O conceito de desenvolvimento, enquanto processo de mudança socioeconó- mica, teve seu apogeu no contexto da revolução industrial. Neste período de
formação da sociedade moderna, os valores da sociedade tradicional, subme- tidos a uma moralidade cristã (Lechat, 2002), foram substituídos por novos referenciais, tendo-se consolidado a necessidade de acumulação de riqueza. Polanyi (1980) destaca o fato de, desde o século XIX, se ter vindo a perpe- tuar na sociedade capitalista uma conceção que subordina o ser humano ao primado do económico, a que designa de sofisma economicista, a qual, se- gundo o autor, confunde economia com mercado. Ao colocar o mercado em destaque e ao considerá-lo como um poderoso agente mobilizador das dinâmi- cas socioecónomicas, foi-lhe atribuída primazia e isolado de entre as demais dimensões da vida social.
Estas condições sociais e históricas, emergentes da modernidade, condu- ziram a uma conceção de desenvolvimento assente no primado do modelo económico e da noção de que só se poderia “evoluir” através do avanço tec- nológico e do conhecimento científico (Almeida, 2010). Com base nesta ideia de progresso, assente nos avanços técnico-científicos e económicos das soci- edades, os governos redirecionaram as suas economias e impulsionaram as estratégias empresariais para a inovação tecnológica, crescimento da indústria e orientação para a produção e consumo em massa.
A partir do final da década de 1960, este paradigma de desenvolvimento começa a ser questionado. Primeiramente, foi posto em causa pelos investi- gadores que denunciaram as crescentes assimetrias na distribuição do rendi- mento e o processo de degradação do meio ambiente, dada a excessiva explo- ração dos recursos naturais e desequilíbrio dos ecossistemas. Posteriormente, foi também despoletado pelos movimentos sociais, que alertaram para o facto de que ao se considerar o desenvolvimento como um padrão mundial se estava a ignorar as realidades locais e as suas especificidades. Como Becker (2011) salienta, emerge, neste período, uma nova sensibilidade social que ultrapassa o foco do económico e coloca em evidência as crises sociais e ambientais, resignificando o parâmetro moderno de desenvolvimento e imprimindo ou- tro olhar sobre a relação homem/natureza e sobre os impactos negativos do modelo dominante de desenvolvimento.
Refletindo esta onda de mudança, por volta de 1972, o Relatório de Mea- dows, com a publicação The limits to growth1, comprova a finitude dos recur- sos naturais, o impacto da industrialização e demonstra que ainda existe tempo
1
para se proceder a mudanças significativas nas posturas desenvolvimentistas. A partir daí, emerge uma série de eventos mundiais2e de debates teóricos que procuraram desconstruir o mito do desenvolvimento, enquanto progresso com um forte enfoque economicista, contribuindo para a formulação de um novo paradigma, designado de desenvolvimento sustentável.
Neste contexto, amplia-se também a conceção de desenvolvimento. Em- bora inicialmente estivesse muito associado à visão económica e empresarial, esta passou a incorporar também um carácter social e ambiental, para além do económico, dando origem a um novo conceito. Paralelamente, passou tam- bém a estar associado aos três segmentos organizacionais: organizações não lucrativas, empresariais e sectores públicos, sendo reconhecido que os pro- cessos de desenvolvimento ocorrem igualmente no âmbito da sociedade civil, não se restringindo ao universo empresarial.
É neste contexto que se enquadram as iniciativas de apoio ao microcré- dito. Ao permitir que largas franjas da população, anteriormente excluídas da participação direta da atividade económica, possam integrar as dinâmicas do mercado e da economia, cria-se não apenas a possibilidade de gerar no- vas dinâmicas de desenvolvimento, como se ultrapassa uma visão restrita do desenvolvimento, uma vez que o microcrédito tem diretos impactes no micro empreendedorismo e, indiretamente, efeitos na redução de pobreza, inclusão social, qualidade de vida, e afirmação dos direitos humanos. Os amplos im- pactes que exerce no sistema, em muito, ultrapassam a dimensão económica. Surge fundamentalmente como veículo de transformação das condições de vida e dos comportamentos, tendo importantes efeitos transformacionais dire- tos e de mudança social.
O micro empreendedorismo ao permitir romper com formas de pensar ou agir e, não raramente potencia a crítica aos modelos tradicionais. Assim, em- bora o microcrédito esteja associado à criação de uma atividade económica, configura-se efetivamente numa alteração das condições de vida das popula- ções incorporando valor social relevante, que em muito ultrapassa o primado do económico e, através dele, promove a transformação social.
através de estudos matemáticos que demonstrou cinco variáveis analíticas: crescimento indus- trial, crescimento populacional.
2Destacando a Conferência de Estocolmo sobre meio ambiente, organizada pelo Programa
Ambiental das Nações Unidas (UNEP) em 1972, a Declaração de Cocoyoc (1974), o Relatório de Bruntland (1987), a Eco-92 (1992).
O microcrédito assume-se fundamentalmente como uma forma de inter- venção financeira com implicações nos processos de desenvolvimento. Per- mite e potencia ações que são iniciadas pelos atores sociais, responde a uma necessidade, oferece soluções que ganham importância económica e social e promove mudanças sociais profundas. Ao criar condições para a emergên- cia de lógicas empreendedoras em populações anteriormente excluídas, gera mudanças de atitude e alterações nos comportamentos instituídos, modifica as condições de vida e contribuí para a própria transformação social. O micro- crédito tem sido, neste contexto, frequentemente referenciado como uma ini- ciativa de afirmação de modelos alternativos de desenvolvimento, obrigando a alargar a conceção restritiva do paradigma desenvolvimentista tradicional.