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Negotiating boundaries through entwined identity categories: What is a woman – and what is a

A pesquisa de campo junto aos catadores iniciou-se em agosto de 2008. Quatro catadores integraram a pesquisa: um senhor de 59 anos que vive em Brasília desde à sua construção; uma mulher nordestina de 44 anos, que vive com os filhos e netos na “Invasão da Colina”; um jovem de 23 anos, nascido em Brasília e um baiano de 32 anos, que vive com a esposa e filhos há anos no Cerrado de Brasília. São eles respectivamente: Hélio Souza, Luzineide de Morais, Cleydson Barros e Ronaldo Adriano Medeiros. Todos autorizaram por escrito a publicação de seus nomes, entrevistas e fotografias. No decorrer do trabalho, utilizaremos apenas o primeiro nome dos catadores para identificar as suas falas.

Três critérios foram cruciais para a escolha dos catadores que integram a pesquisa. O primeiro refere-se à diversidade desses atores, de modo que olhares diversos sob a mesma realidade pudessem ser expostos. Buscou-se, dessa forma, uma visão complexa, já que estes múltiplos olhares permitiram o acesso a opiniões divergentes e ao mesmo tempo complementares acerca do contexto pesquisado.

O segundo critério está relacionado ao interesse demonstrado pelo catador acerca da pesquisa, já que é fundamental que o ator sinta-se motivado pelo tema. Tal motivação facilita a relação entre o sujeito pesquisador e o pesquisado, assim como possibilita um maior envolvimento do ator no processo de construção coletiva do conhecimento. Para que essas características sejam identificadas é imprescindível que o pesquisador vá a campo. Como complementa Rey, “[...] a primeira atitude a ser tomada antes de selecionar alguém é envolver-se no campo para observar, conversar e conhecer, de forma geral as peculiaridades do contexto em que a pesquisa será desenvolvida [...]”. (2005,p.110).

Com base nos critérios citados acima e na fala de Rey - que destaca a importância do envolvimento do pesquisador no campo da pesquisa antes da delimitação do grupo – deu-se início ao trabalho de campo. Para formar o grupo de catadores que integraram a pesquisa foi necessário um longo percurso, permeado por inúmeras visitas e longas conversas.

O novo está sempre envolto em mistério, ansiedade, receio, surpresas e expectativas. Assim se deu os primeiros encontros entre pesquisador e sujeitos da pesquisa. A maior dificuldade enfrentada a principio foi a aproximação dos catadores que, com poucas exceções, demonstraram muito receio e desconfiança no primeiro encontro. Essa reação pode ser

justificada por alguns relatos dos catadores, nos quais se declararam cansados de receber pessoas que vão até lá entrevistá-los e somem sem dar nenhum retorno.

O terceiro quesito para que o catador integrasse a pesquisa era que ele coletasse resíduos na Universidade de Brasília. Desse modo, o primeiro contato com os catadores, foi realizado nesse espaço. Para tanto, foram necessários poucos minutos andando pelo Campus para se encontrar o primeiro catador, momento descrito por um trecho do Diário de Bordo.

No caminho para a Biblioteca Central da UnB avistei um catador em cima de uma carroça passando ao lado do Minhocão e me aproximei. Conversamos um pouco e ele afirmou que coleta, diariamente, resíduos no Campus. Em poucos minutos, Cleydson sentiu-se à vontade para falar das condições precárias em que vive e de seu desejo de ter um emprego “fichado”. Ele falava como se visse em mim alguém que poderia ajudá-lo a mudar de vida. Seu barraco fica em uma invasão nas proximidades do Iate Clube, local até então desconsiderado por mim, que não sabia de sua existência. Combinamos que eu iria até lá no final de semana e que levaria as fotos que tirei dele. (DIÁRIO DE CAMPO - agosto de 2008).

Imagem 16. Cleydson e sua carroça.

Poucos dias depois, outro catador foi encontrado revirando uma lixeira próxima à Prefeitura da UnB. Esse catador, de nome Ronaldo Adriano, também morador da “Invasão do Iate”, ao contrário do Cleydson, mostrou-se bastante desconfiado e arredio. Apesar disso, ele consentiu que fosse feita uma visita ao seu barraco para que ele pudesse ouvir um pouco mais sobre o projeto de pesquisa.

Imagem 17. Ronaldo Adriano no campus.

Conforme combinado, no final de semana seguinte aos encontros, foi realizada a primeira visita à “Invasão do Iate”.

Seguimos a indicação do Cleydson e fomos até o Iate Clube de Brasília, lá chegando seguimos a estrada que fica em sua lateral. Neste caminho encontramos dois homens montados em cavalos, que nos indicaram onde estava a invasão. Pegamos uma estrada de chão e logo avistamos bastante lixo e alguns barracos em volta. [...] Não sabíamos por onde começar a procurar o Cleydson, eram muitos barracos. (DIÁRIO DE CAMPO – agosto de 2008).

Imagem 18. Invasão do Iate.

