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As entrevistas realizadas com cada uma das integrantes do Grupo de fabricação de sabão caseiro trazem consigo a linguagem própria destas senhoras e, com isso, também os vícios de linguagem, que podem vir a dificultar a compreensão deste estudo. Por esse motivo, a fim de eliminar estes vícios de linguagem e, assim, facilitar a leitura

a ser realizada, foi efetuado um tratamento das falas das sócias, com a finalidade de deixar a leitura do material mais fluida.

As principais alterações realizadas ocorreram no que se refere às concordâncias verbais e, para isso, tivemos que substituir ‘cê’ por ‘você’ e ‘nóis’ por ‘nós’ ou ‘a gente’. Entretanto, entendemos que pode haver interesse do leitor em consultar as falar originais e, caso haja este interesse, estas constam no Anexo 1, na ordem em que aparecem ao longo do trabalho, divididas por capítulos.

4 GRUPO DE FABRICAÇÃO DE SABÃO CASEIRO: CARACTERIZAÇÃO DAS SÓCIAS, HISTÓRICO E PROCESSO DE FABRICAÇÃO

O presente capítulo tem como principal finalidade caracterizar os sujeitos de pesquisa que, neste caso, constituem-se como um EES, lembrando que, de acordo com Gaiger (2009, p.81), os EES, com “suas vinculações e extensões, constituem a célula propulsora básica da economia solidária”. Para tanto, primeiramente buscou-se caracterizar as componentes do Grupo em seu momento atual; foi feito um levantamento de como se deu a constituição deste Grupo desde o surgimento da ideia para a sua criação, quando ainda não se constituía como um EES e, por fim; buscou-se conhecer todo o processo de produção do sabão caseiro, bem como as mudanças que foram sendo realizadas ao longo do tempo, a fim de melhorar o produto e as condições de produção.

A caracterização dos sujeitos de pesquisa, a constituição e histórico do grupo e o processo de produção do sabão caseiro foram sendo tecidos com base no relato das 3 integrantes do EES através de conversas informais, observações participantes e de entrevistas semiestruturadas; por meio das quais buscou-se elementos significativos à constituição de cada um dos itens - que serão considerados durante todo o desenvolvimento da pesquisa

Diante do apresentado, tentou-se resgatar a todo o momento as histórias de vida das sócias, histórias estas que se interseccionam no momento da criação do EES do qual fazem parte; as quais são essenciais para a compreensão do funcionamento do mesmo.

O conhecimento desse histórico do grupo é muito importante no contexto da Etnomatemática, pois, de acordo com Knijnik (2004), dar visibilidade às histórias de grupos culturais sistematicamente marginalizados, como é o caso deste empreendimento, recuperando sua história passada e presente; apresenta-se como um fator essencial à compreensão de sua Etnomatemática.

Também é interessante enfatizar o entrelaçamento existente entre a Etnomatemática e a Economia Solidária, pois, ao nos referirmos aos EES, os quais constituem-se, na maioria das vezes, como grupos sociais sistematicamente

marginalizados, nota-se que eles possuem uma cultura específica, a qual tanto a Etnomatemática quanto a Economia Solidária consideram e valorizam.

Inicialmente, no item que segue, caracterizaremos os sujeitos de pesquisa, atuais componentes do Grupo de fabricação de sabão caseiro.

4.1 Caracterização dos sujeitos de pesquisa

As sócias que compõem o Grupo de fabricação de sabão caseiro serão aqui denominadas [G], [M] e [E] de maneira a preservar suas identidades.

Inicialmente, apresentamos uma tabela, na qual se encontram sintetizadas as principais características das integrantes [G], [M] e [E], a fim de que seja possível traçar um breve perfil a respeito de cada uma delas.

Tabela 2 - Principais características das integrantes do Grupo de Fabricação de sabão caseiro.

SÓCIA [G] SÓCIA [M] SÓCIA [E]

IDADE14 58 anos 55 anos 57 anos

PERÍODO DE INSERÇÃO NO

GRUPO

12 anos 12 anos 04 anos

GRAU DE ESCOLARIDADE

4ª série (atual 5º ano) do Ensino Fundamental 2ª série (atual 3º ano) do Ensino Fundamental 3ª série (atual 4º ano) do Ensino Fundamental FUNÇÃO QUE DESEMPENHA NO GRUPO “[...] minha função é [...] TODAS [...] faço sabão[...] ajudo cortar [...] na limpeza [...] tudo, faço tudo [...]”

“Olha, aqui a nossa função é TODAS.

(risos) [...] Todo mundo ‘faz (coisas)

iguais’.”

“O grupo faz sabão [...] trabalha junto, trabalha em conjunto, as três [...] faz TUDO JUNTO... sabão,

14 Idade das integrantes do Grupo de Fabricação de Sabão Caseiro no momento em que foi realizada a primeira entrevista com o grupo, dia 22.10.2010.

rala sabão [...] e participa...” IMPORTÂNCIA DO GRUPO Aprendizagem, Auxílio financeiro, Convívio e lazer, Auxílio ao meio ambiente. Convívio e Lazer, Auxílio financeiro. Convívio e Lazer.

