Anteriormente ao estabelecimento de uma sede para o Grupo de fabricação de sabão caseiro, cada uma das famílias envolvidas, 13 em média, segundo o relato das sócias, produzia o sabão individualmente em sua casa, entregando-o mensalmente na sede da Igreja São Judas Tadeu, onde ocorria também uma reunião mensal com estas famílias e a distribuição do dinheiro arrecadado com a venda dos produtos no mês anterior.
Enquanto estas famílias estavam fabricando somente o sabão em barra havia um formato padrão para o sabão, visto que o mesmo era fabricado em caixas de leite longa vida e posteriormente cortado em 4 pedaços, o que garantia quantidades iguais de produto em cada embalagem produzida. Com o início da produção do sabão em pó por cada uma das sócias em sua própria casa, notou-se que cada uma delas colocava quantidades diferenciadas de produto no saquinho de plástico, o que dificultava o estabelecimento de uma quantidade equivalente em cada embalagem e, consequentemente, dificultava o estabelecimento de um preço para comercialização do produto.
Apesar das funcionárias da assistente social solicitarem que as integrantes do grupo medissem o sabão em pó em um mesmo recipiente, com o objetivo de padronizar as quantidades, este processo era difícil, pois se fazia necessário que todas as famílias dispusessem da mesma ‘unidade de medida’ para fazê-lo, o que se tornou um problema à produção deste produto.
A solução encontrada foi utilizar novamente a caixa de leite longa vida como ‘unidade de medida’ para o sabão em pó, uma vez que este era um material de que todas as integrantes do grupo dispunham em suas residências. Foi então decidido em reunião, por meio de votação, que o sabão seria fabricado e, após todo o processo de produção, o pó seria medido em uma caixa de leite, na mesma altura utilizada para a fabricação do sabão em barra.
Não, a gente não pesava, era... uma caixinha de leite [...] a gente estava pondo menos... não sei se elas pesavam... aí a ideia delas foi mandar a gente por na caixinha de leite certinho... [E].
Ao utilizarem a caixinha de leite como ‘unidade de medida’ para medir o sabão em pó, podemos novamente notar a utilização desta caixinha como uma TS; o que nos
mostra que, em se tratando desta tecnologia, ao conciliarmos elementos técnicos e elementos sociais, o resultado obtido não é a soma destes, mas sim uma outra entidade (DAGNINO, 2009), a qual solucionou uma limitação das sócias deste EES, isto é, o estabelecimento de uma unidade de medida para padronizar o pacote de sabão em pó.
Além do emprego de uma TS, a utilização da caixinha de leite novamente como ‘unidade de medida’, desta vez para o sabão em pó, evidencia também o saber fazer matemático deste grupo, um saber fazer matemático que vem ao encontro de suas necessidades diárias junto ao Grupo do qual fazem parte, sendo compreendido e adotado por todos os seus membros.
No ano de 2009, quando foi decidido em grupo pela fabricação do produto em sede própria, o sabão passou a ser pesado com uma ‘máquina de pesar’ emprestada ao Grupo pela sócia [G], que dispunha deste equipamento em sua residência e achou conveniente utilizá-lo para tal finalidade, de maneira a padronizar ainda mais a produção, devido à necessidade.
Mas mesmo assim, a balança emprestada ao grupo por [G] não era muito precisa e demorava algum tempo para realizar a pesagem dos pacotes de sabão. Então os pesquisadores da ITCP/GFSC conseguiram uma balança de precisão, que foi doada às sócias, de maneira a facilitar o empacotamento do sabão caseiro em pó. A partir disso, a produção passou a ser mais rápida e menos trabalhosa para as integrantes deste EES, facilitando ainda mais esta tarefa.
[...] Ganhamos a máquina de pesar que a gente não tinha, pesar o omo... [...] Ah, é uma coisa assim, a gente ganha essas coisas, porque a gente não ia ter dinheiro pra comprar isso nunca né. [E].
No que diz respeito às quantidades de produto colocadas em cada saquinho plástico, a partir do momento em que o Grupo de fabricação de sabão caseiro passou a funcionar em sede própria, as sócias decidiram que fabricariam o sabão em pó em duas quantidades, em embalagens de quinhentos gramas e em embalagens de setecentos gramas, para que houvesse duas opções para o cliente.
No que se refere à escolha destas quantidades de sabão a serem colocadas em cada embalagem de sabão em pó, um fato interessante, e que nos chamou a atenção,
é o motivo que levou as sócias a escolherem a embalagem de setecentos gramas como embalagem padrão para a venda do produto.
Como dito, inicialmente, quando cada sócia fabricava o sabão caseiro em sua própria residência este não era pesado e a unidade de medida era a caixa de leite. Entretanto, a partir do momento em que o Grupo se constituiu em sede própria, as sócias sentiram a necessidade de pesar o sabão, pois os clientes chegavam à sede do EES para adquirir o produto e a primeira pergunta que faziam é “Quantos gramas de produto tem nesta embalagem?”. Então as integrantes do grupo decidiram em conjunto confeccionar o sabão em pó em embalagens contendo setecentos gramas de produto.
