A idéia de realizar um trabalho envolvendo a fotografia com os catadores emergiu durante os primeiros encontros, quando foi identificado o grande interesse desses trabalhadores pelo registro fotográfico. Durante o contato inicial com os catadores, algumas fotos foram tiradas para registrar o seu trabalho no Campus e o ambiente em que vivem. Com o objetivo de dar um retorno aos participantes, as fotos foram levadas nas visitas posteriores para que eles vissem o resultado. Ao verem as fotos tiradas de sua casa, de seu ambiente de trabalho, a reação de todos foi de muito entusiasmo. Alguns pediram mais fotografias: dos filhos, da família e dos animais.
O valor atribuído à fotografia pelos catadores deve-se em grande parte ao fato de serem raros os registros fotográficos que possuem de sua história, como relata o seu Hélio:
Eu não tenho nenhuma foto da minha infância. Tinha uma, eu deveria ter uns dois anos, essa deve estar com meus tios, que faz muitos anos que eu não vejo, mas eu mesmo não tenho acesso a nenhuma. Até meus dez, doze anos de idade, quinze anos eu não tenho foto da minha adolescência.
Em outros casos, a fotografia revelou um valor além do sentimental, quando, por exemplo, um dos participantes da pesquisa pediu que fosse tirada uma foto de seu cavalo, para que ele pudesse provar, em caso de roubo ou de apreensão, que o animal era seu. Além disso, a fotografia representa um meio de construção da identidade e inclusão desses trabalhadores.
A nova etapa da pesquisa foi comemorada por todos os catadores e seus familiares, que ficaram animados e ansiosos pela oficina de fotografia. A motivação dos catadores no decorrer de todo o trabalho com a fotografia foi fundamental, uma vez que por meio da dedicação desses trabalhadores foi produzido um material muito rico, que revela com detalhamento as diferentes dimensões de suas vidas: “tirei foto dos lugar que eu gosto e das coisas que gosto. Tirei do meu fogo, tirei da cama, do meu papel, dos meus filhos, que é a coisa que eu mais amo é meus filhos”. (Luzineide)
Essa experiência com a fotografia possibilitou que os catadores manuseassem pela primeira vez uma máquina fotográfica, como pode ser observado por meio do relato a seguir: “esse trabalho foi bom, porque pra mim foi a primeira vez, eu nunca tinha mexido com uma máquina e eu gostei muito, foi legal. Minha família achou bom também, porque eu tirei as foto deles tudinho, ficaram tudo empolgado. Gostaram!” (Ronaldo Adriano).
Imagem 19. Cleydson tirando a sua primeira fotografia.
A primeira experiência com a máquina fotográfica também é relatada por Dona Luzineide:
Pra mim tirar as fotos ... eu achei bom, né? Aqui e acolá eu ficava com medo de tirar, que eu nunca tirei foto. Aí eu ficava com medo do pessoal ver eu
tirando e querer brigar. Aqui acolá eu dava uma escondidinha, quando passava o pessoal eu tirava.
Dona Luzineide em sua fala descreve o receio que sentiu ao tirar as suas primeiras fotos. Além desse medo natural, de quem está realizando algo nunca feito antes, ela demonstra temor com relação às pessoas que a viram tirando as fotos. Esse sentimento é fruto de experiências de humilhação nas ruas da cidade. No entanto, Dona Luzineide venceu o desafio e tirou excelentes fotos, mesmo quando sem querer:
Imagem 20. Dona Luzineide, foto “ao contrário”.
Foto: Luzineide de Morais
Aqui é uma burrice que eu fiz, mas até que essa burrice saiu boa. Eu fui tirar a foto e tirei foi ao contrário, tirei a minha mesmo. ( Luzineide de Morais).
Ao receberem as fotografias reveladas a emoção tomou conta de todos que se reuniram para apreciá-las.
Nós só temos essas fotos aqui, que foram as primeiras que a gente tirou. Desde quando a gente começou a namorar a gente nunca tirou uma foto. E as vez também não tinha a máquina e não tinha oportunidade também. Essa fotos aqui vai servir pro resto da vida pra mim sempre relembrar. (Ronaldo Adriano).
Imagem 21. Seu Hélio e familiares vendo as fotografias por ele tiradas.
Imagem 22. Ronaldo e família no primeiro contato com suas fotografias.
Imagem 23. Cleydson e sua família olhando as fotografias por ele tiradas.
Com as fotografias em mãos, deu-se início ao momento de ouvir o que os catadores tinham a dizer sobre cada uma delas. O falar sobre a fotografia permitiu que fosse revelada, com um grau de riqueza muito grande, a subjetividade dos catadores, uma vez que as fotos por eles tiradas possuem um significado especial em suas vidas que só eles podem declarar. Além disso, remeteu os seus autores a momentos e histórias que transcendem a imagem
revelada. Segundo Bauer e Gaskell (2000) a fotografia pode desempenhar o papel de desencadear, espontaneamente a evocação de memórias, que dificilmente surgiriam durante uma entrevista.
São muitos os autores que falam sobre a autonomia da imagem. Neiva Jr. ao falar sobre imagem e narrativa, declara que: “Se para a fotografia basta o instante, não há necessidade de explicá-lo. Qualquer texto que indique e descreva a foto seria supérfluo”. (NEIVA JR., 1994 p. 64). No entanto, neste trabalho, a fala dos catadores a respeito de cada fotografia, foi considerada essencial, uma vez que é sabido que as imagens podem despertar interpretações variadas.
Uma segunda falácia comum sobre fotografia é de que ela é simplesmente e universalmente acessível a qualquer um do mesmo modo – que ela opera transculturalmente, independentemente dos contextos sociais, de tal modo que todos a verão e entenderão o mesmo conteúdo na mesma fotografia. (BAUER E GASKELL, 2000, p.140).
Por meio da explicação de cada cena, o catador desvelou os seus sentimentos e emoções com um envolvimento que dificilmente seria possibilitado por meio de outro instrumento. Quando há envolvimento emocional, a expressão da subjetividade ocorre de uma maneira mais espontânea, uma vez que o sujeito vê sentido no que está realizando.
Para ilustrar a importância da fala atrelada à imagem, tomar-se-á como exemplo a fotografia abaixo, tirada por Dona Luzineide.
Imagem 24. Fotografia tirada por Dona Luzineide.
A imagem acima, por si só, pode levar a interpretações errôneas como, por exemplo, de que a catadora comprou iogurtes e mortadelas para complementar as suas refeições. Ou então, pode-se pensar que se trata de alguma doação que recebeu por suas andanças. No entanto, a
fala de Dona Luzineide nos revela o triste significado e a realidade por trás daquela fotografia: “Aqui, é a merenda dos meus filhos, que a gente traz do supermercado. Não pode comprar, pega ao menos da lixeira para comer. É vencido, mas Deus não deixa a gente morrer, não”. (Luzineide).
Desse modo, fala e imagem são aqui consideradas complementares, uma vez que ao falar sobre a foto o sujeito desvela mais do que a imagem pode apontar por si só, pois a sua explicação está intimamente interligada com a sua história de vida, experiências passadas e percepções de mundo.
As fotografias tiradas pelos catadores abrangem diversos temas, como: família, vizinhança, locais de trabalho, instrumentos de trabalho, resíduos coletados, moradia, alimentação, lazer, animais e paisagens. Essas imagens, assim como os relatos dos catadores, permearão as páginas que se seguem.