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A partir dos relatos dos moradores locais que realizam a prática extrativista ou artesanal do capim dourado na região do CE Jalapão foram evidenciados alguns problemas que atualmente vem prejudicando a aplicação de políticas voltadas para garantir a sustentabilidade econômica no local. Conforme o que foi discutido no presente trabalho, é sabido que boa parte da renda das comunidades do Jalapão é gerada pelo comércio deste artesanato. A necessidade de se respeitar o frágil ambiente, por meio de práticas que permitam a conservação do Cerrado da região, respeitando a população local de modo que viabilize uma vida digna para essas pessoas, é uma das dificuldades a serem enfrentadas e o tema norteador de políticas que possam garantir a continuidade desta atividade.

Uma das situações levantadas no presente trabalho foi como os extrativistas se comportam no momento da exploração e como tem sido a prática de manejo do capim dourado na região. Nesse sentido, um dado importante mencionado pelos entrevistados é o fato de que nem todos os artesãos da região são coletores da matéria-prima e, portanto, precisam comprá-la de pessoas que estão se especializando nesse comércio. Alguns artesãos reclamaram que tem muita gente se aproveitando dos momentos em que o capim está em falta para vender a matéria- prima mais caro do que o normal, situação típica das relações de dominação do capitalismo.

Quanto aos cuidados que devem ser tomados pelos extrativistas durante todo o processo de coleta foram apresentadas algumas informações pelos moradores locais. Dentre as explicitadas pelos entrevistados, a que apresentou um maior percentual foi o período da colheita do capim dourado que deve ser iniciado somente a partir do dia 20 de setembro conforme a portaria regulamentar n° 092/2005 estabelecido pelo Naturatins, pois a partir dessa data, já teria ocorrido a maturação das sementes o que facilita a sua reprodução. Após a colheita deve se cortar as flores e jogá-las nos campos úmidos em que foram colhidas, garantindo assim, sua dispersão e o nascimento das mesmas. Contudo, foi evidenciado que em alguns municípios nem sempre essas recomendações são respeitadas por alguns coletores que, atraídos pelo lucro imediato extraem o capim dourado ainda verde, comprometendo, ao longo prazo, a continuidade dessa atividade, devido os riscos

de desaparecimento da espécie em questão. Deve-se ressaltar que a extração fora do período regulamentado, além de ser proibida por lei, pode arrancar as rosetas quando se colhem hastes verdes, podendo provocar a morte da planta.

Uma situação extremamente preocupante na região é a questão das queimadas descontroladas que se apresentam de forma muito freqüente. Como o fogo é bastante utilizado para fazer rebrotar o pasto, fazer roça e, também para manejar as áreas de colheita de capim dourado, já que muitos moradores afirmam que as cinzas adubam o solo e estimula o crescimento das plantas, essa prática tem gerado sérios riscos às áreas naturais do Jalapão, causando grandes incêndios quando usado sem as devidas recomendações. Os prejuízos são relacionados à exposição do solo ao sol que reduz os seus nutrientes e enfraquece as plantas, muitas vezes o fogo se espalha pelo Cerrado queimando as veredas, as matas, atingindo córregos e nascentes. Uma vez destruída a vegetação facilita a queda de barrancos, os rios acabam sendo assoreados, os brejos secam e as nascentes morem, comprometendo assim o abastecimento de água. Portanto é indispensável seguir algumas orientações antes de se queimar essas áreas, tais como: tentar juntar o maior número de pessoas possível organizando um mutirão; verificar se existem brigadas de incêndio no município que possam auxiliar a queimada; fazer aceiros ao redor da área que se pretende queimar; as queimadas devem ser realizadas em horários de menor calor e menos vento, preferencialmente ao final da tarde; a utilização de roupas adequadas como luvas e botas, bem como o uso de abafadores de fogo; as pessoas devem ser distribuídas ao redor da área em que vai ser queimada; queimar por partes e sempre contra o vento, lembrando que no momento em que o fogo avançar sobre um lado da área deve-se fazer o contra fogo, ateando fogo do outro lado; e, finalmente sempre que possível solicitar ao IBAMA e ao Naturatins treinamento e equipamento para fazer a queimada controlada. Essas recomendações foram propostas pelo IBAMA por meio da política de prevenção ao fogo adotada pelo PREVFOGO.

