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Em janeiro de 1963, o presidente João Goulart saiu vitorioso no plebiscito sobre a forma de governo. Após a breve experiência parlamentarista (1961-1963), o país voltava ao presidencialismo. Para as esquerdas, a realização das reformas de base ficava mais próxima; para o jornal OESP, o país voltava à ditadura. Em editorial, afirmou: “Estamos em pleno regime do ‘Estado Novo’. Voltamos a viver sob os processos de governo que acabaram por levar as Forças Armadas a derrubar o ditador em 29 de outubro de 1945”. 152 Em nota, na mesma página, o periódico novamente defendeu a construção da usina de Sete Quedas. Destacou as qualidades técnicas do projeto de Marcondes Ferraz e, considerou que a construção da hidrelétrica, “não apresentará problemas difíceis a resolver”. Mais uma vez, o litígio fronteiriço com o Paraguai não apareceu nas páginas de OESP. 153

Fortalecido com a vitória no plebiscito, Goulart passou a acelerar o seu projeto reformista ao mesmo tempo em que tentava controlar a crise econômica.154 Quando anunciadas, o jornal paulista apoiou as medidas do “Plano Trienal”,

152 Notas e Informações: As consequências de uma fraude. O Estado de São Paulo. 08 jan.1963. p.3. 153 Notas e Informações: O significado da usina de Sete Quedas - II. O Estado de São Paulo. 08

jan.1963. p.3.

154 NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014.

elaboradas pelos ministros San Tiago Dantas e Celso Furtado.155 Conforme os resultados do plano não mostravam a sua eficácia, OESP passou a acusar o “caudilho de São Borja”, como o jornal se referia a Goulart, de incitar as “massas operárias” à guerra. Construindo um estado de pânico em seus editoriais, o jornal moldava a imagem de um presidente nas mãos do “polvo comunista” que estendia os seus tentáculos sobre toda a sociedade:

O que se vem passando de Norte a Sul do território nacional não tem precedentes, ultrapassa tudo quanto a imaginação possa conceber. O País vai à guerra. Ninguém responde já pelo que venha a acontecer amanhã. O sentimento de indisciplina que o Sr. João Goulart instilou nas parcelas das massas operárias que obedecem às suas ordens passou a contaminar todas as demais frações da nacionalidade. 156

Com o fracasso do seu plano econômico, Goulart passou a defender decididamente as reformas de base como o seu projeto nacional. A conspiração civil-militar, da qual o jornal OESP fazia parte, passou também à ofensiva contra o presidente. Os liberais acusavam Goulart de fazer uso propagandístico das reformas para incitar os movimentos sociais, que o apoiavam, a instalarem uma “república sindicalista”. 157 Foi nessa conjuntura que Goulart apresentou o projeto da Hidrelétrica de Sete Quedas como um símbolo do sucesso de seu governo. Assim como JK fizera com Furnas, Jango pretendia marcar o seu governo com uma grande e impactante obra no setor elétrico, sob a batuta do Estado, estratégica para a industrialização. Em seu discurso no dia da independência do Brasil, Goulart mobilizou a identidade nacional para associar a usina hidrelétrica ao seu projeto:

Na data de nossa independência, quero dizer que entendo como presidente da República, que a independência econômica do País depende muito da produção de energia elétrica. [...] Daí constituir uma das preocupações maiores do atual governo, a grande usina de Sete Quedas [...] o maior orgulho do Brasil [...] Na Rússia, a usina de Bratsk terá 4 milhões e 500 mil kW. É atualmente a maior usina em funcionamento, no mundo. Mas será a maior até o momento em que não

155 Notas e Informações: O plano financeiro e as indecisões do Sr. Jango Goulart. O Estado de São

Paulo. 21 fev.1963. p.3

156 Notas e Informações: Em plena ditadura. O Estado de São Paulo. 05 set.1963. p.3.

157 FIGUEIREDO FILHO, C. R. A escola superior de guerra e o jornal O Estado de São Paulo na

passagem do regime democrático para o regime militar. São Paulo, 2001. Dissertação (Mestrado em

