O espetáculo A Devolução Industrial começa com o ator Marcelo Beré no centro, ao fundo do palco, sentado sobre uma espécie de banco coberto por tecidos brancos. Seu figurino, composto pelo mesmo tecido, parece uma túnica, e compõe uma figura aparentemente mística, reforçada essa impressão por um comprido cocar de palha que cobre todo o seu rosto e ao redor de sua cabeça.
26 O espetáculo A Devolução Industrial está composto por: Joana Abreu, Luciano Porto e Marcelo
Beré, com direção de Leo Sykes. Estreou em 2010, em Brasília.
Imagem n˚ 30. Cena de A
Devolução Industrial. Fonte:
http://www.teatrando.com.br/2010/0 9/critica-devolucao-industrial.html
Uma paisagem sonora é criada, sons de galinha, cavalo, cachorro e chuva são produzidos com pequenos instrumentos como um reco-reco, um agogô de coco e até um grande instrumento popularmente conhecido como trovão: parecido com uma cuíca, porém seu cordão de mola pendurado no corpo do instrumento, ao ser chacoalhado ou em atrito com o chão, produz um perfeito som de tempestade.
Neste instante é possível visualizar o cenário por completo, ao chão um grande tapete verde como a grama e no centro um pequeno lago em formato de círculo. Ao fundo os caixotes de madeira onde Beré se encontrava sentado sobrepondo-os com seus tecidos brancos, agora descobertos e camuflados entre outros objetos do mesmo material que parecem ser instrumentos sonoros. Ao fundo uma grande roda d’água de madeira e pelos cantos alguns vasos e cestos de palha, cubos vazados de ferro e uma estrutura de metal com rodas a direita.
Porto e Joana representam cuidar desse ambiente como uma fazenda, uma casa de campo, e a cada ação que desempenham com este propósito o embalo rítmico produzido por Beré com os objetos de cena acompanha a trajetória do casal. Em meio à cadência sonora, Joana acende o fogareiro que se encontra na estrutura de metal com rodas, coloca uma panela em cima e despeja água dentro do recipiente, enquanto Porto prepara alguns legumes em uma tabua de madeira.
Uma grande sopa está sendo preparada. Os três cantam uma música popular regionalista falando a respeito do preparo da comida. Porto toca a base batendo o cabo da faca na tábua em que cortava os legumes, Beré o acompanha em um objeto circular branco pendurado ao fundo do palco que representa a lua e Joana faz de uma cesta com grãos o seu chocalho. A partir desse momento a sopa fica cozinhando durante o desvendar do espetáculo.
A máscara de palha de Beré é arrancada por Joana que, com o objeto, começa a varrer o chão do palco. Porém o rosto de Beré não é revelado e sua imagem remete ao deus hindu, Ganesh, com um tecido comprido caído sobre sua face, parecendo o rosto de um elefante.
Enquanto Joana varre e limpa o cenário, tirando inclusive vários objetos de cena, Porto senta a frente do palco com um serrote e faz dele um instrumento sonoro de timbre agudo e modulado conforme as batidas que é dada em sua
lâmina com uma baqueta. Beré o acompanha produzindo um som repicado com uma tampa de panela. Os dois atores cantam mais uma música regionalista sobre uma vida mansa na qual não vale à pena trabalhar, enquanto Joana, num ritmo bastante contrastante aos dois, limpa todo o cenário efusivamente.
A essas alturas do espetáculo a água da sopa está fervendo e o barulho produzido pelo vapor que sai de um longo bico da panela se propaga aguda e ruidosamente pelo espaço, num som contínuo e ininterrupto.
Um jogo de ações é realizado por Porto e Joana com cinco estruturas cúbicas de ferro enquanto Beré propõe o ambiente sonoro em cima das ações do casal. Com esses cubos Joana e Porto simulam uma guerra pela posse desses objetos, os empilham, constroem uma espécie de edifício. Todas as ações desse jogo cênico são acompanhadas sonoramente por palavras chaves e onomatopéias expressadas pelo casal, junto da execução sonora emitida por Beré e seus instrumentos alternativos.
Um aro de alumínio é introduzido em cena por Beré, e deste objeto é representado o surgimento da roda. A disputa pela nova invenção gera uma discussão entre Joana e Porto que saem de cena brigando pelo objeto. Beré está só em cena e, com uma cumbuca apanha e despeja água no pequeno lago do centro do palco, começa então a cair um filete d’água do alto do teatro na direção do lago onde Beré se encontra. Uma palavra chave é soada por ele: “milagre”. Esta palavra é repetida por Beré em vários momentos do espetáculo, como uma marca da figura que representa.
Do filete de água que despenca do alto, Joana e Porto têm a brilhante idéia de construir uma invenção. Os atores deslocam a roda de madeira do fundo do palco, este objeto mede em torno de três a quatro metros de diâmetro, e a colocam debaixo da queda d’água.