Outro aspecto relevante colocado pelos moradores da região se refere à importância econômica da atividade extrativista para os que vivem da exploração ou artesanato do capim dourado. O estudo comprovou a dependência econômica de muitas famílias que tem como principal fonte de renda a atividade comercial proveniente do artesanato. Alguns artesãos comentaram que chegam a atender muitas encomendas de outras cidades onde atualmente o artesanato é facilmente

encontrado. Contudo, uma das reclamações mais freqüentes dos moradores foi a respeito da redução do comércio pelo o fato de outras cidades estarem comercializando os produtos artesanais, o que teria provocado uma redução drástica nas vendas, já que a concorrência aumentou de maneira significativa. Acrescenta-se ainda a existência de muitos atravessadores que se aproveitam das necessidades imediatas da população local para trocar os produtos por roupas, sapatos, alimentos ou comprá-los por um valor inferior e, posteriormente comercializá-los por um preço bem acima nos grandes centros urbanos de todo o país e, às vezes no exterior. Assim, a maioria dos entrevistados demonstrou que está cada vez mais difícil viver exclusivamente do comércio de artesanatos de capim dourado, pois a atividade não é mais tão lucrativa para a maioria dos artesãos, o que tem levado algumas pessoas a abandonarem a atividade.

No que se refere ao comportamento pró-ambiental da população local foram evidenciadas algumas situações que colocam em discussão as práticas sustentáveis do extrativismo do capim dourado. A maior parte das pessoas entrevistadas nos municípios acredita que uma vez respeitada às recomendações acerca da colheita será garantida a preservação da espécie. No entanto, foi evidenciada a preocupação com a exploração indiscriminada já que existe coletores que não respeitam o período regulamentar, o que estaria levando à diminuição do capim em algumas áreas do Jalapão. Outra questão importante levantada pelos moradores é a saída do capim dourado para fora da região, o que demonstra que algumas pessoas não tem a menor preocupação sobre os efeitos negativos que essa prática está causando para as comunidades que vivem do artesanato. O primeiro deles é que vender o capim dourado in natura para fora do Jalapão, além de ser proibido por lei tem levado à falta da matéria-prima para alguns artesãos. Outro problema levantado é que as pessoas que praticam a exploração irregular podem degradar as veredas e, essas ações predatórias não prejudicam apenas o capim dourado mais sim, todas as espécies encontradas nessas áreas. O fogo é uma prática muito antiga na região e na maioria das vezes não são seguidas as recomendações dos órgãos ambientais se alastrando pelo Cerrado e causando grande destruição da fauna e flora de diversas áreas conforme relatado anteriormente.

Um ponto positivo observado entre os entrevistados, sobretudo em São Félix e no Povoado de Mumbuca é que boa parte da população se mostrou disposta a ajudar na redução dos problemas ambientais que tem marcado a região do Jalapão.

Algumas pessoas mencionaram que a melhor forma de contribuir na minimização dessas ações predatórias seria por meio de uma orientação da população de como deve ser feita a colheita do capim dourado e de como controlar as queimadas. Evidentemente que existem políticas públicas voltadas para esse fim, o que se questiona nesse trabalho é a sua eficiência. As denúncias de crimes ambientais feita pelos moradores podem vir a auxiliar os órgãos fiscalizadores a ter uma ação mais efetiva no controle da região.

A busca de práticas extrativistas sustentáveis procura suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro, retirando da natureza os recursos que ela tem disponível. Contudo, deve se levar em consideração os aspectos ecológicos, sociais, políticos e econômicos da região. Nesse sentido, foi evidenciada uma dificuldade de se efetivar uma prática sustentável em toda a área do Jalapão que atenda de forma satisfatória toda a população local. Evidentemente que algumas comunidades se mostraram mais engajadas nessas políticas sustentáveis do que outras. A hipótese apresentada no presente trabalho pode ser parcialmente comprovada ao se comparar os comportamentos dos moradores do povoado de Mumbuca com os demais municípios. A preocupação com a exploração descontrolada se mostrou presente em todas as regiões visitadas, porém em Mumbuca, os moradores afirmaram que é respeitada as determinações impostas para a colheita do capim dourado e que nos demais municípios essa prática não é seguida por todos os moradores e, por esta razão, já está faltando capim dourado nessas áreas.

