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LYNGEN, Davik, Nes på Hedemarken

Antes de qualquer ator aparecer em cena, o espetáculo O Cano começa com um som. Semelhantes ao som de sino, batidas agudas são soadas em meio à penumbra que revela parcialmente o palco coberto por lonas azuis.

Pedaços de canos de PVC são lançados de um lado para outro, no fundo do palco, sem ainda vermos ninguém. Cada lançamento de cano é acompanhado por um som dado ao movimento aéreo do objeto. Os atores Beré, Porto e Marció aparecem de passagem em cena carregando uma comprida barra de cano, aparentemente sem fim, de um lado para o outro do palco.

No centro do palco os atores batem com pedaços grandes de cano no chão (de aproximadamente 60 cm de comprimento), e o que, em princípio, parecia uma "bateção" de canos, logo percebemos o ritmo compassado desses objetos por meio do som de seus impactos. Esses objetos também são usados como megafones, onde os atores discutem entre si num gramelô improvisado, além de cantarem com os canos.

Mais pedaços de canos de PVC entram em cena. Além dos que já se encontravam no palco os três atores aparecem carregando consigo canos de variados tamanhos e formas. No típico estilo clown, Beré, Porto e Marció realizam diversas ações cômicas com seus objetos: prendem os braços dentro dos canos, desequilibram-se por não conseguirem carregá-los, jogam os canos entre si numa

23 O espetáculo O Cano é composto por três atores: Luciano Porto, Marcelo Beré e Marcio Vieira,

divertida correria. Em meio a essas ações os atores constroem o Panzão (ver imagem no 8), um imponente instrumento musical de 4,5 m de altura feito com

canos de PVC.

Outro material entra em cena e ganha seu destaque sonoro. Beré trás consigo uma caixa de madeira com vários pedaços de ladrilho dentro. Os três atores testam o som de cada pedaço com uma baqueta e encaixam os ladrilhos numa placa de alumínio pendurada nas costas de Beré e outra nas costas de Marció (ver imagem no 20). Em fila os atores começam a cantar, tocar e dançar a famosa música folclórica mexicana La Cucaracha. Como em uma rumba, Beré é o primeiro da fila tocando chocalhos feitos de garrafas de plástico, seguido por Marció e Porto que acompanham o ritmo cantando e tocando os ladrilhos pendurados nas costas de seus colegas da frente.

Do som agudo dos pequenos ladrilhos os atores passam a explorar em cena as possibilidades sonoras de um barril de plástico. A palhaçada sonora começa quando Marció e Beré batucam um ritmo de samba no barril que está deitado no chão. De repente este barril sai rolando pelo palco. Os atores que batucavam, neste instante assustados, pensam em fugir do barril, mas este acaba rolando novamente em direção aos dois e a batucada recomeça até o barril fugir rolando novamente. O objeto é deixado sozinho em cena e um novo jogo cômico acontece. Marció entra em cena com um copinho de plástico (ver imagem no 19)

de café e um canudinho em cena. O ator faz deste objeto uma mini corneta, seu som atrai a saída de um braço de dentro do barril, como se fosse uma cobra encantada pelo som da flauta. O braço acaba agarrando Marció e o empurra para dentro do barril de onde sai Porto simultaneamente. A partir deste instante é a vez de Porto interagir com o barril. O ator deita o objeto no chão e senta em cima dele, do fundo do barril, que está virado para o público, um canudo bem do centro do objeto, por meio de um pequeno furo, começa a aparecer. Porto tenta de diversas maneiras arrancar aquele teimoso canudo que insiste em recuar e sumir para dentro do barril quando Porto tenta pegá-lo. Até que o ator tem a idéia de explodir o barril e acende uma vela que solta faíscas e a coloca no furo por onde sai o canudo. A vela apaga e nada acontece, até que o inesperado som de um rojão explode, provocando um grande susto em toda a platéia.

