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LYNGEN, Rendal, Orkdal, Lier

Por meio dos estudos realizados nesta pesquisa é possível concluir que o repertório sonoro pode ser um elemento cênico de grande destaque e importância para um espetáculo teatral. Por acreditar na força dessa afirmação, o grupo teatral Circo Teatro Udi Grudi foi escolhido como objeto de pesquisa, a fim de demonstrar o grande valor e espaço que esse grupo atribui ao elemento sonoro. Seus integrantes utilizam esse recurso como uma ferramenta que molda a cena de acordo com suas possibilidades, definindo uma trajetória ampla e sinuosa para o som, de maneira que este atinja todos os demais elementos da cena.

Os diversos formatos do elemento sonoro nos trabalhos do Udi Grudi mostram o quanto esse recurso cênico pode ser explorado e transformado em todos os seus aspectos. Com relação às características sonoras os repertórios do grupo variam em duração de tempo, altura de tonalidades, diferentes timbres e potência de volume. O Udi Grudi apresenta dilatado vocabulário de exploração dos quatro métodos possíveis de transformação do som, conforme referenciados no primeiro capítulo dessa dissertação.

Com relação ao formato estético visual dos instrumentos musicais e sonoros elaborados e utilizados pelos atores nos espetáculos do Udi Grudi, percebemos que a variedade desses objetos e adereços cênicos atinge alto grau de criatividade, virtuosidade e engenhosidade. Os materiais utilizados para a construção dos instrumentos musicais e sonoros do grupo transitam pelo plástico, como garrafas, copos, sacolas, pelo alumínio, como latas, placas, bacias, pelos variados tamanhos de canos de PVC, além de ladrilhos, cordas, madeiras, e todo e qualquer material alternativo do quais possam ser extraídos sons interessantes para a cena.

A exploração das trajetórias percorridas pelos repertórios sonoros dos espetáculos do Udi Grudi também merece atentos apontamentos. O som transita entre o centro e os quatro cantos do palco, de cima a baixo, e em algumas cenas se desloca por entre o público. Há momentos em que o som abrange tamanha potência que parece preencher toda a estrutura física do teatro, em outros

momentos se concentra em pequenos pontos, exigindo do público grande atenção para serem ouvidos.

As intenções dramáticas emitidas por meio do repertório sonoro também carregam bastante responsabilidade com relação à compreensão das narrativas subjetivas e fragmentadas dos espetáculos estudados. Muitas das expressividades que o som pode comunicar, refletidas por meio das teorias de Camargo no primeiro capítulo dessa dissertação, se apresentam nos fragmentos sonoros das cenas dos trabalhos do Udi Grudi. As músicas, efeitos sonoros, e mesmo os momentos de silêncio dos espetáculos, muitas vezes são responsáveis por causar no público diferentes sensações e emoções. Por meio do som os espectadores dos espetáculos do Udi Grudi podem provar os efeitos da comicidade, nostalgia, admiração, curiosidade, estranhamento, variadas experiências sensoriais e emocionais que trabalhos teatrais cômicos, leves e reflexivos como os do grupo em questão possam provocar.

Os anos de experiência, o alto nível de entrosamento entre os atores e o domínio dos objetos explorados em cena fazem com que as ações de cena realizadas por este elenco sejam realizadas com naturalidade e sabedoria. A diretora Sykes, junto com a atriz Joana e os atores, Beré, Marció e Porto, revela que a equação entre técnica de palhaço, mais a utilização de instrumentos musicais alternativos, sob uma direção objetiva, mas poética, resulta em um trabalho conciso e envolvente. Pois, se o Udi Grudi fosse apenas um grupo que realizasse apresentações musicais com instrumentos alternativos, ou um grupo teatral que somente se utilizasse da técnica do palhaço, evidentemente não acarretaria para si esse caráter particular, de identidade própria.

Dois palhaços experientes que tocam instrumentos musicais, um engenheiro acústico e também palhaço que constrói instrumentos musicais, uma cantora atriz e uma perspicaz diretora teatral optam por realizar um teatro musicado, ou um musical teatralizado. Em seus trabalhos esses inventivos integrantes optam pela magia do som como elemento central para construírem espetáculos repletos de expressividade. Trabalhos em que o som e a imagem se fundem de tal maneira que é certa a riqueza que um é capaz de oferecer ao outro. O trabalho do Circo Teatro Udi Grudi é um feliz e pertinente exemplo do que o elemento sonoro é capaz de realizar em um espetáculo cênico. Assim, é a

partir dos trabalhos desse grupo que sugiro a reflexão a respeito das diversas possibilidades de se criar um repertório sonoro para a cena teatral. Por meio do trabalho do Udi Grudi podemos perceber que o repertório sonoro pode enriquecer o espetáculo cênico por todas as vertentes que este pode percorrer. O som pode comentar uma cena, pode criticá-la, como pode também reforçar a intensidade de sua mensagem e de sua emoção.

A música em uma cena teatral, por exemplo, tem o poder de provocar no espectador os mais diversos sentimentos. Os efeitos sonoros podem esclarecer a compreensão da cena, assim como os ruídos podem confundir a leitura do espectador com relação ao que vê, tornando a cena mais subjetiva. Uma paisagem sonora pode localizar de maneira precisa o espaço em que a cena ocorre, assim como o silêncio tem o poder de dramatizar ainda mais a tensão provocada durante o fragmento de um espetáculo.