Fonte: tabela elaborada pela pesquisadora com base nas entrevistas realizadas

Através da tabela observa-se que todas as sócias têm idade acima de cinquenta e quatro anos e baixo grau de escolaridade (Ensino fundamental incompleto) e atualmente, de acordo os seus próprios relatos, não há possibilidade delas retornarem ao ambiente escolar. Já no que se refere ao período de inserção de cada uma no grupo, as integrantes [G] e [M] fazem parte do grupo de fabricação de sabão caseiro há mais tempo (aproximadamente doze anos), isto é, desde o início das atividades deste grupo - quando cada uma das famílias fabricava o sabão em sua própria residência - já a sócia [E] ingressou posteriormente, há quatro anos.

Foi possível perceber também, durante as observações participantes e conversas informais que todas elas utilizam diariamente ferramentas de leitura e/ou escrita, mesmo que de maneira simples e informal.

No que se refere à função desempenhada por cada uma no interior do grupo, todas responderam que fazem todas as atividades, as quais caracterizam-se como ‘braçais’, tais como: confeccionar o sabão, cortar o sabão, ralar o sabão, limpar o ambiente de trabalho etc. Observa-se, portanto, que não há tarefa específica para cada sócia.

Mas, no que diz respeito ao trabalho ‘intelectual’, tais como a gestão do EES e as anotações em geral, as sócias [E] e [M] disseram que delegam esta parte do trabalho à sócia [G], devido ao fato dela possuir mais familiaridade com este tipo de situação.

Assim, no que se refere às posições ocupadas pelo trabalho braçal e pelo trabalho intelectual no interior deste EES, corroboramos com o posto por Mascarenhas (2007), que afirma que ainda ocorre a baixa autoestima por parte dos trabalhadores

devido ao longo histórico de submissão pelo qual passaram. Na maioria das vezes, os próprios trabalhadores acreditam, mesmo que de forma inconsciente, que o trabalho intelectual deve ser delegado ao chefe e que os trabalhadores devem realizar o apenas trabalho braçal; o que gera preconceito e uma divisão social do trabalho, dificultando o acesso dos cooperados ao conhecimento (MASCARENHAS, 2007).

Tal fato se evidencia ainda mais ao citarmos o fato de que a sócia [G], no passado, já foi proprietária, junto com seu esposo, de uma pequena sorveteria; enquanto as sócias [E] e [M] nunca trabalharam como ‘chefes’, ocupando sempre posições de submissão ao trabalho assalariado.

Diante disso, nota-se que relações de poder permeiam este Grupo, relações estas que foram se estabelecendo ao longo do tempo e que foram sendo fortalecidas por uma série de fatores, relações que em momento algum podem ser desconsideradas. Apesar disso, observa-se um respeito mútuo entre as sócias.

Apesar disso, é possível notar que todas as sócias sentem grande satisfação em fazer parte deste EES, atribuindo a ele um lugar de destaque em suas vidas; entre os fatores que colaboram para isso foram citados: a amizade, o convívio, por terem uma fonte de renda, por sentirem que estão colaborando com o meio ambiente ao arrecadar o óleo que seria descartado, e pelo aprendizado (que ocorre diariamente através do convívio entre as sócias e também pelo convívio das sócias com a Incubadora que as acompanha).

Um fato importante a ser evidenciado é que a sócia [M] e sócia [E] possuem deficiência auditiva. A sócia [M] utiliza um aparelho que a permite ouvir normalmente, o que ocorre é que devido a este problema ela fala alto. No caso da sócia [E] a situação é diferente, ela possui dificuldades para ouvir o que as outras pessoas falam e é preciso se dirigir a ela com um tom elevado de voz, de preferência permitindo que ela faça também a leitura labial; motivo este que pelo qual, normalmente, [E] não se dirige a pessoas desconhecidas. Nesse sentido foi necessário um cuidado especial da pesquisadora no diálogo com essa sócia, de maneira que ela não se sentisse constrangida por sua limitação física.

No que se refere à moradia, de acordo com o relato de cada integrante: a sócia [G] mora – com seu esposo e filhos - e a sócia [E] – com seu esposo, irmão e irmã com

deficiência – ambas residem no bairro onde funciona o Grupo (bairro proveniente de desfavelamento); já a sócia [M] residia neste bairro, mas atualmente passou a residir (sozinha) em um assentamento rural fornecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)15, local este que ainda não dispõe de energia elétrica, o que

dificulta o dia a dia de [M].

Diante disso, percebe-se que as componentes deste grupo são pessoas em situação de carência social e vêem na Economia Solidária uma oportunidade de mudança de suas condições de vida, visto que a Economia Solidária é caracterizada como uma economia alternativa ao sistema vigente e que é composta, principalmente, pelos indivíduos que estão à margem da sociedade.

No próximo item, apresentamos o histórico do Grupo de fabricação de sabão caseiro, desde o momento em que surgiram as primeiras ideias até a sua constituição com sede própria.

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