Após o grande susto do estouro, o som de uma paisagem sonora de tempestade é realizado em cena. Conseguimos ver apenas os objetos sonoros sendo batidos e chacoalhados para produzir o efeito, mas não quem os toca. Neste instante o grandioso Panzão é deslocado de sua posição vertical para horizontal. O som desse movimento é semelhante ao do abrir de uma grande porta velha e pesada de madeira, o que ajuda a compor o clima de suspense instaurado pela paisagem sonora de tempestade. Beré toca as primeiras notas do instrumento: uma grave introdução da 5˚ Sinfonia de Beethoven. Dessa sinistra introdução sonora, Beré transforma o ritmo de seu grave instrumento em um baião, imediatamente acompanhado por Marció que toca o agudo e suave

Ladrilhê (ver imagem no 10), posicionado do outro lado do palco. Porto entra em cena com um girassol de plástico nas mãos e os três cantam a popular cantiga brasileira Rosa Amarela. Ao final da música Porto toma para si o trombone de vara e acompanha sonoramente seus colegas na cena. Em seguida, Porto também canta o popular samba A Jardineira, de Benedito Lacerda e Humberto Porto, algumas estrofes têm as palavras trocadas, o que deixa a música mais cômica. Esta canção é acompanhada por Marció no Ladrilhê.

Os três atores iniciam a construção do Pingador. Este instrumento pode chegar até cinco metros de altura, dependendo da altura do teatro, sua forma consiste em um grande triângulo de finos e compridos canos de PVC que fica na parte superior do instrumento, sua largura consta em torno de quatro metros. Este triângulo é sustentado por três compridas varas, também de cano, cada uma posicionada em uma ponta do triângulo. Essas barras de sustentação, fixadas em cena por um esquema de encaixe, é que determinam a altura do instrumento. Sua finalidade é gotejar água compassada sobre mini tambores (ver imagem no 18)

que serão posicionados no chão. Cada goteira pinga em um tempo rítmico sobre os tamborzinhos. Seu som acompanhará os instantes finais do espetáculo. A construção desse instrumento estimula o riso do espectador devido às ações típicas de clown. O jogo cômico que se destaca nesta cena são as palavras ditas pelos atores “Tá alto!” e “Tá Baixo!” para definir a altura do instrumento. Na conclusão da construção, os atores percebem que começa a pingar água no palco e logo aproveitam a oportunidade para cantar a famosa canção americana

O barril de plástico volta a aparecer em cena. Trazido por Marció, o ator faz deste objeto um perfeito contrabaixo anexando a ele uma corda e um bastão de madeira. Acompanhado por um gotejar sincronizado do Pingador sobre uma espécie de atabaque de cano, Marció toca um ritmo de jazz em seu instrumento que se chama Negão (ver imagem no 16). Beré entra em cena emitindo o som de

um saco plástico cheio de ar, que se assemelha perfeitamente ao som do chimbal de uma bateria, proporcionando um acompanhamento incrível ao grave som de contrabaixo realizado por Marció.

Em meio a esse ritmo, Porto entra em cena e posiciona o Panzinho (ver imagem n˚ 9) no centro do palco. Marció desloca-se até o Ladrilhê e Beré direciona-se ao Panzão, neste instante os três atores começam a execução poética e hipnotizante de O Trenzinho Caipira de Vila Lobos. Além da música executada, o que até então na grande maioria das cenas ouviam-se risos, aplausos e comentários de crianças, o som que acompanha os atores neste instante é o mais absoluto silêncio.

Marció e Beré, ainda embalados pelo delicado e sublime ambiente instaurado por causa da execução de Trenzinho Caipira, posicionam os mini tambores debaixo das goteiras do Pingador. Porto entra em cena com tochas acesas e faz um número de malabarismo com as tochas, onde apenas essas emitem luz no especo. O ator deixa o palco e coloca as tochas dentro de um recipiente de alumínio. O calor do fogo das tochas faz com que gire a Engenheira, um instrumento que consiste em uma bacia de alumínio com várias pequenas placas de ferro penduradas em sua borda. A bacia fica virada com a abertura para baixo a mais ou menos meio metro do chão, o calor do fogo faz com que ela gire, provocando assim atrito entre as plaquinhas de ferro, emitindo um som suave e agudo, semelhante a um sino dos ventos. E dessa maneira os atores finalizam o espetáculo O Cano, assim como em seu início, apenas o som ostentando seu espaço na cena.