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Com a abertura democrática após o fim do Estado Novo, a grande imprensa passou a atuar com maior liberdade, o que contribuiu para que algumas oposições, antes reprimidas, se organizassem. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), entretanto, foi recolocado na ilegalidade já em 1947. Os Mesquita, após voltarem à direção do jornal, articularam a linha editorial em franca oposição aos projetos

83 Notas e Informações: Os engenheiros e o momento nacional O Estado de São Paulo. 18 jan.1963.

que identificavam com o “getulismo”. Essa oposição aproximou a linha editorial do OESP do recém-fundado Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda (1914-1977), amigo pessoal de Mesquita Filho, governador da Guanabara (1960-1965) e membro da União Democrática Nacional (UDN)84. Tratava-se de um jornal com baixa circulação, restrita ao Rio de Janeiro, mas que encontrava ecos em órgãos da grande imprensa85.

A proximidade entre os representantes do OESP e o governador da Guanabara não significava um apoio irrestrito à UDN. A perda da identidade ideológica dos partidos fazia com que muitas vezes o jornal criticasse os políticos liberais da UDN. Por exemplo, na tentativa de fortalecer a figura de Carlos Lacerda, como o grande líder do partido e candidato à presidência, o jornal criticava o grupo udenista da “bossa nova”86. Esses políticos, segundo o periódico paulista, apesar de apresentarem o programa liberal do partido nas campanhas eleitorais, quando eleitos defendiam o projeto político identificado com as reformas de base, ou seja, o “getulismo” do presidente João Goulart. Em novembro de 1964, no início da convenção da UDN, o jornal publicou em editorial:

São Paulo recebe hoje, vibrante de fervor cívico e de fé democrática, um grande partido e um grande líder. Não um partido qualquer, como esses que a politicalha transformou em instrumentos de defesa de interesses pessoais, mesquinhos e até indecorosos; não um “líder” qualquer como esses artificialmente criados por situações efêmeras que a simples esperteza é capaz de aproveitar [...] A União Democrática Nacional é indiscutivelmente o único partido político brasileiro à altura dos grandes partidos do mundo democrático [...] A Revolução de Março é obra sua ou melhor dizendo, é a coroação da sua obra. [...] O Sr. Carlos Lacerda é indiscutivelmente, por sua vez, o único líder político

84 “A União Democrática Nacional era antigetulista desde a sua origem, frequentemente apelando para

intervenções militares e golpes políticos para inviabilizar os governos identificados com o getulismo. Agregava, sobretudo, o voto liberal-conservador das camadas médias urbanas” NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014. p.27.

85 Cf. LAURENZA, Ana M. Batalhas em Letra de Forma: Chatô, Wainer e Lacerda. In: LUCA, Tania

Regina; MARTINS, Ana Luiza. (Org.). História da Imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2008. p. 179-205.

86 “O Senhor Seixas Dória, membro da UDN, não teria ascendido, certamente, à governança de Sergipe

se, nos seus comícios, houvesse posto de parte as normas preconizadas e defendidas pelo seu partido [...] como o presidente da República e outras figuras da política brasileira, pertencem a uma fauna, hoje intitulada de ‘bossa nova’, que não sente a menor relutância em se apresentar ao eleitorado com os juramentos e as promessas mais concordes com a respectiva linha partidária, e trasmudarem-se depois de eleitos nos mais inconsequentes e irresponsáveis trânsfugas”. Notas e Informações: Ainda a reunião da Bahia. O Estado de São Paulo. 04 mar.1964

brasileiro à altura dos grandes líderes autênticos do mundo contemporâneo. Inteligente, culto, jovem e corajoso. 87

Segundo Figueiredo Filho, a relação entre o jornal e o partido era pragmática, “a UDN seria o meio pelo qual o jornal faria chegar a Brasília o seu projeto para o Brasil, na pessoa de Lacerda”. Tratava-se, então, mais de desqualificar os outros partidos e mesmo os outros políticos da UDN, afim de fortalecer a figura de Lacerda. Por isso os outros partidos, comprometidos com o projeto desenvolvimentista, eram automaticamente identificados com o “getulismo”, com a corrupção e com o comunismo, o grande inimigo das liberdades individuais para OESP.88

O jornal se opôs aos governos do Partido Social Democrático (PSD) e do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), entre 1945 e 1964. Mas essa oposição se concentrava mais no desgaste político do que no debate entre os projetos liberal e desenvolvimentista, por isso as denúncias de corrupção nas empresas estatais eram destacadas pelo jornal. Para isso, o periódico generalizava os partidos e os confundia com a esquerda brasileira para associar todos com a corrupção “comuno-nacionalista”. A Petrobrás era na época foco do jornal em razão da corrupção:

Coube agora a vez à Petrobras. E os autores da bandalheira são a fina flor do comuno-nacionalismo. Pela atitude que em face de tal escândalo assumiu o presidente da República, a uma só conclusão a Nação pode chegar: a de que desta vez ninguém escapa – nem o presidente do grande polvo, nem a totalidade dos diretores que o cercavam. 89

No final de 1963 e no começo de 1964, a oposição se transformou em conspiração. O governo de João Goulart (1961-1964) era encarado como uma ameaça à propriedade privada e à economia de mercado. Assim sendo, junto com a imprensa carioca, OESP se uniu à chamada “Rede da Democracia”, a articulação

87 Notas e Informações: Um grande partido, um grande líder. O Estado de São Paulo. 07 nov.1964.

p.3.

