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LYNGEN, TRONDENES, Kragerø

Ao ingressar no mestrado, em março de 2009, formulei o projeto de dissertação tendo como base aprofundar questões a respeito do repertório sonoro da cena teatral que foram levantadas em minha monografia, realizada em 2007. Uma dessas questões refere-se às possibilidades do repertório sonoro como dramaturgia da cena. Para avançar nesta questão optei por continuar pesquisando o Circo Teatro Udi Grudi. Desta vez, ao invés de abordar apenas um de seus espetáculos como objeto de estudo, escolhi três trabalhos, com o intuito de realizar estudos paralelos, e consequentemente analisar novas possibilidades de repertório sonoro como dramaturgia da cena. Diante desta questão deparei-me com a necessidade de realizar um novo encontro com o grupo, a fim de saber de suas realizações depois de 2007, assim como colocar para eles meus novos questionamentos.

Entre os dias 20 e 23 de maio de 2010 encontrei-me novamente com Sykes, Porto, Beré e Marció. Pousei em solo brasiliense às 13h, às 14:30h cheguei na pousada em que havia feito reserva e às 15h estava na casa de Sykes e Beré, conforme combinei com Sykes, pois às 17h ela teria outro

compromisso. Por coincidência, ou sorte, a pousada onde me hospedei ficava há duas quadras da casa de Sykes e Beré. Realizei a entrevista apenas com a diretora do grupo, pois ela não iria acompanhar-nos no dia seguinte na viagem à Jataí, interior de Goiás, da qual fui convidada a participar pela própria equipe.

Dia 21 de maio, saímos de Brasília às 15h, e o que seria um trajeto de seis horas, teve fim às 1h da manhã com a chegada em Jataí. Engarrafamento devido a acidentes na estrada dentre outros imprevistos nos fizeram sofrer este atraso de quatro horas. Mesmo cansada, o atraso não me atingiu como um fator negativo, afinal essa foi a primeira vez em que entrei em contato com Beré, Porto e Marció sem ser num contexto de entrevista, ou assistindo a um ensaio ou apresentação. Esta foi uma grande oportunidade de conhecê-los além da condição de objeto de pesquisa. No dia seguinte os acompanhei desde o descarregamento de instrumentos musicais e cenários até a montagem dos mesmos para a apresentação. Esta apresentação encontrava-se ligeiramente fora dos padrões habituais em que Circo Teatro Udi Grudi costuma se apresentar. Tratava-se de um evento em um hotel proposto pela Receita Federal de Jataí para seus funcionários. O coordenador do evento, ao esclarecer sua ideia a Beré, tinha a intenção de propor a apresentação de um espetáculo teatral que, além de servir de entretenimento aos seus funcionários, os fizessem perceber também o quanto é valioso e produtivo o trabalho realizado por si mesmo. O que os três integrantes realizaram diante desta proposta, foi uma apresentação na qual eles se comunicavam diretamente com a platéia, conversando com eles. Entre essas rápidas conversas, das quais também mostravam os instrumentos musicais e contavam como foram construídos, tocavam algumas músicas de seus espetáculos. Ao final da apresentação os integrantes convidavam parte do público e os ensinavam a tocar alguns instrumentos, realizando uma grande interação com a platéia. O público ficou encantado com o trabalho de Beré, Porto e Marció, e o coordenador do evento extremamente satisfeito com o resultado. Mesmo sendo uma apresentação fora dos moldes do Circo Teatro Udi Grudi foi possível novamente entrar em contato com seu trabalho, e poder tocar e analisar todos os instrumentos musicais construídos por Marció. Pude ver e experimentar instrumentos que ainda não existiam em 2007, além de ter a possibilidade de

perguntar a Marció sobre qualquer dúvida que tivesse a respeito desses instrumentos musicais.

No período da noite, ainda antes do jantar, realizei uma entrevista com os três atores. No dia seguinte, após o almoço, retornamos a Brasília e desta vez tivemos três horas de atraso na estrada. Imprevistos sempre acontecem, o importante é que consegui concluir meu trabalho em Brasília. Ainda, como desfecho desta pesquisa de campo, de Brasília fui para São Paulo pesquisar material teórico em bibliotecas universitárias e mais uma vez contei com a sorte. O Circo Teatro Udi Grudi apresentou no dia 07 de junho o espetáculo A

Devolução Industrial em São Paulo, na sala Crisantempo na Vila Madalena,

sendo este o único trabalho que eu ainda não havia visto do grupo. No último dia que passei em São Paulo, nessa viagem, pude assistir o mais recente trabalho do Udi Grudi. A oportunidade possibilitou não apenas a inclusão deste espetáculo como análise na dissertação, como também, e acima de tudo, a apreciação de mais um trabalho realizado por este grupo.