Os recursos sonoros utilizados pelos atores do Circo Teatro Udi Grudi nos mostram que em muitos momentos a emissão do som de um simples objeto de cena pode contribuir de maneira ímpar no espetáculo. Sem ter de, em algumas situações, elaborar esquemas sonoros complexos que, muitas vezes, não dão conta do recado de maneira eficaz. Por outro lado, é possível perceber também, por meio do trabalho do grupo em questão, o quanto um repertório sonoro repleto de detalhes e variações pode promover um caráter imponente e virtuoso ao espetáculo.

Os recursos técnicos sonoros, aliás, são ricos em diversidade e, consequentemente, passíveis de diversas leituras, dependendo da maneira de como o som é emitido na cena. Sejam esses recursos, acústicos ou eletrônicos, executados por meio de gravação ou ao vivo, é sugerido ao compositor do repertório sonoro um detalhado estudo de todas as questões que se irá deparar. Como vimos no primeiro capítulo dessa dissertação, conhecer previamente os equipamentos sonoros escolhidos e seus efeitos na cena pode garantir a medida necessária do som em virtude ao espetáculo. Pois, assim como qualquer outro elemento cênico, seu excesso ou carência pode prejudicar o desenvolvimento de qualquer outro recurso utilizado no trabalho.

O som é um elemento invisível, porém, ao mesmo tempo, é matéria. Por meio das teorias de Wisnik e Schafer, referenciadas nesta pesquisa, podemos

concluir o quanto o som é subjetivo, impactante e preciso. Inserir qualquer fragmento sonoro numa cena teatral é inserir uma possível leitura do espetáculo, dessa maneira, o som pode, muitas vezes, contribuir exatamente na compreensão da cena, como também desviar o foco da ideia da cena para um rumo indesejável. Contudo, o elemento sonoro pode oferecer leituras tão subjetivas que não é necessário exigir do compositor uma exatidão do efeito de determinado som na cena, mesmo porque é impossível ter essa total ciência. No entanto, ter noção não apenas dos efeitos físicos do som na cena por meio dos equipamentos utilizados, é importante também o conhecimento, mesmo que subjetivo do som e seu efeito em meio à dramaturgia do espetáculo.

Por meio das descrições dos três espetáculos do Circo Teatro Udi Grudi, assim como a análise de suas principais bases sonoras, apresentados no terceiro capítulo, pudemos perceber a precisa intenção dramática de cada som na cena. Cada som exprime uma informação, e essas informações são lançadas a fim de pescar as diversas reações de seu público. As reações são, geralmente, homogêneas, por serem sons expressivamente claros, independendo de suas intenções. Por tanto, ao vasto vocabulário sonoro apresentado nos três trabalhos do Udi Grudi se atribui a costura da dramaturgia da cena.

As expressivas ações dos atores, comumente em função da sonoridade emitida na cena, fazem com que o elemento sonoro ganhe um caráter ainda mais dramático do que sua procedência puramente sonora. O destaque dos instrumentos musicais e sonoros que compõem o cenário, sua estética visual incomum e diversificada, também atribui maior riqueza ao som sobre sua essência. A iluminação cênica também enriquece a beleza do som emitido, geralmente contribuindo na execução das músicas finais dos espetáculos. Enfim, todos os elementos cênicos utilizados nos espetáculos do Circo Teatro Udi Grudi oferecem maior vivacidade, contorno e dramaticidade para o som emitido na cena, independente do seu formato. Podemos assim concluir que o repertório sonoro, seja evidente como em O Cano, ou de maneira mais indireta como em O

Ovo e A Devolução Industrial, é o condutor da dramaturgia da cena nos

espetáculos do Circo Teatro Udi Grudi.

O propósito dessa dissertação é essencialmente refletir a respeito da importância do repertório sonoro, além de sugerir como é possível construir

repertórios destacáveis, em que estes possam até mesmo ser o condutor da dramaturgia da cena. E, a partir dessa ideia, estudar um grupo teatral tão rico quanto o Circo Teatro Udi Grudi como objeto de pesquisa, esclarece de maneira virtuosa e precisa o tema em questão.

Sei da minha parcialidade com relação à admiração e paixão que tenho com relação ao trabalho do Circo Teatro Udi Grudi, e sei também que a questão da parcialidade pode, muitas vezes, distorcer o caminho analítico de uma pesquisa acadêmica. Contudo, esses sentimentos não cresceriam em mim se não fosse à necessidade que tenho em ver trabalhos cênicos que se preocupem de maneira sincera e dedicada com o repertório sonoro da cena teatral.

Percebo também, há quase dez anos, o valor da pesquisa com relação ao elemento cênico sonoro não somente na prática, como também na teoria. O quanto é importante encontrarmos materiais sobre esse tema nas prateleiras das bibliotecas acadêmicas, nos bancos de dados e revistas virtuais ou impressas das universidades. E, a partir daí, se criar o hábito de discutir e refletir sobre as infinitas maneiras de se construir um repertório sonoro para a cena. Permito-me refletir aqui o quanto essa ação pode enriquecer um espetáculo cênico, afinal o elemento sonoro é um recurso tão rico em sua contribuição quanto qualquer outro elemento presente no universo teatral. E por fim, desejo, que este trabalho venha, de alguma forma, contribuir para que os futuros pesquisadores e estudiosos de nosso teatro busquem na sonoridade/dramaturgia da cena seus futuros objetos de pesquisa.