DEL 2 – PROSSESSRAPPORT
3 Diskusjon av litteraturen
As diversas formas de constituição da verdade aqui apresentadas demandam de aparelhos estruturados que possibilitem sua viabilização e disseminação. As universidades, as Forças Armadas, os meios de comunicação são considerados, por Foucault (2003b), como canais sob o controle, mesmo que não exclusivo, dos interesses políticos e econômicos. Ressalta-se que não se trata, aqui, de um pensamento de domínio ideológico desses meios e sim da constatação do uso regular dessas esferas para a construção e disseminação de conceitos e ações, haja vista a potencialidade de sua abrangência na formação de sujeitos.
Para tal, é proposto um deslocamento do olhar do observador para os locais onde se pode perceber a edificação de estruturas constituidoras da verdade, mapeando os pontos nos quais podem ser percebidas essas performances. A apreciação é com foco no objeto e não somente no lugar de observação de avaliador. A construção da verdade
é a das conjunções que lhe permitem se produzir como um acontecimento, e não a dos momentos que devem ser aproveitados para percebê-la, como por entre duas nuvens. Poderíamos encontrar na nossa história toda uma "tecnologia" desta verdade: levantamento de suas localizações, calendário de suas ocasiões, saber dos rituais no meio dos quais se produz (FOUCAULT, 2003b, p. 65).
As técnicas de suscitação da verdade substituem a condição de um saber que se dá de uma forma apofântica. A revelação que, na Antiguidade, era a busca de resgate de algo existente passa a ser visto como edificada, “provocada por rituais, atraída por meio de ardis, apanhada segundo ocasiões” (FOUCAULT, 2003a, p. 8). A mudança da forma de lidar com os meios tecnológicos para a produção do poder é localizada, por Foucault, nos séculos XVII e XVIII, com a proposição de novas relações humanas centradas nas ideias do Iluminismo e que culminariam no que foi entendido como um novo tempo: a Modernidade.
Com essa nova visão das técnicas produtivas, os aparelhos de Estado criados na Época Clássica são elementos de suma importância para dar vazão aos efeitos do poder “de forma ao mesmo tempo contínua, ininterrupta, adaptada e individualizada em todo o corpo social” (FOUCAULT, 2003a, p. 8), ao que podemos denominar um pensamento econômico do poder. A otimização do uso desses artifícios de forma ampla e generalizada permite uma redução nos custos, ao mesmo tempo em que a manutenção de uma sistemática condiciona possíveis resultados, diminuindo desvios decorrentes. A mudança contrapõe com maior eficácia essas metodologias das técnicas anteriormente utilizadas, reduzindo o impacto do excesso de tolerância e ostentação. A primeira por interferências da nobreza na garantia de privilégios e pela falta de controle dos atos criminosos constantes. A outra, marcada pela tentativa do combate de tal criminalidade com atos isolados na busca de colocá-los como exemplo para os demais, mas que, por sua excepcionalidade, não surtiam o efeito desejado.
Não se trata, aqui, de buscar ou entender um sujeito afetado pelas estruturas e sim da constituição do poder-saber dentro das mesmas. As transformações dos procedimentos de sabedoria não se atrelam, nessa visão, ao desenvolvimento ou envolvimento do ser nessas instâncias. As concepções intricadas entre o poder e o saber engendram mecanismos nos quais a relação com conhecimento demanda um sujeito também visto como objeto concebido em uma instância histórica. Assim, percebe-se que os jogos de poder existentes nas relações
diárias utilizam elementos para constituir uma imagem, uma ideia, uma informação. Na construção do conhecimento, as afirmativas são um componente presente em todo o processo de pesquisa, mesmo que ao fim sirva para contradizer a própria afirmação. O que se apresenta como necessário nessa situação é a preparação daqueles que recebem essas informações para que os mesmos tenham a possibilidade de uma leitura crítica do que lhes é apresentado, a possibilidade da dúvida. Situação na qual é possível pensar, para além dos usos políticos e econômicos, em uma funcionalidade formativa na constituição de uma verdade. De outra forma, se essas verdades estão ligadas aos jogos de poder de cunho político e econômico, seus efeitos podem ser percebidos enquanto artefato nessas instâncias, atendendo a propósitos ideológicos de grupos constituídos.
O ambiente hospitalar é avaliado, por Foucault, como exemplo de “um lugar ambíguo: de constatação para uma verdade escondida e de prova para uma verdade a ser produzida” (FOUCAULT, 2003b, p. 68). O afastamento do doente do ambiente externo, onde estaria sujeito a múltiplas possibilidades de contaminação, é visto como o resguardo mesmo em uma atmosfera controlada onde a doença pudesse pronunciar-se em sua expressão mais pura. Esse mesmo recinto de contemplação com a composição de atmosferas adequadas para a eclosão dos males era o mesmo destinado à manipulação alquímica geradora de substâncias patológicas.
Essa prática/teoria de tratamento percebida nos séculos XVIII e XIX é vista como a confirmação do hospital como recinto de conhecimento e prova, o que se altera com a biologia de Pasteur. A identificação dos agentes contaminantes passa a ser componente do funcionamento laboratorial, dando ao hospital as funções de atendimento, diagnóstico e intervenção regulada no combate aos riscos. Nessa diferenciação, o hospital passa a ser concebido como estrutura que dá vazão a uma centralidade, um remanejamento, uma propagação, uma comprovação dos saberes estabelecidos de ambientes analíticos laboratoriais. Estendendo sua potencialidade, as mãos dos médicos são indicadas ainda como elementos que, ao percorrer o corpo do paciente na ação do cuidado, agem como disseminadoras de doenças.
Seguindo esse mesmo raciocínio, podemos ver as estruturas educativas contemporâneas como áreas nas quais são diferenciadas as ações de análise e detecção dos agentes e males separadas dos meios tecnológicos onde a aplicação dos conhecimentos se dá de forma efetiva, onde é disseminada? Seria a escola o sujeito ou objeto dessa estrutura? E como a TV Escola dá-se nesse processo por intermédio de seu envolvimento com as
estruturas oficiais de afirmação do conhecimento? Essas relações de construção de verdades em espaços direcionados são temas para os próximos segmentos.