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2 Arbeidsgruppens mandat og sammensetning

2.2 Interessekonflikter

O objectivo imediato deste capítulo é o de reconstituir os processos de formação do registo arqueológico, desde o evento inicial, de naufrágio, até à actualidade, e assim determinar o potencial patrimonial e científico do sítio.

No esquema de Muckelroy, o naufrágio constitui um evento singular de deposição, em que o contexto (criado a partir da estrutura original do navio e do seu conteúdo) é transformado, através da interacção com o ambiente, de um estado organizado, mas dinâmico, a uma forma desordenada, mas a médio ou longo prazo estável. Este evento de naufrágio corresponde à transformação do contexto sistémico para o contexto arqueológico definida por Schiffer (1987) e pode ocorrer por diversos motivos, de origem natural ou antrópica (Muckelroy, 1978).

Após esta fase, Muckelroy (1978, 165-181) definiu dois processos principais na origem do registo arqueológico – Extracting filters e Scrambling devices. Extracting

filters foram definidos como os mecanismos que extraíram ou extraem material do sítio, tal como a natureza do naufrágio, os salvamentos efectuados posteriormente e a desintegração dos objectos e das estruturas. Scrambling devices foram definidos como aqueles processos que perturbaram e transformaram os materiais após a sua deposição, tendo por resultado a perda de informação contextual (podemos classificá-los como processos tafonómicos). Ou seja, após o evento inicial os processos pós-deposicionais

134 Foi utilizada como embarcação de apoio um semi-rígido com 5 m de comprimento (Paulo da Gama -

D 383-AH), propriedade da DRaC, que ficou amarrado na Marina da Horta, num espaço cedido pela administração daquela instituição. As garrafas de mergulho foram cedidas pela DRaC. Além do material de registo, foram ainda utilizados detectores de metais, um berbequim pneumático, uma máquina de filmar com respectiva caixa estanque e uma máquina fotográfica subaquática Nikonos V.

de formação de sítios arqueológicos são de dois tipos: culturais e naturais (na definição de Schiffer (1987) e o que resulta da combinação destes processos é o registo arqueológico.

Os processos culturais constituem, neste quadro, a primeira variável a ter em consideração no estudo do sítio da NSL e por isso tornou-se essencial analisar as fontes escritas sobre o naufrágio. Nesse sentido, Martin Gibbs sugeriu recentemente um modelo de análise dos processos culturais que contribuem para a formação do registo arqueológico135. Para entender estes processos devem ser consideradas as relações entre as fontes documentais, arqueológicas e orais disponíveis. Neste quadro, propôs um modelo de análise baseado em estudos de desastres. Em linha com o trabalho original de Muckelroy, este autor sugeriu que a utilização de uma base coerente pode permitir a extracção e síntese da informação de diferentes fontes, comparar e contrastar diversos sítios. O modelo proposto está dividido em 5 etapas essenciais: 1 – Etapa de pré- impacto com a) Fase de ameaça b) Fase de aviso; 2- Etapa do impacto; 3 – Etapa da recolha; 4 – Etapa de salvamento; 5- Etapa pós-trauma (Gibbs, 2006) 136.

No que diz respeito aos processos naturais, quatro variáveis inter-relacionadas estão na origem do actual registo arqueológico observado no sítio de Porto Pim e na dinâmica actual que afecta a sua evolução – geológicas, biológicas, oceanográficas e meteorológicas.

Entre os processos naturais de formação do registo arqueológico, Muckelroy reconheceu os movimentos do fundo (a actuação da ondulação e das correntes) e a acção de animais marinhos ou processos biológicos, que influenciam os vestígios submersos essencialmente de dois modos – através da desintegração de materiais

perecíveis e dos movimentos de fundo. Estes processos integram as categorias físicas, biológicas e químicas, que actuam ao nível do sítio e dos seus conteúdos, temas extensivamente investigados (Murphy, 1997; Stewart, 1999; Wheeler, 2002)137.

135 Muckelroy foi o primeiro a considerar o estudo da natureza pré-naufrágio do navio, do seu conteúdo e

subsequente salvamento. No seu trabalho, chamou também a atenção para o facto do estudo de casos bem documentados (ao permitir analisar os processos de transformação do navio em naufrágio e deste em sítio arqueológico) permitir desenvolver generalizações que podem contribuir para a interpretação de naufrágios sem documentação ou menos coerentes do ponto de vista arqueológico (Gibbs, 2006; Muckelroy, 1978).