2.3 OS ATORES/MÚSICOS: uma somatória de conhecimentos

Os espetáculos do Circo Teatro Udi Grudi, mesmo sem adotar a classificação de teatro para o público infantil, são trabalhos que atraem fortemente a atenção deste público. Nas apresentações de seus trabalhos as crianças geralmente estão presentes, ainda que sem ser esta a faixa etária de maior parte do seu público. Um dos fatores atrativos do Udi Grudi ao público infantil é a exploração da técnica de clown como trabalho de ator. Esta linguagem atraia os seus integrantes antes mesmo da criação do grupo, como foi o caso de Beré e Porto. Os atores praticaram a arte do circo, estudando diversas vertentes que esta arte pode oferecer, desde o malabarismo, o equilibrismo e, presente até os dias atuais, a técnica de interpretação do palhaço.

Gorgônio e Rapadura foram dois palhaços criados por Beré e Porto, respectivamente, no início da década de oitenta, e se apresentavam nas ruas de Brasília antes da formação do Circo Teatro Udi Grudi. Estes palhaços adotavam o uso de suspensórios, calças largas e terno xadrez. Eles também tocavam

instrumentos convencionais em cenas de palhaço como acordeom, violão e cavaquinho. Enquanto Beré e Proto atuavam como palhaços, durante a década de oitenta Marció construía sua carreira como músico, em Brasília, em grupos como o Liga-Tripa e o Músicas-à-Tentativa.

O estudo e construção de instrumentos musicais com materiais alternativos de Marció tiveram início quase duas décadas antes da estréia de O Cano. Em 1980 Marció, que tem formação em engenharia elétrica pela UnB e é autodidata em engenharia acústica, construiu seu primeiro instrumento musical, o Marimbau. Este instrumento é utilizado ainda nos dias de hoje em O Ovo. Originalmente o

Marimbau era uma estrutura feita com quatro pernas de finas varas de ferro que

apoiavam uma bacia de alumínio e um berimbau na posição horizontal. Sua estrutura permaneceu a mesma, porém a aquisição de uma garrafa de plástico azul em uma das pontas do berimbau atribuiu ao instrumento certo formato de bode, assim, em O Ovo, o instrumento ganhou também um novo nome, o Burrito.

Imagem n˚ 2 – Marimbau ou Jirimum. Foto de Marcelo Dischinger em O

Marció relatou20 que tanto o Marimbau, quanto os diversos outros

instrumentos musicais que ele criou posteriormente são variações do instrumental musical kalimba.21 No ano de 1998, quando estreou o espetáculo O Cano, Marció

já havia desenvolvido uma série de instrumentos musicais, e alguns deles foram criados especialmente para este trabalho. Marció já havia experienciado a arte teatral como ator em trabalhos de curta existência em Brasília, durante a década de oitenta, porém sempre como ator-músico. Foi por meio do espetáculo O Cano que Marció experimentou, pela primeira vez, a arte teatral como ator num caráter profissional, sem deixar, neste trabalho também, de exercer seu ofício como músico.

A figura do palhaço dos atores do Circo Teatro Udi Grudi passou por uma metamorfose após a entrada de Sykes no grupo, em 1996. A diretora trouxe para os membros do grupo outra proposição clownesca. Marcelo Beré, por exemplo, em O Cano, apresenta um clown aparentemente sério, o que contrasta com a comicidade provocada pelo exagero de seu figurino. Neste espetáculo Beré veste um terno branco, com uma gravata borboleta preta em seu pescoço, uma calça preta e um tênis branco bastante grande e volumoso. Seu cabelo é que dá o toque final na composição de sua figura, de cor originalmente loira, Beré arma todo seu cabelo para cima como se tivesse levado um choque elétrico.

Imagens n˚ 3 e 4 – Beré em O Cano. Fotos de acervo do grupo. Fonte: http://www.circoudi grudi.com.br/fotosc ano.html

20 Marcio Vieira, entrevista realizada por Morgana Fernandes Martins em maio de 2010, no hotel

que sediou a apresentação do Circo Teatro Udi Grudi, em Jataí / GO.

