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A possibilidade de obtenção de renda através da comercialização de peças artesanais de capim dourado, confeccionadas pelas comunidades locais, tem se tornado uma alternativa de melhoria das condições de vida de muitos moradores da região do Jalapão. Nesse sentido, acaba sendo natural o crescimento dessa atividade, em que atraídos pelo lucro, homens, mulheres e crianças se dedicam a aprender ou melhorar as técnicas de produção.

Figura 11 - Artesanato da Associação de Moradores de Mumbuca

Alguns povoados da região passaram a desenvolver a atividade, devido o crescimento da demanda pelo produto. A partir de meados da década de 90, o artesanato de capim dourado ganhou popularidade através das páginas dos jornais, revistas, televisão, desfiles de moda, passando a ser difundido até mesmo no exterior.

Atualmente, são percebidas diferentes formas de confecção de peças entre as associações de diferentes localidades. Nas regiões rurais, ainda há a predominância de produtos que mantêm as características tradicionais marcadas pelo uso do capim dourado e da seda do buriti. Contudo, nas regiões urbanas percebe-se a utilização de outros materiais como zíper, lantejoulas, forros para bolsas, sementes de outras espécies nativas, e metais. Acrescenta-se ainda, as diferenças no desings das peças que acabam aumentando o valor agregado do produto. A dificuldade de acesso a mercadorias decorrente da dificuldade de comunicação e transporte, impede que povoados como Mateiros e São Félix, por exemplo, produzam artefatos compostos por outros materiais industrializados (SCHMIDT, 2005).

Em média, cada artesão tem um rendimento mensal de meio a dois salários mínimos. Para se chegar a esse cálculo, deve se levar em consideração a quantidade de escapos usados na produção, valores, tamanho das peças, e tempo gasto na confecção do artesanato. O incremento da renda depende ainda da dedicação de horas de trabalho ao dia e da freqüência em que ocorrem as vendas. Em geral, o artesanato tem se tornado a principal fonte de renda para muitas

mulheres e meninas, salvo aquelas que trabalham nas prefeituras, escolas ou no comércio local. Nesses últimos casos, as mulheres que possuem outros empregos acabam dedicando menos tempo às práticas artesanais (SCHMIDT, 2005).

Normalmente os homens cuidam da pequena produção agrícola de subsistência (roças e criação de alguns animais) ou migram para áreas vizinhas com o intuito de prestarem serviços em fazendas de soja e construções de estradas nos municípios da região. Devido à sazonalidade desses empregos, alguns homens podem ganhar com o artesanato uma receita maior que a de outros serviços. Contudo, os homens dificilmente tem o artesanato como principal fonte de renda, já que sobretudo nas zonas urbanas, há um grande preconceito contra os mesmos (SCHMIDT, 2005).

Nesse sentido, a atividade artesanal tem rendido valores semelhantes ou maiores que as outras fontes de renda presentes na região, sendo perfeitamente compatíveis com estas, o que pode evitar movimentos migratórios e permitir a dedicação a outras atividades como a produção agrícola de subsistência.

Outro aspecto importante é que comparado a outros produtos não madeireiros de outras regiões do Brasil e do mundo, o extrativismo de capim dourado é bastante rentável (SAWYER, 1999; GUNATILAKE 1993; RUNK, 1998; REIS, 2000; MARSHALL; NEWTON, 2003; TICKTIN, 2003; apud SCHMIDT, 2005). Levando em consideração “[...] as estimativas da quantidade de escapos por peça artesanal e uma produção média de 50 escapos/m² nos campos úmidos, estima-se que cada hectare de campo úmido possa render anualmente entre R$ 5.000 e 16.000 (U$ 2.090 a 6.670)” (SCHMIDT, 2005, p. 33).

Assim, não resta dúvida de que a realização de pesquisas científicas, com a finalidade de garantir a sustentabilidade ecológica do extrativismo do capim dourado, é de fundamental importância. Como forma de melhorar os rendimentos dos artesãos, deve-se agregar valor social e ambiental ao artesanato, associando a conservação ambiental à melhoria da qualidade de vida na região. Com o objetivo de viabilizar o extrativismo sustentável, alguns cuidados devem ser considerados:

• A coleta da espécie em escala comercial não pode implicar na redução da matéria-prima;

• As associações de artesãos devem promover o debate acerca do uso sustentável dos recursos naturais;

• A atividade extrativista não deve ser associada pelos consumidores como ambientalmente predatória;

• Seria necessário eliminar ou minimizar a participação dos intermediários na comercialização do produto.

Desse modo, um excelente mecanismo de conservação do Cerrado no CE Jalapão, seria a aplicação de práticas de manejo de capim dourado baseadas no conhecimento tradicional e na ecologia. Cabe ressaltar que os rendimentos dos artesãos poderiam ser melhorados na medida em que seria agregado valor social e ambiental ao artesanato. Portanto, a melhoria da qualidade de vida na região pode estar relacionada à associação da conservação ambiental e ao extrativismo sustentável (SCHMIDT, 2005).