Segundo CERQUEIRA, 2006, o tema unificador da governança é o esforço do governo e da sociedade em se buscar o desenvolvimento sustentável, a fim de combater a pobreza e garantir a conservação do meio ambiente. Para sua efetivação se faz necessário a participação de todos os setores que compõem a sociedade; governo, indivíduos, associações, comunidade científica, empresas, dentre outros e a tomada de decisões necessariamente deve representar os anseios de todos os atores envolvidos. Na região do Jalapão são percebidas algumas ações que sinalizam para esse caminho, que ainda está longe de ser alcançado. Um aspecto fundamental se refere ao papel do Estado como fiscalizador das práticas irregulares existentes. Uma parte significativa das pessoas entrevistadas reconheceu o IBAMA e o Naturatins como sendo os órgãos ambientais responsáveis pela fiscalização de toda região. Contudo, uma das reclamações freqüentes foi em relação à sua

ineficiência em função do número reduzido de fiscais que trabalham no Jalapão, o que tem dificultado uma ação permanente capaz de cuidar devidamente de uma grande extensão do território. De qualquer modo, algumas medidas foram tomadas no sentido de preservar as áreas onde nasce o capim dourado. Ocorreram algumas reuniões para ensinar as pessoas a coletar o capim dourado corretamente, foi apreendido capim verde com alguns coletores e aplicada multas, alguns moradores tem procurado preservar as áreas naturais controlando as queimadas e até mesmo ajudando na fiscalização denunciando práticas irregulares e, finalmente a criação do Parque Estadual do Jalapão, como Unidade de Conservação de Proteção Integral.

Na tentativa de se evitar a exploração das pessoas que fazem artesanato de capim de dourado, foram criadas associações para garantir que o extrativismo seja sustentável e aumentar a possibilidade de negociar direto com as lojas das grandes cidades. Boa parte dos artesanatos produzidos, são comercializados nessas organizações em suas lojas ou em feiras que acontecem eventualmente em outras localidades. Além disso, muitos cursos de capacitação são oferecidos aos associados com o intuito de melhorar as peças confeccionadas. Contudo, muitos artesãos discordam de algumas medidas adotadas nas associações existentes. Alguns entrevistados afirmaram que discordam de alguns preços dos produtos que são determinados pelas associações e que parte do lucro das vendas acaba sendo absorvido por elas. Nesse sentido alguns preferem vender seus produtos em suas casas, não precisando pagar nenhuma taxa para a associação. O fato é que alguns artesãos conseguiram estabelecer contato com compradores de artesanatos de outras cidades, não sendo interessante fazer parte de qualquer organização, já que conseguem vender seus produtos sem a sua interferência. Sem dúvida nenhuma o individualismo acaba se sobrepondo a quaisquer práticas coletivas sobretudo quando acabam sendo mais vantajosas. Essa é uma das características do Sistema capitalista em que a busca do lucro é seu objetivo final, não importando muitas vezes os prejuízos que outros podem sofrer, ou seja, se alguém está ganhando necessariamente alguém está perdendo.

Diante de todos os problemas apresentados, conclui-se que os esforços aplicados no intuito de se atingir um desenvolvimento sustentável por meio da Governança está ainda muito distante. Enquanto as relações de dominação capitalista falar mais alto, torna-se cada vez mais difícil a aplicação de uma política em que de fato respeite as diferenças existentes entre os atores envolvidos e de se

solucionar os conflitos que atinge as populações locais. No entanto, por mais que persistam algumas falhas nas políticas adotadas até então no Jalapão, percebe-se um demasiado esforço por parte de algumas organizações públicas ou privadas em lutar pela conservação não apenas do capim dourado, mas, sim, de todo o Cerrado. O que se espera é que seja assegurado às pessoas que estão envolvidas com o trabalho do artesanato, a não continuidade dessas práticas marcadas pela exploração e, sim, pela dignidade de garantir a sobrevivência de suas famílias.

Portanto, no sentido de reverter o quadro que diz respeito ao aproveitamento das áreas naturais (protegidas ou não), a educação pode servir como uma das principais estratégias para trabalhar a percepção ambiental, levando-se em conta o envolvimento das comunidades locais e dos visitantes em adequados programas de Educação Ambiental que possibilitem a compreensão mais profunda sobre os recursos naturais e culturas dessas áreas.

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