• No results found

9 Serologisk testing for hepatitt B

9.2 Målrettet testing av gravide

Já no período do Emirato de Córdova (756 a 928) dá-se um desenvolvimento das letras e das artes, para que muito terá contribuído a vinda para Córdova do famoso músico e poeta iraquiano Ziriab –- para a corte do emir Abderramão II (821-852). (PALENCIA, 1928: 10). No reinado do último emir – Abdulla – que termina em 912, o Zéjel sido inventado por Mocádem ben Muáfa, el ciego, natural de Cabra, na região de Córdova. Este poeta, que viveu no tempo dos emires Abdalah e Abderramão III - finais do século IX e primeira metade do X – (PIDAL, Ibidem) ter-nos-á legado um novo sistema lírico “a muwaxxaha”, com um sistema estrófico e métrico em que se usa um árabe popular mesclado com a língua aljamí, ou romance aljamiado, isto é, o linguajar cristão misturado com o árabe, falado pelos moçarabes cristãos submetidos ao domínio muçulmano, que também toma o nome de “Zéjel” (bailada) quando era usado esse árabe mais dialectal, como nos diz Ramon Menéndez Pidal (Idem, Idem:20).

O Zéjel ou muwaxxha, é pois um “tristico monorrimo con estribillo com, además (esto es lo esencial), com un cuarto verso de rima igual al estribillo, rima que se repite el cuarto verso de todas las estrofas de la misma cancion”.(Idem, Idem: 17).

 

 

Será esta canção árabe–andalusa que está na génese da poesia lírica das nações modernas europeias, como sustenta Menéndez Pidal, teoria arábico- andalusa que defende que “esta forma estrófica, assim como alguns elementos da ideologia amorosa expressa no “zéjel” árabo-andalus, influenciaram o nascimento da poesia provençal, sobretudo o primeiro dos trovadores conhecidos, Guilherme IX, conde de Poitiers e duque de Aquitânia” (Cfr. Idem, Idem:16).

Relativamente a esta forma estrófica chegam-nos relatos de dois grandes escritores muçulmanos: Ibne Bassame10, relatava, em 1109, em Sevilha, nas biografias de literatos hispano-árabes; e Aben Jaldún, nascido em Tunes, em 1332 e falecido em 1406, considerado o grande filósofo da História e historiador da Cultura, ainda segundo Menéndez Pidal, que nos diz que:

“Al decir de ambos autores, la estrofa inventada por Mucáddam tenía un markaz, voz árabe que significa “apoyo, estribo” (lo mismo que la voz española estribillo), en el cual se usaba el árabe popular mezclado al lenguage aljamí o romance hablado por los mozárabes cristianos sometidos al domínio musulmán; sobre esse markaz componía Mucáddam estrofas com mudanzas, agasan, y vuelta, simt”. concluindo Menéndez Pidal que “el «zéjel» é uma poesia nascida para ser cantada no meio bi-racial e bilingue, falada num árabe romanizado e num romance arabizado, no meio popular andaluz, onde então interferiam dois mundos linguísticos, o islâmico e o cristão.” (Idem, Idem: 19 a 20 e 26)

Esta poesia, ainda conforme este autor:

“La muwaxxha compuesta com estas estrofas se llamó también zéjel (bailada) cuando usaba ese árabe andaluz más dialectal (…) Aben Jaldún nos dice que el zéjel vino a ser el sustituto vulgar de la casida árabe clásica, pareciéndose a la casida por ser el uno y la outra composiciones bimembres, cuya primera parte era dedicada al amor, y la segunda, al elogio de algún personaje; «los andaluces llegaron a ser sumamente refinados en este nuevo género, y todo el mundo, tanto los instruídos como las clases populares, lo

10

Ibne Bassame (sécs. XI/XII) de Santarém, poeta e autor da monumental Antologia, dedicada especialmente ao al-Andalus , obra decisiva e só ainda parcialmente traduzida – Dakhira (O Tesouro) através da qual nos legou a produção poética conhecida no seu tempo.

 

 

encontraban encantador, a causa de la facilidade com que se entendía y aprendia» ( Idem, Idem : 20)

O Zéjel, que teve uma grande difusão para Oriente, terá sido difundido para Ocidente através das cantoras andaluzas levadas à força em resultado de escaramuças e batalhas que regularmente oponham os habitantes peninsulares árabe-andaluzes e os cristãos. Terá influenciado a canção provençal assim como a poesia lírica das modernas nações europeias, desde a poesia galaico- portuguesa, a aragonesa e a italiana.

Ainda conforme o mesmo autor, o poeta Ibne Bassame, que nos refere também o “zéjel” esta mescolanza linguística, propagou-se rapidamente para o mundo árabe, assim como para mundo românico. (Idem, Idem: 26)

Partindo desta premissa, bem fundamentada, e chegando a um contexto histórico-socio-cultural que antecede e possibilita o início da nacionalidade portuguesa, que tem a sua génese numa população onde os elementos muladi e moçarabe são amplamente maioritários, encontramos os alicerces científicos para que possamos apelidar de luso-árabe, e não de árabe, a produção poética do habitantes do Garb Alandalus, nomeadamente na segunda metade do século XI e seguinte.

