• No results found

TROMSØYSUND 1912-24

Um fragmento sonoro elaborado para uma cena teatral composto por uma série de ruídos e de sons como efeitos sonoros sugere, geralmente, a noção de uma “paisagem sonora”. Murray Schafer desenvolve uma série de reflexões e considerações extremamente relevantes sobre a noção de paisagem sonora, e afirma ser difícil definir este conceito, uma vez que se trata de um material sonoro complexo e subjetivo. É possível, ao acompanhar as obras de Schafer, concluir que paisagem sonora refere-se aos registros sonoros que permeiam o nosso

cotidiano. O som que acompanha o espaço, ou o som que surge do espaço e nele se estabelece. Porém, esses são pontos que vão além: descrever, registrar, denominar e reproduzir uma paisagem sonora são ações bastante complexas de serem realizadas. Schafer comenta sobre essa complexidade ao discutir o termo em suas teorias.

Podemos isolar um ambiente acústico como um campo de estudo, do mesmo modo que podemos estudar as características de uma determinada paisagem. Todavia, formular uma impressão exata de uma paisagem sonora é mais difícil do que uma paisagem visual. Não existe nada em sonografia que corresponda à impressão instantânea que a fotografia consegue criar. [...] O microfone não opera dessa maneira. Ele faz uma amostragem de pormenores e nos oferece a impressão semelhante a de um close, mas nada que corresponda a uma fotografia aérea (2001, p.23).

Schafer nos mostra a dificuldade de descrever uma paisagem sonora. Uma partitura musical, por exemplo, é composta por símbolos dos quais são possíveis traduzir em sons. Pois trata-se de uma estrutura elaborada a partir de um determinado número de notas musicais, organizadas em uma pauta, sugerindo o compasso, a tonalidade, as pausas, dentre demais qualidades. Quando a questão refere-se à possível leitura de uma paisagem sonora, neste instante percebemos sua complexidade. É impossível catalogar todos os sons reproduzidos no espaço, criar uma simbologia visual para cada um deles e organizá-los de maneira que se possa reproduzi-los a partir de uma leitura. E ainda, desdobrando esta questão, Schafer reflete sobre a frágil legitimidade de reproduzir uma paisagem sonora como a original. Mesmo com a tecnologia da gravação de áudio, é muito difícil encontrarmos registros exatos de todos os sons de um determinado lugar. Mais difícil ainda se a tentativa for de reconstruir uma paisagem sonora de um tempo e espaço histórico, onde o compositor tem de se contentar com registros literários que, certamente, não possuem um relato preciso sobre a sonoridade da época e do local pesquisado. Podemos refletir por meio das palavras de Schafer sobre o assunto.

Podemos saber exatamente quantos edifícios foram construídos numa determinada área ao longo de uma

década, ou qual foi o crescimento da população, mas não sabemos dizer em quantos decibéis o nível de ruído ambiental pode ter aumentado em um período de tempo comparável. Mais que isso: os sons podem ser alterados, ou desaparecer e merecer apenas parcos comentários, mesmo por parte do mais sensível dos historiadores. Assim, embora possamos utilizar modernas técnicas de gravação e análise no estudo das paisagens sonoras contemporâneas, para fundamentar as perspectivas históricas teremos que nos voltar para o relato de testemunhas auditivas da literatura e da mitologia, bem como aos registros antropológicos e históricos (Schafer, 2001, p26).

No âmbito teatral, por exemplo, sabemos que nas representações das tragédias na Grécia antiga um recurso eficaz de ampliação da potência do volume da voz era justamente o coro que respondia ao ator utilizando-se de várias vozes ao mesmo tempo. Máscaras projetadas a fim de atingir maior trajetória auditiva também era um recurso, além da arquitetura do próprio teatro, construído pensado também em seu poder acústico. Porém, todos os registros desses recursos sonoros chegam até nós por meio de publicações teóricas e de imagens, não temos a menor noção de como esse som era propagado em si. Sabemos, inclusive, que o elemento sonoro dramático deste período teria de ser ouvido por um público de milhares de pessoas. Com relação a isso, temos de nos contentar com as imagens e os superficiais relatos históricos que tocam neste assunto, sem nunca sabermos ao certo qual o verdadeiro efeito sonoro representado em uma tragédia na Grécia antiga.

Mesmo sabendo das dificuldades de se encontrar um registro sonoro preciso de um local onde nunca estivemos, ou de um período histórico, até mesmo dos insuficientes registros sonoros da contemporaneidade, a paisagem sonora é um recurso comumente utilizado no teatro. Constantin Stanislaviski (1863 – 1938), pesquisou e elaborou paisagens sonoras para algumas de suas montagens, especialmente nas representações de textos do dramaturgo Anton Tchecov (1860 – 1904), o encenador denominou o termo como “paisagem auditiva”. O teórico francês Jean-Jacques Roubine, em seu livro A Linguagem da

Encenação Teatral (1982), relatou a respeito do som na cena de Stanislaviski, e

discutiu sobre o termo “paisagem sonora” a partir das cartas de Stanislaviski à Tchecov.

[Paisagem auditiva trata-se] não apenas de reconstruir um meio ambiente ou uma atmosfera característica, mas sobretudo, de revelar a relação, o acordo ou a discordância, que liga a personagem ao que está em torno dela. Numa carta a Tchecov, datada de 10 de Setembro de 1898, Stanislavski explica que está utilizando em A Gaivota o coaxar dos sapos "exclusivamente para dar a impressão de um silêncio completo" (Roubine, 1982, p. 134).

Tragtenberg analisa o termo paisagem sonora como um recurso não-verbal que possibilita a compreensão de uma informação sem necessariamente recorrer ao uso da palavra. O autor ainda relaciona o termo com textura e timbre (cor) do som, dando ideia de sua densidade e postura em meio à cena teatral.

A ideia de paisagem sonora [...] utilizada amplamente no cinema e na música para a dança, é cada vez mais frequente na cena teatral, influenciada pelas linguagens não- verbais na busca de um descondicionamento do tempo da palavra. [...] A paisagem sonora é uma forma de textura sonora que embute a ideia de que o sentido de totalidade vai se construindo passo a passo, cena a cena, pelo espectador, [...] a estrutura básica da paisagem sonora baseia-se numa estabilidade de textura, seja através do uso de um número restrito de timbres (cores), seja pela pontuação por eventos que se repetem em ciclos regulares (2008, p. 55 e 56).

A paisagem sonora, no teatro, tem a função, como primeira impressão, situar a cena no espaço onde essa está sendo representada. Tornando-se permitida por meio de ruídos e/ou sons como efeitos sonoros, possibilitando também utilizar a música e o silêncio como reforço. Porém, após as análises de Schafer e Tragtenberg, juntamente com o exemplo de Stanislavisk, podemos perceber que a ela pode exercer uma função mais complexa, e ser um recurso que auxilia na assimilação de toda a contextualização das inter-relações dos elementos dramáticos do espetáculo.