21 A Kalimba é um instrumento musical de origem africana. Sua estrutura corresponde a uma caixa

de madeira com um buraco circular no centro, no topo da caixa são fixadas teclas de metal das quais, com o toque de empurrar para baixo essas teclas, elas emitem a sonoridade do instrumento. Cada tecla emite uma nota musical e todas são organizadas em escala musical. Seus formatos e tamanhos podem ser diversamente variados.

Como podemos ver nas imagens, seu rosto forma uma máscara bastante expressiva, com seus olhos azuis arregalados atrás dos óculos com armação preta. É perceptível que a expressão de seu rosto é uma mistura de sisudez com curiosidade. Este clown nos remete a uma dubiedade, se estamos diante de um cientista maluco ou um garçom maluco. No trabalho de Sykes se percebe que ela procurou englobar inúmeras possibilidades de clowns, pois mesmo que esta técnica predomine em todos os espetáculos do grupo, em cada um deles é perceptível a exploração de diferentes figuras clownescas.

No espetáculo O Ovo, Beré veste uma capa feita de uma longa manta coberta por pequenos retalhos pendurados, por baixo da capa usa uma velha camiseta branca e uma calça azul bastante surrada. Como chapéu usa uma espécie de velha cartola branca, sem aba e com duas garrafas de plástico verde presas horizontalmente, uma em cada lado do chapéu.

Imagem n˚ 5 – Beré em O Ovo. Foto de Marcelo Dischinger em O Ovo. Fonte: http://www.circoudigrudi.com.br/fotosovo.html

Inicialmente sua figura aparece de joelhos, como suas pernas não estão à vista do público, sua imagem causa a impressão de ser um anão. Em uma cena do espetáculo, Beré levanta-se e atinge sua estatura original. Independente da estatura do clown de Beré na cena de O Ovo, sua figura nos remete a um mendigo, ou um morador de rua. Diante o contexto da narrativa do espetáculo,

visualizando também o cenário e figurinos, as três personagens sugerem serem moradores de rua.

Imagem n˚ 6 – Marció, Porto e Beré em O Ovo. Foto de Marcelo Dischinger. Fonte: http://www.circoudigrudi.com.br/fotosovo.html

Em A Devolução Industrial, Beré adota a figura de uma espécie de ser místico, seu figurino é composto por vários tecidos sobrepostos, formando uma espécie de vestido. Neste espetáculo Beré usa uma longa máscara feita com palha que cobre todo seu rosto e envolve a esfera de sua cabeça.

Imagem n˚7 – Beré em A Devolução Industrial. Foto de Débora Amorim. Fonte: http://www.circoudigrudi.com.br/fotosdevo.html

Estes exemplos das figuras de Beré, nos três espetáculos estudados para esta dissertação, nos mostra que há um clown para cada um deles. Essa é uma característica perceptível na direção de Sykes. A diretora aproveita a bagagem de palhaço que seu elenco possui, mas ao invés de mantê-los com a figura do palhaço tradicional de circo, ela explora diferentes indumentárias e, conseqüentemente, diferentes ações para cada um desses clowns.

Cada um dos trabalhos do Circo Teatro Udi Grudi apresenta um universo narrativo, mesmo sem haver uma história cronológica contada durante as cenas. As ações das personagens são estabelecidas por meio de situações criadas por esses clowns diante do contexto da narrativa dos espetáculos. As situações são exploradas durante o processo de ensaios por meio de jogos e improvisações do atores propostos por Sykes. Ao observar o material oferecido por seu elenco, a diretora seleciona e organiza esse material e os coloca como cenas de seus espetáculos.

A mais nova integrante do grupo, Joana Abreu, cuja carreira também se pautou pela música, mais especificamente pelo canto, explora atualmente, em A

Devolução Industrial, a linguagem do clown no teatro. A cantora e atriz teve

passagem por diversos projetos cênicos nas duas últimas décadas em Brasília, porém Sykes revela na entrevista deste ano, o quanto a linguagem do clown ainda é algo novo para ela.

Devido às práticas artísticas dos integrantes do grupo, a música está tão presente no seu trabalho quanto o teatro. E até mesmo Sykes, que nunca estudou música, soube administrar perfeitamente a qualidade musical de seu elenco nos espetáculos. Durante a primeira entrevista que realizei com o grupo, em 2007, perguntei a Sykes se o fato de ela não ter estudado música alguma vez a atrapalhou em seu processo de direção. A diretora afirmou que nunca lhe faltou sensibilidade sonora para poder lidar com o material musical e teatral do grupo. E acrescentou que os únicos momentos em que a música atrapalhava ocorriam apenas no tempo gasto por Marció para afinar os instrumentos.