6 MATERIAIS E MÉTODOS

6.1 Revisão de literatura

Levantamento de informações pertinentes aos temas: percepção ambiental, sustentabilidade econômica, conhecimento tradicional, governança e práticas das comunidades extrativistas no corredor ecológico do Jalapão-Chapada das Mangabeiras-TO, envolvendo pesquisas, estudos, palestras, artigos, revistas, livros, legislação e outras publicações ligadas ao assunto em questão, inclusive em meios eletrônicos via rede mundial de computadores (internet), que se constituíram na fonte para a análise documental que irá fundamentar a presente pesquisa.

6.2 Visita de campo

Esta etapa consistiu na visitação da área do Corredor Ecológico do Jalapão com o intuito de identificação das práticas extrativistas e artesanais do capim- dourado, bem como a percepção ambiental das comunidades que desenvolvem tal atividade. Foram realizadas três visitas de campo, duas ocorridas em julho e outubro de 2006 e a última em junho de 2008 em que foi aplicado um questionário com os habitantes dos principais municípios da região e, por meio deste, foi estabelecido um contato com as comunidades que têm como uma das alternativas econômicas de sobrevivência o extrativismo do capim-dourado. Foi realizado o reconhecimento geográfico da área de estudo com visitas e coleta de imagens por meio de fotografias e filmagens.

6.3 Reconhecimento geográfico

Para que fosse possível compreender a atividade, foi necessário promover uma descrição detalhada da área de estudo, destacando as veredas e suas peculiaridades bem como um levantamento ilustrativo da região. Para isso, durante as visitas, os municípios foram fotografados e filmados, sendo que as imagens foram classificadas em: aspectos geográficos da região/paisagem (localização, geologia, clima, vegetação e relevo) e aspectos sócio-econômicos.

6.4 Entrevistas

O método de entrevista foi selecionado por ser uma técnica bastante utilizada nas ciências sociais: Administração, Antropologia, Etnobiologia, Psicologia, Medicina e outros ramos científicos tanto para coleta de dados como para investigação, diagnóstico e orientação, sendo considerado um instrumento de trabalho indispensável nestes casos (GIL, 1989; NOGUEIRA, 1973).

Algumas vantagens do método escolhido são:

• possibilidade de obtenção de dados referentes aos aspectos da vida social e emocional dos entrevistados;

• levantamento de opiniões dos entrevistados;

• possibilidade de classificação e quantificação dos dados;

• os entrevistados não precisam ser alfabetizados, saber ler ou escrever; • flexibilidade e possibilidade de esclarecimento de dúvidas e

adaptações para facilitar a compreensão dos entrevistados;

• o entrevistador pode observar e analisar a expressão corporal do entrevistado e a situação em geral durante a entrevista, podendo concluir através de mensagens subliminares.

Foi aplicado um roteiro de entrevista semi- estruturada para a obtenção de respostas relativas às seguintes informações: como a pessoa realiza o manejo do capim dourado, época do ano em que a coleta é realizada, razões pelas quais trabalha com capim dourado, faixa de renda mensal, lucro obtido, medidas tomadas

na região no sentido de minimizar possíveis impactos ambientais, participação das associações de artesãos junto à população local, dentre outras.

As entrevistas foram feitas nos municípios por amostragem aleatória, com mais de sessenta entrevistados. Nas duas primeiras visitas de campo, cerca de trinta pessoas foram entrevistadas informalmente nos municípios de Novo Acordo, São Félix, Comunidade do Prata, Mateiros, Povoado da Mumbuca e Ponte Alta. Todas as informações foram gravadas e filmadas de modo a facilitar a estruturação de um questionário que atendesse os objetivos do presente trabalho.

Na última visita de campo, sessenta e quatro pessoas distribuídas nos municípios mencionados, responderam o roteiro de entrevista. O número de entrevistados variou entre os municípios devido a região do Jalapão ter um dos menores índices de densidade demográfica do país, o que dificultou por diversas vezes entrevistar um número maior de indivíduos. A relação dos entrevistados foi obtida por meio de um levantamento prévio junto às comunidades locais, tendo como critério que o indivíduo realize a prática extrativista ou artesanal do capim dourado.

As respostas foram classificadas por temas e, posteriormente distribuídas em quatro tabelas que se dividem em categorias de acordo com as situações explicitadas pelos entrevistados. As porcentagens foram calculadas a partir do total de problemas levantados e não necessariamente pelo número de entrevistados e, posteriormente, registradas nas categorias criadas com seus respectivos significados observando-se, também, a distribuição por municípios. Em seguida os resultados foram descritos de forma explicativa, conforme as tabelas criadas, para em seguida se promover uma discussão dos resultados obtidos por meio de gráficos que facilitassem a compreensão utilizando-se o método de análise de conteúdo proposto por Franco (2007). As respostas dos entrevistados foram comparadas com as teorias apresentadas no presente trabalho com a finalidade de se cumprir os objetivos específicos propostos e de se comprovar ou não a hipótese apresentada.