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5.3.1 Geologia e geomorfolologia

Do ponto de vista geomorfológico, a baía de Porto Pim é enquadrada a sul pelo Monte da Guia, morro vulcânico com 148 m de altura de difícil acesso por mar, e a leste pelo istmo de Entre – Montes, que liga o Monte da Guia à ilha e sobre o qual se eleva o

142 AHU, Açores, cx.1, nº 6 (Arquivo dos Açores, 1999, 33-36). 143 AHU, Açores, cx.1, nº12 (Arquivo dos Açores, 1999, 45-152). 144 Pequeno saco.

Monte Queimado com 86 m de altura. Em frente deste istmo e do Monte Queimado desenvolve-se a praia de Porto Pim.

Na zona do naufrágio, situada no limite norte da baía, a costa é rochosa e recortada, e corre sensivelmente no sentido este-oeste, sendo por estas razões de difícil acesso por mar e, em algumas áreas, por terra.

De acordo com a Carta Geológica de Portugal (Faial, Açores, 1/25 000) este sector corresponde a uma faixa estreita com afloramentos de rochas vulcânicas (basaltos), que dão depois lugar, para norte, a materiais de piroclásticos (materiais de projecção). Por sua vez, o Monte da Guia e o Monte Queimado correspondem a cones de escórias e a praia de Porto Pim é formada por areias de praia.

De um modo geral, na área submersa, os fundos da baía de Porto Pim variam entre aglomerados de blocos de grande dimensão, junto à linha de costa (blocos que variam entre 0,5 e 2-3 metros), e uma planície de areia, situada na parte central. Esta área com cobertura arenosa parte da praia e afunda-se suavemente em direcção a sudoeste, sendo ali raros os afloramentos rochosos (Tempera et al., 2001, 13).

Os dados disponíveis sobre a cobertura sedimentar no sítio arqueológico, que resultam sobretudo da observação em mergulho, indicam que o tipo de fundo varia (Fig. 14) entre afloramentos, blocos, cascalho e areia. Na verdade, notam-se três áreas claramente distintas: o sector imediatamente a sul/sudoeste do esporão é formado por afloramentos de basalto e blocos de grande dimensão; a sul desta área encontra-se uma bolsa de areia extensa, numa área que atinge cerca de 50 m de comprimento e 20 de largura; para oeste e sul desta surgem fundos formados por blocos e alguns afloramentos onde aparecem pequenas bolsas formadas por cascalho e areia.

Fig. 14 - Aspecto geral do sítio, onde se nota a transição entre a mancha de areia e a área formada por afloramentos, situada imediatamente a sul do esporão localizado em frente ao

Portinho do Alcaide.

5.3.2 Batimetria

Os fundos na baía de Porto Pim são relativamente baixos (Fig. 15). A maior profundidade verificada nesta área, de acordo com dados presentes na Carta Hidrográfica é de cerca de 25 m, à entrada da baía. No lado norte da baía, onde ocorreu o naufrágio, os fundos variam entre as batimétricas dos 6 e 12 metros (ZH).

Fig. 15 - Batimetria e tipo de fundo na Baía de Porto Pim e periferia do Monte da Guia de acordo com cartografia do DOP (Tempera et al., 2001, 4).

Da variação do tipo de fundo no sítio arqueológico resultou que os vestígios se encontrem em batimetria irregular, marcada pelo aparecimento de afloramentos submersos em áreas com blocos e pela presença, a norte do sítio, de rochedos que se elevam até à superfície e formam o esporão acima referido.

5.3.3 Ondulação, correntes e clima

Com relação aos aspectos oceanográficos, a região está sob o domínio de marés semi-diúrnas. A amplitude máxima das marés ronda os 1, 80 m na preia-mar e os valores mínimos rondam os 0,27 m na baixa-mar (valores relativos ao ZH).

No sítio arqueológico, o horizonte do mar é descoberto do quadrante oeste, sudoeste e sul e protegido dos restantes quadrantes: do quadrante norte, noroeste e nordeste pela costa da ilha do Faial e dos quadrantes este e sueste pelo Monte da Guia e pelo istmo que o liga à ilha. O sítio é por isso bastante abrigado dos ventos e da ondulação dos quadrantes norte, nordeste e leste e sensível aos de sudoeste e sul. Os ventos mais frequentes (cerca de 21% do total anual) são os de sudoeste e atingem uma média de 30 km hora. A área é consequentemente afectada por ventos de Força 5, numa média de 119 dias anuais, e de Força 7 durante 28 dias (Instituto Hidrográfico, 2002). No sítio não se verifica a existência de correntes significativas.