136 Citando: Leach, 1994.

137 Na última década, vários investigadores têm também tentado formular a generalização universal de

modelos de análise da desintegração do naufrágio, que distinguem os processos e os seus resultados e introduzem uma previsão qualitativa (Ward, Larcombe e Veth, 1999).

Deste modo, a análise do sítio arqueológico teve em conta a informação disponível relacionada com todas estas variáveis a uma escala regional, que considerou a baía de Porto Pim e sua periferia.

A análise da geologia e geomorfologia foi baseada na análise das cartas Militares de Portugal (Instituto Cartográfico do Exército 1 / 25 000), Hidrográficas e geológicas (Instituto Geológico Português 1 / 25 000). A dinâmica sedimentar foi baseada na interpretação de informações bibliográficas.

Para avaliar o impacto humano foram considerados os dados históricos presentes na documentação específica sobre o navio.

Os dados arqueológicos dizem respeito, sobretudo, aos trabalhos efectuados em

2002138, embora se tenham ainda considerado as observações efectuadas em 2004,

durante uma missão de monitorização.

Nestas campanhas, a estratégia de intervenção foi adaptada às condições dos depósitos descobertos nos primeiros dias de operação no sítio. Na verdade, a grande dispersão de superfície numa área imediatamente delimitada obrigou à concentração dos esforços da equipa no registo e recuperação desses artefactos, claramente em risco de extravio, em detrimento da prospecção extensiva na área inicialmente proposta no projecto apresentado à DRaC. Deste modo, esta área, logo delimitada, foi sinalizada com a colocação de bóias nos extremos e prospectada sistematicamente. Além da prospecção visual, em que se utilizaram como referências de posicionamento as características batimétricas, procurou-se efectuar uma prospecção dos depósitos móveis com detector de metais. Esta abordagem foi porém abandonada, porque o campo magnético local, condicionado pela litologia, causava interferências que não permitiam interpretar os resultados obtidos.

A área delimitada por prospecção visual foi depois registada com a montagem de uma rede de pontos de referência – spits metálicos cravados na rocha ou estacas em aço ou ferro –, utilizada depois no posicionamento, por trilateração, com medidas directas, dos artefactos e outros vestígios arqueológicos identificados (Figs. 10-11). A

138 Em 2002, a preparação da campanha iniciou-se a 4 de Setembro com o transporte do material cedido

pela DRaC da Terceira para o Faial. O início dos trabalhos de terreno não se efectuou na data prevista devido aos fortes ventos de sul/ sudoeste que se fizeram sentir entre o dia 10 e o dia 12 de Setembro. Consequentemente, os primeiros mergulhos e trabalhos de registo só se realizaram no dia 13 de Setembro e desenvolveram-se até ao dia 26 desse mês.

rede fixa de spits, numerados de S1 a S4, foi monitorizada em 2004 e apresentava-se em bom estado de conservação o que permitirá relacionar, topograficamente, os resultados de futuras fases de intervenção com os dados agora apresentados.

Os materiais localizados foram coordenados individualmente. Para cada artefacto foram obtidas três medidas directas em relação aos datums e uma profundidade relativa. Sempre que possível, foram ainda obtidas distâncias directas entre artefactos. As medidas foram depois tratadas no programa Direct Survey

Measurements, que permitiu obter os dados necessários à elaboração das plantas. Os trabalhos incluíram o levantamento fotográfico, em vídeo e em esboço das áreas com concreções e da situação in situ dos artefactos mais significativos. Foram ainda elaborados esboços do fundo marinho.

Depois de devidamente identificados e posicionados, os materiais mais importantes ou que se encontravam, pelas suas características ou localização, em risco de destruição ou extravio foram recuperados (Fig. 11) e mantidos em água doce, dando- se início ao processo de dessalinização. Na retaguarda, procedeu-se à inventariação e catalogação do espólio, com o preenchimento de formulários pré-estabelecidos, onde se incluíram informações consideradas relevantes para a interpretação e estudo do sítio e dos artefactos: posição, tipo, natureza do fundo, profundidade, descrição, etc.. Estes dados, após serem devidamente sistematizados, foram introduzidos numa base de dados em Acess, desenhada para o efeito. O registo individual do espólio incluiu ainda a fotografia da totalidade dos artefactos recuperados e o desenho de uma amostra das peças mais significativas (Fig. 13).

Fig. 10 - Aspecto dos trabalhos de registo por medidas directas durante os trabalhos de prospecção de 2002.

Fig. 11 - Trabalhos de registo subaquático dos vestígios localizados.

Fig. 13 - Trabalhos de retaguarda durante a campanha de 2002: desenho e fotografia dos artefactos recuperados.