São inúmeras famílias que vivem naquele espaço, onde trabalham e sobrevivem do que não tem mais valor para àqueles que residem e trabalham em repartições públicas a sua volta. Os resíduos sólidos ilustram perfeitamente a desigualdade social existente em nosso país, uma vez que “[...] são o elo entre o que não serve mais para uns e o que para outros representa trabalho e sobrevivência”. (ZANETI, 2006, p. 67).

Andando pela invasão conhecemos um senhor chamado Hélio que tentou nos ajudar a encontrar o Cleydson. Ele nos contou que por causa da sua idade e de alguns problemas de saúde, cata latinhas apenas na Casa do Estudante. Já os seus filhos, recolhem os resíduos de áreas mais distantes – inclusive do Campus - com o auxilio de carroça e cavalo. Como ele não sabia onde era a casa do Cleydson, nos levou até o barraco de um catador que poderia nos ajudar. Por coincidência, este catador era o Ronaldo, que conversou comigo no Campus, nas proximidades da Prefeitura. Ele não estava em casa, mas conversamos com a sua mulher que nos recebeu muito bem e reconheceu o marido na foto, que tirei dele na referida ocasião. O Ronaldo estava jogando bola na Vila Planalto. Ficamos de voltar depois para conversar melhor com eles. (DIÁRIO DE CAMPO – agosto de 2008).

Como o seu Hélio também coletava resíduos no Campus, foi conversado com ele sobre o projeto. No entanto, ele demonstrou receio em participar e disse que: “[...] sempre é a mesma coisa, as pessoas vem aqui, pegam os dados e somem”.

Os laços entre pesquisador e sujeitos da pesquisa se constroem com o tempo e com o respeito aos posicionamentos dos participantes. Além disso, um dos requisitos para que os catadores integrassem a pesquisa era o seu grau de interesse pelo tema tratado, para tanto, buscou-se interagir com o máximo de catadores que trabalhavam no Campus para identificar tal disposição. Desse modo, o grupo de catadores integrantes da pesquisa somente foi definido após vários encontros.

Saímos em busca do barraco do Cleydson e ao encontrá-lo ele mostrou-se bastante feliz, pois pensava que não iríamos até lá. Sua esposa foi muito receptiva e nos convidou para entrar. Ela fez questão de mostrar as filhas e pediu que eu segurasse a mais nova para ver como era pesada. Em volta de sua casa observamos muito lixo e muitos insetos, principalmente moscas. Ao lado do barraco um pequeno fogareiro no chão com uma panela com o que sobrou do almoço, agora coberta por um véu de moscas. Em frente à casa um cercado feito de madeira com um dos cavalos dentro. Ele relatou que o cavalo que eu vi no Campus foi roubado pouco depois. Disse que é comum que o Governo pegue os seus cavalos e que se sente roubado e não tem condições de pagar a multa para ter o seu animal de volta. (DIÁRIO DE CAMPO – agosto de 2008).

A partir do Cleydson outras famílias de catadores foram contatadas na “Invasão do Iate”. Além dessa invasão, integra a pesquisa a “Invasão da Colina”, onde se conheceu Dona Luzineide, que também demonstrou receio durante o primeiro encontro, mas aos poucos foi se envolvendo com o trabalho e compreendendo a importância dele.

Foram muitas as visitas feitas às invasões que, inicialmente tinham o objetivo de observar e consolidar a relação com os catadores. Com o seu Hélio, que desenvolveu um grande interesse pela pesquisa, realizamos a primeira entrevista no terceiro encontro. Ele

declarou, ao saber com um maior detalhamento os objetivos do projeto, que “esse trabalho vai ser bom pra gente lembrar da nossa história. A vida é tão corrida que a gente acaba deixando de falar sobre o que passou”. Essa colocação, está intimamente relacionada à questão do tempo para esses trabalhadores, cujo foco está no presente e no amanhã.

Para encontrarmos o Ronaldo outra vez foram necessárias muitas visitas. Finalmente quando o encontramos, ele se mostrou desconfiado e perguntou quem estava mandando eu fazer esta pesquisa e o que ele iria ganhar com isso. No entanto, após algumas horas de conversa e muitas explicações, ele demonstrou interesse pelo trabalho. Nesse mesmo dia, pediu que eu tirasse algumas fotografias das crianças e dos animais para levar no próximo encontro. (DIÁRIO DE CAMPO – outubro de 2008).

Por meio do Ronaldo outras famílias de catadores foram contatadas. No entanto, o grupo já estava praticamente desenhado, uma vez que o entusiasmo tomou conta dos catadores com os quais houve o contato inicial, tornando os vínculos cada vez mais fortes.

Vale ressaltar que o envolvimento da família dos catadores foi intenso durante todas as etapas do processo de pesquisa. Desse modo, no decorrer do presente trabalho serão utilizados alguns relatos feitos pelos familiares dos catadores e trechos da entrevista concedida por Solange Silva, esposa de Ronaldo Medeiros.

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