5.3.4 Contexto cultural

Na actualidade, possuímos poucos dados que nos permitam caracterizar o tecido urbano da então vila e porto da Horta. Estes temas foram pouco tratados por outros investigadores e não existem estudos arqueológicos que permitam reconstituir o tecido urbano da vila, aparentemente de área reduzida até meados do século XVII. Sabe-se, no entanto, que a ocupação e o povoamento do Faial se desenvolveu em dois momentos – entre 1450 e 1460 e entre 1466 e 1468. O núcleo inicial de povoamento localizou-se na actual freguesia dos Cedros, na parte norte da ilha. Numa segunda etapa, a Praia do Almoxarife foi ocupada, mas o aglomerado acabou por se deslocar para o interior por falta de água, para o vale dos Flamengos, restabelecendo-se depois junto ao litoral, na

proximidade de áreas abrigadas, na zona de Porto Pim e na zona da Conceição. Estes dois núcleos populacionais estiveram na génese da criação da vila da Horta, assim designada no século XV, por D. Manuel I (Barreira, 1995, 20-21).

Do mesmo modo, os dados relativos ao sistema de protecção militar para defesa das populações ribeirinhas e das embarcações fundeadas no porto apenas permitem identificar o início da sua construção a partir da segunda metade do século XVI, quando a vila ganhou maior interesse económico e passou a ser frequentemente atacada por corsários e piratas. A primeira fortificação terá sido construída no local da actual fortaleza de Santa Cruz a pau-a-pique, depois passada a pedra e cal ainda nessa centúria quando aparece representada, com um aspecto próximo do actual, numa gravura inglesa de 1600 (Carita, 1995, 161-173). Actualmente, o Castelo de Santa Cruz é uma fortaleza de planta pentagonal, com baluartes nos extremos da face virada para terra e guaritas nos ângulos das faces laterais com as duas faces voltadas para o mar. A entrada principal localiza-se ao centro do lado voltado para terra. Foi construída em basalto na parte inferior da muralha e em tufo na parte superior, também utilizado nas ameias e nas duas guaritas (Goulart, 1957).

Por outro lado, o início da fortificação do complexo de defesa de Porto Pim é mais difícil de precisar, embora deva ter sido construído a partir do período filipino, em inícios do século XVII (Barreira, 1995, 127). As mais completas referências a este complexo que conhecemos datam de meados do século XVIII, e dão conta da existência do forte da Guia, situado no Monte da Guia, virado para o Canal, do reduto da Carrasca, do forte da Ponta Furada e do forte da Cruz dos Mortos (Carita, 1995). Um outro documento, datado de 1883, refere ainda a existência do forte de Porto Pim e da mudança de nome do forte da Cruz dos Mortos para Castelo de São Sebastião (Pego, 1998).

Actualmente, o forte da Guia, construído em alvenaria de pedra, está em ruínas, observando-se algumas das doze canhoneiras em linha, voltadas para o mar. O complexo de fortificações de Porto Pim está em melhor estado de conservação e é possível observar o castelo de São Sebastião, o forte de Porto Pim e um baluarte do forte da Ponta Furada (Barreira, 1995).

O castelo de São Sebastião apresenta forma aproximadamente pentagonal, com onze canhoneiras e está implantado num esporão rochoso, com a entrada principal virada para terra e rematada em arco abatido.

O forte de Porto Pim tem planta em L, com dez canhoneiras, um só piso e cobertura em terraço. Oferece ainda uma rampa de acesso à praia, já representada na planta de 1883 (Pego, 1998). Foi construída em alvenaria de pedra, depois rebocada e pintada de branco nas fachadas voltadas para terra.

Por seu lado, não restam vestígios do reduto da Carrasca (Fig. 16), topónimo

referido na documentação relativa ao naufrágio da NSL146. Este, representado em

planta, em 1769, era de pequenas dimensões, com planta pentagonal e cinco canhoeiras voltadas para o mar (Almada, 1998, 293). Esta ilustração e o topónimo, associados à localização do sítio arqueológico, levam-nos a crer que esta fortificação, actualmente inexistente, se situava nas proximidades do portinho do Alcaide.

Fig. 16 - O reduto da Carrasca em 1769 (Almada, 1998).