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Fundado em 1875, o jornal, então denominado A Província de São Paulo, se apresentava desde o início com um claro posicionamento liberal e republicano, porém, diferentemente do La Tribuna, não era um órgão oficial do Partido Republicano Paulista (PRP). Ainda que vinculado ao estado de São Paulo, como dizia o próprio nome, O Estado de São Paulo (OESP) se caracterizou como defensor de um projeto nacional baseado em princípios liberais, através do qual procurava atrair um público identificado com as elites paulistas e de outros estados. Embora seja um jornal do Estado de São Paulo, foi e é ainda hoje um dos jornais mais influentes do país. Assim, OESP atravessou o século XX tendo participação ativa nas principais crises políticas do Brasil, sofrendo inclusive com intervenções estatais e censura68.

No início do século XX, um de seus redatores se tornou o diretor e único proprietário do jornal, Júlio de Mesquita (1862-1927), político e bacharel em Direito. Ele transformou o jornal em um instrumento da oposição ao PRP, que ocupava os governos estadual e federal. O chamado “Grupo do Estadão” participou da fundação do Partido Democrático em 1926, militando contra o governo do mineiro Artur Bernardes (1922-1926), apoiado pelo PRP69. Tal presidente era considerado pelo OESP como um “ditador de fato e de direito” após a ampliação dos poderes do governo central e da censura ao OESP70. O jornal se caracterizou como instrumento de oposição liberal, de um setor das elites paulistas, às

the News: a social history of the American newspaper. New York: Basic Books, 1981. p.6-7.

68 CAPELATO, Maria Helena; PRADO Maria Lígia. O Bravo Matutino: imprensa e ideologia no

jornal O Estado de São Paulo. São Paulo: Alfa-Omega, 1980. p. 19.

69 Sobre o Partido Democrático: PRADO, Maria Lígia. A democracia ilustrada. (O Partido

Democrático de São Paulo, 1926-1934). São Paulo, Editora Ática, 1986.

“oligarquias carunchadas”, cujos políticos eram considerados “falsos republicanos”71.

Segundo Capelato e Prado, foram os liberais clássicos e o Iluminismo francês que fundamentaram o projeto político do OESP. Assim como o La

Tribuna, o princípio dos direitos naturais do homem orientou o seu projeto, que

propugnava que o papel do Estado deveria se limitar a garantir os direitos à liberdade, à propriedade e aos objetivos individuais. A crítica do periódico paulista ao fortalecimento do poder Executivo se baseava na defesa da liberdade contra qualquer ameaça de autoritarismos72.

Foi nesse momento que o redator Júlio de Mesquita Filho (1892-1969) assumiu a direção do periódico, após a morte de seu pai em 1927, e manteve OESP como um jornal de oposição às oligarquias. Por isso, atuou na campanha da Aliança Liberal de Getúlio Vargas entre 1929 e 1930, enxergando-a como uma oportunidade para costurar alianças com as elites de outros estados em favor da remodelação política do país. Empenhava-se, assim, em um programa que propunha, entre outras medidas, a criação de uma nova elite intelectual para superar os problemas nacionais.

Após a derrota nas urnas, o grupo do Estadão se articulou a setores oposicionistas de uma ampla gama do espectro político, por exemplo os tenentistas, que tinham um projeto de Estado centralizado muito diferente de sua perspectiva liberal. Essa articulação culminou na participação do grupo de jornalistas na Revolução de 1930, que instaurou um regime caracterizado pelo fortalecimento do poder central. As esperanças do OESP, e de parte da elite paulista que apoiou o movimento a partir de uma perspectiva liberal, foram frustradas, o que levou ao movimento constitucionalista de 1932. A direção do jornal esteve entre os articuladores de tal movimento, aliando-se, inclusive, a alguns de seus velhos adversários do PRP. 73

71 O Estado de São Paulo. 19.out.1927.

72 CAPELATO, Maria Helena; PRADO Maria Lígia. O Bravo Matutino: imprensa e ideologia no

jornal O Estado de São Paulo. São Paulo: Alfa-Omega, 1980. p.92.

Os programas, defendidos pelo jornal, nas campanhas para a Assembleia Constituinte de 1934 e para o cunhado de Mesquita Filho, Armando de Sales Oliveira (1887-1945), na frustrada corrida presidencial em 1937, sintetizavam o a perspectiva liberal. Durante as décadas de 1920 e 1930, os representantes do periódico já se apresentavam como intérpretes da opinião pública, o que legitimava o projeto defendido. OESP compreendia que a opinião pública era criada, manipulada e seduzida pela imprensa. Os jornalistas, então, se colocavam na posição de doutrinadores, formadores e modeladores da “opinião pública”:

Por não conceber a “opinião pública” brasileira como uma força política independente é que o jornal se comportava não como seu intérprete mas como seu manipulador. Na expectativa de que ela pudesse vir a se tornar o fundamento de um governo verdadeiramente democrático, “que só no futuro o Brasil alcançaria”, procurava formá-la e modelá-la conforme seus valores, que entendiam como válidos para todo o conjunto da sociedade74.

No decorrer da agitada década de 1930, a crise econômica chegou ao Brasil e, após a derrota do movimento de 1932, o periódico paulista apoiou medidas intervencionistas na economia, como a ajuda aos industriais, que estavam avessos ao liberalismo econômico em um ambiente conturbado de crise. Segundo Capelato, a ortodoxia liberal da imprensa paulista foi colocada em xeque já no final da década de 1920: “os liberais paulistas resistiam a qualquer tipo de interferência estatal, mas no fim da década de 20 acabaram por admitir que ela era necessária à solução dos problemas sociais”75.

Também considerou branda a Lei de Segurança Nacional (1935) por entender que as leis poderiam ser sacrificadas no combate ao comunismo, inimigo declarado do jornal assim como do La Tribuna. Defendeu que ao se tratar de “salvação pública” as “leis, princípios, doutrinas e sistemas”, poderiam desaparecer diante desta questão maior, já que o comunismo representava, para Júlio de Mesquita Filho, “desagregação territorial e a perda da independência”76.

74 CAPELATO, Maria Helena; PRADO Maria Lígia. O Bravo Matutino: imprensa e ideologia no

jornal O Estado de São Paulo. São Paulo: Alfa-Omega, 1980. p.95.

75 CAPELATO, Maria Helena. Os Arautos do Liberalismo: imprensa paulista 1920-1945. São Paulo:

Brasiliense, 1989. p. 101.

Estas aparentes concessões a um projeto antagônico ao do OESP encontraram seu limite no Estado Novo (1937-1945) quando, em março de 1940, soldados do exército ocuparam a sede do jornal e prenderam Francisco de Mesquita. Assim como o La Tribuna, o jornal foi confiscado pelo Estado e seu diretor, Júlio de Mesquita Filho, exilado. O Departamento de Imprensa e Propaganda enviou o interventor Abner Mourão, que assumiu a direção e transformou o periódico em um órgão vinculado à ditadura. Com o fim do Estado Novo, em 1945, a direção do jornal foi recuperada pela família Mesquita. Nas décadas seguintes, o jornal se aliou aos civis e militares que julgava mais próximos do seu projeto político liberal.