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1.6 Organisering

Como foi verificado anteriormente, após se apartar da São Filipe, a NSL continuou viagem até à ilha do Faial, onde chegou já com a artilharia e parte da carga alijada e água nos porões. A tripulação procurou então chegar a terra, a norte de Porto Pim, onde a nau quebrou o gurupés, seguindo depois ao longo da costa até lançar a âncora à entrada da baía. O navio foi socorrido por embarcações da terra e a tripulação, por ordem do capitão, manteve-se a bordo, reforçando as bombas e ajudando no escoamento, por meios manuais, da água infiltrada120.

Porém, durante a noite, o temporal que atingia a costa do Faial aumentou de intensidade, acabando por garrar a âncora, arrastando a nau até à costa, defronte à Carrasca, situada na orla norte da zona do fundeadouro. No naufrágio morreram cerca

118 AHU, Açores, cx.1, nº 1 (Arquivo dos Açores, 1999, 15-20).

119 AHU, Açores, cx.1, nº 3, 6 e 8 (Arquivo dos Açores, 1999, 29-30; 33-36; 40-41). 120 AHU, Açores, cx. 1, nº 4-7 (Arquivo dos Açores, 1999, 30-39).

de 150 pessoas, entre passageiros e tripulantes, e perdeu-se parte significativa da carga121.

Da análise da documentação, referente aos acontecimentos passados, após o naufrágio da nau, fica evidente a complexidade e articulação dos diversos oficiais ligados ao processo de assistência aos navios portugueses que faziam escala nos Açores122.

No dia seguinte ao naufrágio, Diogo Pereira Lacerda, capitão-mor do Faial, escreveu a Manuel do Canto e Castro, provedor das armadas, a relatar o sucedido123 e tomou, em conjunto com outros oficiais de justiça da ilha (almoxarife), as primeiras providências para protecção da fazenda que foi dar à praia. No mesmo navio enviado à Terceira, o capitão-mor remeteu uma carta ao corregedor, João Correa de Mesquita (que tinha também funções nesta área), que se encontrava em São Jorge, ilha que dista do Faial apenas 12 milhas náuticas e de onde se deslocou de imediato para o local de naufrágio124.

Apesar dos regimentos atribuírem ao provedor das armadas responsabilidades em questões relacionadas com a navegação da Índia, neste caso as estratégias de acção foram discutidas por uma junta formada pelo Bispo de Angra, D. Agostinho Ribeiro, membro do conselho do rei, pelo mestre de campo D. Gonçalo Messia, castelão e governador do presídio do castelo de S. Filipe do Monte Brasil e pelo próprio provedor. Nesta junta, onde não participou o provedor da fazenda, ausente da ilha Terceira, foi decidido informar o monarca e enviar ao Faial o provedor das armadas e o provedor da fazenda de São Miguel, João Trigueiros, onde se juntaram ao corregedor no salvamento

da carga125. Mais tarde, o próprio capitão – mor da Armada, D. Manuel Coutinho,

escreveu a Manuel do Canto e Castro descrevendo a perda da nau126.

A protecção da carga que jazia na praia de Porto Pim, situada a leste do local de naufrágio, foi de imediato providenciada com o auxílio das companhias da ilha, sob orientação do capitão-mor do Faial, em colaboração com o almoxarife e outros oficiais de justiça. Por outro lado, o provedor enviou uma caravela da Terceira com

121 AHU, Açores, cx. 1, nº 4-7 (Arquivo dos Açores, 1999, 30-39).

122 Em todo processo e, em parte devido a uma indefinição regulamentar, foram cometidos excessos por

parte dos oficiais envolvidos, entre os quais o contador e o corregedor (Guedes, 1995)

123 AHU, Açores, cx. 1, nº 4 (Arquivo dos Açores, 1999, 30-31). 124 AHU, Açores, cx.1, nº6 (Arquivo dos Açores, 1999, 33-36). 125 AHU, Açores, cx.1, nº 7 (Arquivo dos Açores, 1999, 37-39). 126 AHU, Açores, cx.1, nº 5 (Arquivo dos Açores, 1999, 32-33).

mergulhadores (búzios), o patrão, o carpinteiro e outros ministros e homens de mar, que participaram no salvamento da carga, lavagem e acondicionamento das roupas que deram à praia127.

