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A Universidade de Brasília está localizada em um espaço, no qual, inúmeras invasões a rodeiam.

Só nos arredores da UnB são três focos. O maior, que abriga cerca de sete famílias, fica na via L3 Norte, ao lado da Colina — os blocos funcionais da universidade. Lá vivem casais com filhos em meio a montanhas de lixo que eles mesmo juntam para vender para reciclagem. Além dos barracos, há uma criação de galinhas. Logo abaixo, na L4 Norte, duas famílias transformaram árvores em moradia. No “quintal” de uma delas foi plantada uma pequena

horta de temperos. O terceiro grupo se concentra na pista que dá acesso direto da L2 à L3 e à UnB. Lá, vivem três famílias que usam a água de um cano aparente no canteiro central para lavar roupas, panelas e até tomar

banho8. (VELEDA, 2008).

Além dos espaços mencionados acima, pode ser acrescida a “Invasão do Iate”, que apesar de não ser tão próxima ao Campus quanto às demais, é ligada a ele por trilhas que encurtam a distância e facilitam o trajeto dos catadores que ali coletam materiais recicláveis.

A “Invasão do Iate”, como é comumente conhecida por seus moradores, localiza-se ao lado do Iate Clube de Brasília no Setor de Clubes Norte.

Imagem 12. Invasão do Iate.

Fonte:http://maps.google.com.br/

Essa invasão representa bem a segregação entre ricos e pobres, já que é uma “ilha” de lixo, onde vivem várias famílias de catadores, cercada por mansões e um clube de classe média alta. Apesar da proximidade entre realidades tão distintas, a distância que separa essas classes sociais é imensa, sendo os resíduos sólidos, na maioria dos casos, o único elo entre os que “têm” - poder de compra, moradia, acesso a três refeições por dia - e os que não “têm”.

O contraste entre a imagem do “lixão” e a de poucos metros atrás é gritante. Em pleno centro de Brasília a desigualdade pulsa e convive

8 Trecho da matéria intitulada “A vida ao relento” publicada em 7 de julho de 2008, no sitío:

lado a lado. Mansões e um clube de classe média alta de um lado e barracos e lixo do outro. Não fazia idéia, ao passar por aquela região, que ali dentro do Cerrado viviam inúmeras famílias de catadores. (DIÁRIO DE CAMPO – agosto de 2008).

Nas proximidades da invasão localiza-se também um espaço conhecido por “ruínas”, uma antiga construção abandonada logo em seu início. Perto desse local vivem inúmeras famílias. Sobre esse espaço seu Hélio relata:

Imagem 13. Espaço conhecido como ‘ruínas’.

Imagem 14. Ruínas.

Fotos: Hélio de Souza

Tirei essa foto aqui pra mostrar que isso daqui é um desperdício com o nosso dinheiro. Isso daqui é um esqueleto de uma obra que foi interditada. Isso daqui é... mais ou menos, eu acredito que é uns dez mil metros quadrado de uma viga, que tem ali na beira do lago sem futuro nenhum. Esse dinheiro, se esse camarada tivesse feito aqui... dava pra ter feito... umas vinte casas e dado de presente pros pobres, seria mais útil. (Hélio)

Essa invasão oferece aos seus moradores a vantagem de viverem ali escondidos, uma vez que poucas pessoas acessam aquela região. Por esse motivo, durante muito tempo conseguiram viver nesse espaço sem serem retirados pelo Governo, ou surpreendidos por

ações bastante espaçadas, o que mudou drasticamente no decorrer do ano de 2009, como será visto no Capítulo 5, item 5.4.

Três, das quatro famílias que integram a presente pesquisa, residem nessa invasão - espaço de moradia e de separação do lixo coletado nas ruas da cidade – em condições precárias de sobrevivência. Uma delas vive ali há mais de seis anos.

A “Invasão da Colina” localiza-se à margem da L3 Norte, na altura da 610/611. Essa invasão é assim conhecida, por se localizar em frente à Colina, espaço residencial, situado no

Campusda Universidade Brasília, destinado à moradia de professores da UnB.

Pela imagem adiante pode-se observar a localização exata dos espaços públicos utilizados como moradia por catadores e moradores de rua, o que caracteriza uma invasão. Na primeira imagem ampliada, a fumaça dá vestígios de que os resíduos, que não são vendáveis, nem reciclados estavam sendo queimados, prática muito comum entre os catadores. Na segunda e na terceira ampliação, pode-se ver de longe alguns barracos e o lixo acumulado, resultado de um árduo trabalho nas ruas da cidade.

Imagem 15. Invasão da Colina.

A utilização desse espaço para moradia é antiga, e alguns moradores relatam estarem ali há mais de cinco anos, como é o caso de dona Luzineide, a única entrevistada que reside nesse espaço.

No entanto, essa permanência não é contínua, pois depende muito das ações do Governo do Distrito Federal, que visam retirar essas pessoas de áreas públicas que não são destinadas à habitação. Quando são retirados desses espaços, costumam ficar alguns dias longe e logo depois voltam, ou encontram outra invasão para viver.

Vivem na “Invasão da Colina” cerca de dez famílias. No entanto, a quantidade de moradores desse espaço é variável devido à instabilidade a que os moradores de rua estão sujeitos e as datas festivas, uma vez que esse número aumenta bastante com a proximidade do Natal, por exemplo - período em que as doações são muito significativas.

Em uma matéria publicada em 7 de julho de 20089, deu-se destaque a repressão do governo às invasões. Nela, o tenente Nelson Ramos, fala sobre os resultados alcançados pelas operações de desbaratamento da Subsecretaria de Defesa do Solo e da Água - SUDESA: “Perto da Colina, na Universidade de Brasília (UnB), chegamos a ter 40 barracos. Hoje dificilmente chegam a 10”.

Essa invasão caracteriza-se por não oferecer áreas em que os catadores possam esconder os seus barracos, que ficam expostos. Desse modo, as operações nessa invasão são mais freqüentes devido à exposição a que seus moradores estão sujeitos e ao número significativo de denúncias, feitas em sua maioria por moradores da Colina que se sentem ameaçados ou simplesmente incomodados pela presença daqueles moradores. Apesar dos riscos e da visibilidade, na maioria das vezes negativa, esse espaço torna-se propício para o recebimento de doações daqueles que estão dispostos a ajudá-los de alguma maneira, seja com alimentos, roupas ou materiais recicláveis. Essa característica é um dos principais estímulos para que os moradores dessa invasão continuem ali e retornem sempre após as ações de desalojamento promovidas pelo GDF.

9Trecho da matéria intitulada “A vida ao relento” publicada no sítio: http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/clipping/julho-

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