História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001. p.135.

estiver concluída Sete Quedas, pois então nós, brasileiros, vamo-nos orgulhar desta primazia, produzindo 10 milhões de kW, em Sete Quedas. Se Deus quiser, iniciaremos a construção ainda este ano. 158 Em seu discurso, o presidente João Goulart reforçou a grandiosidade da usina de Sete Quedas, um motivo de “orgulho” nacional. A comparação com a Rússia fortalecia ainda mais a imagem do projeto, pois a nação conquistaria um posto ocupado por uma grande potência industrial. A recuperação do projeto hidrelétrico pelo presidente o colocou, mais uma vez, no debate público.

Como vimos, o caso dos Saltos havia provocado fortes reações na imprensa paraguaia desde 1962, quando o litígio fronteiriço foi recuperado. Elas se intensificaram após o discurso de Jango em setembro de 1963. A partir desse momento, a grande imprensa brasileira passou a cobrir com maior interesse o conflito fronteiriço. No mesmo mês, OESP publicou um artigo sobre a viagem do Ministro de Minas e Energia na administração Goulart, Oliveira Brito, ao Paraguai. O jornal considerou os protestos paraguaios como “a primeira, para não dizer a maior e única, dificuldade a ser vencida” para que o projeto avançasse:

Avançar cautelosamente num terreno minado por desconfianças não foi fácil. O governo e o povo paraguaio estão sensibilizados pelo problema dos limites, recusam-se a admitir que o aproveitamento de Sete Quedas não implica necessariamente na (sic) abertura de um tema explosivo [...] o Paraguai, teimando na revisão de fronteira, sustenta que o domínio comum abrange todo o salto de Sete Quedas. 159

Em outubro de 1963, OESP publicou um pronunciamento de Oliveira Brito. O ministro reconheceu que faltou ao Brasil o “cuidado de uma palavra de esclarecimento ao governo paraguaio” e que “há soluções que dependem de acordo entre os dois países”. O ministro, apesar de considerar os protestos “naturais”, reiterava a posição do Estado brasileiro de não discutir a questão dos limites, que considerava “irretratável”. 160

Oliveira Brito exaltou a experiência brasileira na construção de usinas

158 João Goulart fala à Nação no dia da Pátria. O Estado de São Paulo. 08 set.1963. p.9.

159 Boas perspectivas para o acordo em torno de Sete Quedas O Estado de São Paulo. 05 set.1963. p.9. 160 Sete Quedas: Surgem divergências entre Paraguai e Brasil. O Estado de São Paulo. 22 out.1963.

hidrelétricas, mas reconheceu a capacidade do país vizinho, “apesar” de os paraguaios estarem projetando “somente agora” suas primeiras obras hidrelétricas. Evitando aprofundar o conflito em torno do litígio fronteiriço na região, o ministro afirmou que os paraguaios eram um “povo inteligente, patriota e muito consciente de seus deveres e responsabilidades”, valores que garantiriam para Brito seu lugar “ombro a ombro” com as equipes brasileiras, que possuíam “maior experiência”. Mesmo um ministro do governo reformista de João Goulart reforçava a imagem do Brasil como tecnologicamente superior ao Paraguai, que possuía “engenheiros formados em nossas universidades”. 161 Em outras palavras, ainda que o Paraguai fosse incluído na perspectiva do ministro, a relação com o Brasil permanecia profundamente desigual.

A diplomacia brasileira já debatia, em novembro de 1963, os obstáculos que o governo paraguaio criaria caso o Brasil insistisse em um projeto unilateral. Em carta enviada pelo embaixador Mario Palmério ao chanceler Araújo Castro, a falta de afinidade ideológica entre a ditadura de Stroessner e o governo de João Goulart foi citada como um exemplo de entrave que o Paraguai estaria utilizando para adiar o projeto hidrelétrico. 162

Ainda em novembro, OESP anunciou a disposição de João Goulart em visitar o Paraguai para se encontrar com Stroessner e “acertar medidas para a construção da usina de Sete Quedas”.163 Para o jornal, porém, o país vizinho ainda era governado por um “tiranete” e a interpretação de que os Saltos pertenciam exclusivamente ao Brasil continuava sendo vinculada pelo OESP. Como veremos, Marcondes Ferraz e OESP sustentaram essa posição como forma de se opor aos entendimentos alcançados entre Goulart e Stroessner no começo de 1964 para, assim, contribuir para a desestabilização política do “caudilho de São Borja”.

