para que o aluno/professor tenha êxito na absorção dos conteúdos são arrolados itens que compõem uma metodologia de dissecação da realidade. Vejo nesse processo não um desenvolvimento pleno da autonomia para a realização de ensaios diversos e sim a preparação dos envolvidos para a replicação de procedimentos para a confirmação dos resultados esperados. Não um sujeito que age e sim um sujeito que refaz trajetórias de confirmação de verdades. Os elementos mostrados no vídeo são sempre o instrumento de alicerce das discussões, configurando-se como referência da verdade a respeito de cada assunto abordado.
Concluindo esse processo de pesquisa, constato a articulação produtiva na qual podemos perceber uma gama de práticas que demandam em sua estruturação de posições de poder, que se beneficiam na sua articulação da valorização do saber e acabam por constituir- se, em procedimentos e efeitos, com as técnicas de governo de Estado, de si e dos outros. Analisar a TV Escola mostrou-se como uma tarefa exemplar para entender procedimentos de
construção das verdades na produção audiovisual que, em outro momento, poderão ser confrontados com a confecção de outros materiais do campo educativo ou em áreas mais amplas da comunicação.
As técnicas de construção da verdade estão articuladas em todo o processo e assumem dinâmicas de alternância contínua. Por fazer parte de um conjunto estratégico do executivo brasileiro, a TV Escola apresenta-se como ícone das práticas que configuram a disseminação de noções relacionadas aos governos de Estado, de si e dos outros. Percebo que entender essas condutas é uma forma potencial de reconfiguração dos processos pedagógicos envolvendo as mídias audiovisuais, seja repetindo propositalmente os métodos ou na estruturação de outras maneiras de atuação na busca de romper com os padrões.
As novas tecnologias digitais trouxeram uma nova dinâmica para o processo de relação interpessoal que tem forçado novas configurações nas relações pedagógicas. Alunos mais conectados demandam dos profissionais da Educação uma busca constante de requalificação no afã de conformarem-se como sujeitos alinhados com seu tempo. A posição do professor como o possuidor do conteúdo a ser repassado tende a ser rearticulada da mesma forma que os meios de comunicação estão perdendo a centralidade como referência da produção dos conteúdos. A maior independência ou capacidade no processo produtivo pode ser o caminho para o docente do futuro que poderá ser mais o propositor de desafios para o aprendizado do que como condutor dos procedimentos de ensino.
Vislumbrando as demandas de letramento digital arrogadas para o campo da Educação, sopeso ainda cenários mais virtualizados nessa relação. A possibilidade da criação de ambientes virtuais, atrelada a possibilidade da avatarização dos indivíduos, mostra-se como um viés possível no qual o contato presencial deixa de ser uma premissa. Nem mesmo as estratégias de controle ainda usuais, como a lista de presença e a avaliação por notas, são garantia na atualidade de condução das condutas. Nesse campo onde o tom da voz, a posição física na sala e a imagem de autoridade deixam de ser o referencial, outras habilidades serão requeridas desses profissionais que continuarão tendo como meta professar o conhecimento. Em um exercício de previsão, o que é possível entrever é que as plataformas, estruturas e relações tendem a ser reconfiguradas em uma dinâmica cada vez mais acelerada. Porém, de alguma forma, os procedimentos metodológicos do campo educativo estarão ainda, por um longo tempo, atrelados à padrões tradicionais de construção de verdades.