Para compreender o atual contexto da Educação Ambiental - EA é importante considerar o cenário em que ela emergiu. Na década de 50, foram inúmeros os problemas ambientais detectados, causados, principalmente, pela poluição proveniente das indústrias. As catástrofes ambientais ocorridas no início daquela década despertaram um sentimento de preocupação e de discussão acerca do meio ambiente. No final da década de 60 a proporção dessas ações fomentou a idéia de se repensar a sustentabilidade do modelo econômico instaurado. Esse mesmo período foi marcado por lutas contra o modelo consumista, dos movimentos de contracultura3por uma nova maneira de agir, pensar e sentir.
A expressão Educação Ambiental foi empregada pela primeira vez em 1965 durante a Conferência de Educação da Universidade de Keele, da Inglaterra. Nessa ocasião
3 “Cultura minoritária caracterizada por um conjunto de valores, normas e padrões de comportamento que
contradizem diretamente os da sociedade dominante”. (OUTHWAIT E BOTTOMORE, 1996,p.134 apud CARVALHO, 2004, p. 46).
recomendou-se que a EA fosse parte indispensável na educação de todos os cidadãos. (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO,1998).
Em 1972 teve destaque a Conferencia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, onde 113 países participaram e assinaram a “Declaração da ONU sobre o Ambiente Humano” – que, dentre outros fatores, reconhecia a importância da educação voltada para as questões ambientais nos diversos níveis e campos de atuação. Dessa Conferência, podem ser destacados dois importantes encaminhamentos: a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA, parte integrante da ONU e a recomendação da criação do Programa Internacional de Educação Ambiental (PIEA), com o objetivo de auxiliar no combate à crise ambiental.
No entanto foi, em 1977, na Conferência Intergovernamental de Educação Ambiental de Tbilisi que se definiu a Educação Ambiental4e os seus objetivos. A Educação Ambiental, antes pensada apenas como “conservação, ou ecologia aplicada” (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO, 1998,p.28), passou a ser vista de forma mais complexa e a ser entendida como interdisciplinar, ou seja, não integra uma única disciplina, o que a isolaria em um compartimento, ignorando assim a sua inter-relação com as diversas áreas do conhecimento e com a vida de forma geral.
A década de 70 é um marco nessa trajetória, uma vez que durante esse período ocorreram encontros e discussões que contribuíram para a consolidação da EA no âmbito internacional e nacional. A partir de então, um longo percurso foi percorrido pela EA, influenciado pelas perspectivas dessa década, mas com novos horizontes.
Contemporaneamente não se pode falar em uma única Educação Ambiental, mas em várias, uma vez que teorias e metodologias heterogêneas foram delineadas constituindo campos com distintos modos de se compreender e praticar a EA. A esse respeito, Layrargues (2002) destaca o surgimento de novas nomenclaturas para o que até então era consagrado como Educação Ambiental, como: Educação para o Desenvolvimento Sustentável (NEAL, 1995), Ecopedagogia (GADOTTI, 1997), Educação para a Cidadania (JACOBI, 1997) e Educação para Gestão Ambiental (QUINTAS E GUALDA, 1995).
4 Em Tbilisi definiu-se que Educação Ambiental é “um processo permanente no qual os indivíduos e a
comunidade tomam consciência do seu meio ambiente e adquirem o conhecimento, os valores, as habilidades, as experiências e a determinação que os torna aptos a agir individual e coletivamente - e resolver problemas ambientais”. (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO, 1998, p.31).
Vale ressaltar que toda forma de educação esta imbuída por ideologias que norteiam os seus caminhos. Desse modo, faz-se necessário um posicionamento acerca de qual vertente de EA é adotada pela presente pesquisa.
Diante da crise civilizatória em que se encontra o mundo - que engloba, dentre outros aspectos, o consumismo e suas conseqüências, a miséria e a exclusão - faz-se necessária a busca não só da transformação individual, mas de uma transformação social que parta da ação coletiva de indivíduos conscientes do seu papel transformador. Para tanto, considera-se que a consciência ambiental transformadora e a possibilidade de formação do sujeito humano enquanto ser individual e coletivo (CARVALHO, 2004b), tem como base a Educação Ambiental Crítica e Emancipatória, que “... é aquela em que a dialética forma e conteúdo se realiza de tal maneira que as alterações da atividade humana, vinculadas ao fazer educativo, impliquem mudanças individuais e coletivas”. (LOUREIRO, 2005, p.1484). Acerca dessa corrente Guimarães complementa que ela “[…] se propõe a desvelar a realidade, para, inserindo o processo educativo nela, contribuir na transformação da sociedade atual, assumindo de forma inalienável a sua dimensão política”. (GUIMARÃES,2004, p.32).
A proposta de Educação Ambiental que norteia esse trabalho busca novas maneiras de os indivíduos e os grupos sociais se relacionarem com o meio ambiente (CARVALHO, 2004a,p.51) e percebe na educação o meio gerador de mudança, emancipação e formação de sujeitos autônomos e conscientes do papel transformador que possuem na sociedade.
A universidade, dentro do atual contexto ambiental, tem papel singular, uma vez que, por meio da prática reflexiva pode proporcionar momentos nos quais os estudantes possam compreender os problemas ambientais locais e globais, assim como atuar por meio de práticas cotidianas em prol da preservação e da sustentabilidade ambiental. Sendo assim, a universidade é um espaço privilegiado para a formação do sujeito ecológico, que consiste em um “modo ideal de ser e viver orientado pelos princípios do ideário ecológico”. (CARVALHO, 2004a, p.65).
A Educação Ambiental Crítica, pode “...contribuir para uma mudança de valores e atitudes, formando um sujeito ecológico capaz de identificar e problematizar as questões socioambientais e agir sobre elas”. (CARVALHO, 2004a, p.156). No interior de um processo de implantação da Coleta Seletiva, esse tipo de educação possui papel primordial, e
contribui para a promoção de uma mudança além da comportamental, - na qual o sujeito executa, muitas vezes, ações automáticas - que proporcione a reflexão acerca do que se encontra na raiz do problema, que são os valores que conduzem a sociedade de consumo e as questões sociais atreladas à essa questão.
A Educação Ambiental é tratada de forma transversal na presente Dissertação, permeando os aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos que envolvem o trabalho dos catadores informais. Ela perpassa todo o processo reflexivo no qual as relações socioambientais são compreendidas e repensadas, uma vez que é “...uma práxis educativa que se constitui no próprio processo de atuação, nas diferentes esferas da vida, das forças sociais identificadas com a “questão ambiental”. (LOUREIRO, 2005, p.1474).