Com efeito, a protecção e salvamento da fazenda implicaram acções distintas. Por um lado a vigilância, tratamento e arrecadação da carga que deu à praia e, por outro, a recuperação da carga e artilharia que se encontrava submersa no local de naufrágio, certamente visível da superfície, uma vez que se encontrava a baixa profundidade, como indica a caracterização arqueológica efectuada em 2002. Os trabalhos de salvamento incluíram a inventariação, o acondicionamento e o transporte da carga para o Reino. Foram assim efectuados inventários da fazenda grossa e da pedraria, organizados pelo desembargador João Correia de Mesquita, corregedor dos Açores, e por Manuel Pacheco de Lima, contador da Terceira e ilhas de baixo. Estes inventários incluíam a autoria de entrega, a quantidade do produto, a marca do proprietário, quando possível de identificar, e a caixa ou vasilha em que fora acondicionado. Na entrega da carga participaram os tripulantes, entre eles o piloto mor Gaspar Ferreira, passageiros e a população local. Surgem, por exemplo, referências a indivíduos da ribeira dos Flamengos, da Feiteira, a um padre e um sapateiro128.

Nos primeiros dias, a carga visível na praia foi vigiada pelas companhias da ilha e depois foi transportada para a Alfândega da Horta, onde a mercadoria grossa foi arrumada em caixotes feitos com a madeira da nau ou em pipas (Guedes, 1995, 156 – 157).

Para evitar roubos, era atribuído a quem manifestasse pedraria uma percentagem sobre o seu valor total. Todavia, apesar de se ter assim evitado a perda de pedraria que se encontrava na mão de tripulantes, passageiros, habitantes locais e nos fundos da baía, não foram evitadas irregularidades no processo (Guedes, 1995, 156 – 157). A 17 de Fevereiro de 1616, devido a uma suspeita de roubo de fazendas da NSL, foi efectuada uma busca na casa do licenciado Manuel Fernandez do Casal. Os oficiais régios que participaram nessa busca, entre os quais o desembargador Bartolomeu de Vasconcelos, o escrivão das armadas Fernão Feijó Pitta e Tome Couto, guarda da Casa da Índia, encontraram pedras preciosas, tecidos diversos e especiarias ali guardadas por Manuel de Ornelas, sobrinho do proprietário. No dia seguinte, Bartolomeu de Vasconcelos e o

127 AHU, Açores, cx.1, nº 5 e 6 (Arquivo dos Açores, 1999, 32-36). 128 AHU, Açores, cx.1, nº12 (Arquivo dos Açores, 1999, 45-152).

provedor das armadas Manuel do Canto e Castro mandaram efectuar buscas nas habitações de Porto Pim, onde foram localizadas alcatifas, colchas e panos129.

Entre a carga recuperada contaram-se numerosos volumes de tecidos, mobiliário, pedraria, especiarias e objectos do quotidiano. Em Janeiro de 1616, chegou à ilha do Faial Bartolomeu de Vasconcelos com duas urcas e ordens do monarca para transportar os salvados para Lisboa, o que fez, recebendo a carga no porto. Na mesma viagem foram transferidas dez peças de artilharia, recuperadas nesse mês, e os passageiros e tripulantes que tinham ficado retidos na ilha. A entrega das mercadorias foi acompanhada pelos inventários supra mencionados, que foram assim enviados ao monarca. Em meados de Abril, em Lisboa, Cristóvão de Almada, provedor da Casa da Índia, e o secretário Cristóvão Soares alertavam o rei para a necessidade de despachar, com a maior brevidade possível, a fazenda que chegara do Faial, uma vez que esta tinha sido tratada de modo deficiente e corria riscos de se perder130.

As instruções dadas a Bartolomeu de Vasconcelos indicam que os custos relacionados com a recuperação da carga deviam ser suportados com rendimentos das ilhas. Porém, nos inventários enviados ao monarca, o corregedor da Terceira e ilhas de baixo, Manuel Pacheco de Lima, referia a dificuldade em suportar todas estas despesas. Menciona-se que os gastos ascenderam a 253000 réis só com a carga e descarga da fazenda entregue a Bartolomeu de Vasconcelos, não se incluindo neste valor as despesas relativas à lavagem das mercadorias, que o corregedor propôs que fossem cobradas na Casa da Índia, numa taxa de 1% sobre o valor da fazenda131.

129 AHU, Açores, cx.1, nº12 (Arquivo dos Açores, 1999, 45-152). 130 AHU, Açores, cx.1, nº 12 e 13 (Arquivo dos Açores, 1999, 45-155). 131 AHU, Açores, cx.1, nº12 (Arquivo dos Açores, 1999, 45-152).