No segundo semestre de 1963, a campanha de desestabilização de João

161 Sete Quedas: Surgem divergências entre Paraguai e Brasil. O Estado de São Paulo. 22 out.1963.

p. 8.

162 Mário de Ascensão Palmério a João Augusto de Araújo Castro, ofício, Assunção, 26.11.1963,

AHIBR, caixa 6. apud CERVO, Amado Luiz. Relações Internacionais da América Latina: velhos e

novos paradigmas. Brasília: FUNAG; IBRI, 2001. p.214.

Goulart, empreendida também pelo OESP, concentrou-se em outros temas, como a política externa brasileira. No início da década de 1960, por meio da Política Externa Independente (PEI), o Itamaraty buscou maior autonomia em relação aos Estados Unidos e orientou a sua política visando à abertura do país como meio de se projetar internacionalmente.164 OESP, representante dos interesses dos industriais e grandes proprietários de terras paulistas ligados ao capital internacional, defendia o alinhamento diplomático e geopolítico ao bloco ocidental, liderado pelos Estados Unidos, que, como vimos, representava os princípios liberais defendidos pelo jornal. Nesse sentido, já em fevereiro de 1963,

OESP sustentava que “só há um caminho para a nossa política externa e o mesmo o leva a Washington”. 165

Em setembro, o Marechal Tito, presidente da Iugoslávia, realizou uma visita oficial ao Brasil. Quando o Itamaraty confirmou a viagem, OESP publicou um editorial que começava em tom alarmista: “do plano de ação revolucionária [...] cujo objetivo é a implantação no País de um regime totalitário de esquerda, consta como uma de suas etapas principais, a recepção, que pretendem grandiosa, do ditador Tito da Iugoslávia”.166 O jornal, que se posicionava contrariamente à Política Externa Independente, interpretou que a visita do “ditador balcânico” representava “o rompimento do nosso país com os Estados Unidos e, consequentemente, com todas as demais nações que participam da defesa do Mundo Ocidental contra uma eventual ofensiva dos países subjugados por Moscou”. 167 Como era de se esperar, o periódico, que construía a tese de que o “caudilho de São Borja” preparava um golpe, utilizou a política externa para associar Goulart ao “comunismo totalitário”, contribuindo para o desgaste político do presidente, a fim de defender a perspectiva de “absoluta adesão ao bloco ocidental”. 168

164 PINHEIRO, Letícia. O Brasil no mundo. In: GOMES, Ângela C. (org.). Olhando para dentro

1930-1964. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

165 Notas e Informações: Rumos novos?. O Estado de São Paulo. 05 fev.1963. p.3.

166 Notas e Informações: Um acinte ao sentimento nacional. O Estado de São Paulo. 01 set.1963. p.3. 167 Notas e Informações: Palavras de Jango Goulart a Tito. O Estado de São Paulo. 21 set.1963. p.3. 168 MESQUITA FILHO, Júlio de. Política e Cultura. São Paulo: Martins, 1969. p.125.

A questão de Sete Quedas também foi politizada pelo jornal que, imerso na ideologia da Guerra Fria, usou o interesse dos engenheiros soviéticos em participar da construção do projeto hidrelétrico para reforçar a sua tese de um “golpe da esquerda” e, assim, engrossar a campanha de desestabilização política do governo reformista brasileiro. Ainda assim, no início de 1964, João Goulart procurou o entendimento com Stroessner, visando a iniciar as obras ainda em seu mandato. No auge da campanha de desestabilização e da conspiração para derrubar Goulart,

OESP não avaliou o diálogo entre os presidentes com bons olhos.