Imagem n˚ 31. Os atores construindo o moinho d’água. Foto de Marcelo Dischinger. Fonte: http://fotoetal.blogspot.com/2010/03 /udi-grudi-devolucao-industrial-28- 03-10.html
Com mais alguns objetos os atores montam um moinho d’água que nada mais é do que um instrumento musical movido a água. A grande roda de madeira gira com a força da água, este movimento, conectado por uma correia, impulsiona outro objeto a frente da roda, que consiste em um grande carretel de garrafas de plástico, este objeto mede em torno de cinqüenta centímetros de altura e um metro de largura. Cada garrafa soa uma tonalidade por causa da diferente quantidade de ar comprimido que há em cada uma delas. Ao girarem as garrafas, baquetas encaixadas acima delas as tocam e cada toque das baquetas nas garrafas produz o som de uma nota musical. É como se fosse a engenhoca da caixinha de música, porém com proporções gigantescas e movida a água. Os três atores deixam o palco para que o público contemple unicamente a magnífica engenhosidade sonora que acabou de ser construída. E vale lembrar ainda que o assovio do vapor da sopa fervente neste momento acompanha sonoramente o instrumento que acontece no centro do palco.
Porto entra em cena e desloca a estrutura com a panela de sopa para trás do moinho d’água, neste instante é possível perceber que a estrutura é um triciclo. Porto e Joana se olham e repetem a palavra “inventar”, mesma palavra que disseram antes de construir o moinho. Enquanto Porto pede ajuda a pessoas da platéia, que no seu todo são cinco crianças, Joana encaixa atrás da panela uma roda de bicicleta com várias colheres de sopa fixadas ao redor do aro da roda e mais uma estrutura plana e baixa atrás do triciclo, como um reboque.
A pilha de cubos de ferro que se encontrava pouco a frente do moinho foi desfeita por Porto, pelas crianças e por Joana enquanto cantavam Escravos de
Jó. Os cubos foram colocados em cima do reboque engatado no triciclo. Neste
momento é possível perceber a ideia de um trem no todo dessa estrutura. A ideia é concretizada quando Porto direciona as colheres da roda de bicicleta na direção do jato de vapor que sai da panela. A roda começa a girar movida pelo vapor e o que ouvimos é a perfeita reprodução sonora de uma "maria-fumaça".
Beré entra em cena com um instrumento bastante esquisito sobre a cabeça. Canos compridos de PVC na posição vertical conectados a longas mangueiras transparentes que alcançam o chão, o som emitido por esse instrumento é semelhante a um pífano. Joana tira o instrumento da cabeça de Beré e coloca na cabeça de Porto que está sentado sobre o triciclo como se fosse
o maquinista. As mangueiras são conectadas na estrutura do triciclo. Atrás de Porto está a panela, onde a saída de seu vapor faz a roda de colheres girar. Atrás disso está Joana que empurra para cima e para baixo garrafas de plástico adaptadas para fazer soar o instrumento sobre a cabeça de Porto. Atrás de Joana, como fosse cada uma em um vagão, estão sentadas as crianças sobre os cubos de ferro.
Por último está Beré, em pé atrás do trem manipulando garrafas de plástico assim como as de Joana, soando o mesmo timbre sonoro que o instrumento dela, porém com tonalidades diferentes.
O trem dá a partida, Porto conduz a locomotiva, Beré e Joana tocam seus instrumentos que soam semelhante a um pífano, porém com o compasso da maria-fumaça e como passageiras, as crianças. Enquanto o trem se desloca realizando voltas ao redor do palco, os atores cantam One Hundred Miles de Hedy West, música folk americana dos anos 1960, que conta sobre uma solitária viagem de trem. Na segunda estrofe os atores repetem o que cantaram na primeira, porém adaptada para a língua portuguesa.
Após a representação do surgimento do trem, a eletricidade foi representada no espetáculo por um liquidificador que bate um pouco da sopa que já está pronta. Liquidificador e Beré realizam um dueto cantando Mosca na Sopa de Raul Seixas. De alguma maneira a sonoridade das velocidades do liquidificador acompanha as tonalidades das estrofes da música cantada por Beré. Ninguém manipula os botões do liquidificador, Beré está sentado há uns três
Imagem n˚ 32. Ao lado vemos o trem puxado por Porto, atrás da roda d’água. Fonte:
http://www.flickr.com/photos/luciana fs/with/5088117807/
metros de distância do objeto com um cálice de vinho nas mãos, o ator desliza os dedos sobre a borda do cálice, emitindo o som agudo do cristal.
O fim de A Devolução Industrial e genialmente destrinchado pelos três atores tocando, com o carretel de garrafas e o exótico instrumento de canos de PVC e mangueiras, a música Águas de Março de Tom Jobim. Após o black out e os aplausos, o público é convidado pelo elenco a tomar a sopa feita durante o espetáculo.