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Para o jornal, o progresso e o desenvolvimento do Paraguai estavam diretamente relacionados ao fortalecimento da incipiente industrialização paraguaia. Em seu projeto, o La Tribuna propugnava que a energia elétrica tinha uma importância “transcendental” para o desenvolvimento da indústria e do país.

Por isso, saudou os investimentos públicos, privados, de bancos nacionais e internacionais que estimulavam os projetos necessários para o desenvolvimento da indústria paraguaia. Entre eles, a usina hidrelétrica do rio Acaray no Alto Paraná. Para eles, o Paraguai, com o advento da energia elétrica necessária, se abriria às “imensas possibilidades de desenvolvimento”, muito embora o país não contasse com uma ampla rede de distribuição elétrica, àquela altura restrita apenas a capital e algumas cidades por meio de pequenas usinas hidrelétricas61.

Após um empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a construção da usina de Acaray, em abril de 1964, o jornal explicitou que a “capacidade de produção de energia elétrica” estava vinculada à “moderna organização das atividades produtoras”. Diante da possibilidade de progresso paraguaio, o jornal festejava o desenvolvimento não apenas da indústria, mas, também, do bem-estar da população e da cultura nacional: “em essência, podemos admitir que a possibilidade do emprego sem limites da energia elétrica implica assegurar as possibilidades gerais de progresso, em todas as ordens, sem exceção, das atividades básicas de uma nação”62.

Nesse sentido, a usina de Acaray foi tratada como a solução dos problemas paraguaios. Entre 1963 e 1966, o projeto começava a ser concretizado, após longo planejamento, que incluiu um acordo de cooperação técnica com o Brasil na década de 1950. Em conjunto com a possibilidade de aproveitamento dos Saltos do Guairá, em condomínio com o Brasil como veremos adiante, a energia elétrica foi tratada como o remédio que livraria o Paraguai do “atraso”. Em outubro de 1965, os representantes do La Tribuna destacaram:

Atualmente, o Paraguai figura entre os países com um índice ínfimo de energia, o que segundo os informes técnicos dos organismos internacionais responsáveis pela assistência para o desenvolvimento, configura uma das travas incidentais de maior peso para determinar a sua retração econômica. Precisamente, tem ajudado nesta situação, que foi computada com realismo, a iniciativa do grande projeto do Acaray, uma obra de dimensão tecnológica singular que será, em seu gênero, uma das mais ambiciosas na América hispânica [...] Os benefícios alcançarão as regiões mais afastadas do país, os centros e comunidades onde apenas a energia elétrica faz falta para incentivar indústrias e

61 Editorial: La Electrificación. La Tribuna. 04. out.1965. p.3.

oficinas e, robustecer aqueles conglomerados humanos, especialmente os estrangeiros, que estão em melhores condições para um imediato crescimento material. 63

O periódico incorporou o crescimento industrial como uma consigna de seu projeto. Por isso, em sua postura editorial “independente” não criticava o planejamento do regime, que determinava quando os investimentos na indústria e em sua infraestrutura seriam públicos, privados ou de empréstimos juntos aos bancos internacionais. Além disso, o La Tribuna buscava representar e garantir as simpatias dos pequenos e médios empresários, voltados para o mercado interno, ao construir a ideia de que a industrialização representava uma “nova realidade” para um novo país, propício para o investimento. Nessa nova realidade, os imigrantes europeus também alcançariam o sucesso material no Paraguai:

O despertar e o avanço da indústria somente foi cristalizado sobre a base de uma política de ampla e compreensível relação entre o setor público e privado e, porque foi possível desenvolver as atividades em um clima de evidente equilíbrio econômico. [...] Assim serão vistas as fórmulas para assegurar um futuro certo de possibilidades para a pequena e média indústria, que serão beneficiadas em breve por um novo crédito dos organismos internacionais. Assim poderá ser dito que nosso país já não é uma realidade obliterada ou identificada com aquele princípio de que é somente uma força agrícola. Com a industrialização, hoje estamos vivendo as preliminares de outra realidade e está se fazendo sentir na nossa capacidade de exportação e no volume do mercado interno. 64

63 “Actualmente el Paraguay figura entre los demás países con un índice ínfimo de energía, y que

según los informes técnicos de los organismos internacionales que se ocupan en la asistencia para el desarrollo, configura una de las trabas incidentales de mayor bulto que determina su retracción económica. Precisamente esta situación que ha sido computada con realismo, ha alentado la iniciativa del gran proyecto del Acaray, una obra de dimensión tecnológica singular que será en su género una de las más ambiciosas en Hispanoamérica […] Los beneficios alcanzarán a las regiones más apartadas del país, a los centros y comunidades donde sólo hace falta energía eléctrica para incentivar industrias y artesanías y robustecer aquellos conglomerados humanos extranjeros, especialmente, que están en mejores condiciones de crecimiento material inmediato.” Editorial: La Electrificación. La Tribuna. 04. out.1965. p.3. (tradução nossa)

64 “El despertar y el avance industrial se ha podido cristalizar sobre la base de una política de relación

amplia y comprensible de las esferas oficiales y privadas porque se ha podido desarrollar las actividades en un clima de evidente equilibrio económico. […] Así se habrá de hallar las fórmulas para asegurar un porvenir cierto a las posibilidades de la pequeña y mediana industria, para cuyos renglones se concretará en breve un nuevo crédito de organismos internacionales. Así podrá decirse que nuestro país ya no es una realidad obliterada o identificada con aquel principio de que es solamente una fuerza agrícola. Hoy estamos viviendo los preliminares de otra realidad con la industrialización y que se está haciendo sentir en nuestra capacidad de exportación y en el volumen del mercado interno. Editorial: Aporte a las industrias. La Tribuna. 13 dez.1965. p.3. (tradução nossa)

Na década de 1960, os jornalistas paraguaios imaginaram um desenvolvimento que favoreceria a pequena indústria. Ainda que poucos empresários nacionais tenham prosperado durante esses anos, o projeto liberal do

La Tribuna não deixou de atuar em nome da modernidade. Além de representar os interesses dos grandes proprietários rurais e dos comerciantes de Assunção, defendeu os incipientes industriais paraguaios como inovadores, pois se identificavam com a modernidade do novo Paraguai. Assim, um novo país, que com a industrialização e a abundante energia elétrica deixaria de ser “somente uma força agrícola”.

Por fim, é importante assinalar que, ao defender esse projeto de modernidade, o liberal La Tribuna assumia algumas facetas desenvolvimentistas em seu discurso. Seu liberalismo, então, foi adaptado à política econômica praticada pela ditadura de Strossner e a defesa de um grande projeto estatal, capaz de representar a modernidade, foi um importante ponto de convergência entre o regime autoritário de Strossner e a “nova postura” editorial de “independência” assumida pelo periódico.