A escolha desta quantidade se deu pelo fato de que este é o peso aproximado de uma ‘medida certa’ de sabão em pó, ou seja, a quantidade armazenada em uma caixa de leite cheia.
E... a primeira caixinha que foi medida já tinha pesado, agora que eu me lembrei; pesou na minha casa até, pesou setecentos gramas, daí ficou assim. Era a medida certa. [G]
Em meio a esta situação nota-se, por meio da fala de [G], o emprego de um saber fazer matemático próprio às integrantes deste Grupo, que se utilizam de elementos presentes no cotidiano a fim de solucionar problemas no interior deste EES. O que, neste caso, consiste no estabelecimento de uma ‘medida certa’ para o sabão caseiro em pó (uma caixa de leite), passando este a ser medido com o auxílio de um produto tecnológico e cuja finalidade principal é a satisfação do cliente.
Perante esta situação, nota-se o emprego da tecnologia de maneira a auxiliar e facilitar o trato com questões que envolvem o emprego de conhecimentos matemáticos pelas sócias do Grupo.
No início do ano de 2010, foi estabelecida uma parceria entre o Grupo de fabricação de sabão caseiro e a Universidade pública localizada no interior do estado de São Paulo, parceria esta mediada pela ITCP/GFSC. Através desta parceria, as integrantes do Grupo passaram a vender sabão em barra e em pó nas dependências da Universidade, para seus alunos, professores e funcionários, buscando aumentar a venda e, assim, a renda do Grupo.
Para efetuar a venda nesta Universidade pública, a sócia [M] permanece nas dependências desta Universidade uma ou duas vezes por semana, no período da tarde, que é o horário de funcionamento do Grupo. A escolha da sócia [M] se deu pelo fato dela residir longe da sede deste empreendimento e, portanto, necessitar de transporte público diariamente para chegar ao local de trabalho, ou seja, o dinheiro que seria gasto para chegar à sede do grupo é utilizado para ir até esta Universidade, visto que as sócias [G] e [E] residem próximas ao estabelecimento e não fazem uso deste transporte, o que ocasionaria um gasto maior ao grupo.
Durante as vendas na sede da Universidade pública, uma das clientes sugeriu que elas confeccionassem o sabão em pó em embalagens de um quilograma, pois ela gostaria de adquirir o sabão em maior quantidade e com menor preço. As sócias, a partir desta sugestão que foi dada por mais algumas clientes do grupo na Universidade, decidiram passar a confeccionar o sabão em pó em embalagens de um quilograma.
Porém, a sócia [G] disse que não seria interessante fabricar o produto em três quantidades, pois a produção e o estoque deveriam ser aumentados e não há, no momento, infraestrutura e materiais suficientes para isso. Então conversou com [M] e [E] e as três decidiram em conjunto parar de fabricar os pacotes de setecentos gramas, passando a confeccionar somente as embalagens de quinhentos gramas e de um quilograma, inicialmente como teste.
Devido ao ajuste nas quantidades, seria necessário também um ajuste nos preços do produto. O custo da embalagem de quinhentos gramas era de R$ 2,50 e o custo da embalagem de setecentos gramas era de R$ 3,50. Após uma conversa entre as sócias elas decidiram que o custo da embalagem de um quilograma seria R$ 7,00.
Após alguns testes com a venda das embalagens de quinhentos gramas e de um quilograma, os clientes começaram a reclamar, pois achavam o custo da embalagem de um quilograma muito alto e a quantidade de sabão contida na embalagem de quinhentos gramas pouca, o que fez com que as sócias voltassem a fabricar apenas as embalagens de setecentos gramas.
Ah, porque não compensa, porque [...] de quinhentas, você faz quinhentas; na época [...] era dois e cinquenta, quinhentas; aí o povo começava... Ah, então vamos fazer o seguinte, xis, xis, pronto. Aí,
foi só de setecentas. Porque uns vinham... ah, eu quero um quilo. Então, mas para você fazer um quilo, você ia cobrar sete reais [...] o pessoal achava caro; então vamos fazer de setecentas, três e cinqüenta, pronto, acabou! [M]
Observando este fato, é possível notar que as sócias apresentam certa dificuldade no que se refere ao conhecimento matemático empregado quando precisam operar com valores proporcionais de seus produtos, uma vez que as sócias cobravam R$ 2,50 pelo pacote de quinhentos gramas e R$ 7,00 pelo pacote de um quilograma, o qual, fazendo-se a proporção, deveria custar no máximo R$ 5,00. Esta dificuldade por parte das sócias no estabelecimento de um preço adequado a seus produtos reflete na (in) satisfação do cliente durante a comercialização dos mesmos, apresentando-se como uma limitação das sócias.
Tal fato aponta para a necessidade de haver um preparo (informação) das sócias, pois esta questão pode estar prejudicando a venda do produto.