No início de sua produção, o sabão caseiro em barra era cortado por cada uma das sócias com uma faca em sua própria residência, o que lhe conferia um formato irregular; fato este que dificultava a venda do produto, pois era difícil o estabelecimento de um preço fixo para o mesmo, além de deixar o produto com uma aparência pouco atrativa. Com o passar do tempo as sócias, que eram auxiliadas em todo o processo de produção pela Pastoral Social decidiram em conjunto, a partir de algumas sugestões de seus membros, utilizar a caixa de leite longa vida como unidade de medida para o sabão em barra.
Após alguns testes, as sócias perceberam que cada pedaço de sabão em barra fabricado tendo como molde a caixa de leite passou a ter um formato regular, e todas gostaram de ver o novo formato do sabão caseiro que produziam, cada uma em sua própria residência, mais uniforme. Porém, apesar do sabão caseiro ter largura e comprimento pré-definidos, as sócias ainda contavam com um problema quanto à altura de cada pedaço de sabão, visto que este deveria ser medido por cada uma das sócias em suas residências e cada uma deveria cortar tais pedaços do mesmo tamanho, devido à padronização do produto para comercialização.
Com isso a sócia [G], que faz parte do grupo desde o seu surgimento, relatou que algumas integrantes da Pastoral Social tiveram a ideia de cortar na própria caixa de leite um molde para cada uma das sócias, tal molde tinha a altura de dois dedos na tentativa de padronizar também esta medida.
A gente cortava numa caixinha de leite assim, dois dedos a tirinha... E aí você põe em cima do sabão [...] riscava e depois cortava. [G]
Esta ideia foi aprovada em reunião por todas as integrantes do grupo e, portanto, ficou decidido que o sabão teria a largura e o comprimento da caixa de leite e a altura de dois dedos, cortados a partir de um molde, para que todas as sócias obtivessem pedaços de sabão caseiro uniformes.
O sabão em barra, nessa época, era cortado com uma faca de cozinha, como descreve a sócia [G].
Cortava antes com a faca, a faca começou a quebrar o sabão, porque quando você vai cortar a faca nunca vai certinho, ela dá uma entortada né. [G]
Mas, devido ao fato da faca sempre entortar e o pedaço de sabão em barra ficar torto ou até mesmo quebrar-se impossibilitando sua comercialização, novamente as senhoras que compunham o grupo começaram a pensar em alguma alternativa para evitar o desperdício do produto. A solução que encontraram foi utilizar um fio de nylon, ideia semelhante ao que estas senhoras faziam em suas casas quando precisavam rechear bolos, para cortar a massa ao meio, fato descrito pela sócia [M]:
[...] A linha surgiu pelo bolo. Porque a gente cortava bolo com a linha... Pra recheio né, aí foi aonde que [...] pensamos na linha, por causa do que? Por causa que cortou o bolo e dava certo. E fomos fazer o teste com a linha e deu certo também no sabão. [M]
Percebe-se aqui a presença de uma TS, ou seja, com base na experiência, elas adaptaram uma técnica que usavam no cotidiano para uso no interior do EES, de modo a suprir suas necessidades. Além do fio de nylon para cortar o sabão, a utilização da caixinha de leite para a confecção padronizada do sabão em barra e o molde criado a partir da caixa de leite também podem ser considerados como TS, pois as sócias os confeccionaram a partir de decisões em grupo, com o auxílio de membros da Pastoral e com a finalidade de facilitar o trabalho e melhorar o produto final. A principal característica da TS que notamos neste contexto é a preocupação com o processo e não apenas com o produto, diferenciando significativamente a TS da TC.
Ainda neste contexto da TS, nota-se também características da Etnomatemática deste Grupo, presente na discussão para o estabelecimento da altura dos pedaços de sabão. A partir da necessidade da padronização do sabão caseiro, as sócias sentiram a necessidade de definir uma altura padrão para os pedaços, situação esta que foi discutida entre o Grupo e os membros da Pastoral, levando ao estabelecimento de uma
altura de dois dedos, sendo os dedos utilizados como unidade de medida, caracterizando a matemática praticada pelos membros deste Grupo cultural específico, os quais estão unidos por objetivos e tradições comuns (D’AMBROSIO, 2001).
É interessante colocar também que, ao estabelecerem uma altura de dois dedos, as sócias se preocuparam também com as sobras do produto, ou seja, elas fizeram alguns testes – por tentativa e erro - de modo que os pedaços de sabão ocupassem o máximo da altura da caixa de leite, restando o mínimo de retalhos do produto.
Até o presente momento as sócias conseguiram - através de suas próprias ideias e em grupo, por meio de discussões e votações - a padronização do corte do sabão caseiro em barra, que identificamos como uma prática de autogestão por este EES. Para Culti, Koyama & Trindade (2010), a prática da autogestão baseia-se no princípio de igualdade de todos os que compõem o grupo e na liberdade de cada um, dando autonomia aos sujeitos diante de situações como as propostas acima, onde se exprime a vontade geral.
O molde para cortar o sabão em barra foi uma ‘ótima ideia’ segundo as próprias sócias, mas o problema é que a caixa de leite é feita de um material ‘mole’, o que fazia com que os moldes precisassem ser constantemente substituídos, pois estes estragavam rapidamente e, devido a isso, as sócias perdiam algum tempo confeccionando novos moldes para cortar o sabão. Ainda na época em que cada uma das sócias deste empreendimento fabricava sabão em na sua própria casa e participava de reuniões periodicamente, a sócia [M] teve uma ideia com relação a este molde, ela pediu auxílio de um técnico para confeccioná-lo com um material durável, então se dirigiu a um serralheiro com o molde da caixa de leite em mãos e pediu que ele confeccionasse um molde de metal parecido com aquele, molde que é utilizado até hoje pelas sócias e é denominado por elas ‘chapinha’.
[...] Eu peguei aquela pecinha e fui lá no serralheiro, falei com ele, falei: ‘Tem jeito do vocês fazerem uma chapinha pra mim, assim, assim?’ Expliquei o jeito né, fiz tipo um molde, aí ele falou: ‘Tem!’ Aí ele fez, [...] chapinha [...] de ferro [...] Aí eu peguei e falei: ‘Vou tentar!’ Aí eu fui, cortei! Deu certo! [M]
A [M] já tinha na casa dela, que ela chama aquilo ali de ‘chapinha’, entendeu? Aí ela trouxe, a gente gostou da ideia, que já era mais prático, [...] levou e pediu um calheiro pra fazer.[G]
Na figura a seguir, temos o sabão em barra sendo cortado com o uso da ‘chapinha’ e da linha de nylon.
Figura 8 - Cortador de sabão denominado ‘CHAPINHA’ e fio de nylon.
Fonte: imagem produzida pela pesquisadora na sede do Grupo
Nesse caso, evidencia-se que a ‘chapinha’, derivada do molde que surgiu a partir da caixa de leite, caracteriza-se como uma TS que foi sendo melhorada no interior deste empreendimento a partir da prática da autogestão e com o auxílio de um técnico para a confecção da mesma em metal, uma vez que este produto tecnológico foi desenvolvido e melhorado pelo grupo através de decisões coletivas, estando a serviço mesmo, facilitando assim o trabalho diário de cada sócia, além de padronizar e dar melhor aparência ao sabão em barra. Para Dagnino, Brandão e Novaes (2004) este tipo de tecnologia (TS) deve ser criado no mesmo local onde será posteriormente utilizada, melhor dizendo, a TS deve atender às necessidades das pessoas que a criaram, podendo haver auxílio de agentes externos quando há necessidade, como, por exemplo, de um serralheiro.