88 FIGUEIREDO FILHO, C. R. A escola superior de guerra e o jornal O Estado de São Paulo na

passagem do regime democrático para o regime militar. São Paulo, 2001. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001. p.77.

golpista da grande imprensa liberal-conservadora. 90 Segundo Marcos Napolitano, “a imprensa preparou o clima para que os golpistas de todos os tipos, tamanhos e matizes se sentissem mais amparados pela opinião pública ou, ao menos, pela ‘opinião publicada’”.91 Em 1962, Mesquita Filho foi convidado pelos militares a opinar sobre a conspiração e escreveu um roteiro a ser seguido após o golpe militar, que se efetivou em abril de 1964.92 Nesse plano, após o “desmonte das posições comunistas nos vários setores do Estado”, o poder seria devolvido aos civis, que conduziriam, “o grande líder”, Carlos Lacerda ao poder que, enfim, realizaria o projeto liberal do jornal.93

O jornal era radicalmente contrário à legalização do PCB, identificando os comunistas como os inimigos dos direitos individuais defendidos pelo OESP. Assim como o paraguaio La Tribuna, os representantes do OESP eram anticomunistas declarados e, desde os anos trinta, se posicionavam pela “defesa da civilização ocidental contra a barbárie moscovita”. 94 Na década de sessenta, o jornal se esforçou por associar as esquerdas a João Goulart, já que não distinguia as nuances existentes entre a esquerda brasileira. O seu objetivo era, suscitar em seu leitor o medo de uma suposta revolução comunista em curso no Brasil e, assim, construir a tese do “golpe preventivo” que garantiria a “ordem”. Voltados para o desgaste do projeto reformista na campanha de desestabilização de Goulart, OESP acreditava que, ao enfraquecer a mobilização social – encarada como ameaçava à propriedade privada -, defendia os interesses dos industriais e latifundiários

90 Júlio de Mesquita Filho na “Rede da Democracia”. O Jornal. 01 nov.1963. Ver também:

CARVALHO, Aloysio Castelo de. A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e O Jornal do Brasil

na queda do governo Goulart (1961-1964). Niterói: Editora da UFF/NitPress, 2010. Ver também: CHAMMAS, Eduardo Zayat. A ditadura militar e a grande imprensa: os editoriais do Jornal do

Brasil e do Correio da Manhã entre 1964 e 1968. São Paulo, 2012. Dissertação (Mestrado em História Social) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.

91 NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014.

p.46-47.

92 O “Roteiro da Revolução” circulou entre os civis e militares que participavam da conspiração desde

1962. Foi publicado pelo OESP dias após o golpe militar, em 12 de abril de 1964. Cinco anos mais tarde foi compilado no livro citado junto a outros artigos de autoria de Mesquita Filho. MESQUITA FILHO, Júlio de. Política e Cultura. São Paulo: Martins, 1969. p.120-127.

93 Notas e Informações: Os postulados da revolução. O Estado de São Paulo. 21 abr. 1964. p.3. 94 CAPELATO, Maria Helena; PRADO Maria Lígia. O Bravo Matutino: imprensa e ideologia no

paulistas, além dos princípios liberais que o norteavam95.

A proximidade entre OESP e UDN, o seu anticomunismo e o seu antirreformismo fizeram com que o jornal participasse ativamente da campanha de desestabilização e da conspiração que culminou com o golpe militar que derrubou João Goulart em abril de 1964. O empenho em identificar o seu projeto liberal com o governador da Guanabara tinha por fundamento a ideia de que, após as Forças Armadas garantirem a “ordem legal”, finalmente Lacerda levaria o projeto do

OESP para todo o Brasil.

Figura 1.3: Sede do jornal O Estado de São Paulo entre 1951 e 1979

Fonte: Acervo Estadão96

95 “Nada disso, porém, ilude seja quem for, nem convencerá a opinião pública do País de que a

concessão de direitos políticos aos bolcheviques será a melhor maneira de os conter em suas arremetidas contra o regime”. Cf. Notas e Informações: O comunismo e a constituição. O Estado de

São Paulo. 14 fev. 1964. p.3.

96 ACERVO ESTADÃO. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br>. Acesso em: fevereiro de