Iniciava-se assim a poesia trovadoresca e o seu meio cortesão, onde os próprios monarcas eram grandes poetas, como mais tarde, após a conquista cristã, como veio a acontecer como príncipes mais cultos, personificados por Afonso X, o Sábio, ou pelo seu neto, o nosso D. Dinis, “o Poeta”, com cortes onde pontificavam os poetas, os cantores/cantoras, os sábios e os cientistas árabes ou muladis.

Assim se percebe melhor como Córdova, que inicialmente se revia e imitava as faustosas cortes orientais de Damasco e de Bagdad, a elas se vai em breve comparar e até suplantar. O al-Andalus entrava no seu apogeu civilizacional.

Abderramão III, (912-961) que inaugurou o período califal, procurou para o Alal- dalus ordem e prosperidade no interior e respeito face aos reinos vizinhos “aumentando a produção da riqueza, fomentando a agricultura, o

 

 

comércio, a indústria, as artes e as ciências que muito floresceram; embelezou Córdova, que então já se podia comparar com Bagdad. Tal apogeu da civilização material , conforme Ângel Gonzalez Palencia (PALENCIA, Idem: 12 e 13), tinha que ser acompanhado pelo desenvolvimento científico e literário

O seu sucessor, Aláquéme II, considerado o mais tolerante e liberal dos califas hispano-árabes - embora todos os seus predecessores fossem homens cultos e cultivadores de bibliotecas, este monarca suplanta-os -, era um entusiasta de livros preciosos e raros, tendo para tanto agentes no Cairo, Alexandria, Damasco e em Bagdad, encarregados de copiar a qualquer preço livros antigos e modernos, e a sua biblioteca era composta por quatrocentas mil obras. (Idem, Idem, 14 e 15)

A tese defendida por Menéndez Pidal e também, de alguma forma, corroborada por J. Leite de Vasconcelos, que começa por nos referir que os moçárabes eram bilingues, pois se falavam o “seu idioma tradicional românico e o árabe” (VASCONCELOS, 1958: 266) e continua: “Constituindo um grupo étnico bem diferenciado, com religião, leis e costumes próprios, não admira que conservassem o seu falar tradicional; tendo por força de conviver com os vencedores, de quem diariamente dependiam, indispensável lhes era aprender a sua língua. Isto não significa que todos a falassem. A gente rural do sertão, sem trato com os novos senhores, teria dela, se tivesse, um conhecimento rudimentar. Nas grandes cidades, porém, o prestígio da língua muçulmana, instrumento de uma civilização superior, cativou, de todo, os Moçarabes cultos, alguns dos quais não só falavam polidamente o árabe, como o escreviam com nomeada elegância.

“Os nossos Moçarabes viveram na parte meridional do território português. Aí falaram o seu romanço até meados do séc. XII, época em que, mercê da efectiva reconquista cristã, começou a operar-se a fusão do seu falar com o dos Portugueses vindos do Norte. (…) Como fenómenos típicos dessa influência, em que predominou, evidentemente, o português dos reconquistadores, apontam-se, por exemplo, o desaparecimento do n e l intervocálicos, característicos da fala moçárabe e ainda subsistentes em topónimos como Mértola e Fontanas, e a supressão, no grupo tch, peculiar do

 

 

dialecto do Norte, da dental t :tchave >chave, tcheio>cheio. “ ( Idem, Idem: 266 e 267)

O mesmo autor refere ainda, a terminar, após transcrever moaxahas, (ou excertos de), supostamente da autoria de hebreus e árabes, que segundo ele vêem “lançar uma nova luz sobre o discutidíssimo problema das origens do lirismo peninsular da Idade Média, como ainda ampliar, e grandemente, os escassos conhecimentos que possuímos do romanço moçarábico.” (Idem, Idem: 271). Citamos dois breves mas belos e poderosos exemplos:

Nº I, de Ibn ‘Ubada, que é, talvez, o mesmo ‘Ubada que compôs a nº xx. O Poeta viveu na corte almeriense na segunda metade do séc. XI:

Mió sidi Ibrahim,

ya nuemne dol^ye,

vente mib

de nohte.

In non, si non queris,

iréme tib:

garme a ob

legarte.11

Nº XXIII, de moaxaha anónima: Aman, ya habibi!

Al-wahs me non farás. Bon, besa ma boquelha: E o sé que te no irás.12

11

Tradução: «Meu senhor Ibrahim, oh doce nome!, vem a mim de noite. Se não, se não queres, ir-me-ei a ti: dize-me onde encontrar-te.»

Tradução: «Mercê, oh amigo! Não me deixarás só. Belo, beija-me a boquinha: eu sei que te não irás.» (Idem, Idem: 270 e 271)

 

 

Capítulo II

A POESIA LUSO-ÁRABE: GÉNESE DA POESIA LÍRICA NO