CHAPTER 2 – LITERATURE REVIEW
2.1 The relationship between terrorism, media and audience
De todas as obras que retratam a figura do magistrado, nenhuma delas abordou tão profundamente o juiz em sua fragilidade e condição humana, em seu sofrimento e angústia existencial, e mesmo na superficialidade de suas relações sociais e profissionais, quanto Lev Tolstoi na obra clássica A Morte de Ivan Ilitch e é exatamente esta obra que se examina nesta seção da tese.
A tendência para a observação e a autoinspeção ou autoanálise do autor da novela, levou-o a escrever suas primeiras obras: Infância (1852) e Adolescência (1853), neste tom autoinvestigativo, que, de certo modo, se revelou predominante no conjunto de sua produção literária. Suas obras sempre possuem este viés analítico e intimista e seus personagens são profundamente marcados também por esta característica, como em Ana Karênina (1875-1877). Mesmo em romances monumentais, como Guerra e Paz (1864-1869), Tolstoi não se furta à reflexão dos personagens sobre a sua condição humana, por vezes em tom pessimista, para demonstrar a impotência do ser humano como agente e sujeito da história, que não tem o poder individual de alterar o seu curso, nem sentenciar ou apelar contra o fim inevitável, contra a própria extinção física. A morte, aquela realidade louvada como
“irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum vivente pode escapar”, cantada desta maneira por Francisco de Assis (2013, p. 47) no Cântico do Irmão Sol ou Louvores das Criaturas, aparece como personagem das personagens, ocupando o espaço central da cena na obra de Tolstoi.
Como destaca Paulo Rónai, ao comentar a produção literária de Tolstoi (2006, p. 85):
Havia em ambos os grandes livros da maturidade protagonistas incessantemente preocupados com o sentido da existência, atormentados por um vazio íntimo que desesperadamente procuravam encher: eram, precisamente, as personagens em que o romancista mais pusera de si mesmo.
Tosltoi escreve a novela A Morte de Ivan Ilitch, em 1886, com sensíveis intenções moralizadoras, expressão de seu pensamento libertário, que o levara a se tornar uma espécie de defensor dos oprimidos em seu país e, externamente, denunciando toda a farsa da sociedade burguesa do final do século XIX.
O ambiente em que a obra foi escrita é a Rússia da segunda metade do século XIX, antes da Revolução, mas a atualidade da reflexão proposta na obra é desconcertante. Como acentua Boris Schnaiderman (2006, p. 80), um de seus tradutores e elaborador de posfácio à edição brasileira da obra, “toda a miséria da sociedade burguesa aparece então com uma veemência rara, ficando-se com a impressão de que ele está tratando de nossa vida hoje e não dos russos do final do século XIX”.
A cena inicial é dominada pela notícia da morte de Ivan Ilitch, um magistrado que viveu a vida inteira apegado às normas e aos convencionalismos sociais, sempre realizando, por imitação, aquilo que as pessoas mais altamente colocadas consideravam correto. A notícia do falecimento do magistrado chega no edifício do Fórum no intervalo de um julgamento, quando seus colegas conversam descontraidamente. Tostói (2006, p. 8) enfatiza a reação fria dos colegas e “amigos” de Ivan Ilitch ao tomarem conhecimento da notícia por via de uma nota postada no jornal pela viúva do falecido:
(...) ao ouvirem a notícia da morte de Ivan Ilitch, o primeiro pensamento de cada um dos que estavam reunidos no gabinete teve por objeto a influência
que essa morte poderia ter sobre as transferências ou promoções tanto dos próprios juízes como dos seus conhecidos
(…)
Além das considerações suscitadas em cada um por esta morte, sobre transferências e possíveis alterações no serviço, o próprio fato da morte de um conhecido tão próximo despertou como de costume, em cada um que teve dela conhecimento, um sentimento de alegria pelo fato de que morrera um outro e não ele.
As falsas amizades e as frágeis relações pessoais da personagem, constituídas à base das trocas de favores e dos interesses funcionais, revelavam-se agora com toda a carga de frieza e desconsideração que Tolstoi (2006, p. 11) desnuda em sua narrativa, ao ponto de muitos de seus conhecidos e amigos acharem que não deveriam se abster de jogar cartas (baralho) naquela mesma noite das exéquias, na qual estavam sendo convidados a velar o corpo do colega morto:
O simples aspecto dele já dizia: o incidente das exéquias de Ivan Ilitch não pode de modo algum servir de pretexto suficiente para se considerar alterada a ordem da sessão, isto é, nada poderá impedi-lo de fazer estalar, naquela mesma noite, um baralho de cartas, ao desembrulhá-lo, enquanto um criado colocará as velas novas; e em geral, não havia motivo para se supor que aquele incidente pudesse impedi-los de passar agradavelmente também aquela noite.
A própria esposa, então viúva de Ivan Ilitch, estava mais preocupada com a pensão a receber e seu respectivo valor, revelando discretamente que estava a par de todas as benesses a que teria direito como pensionista de um magistrado falecido. Tostoi é implacável com a personagem, na narração de uma cena no velório em que se aproxima do melhor “amigo” e colega de trabalho do marido, aparentemente para aconselhar-se a respeito.
Ela fingiu pedir a Piotr Ivânovitch um conselho sobre a pensão a receber; mas ele via que a mulher já estava a par, até das menores minúcias, mesmo daquilo que ele não conhecia: ela sabia tudo o que era possível abocanhar no Tesouro, em virtude daquela morte, mas queria saber se não era possível de algum modo abocanhar ainda mais. (2006, p. 15).
A iniciativa e a reação da viúva e dos “amigos” e colegas de trabalho do morto, os quais comparecem ao velório mais para cumprir uma obrigação social, embora desejassem estar jogando baralho e divertindo-se, contrastam com a atitude natural e espontânea do simples Guerássim, um humilde servo cuja atitude verdadeira e leal é a única que dá sentido à vida de Ivan Ilitch em seus momentos
derradeiros e doa aquilo que só os humildes e desprovidos de ambição são capazes de ensejar; logo ele, que não ocupava nenhum cargo importante e não estava no rol das pessoas altamente colocadas, às quais Ivan Ilitch sempre tratou de devotar admiração e mesmo imitar. Isto se expressa de maneira extraordinária neste desconcertante diálogo:
– E então, Guerássim, irmão? - perguntou Piotr Ivánovitch, a fim de dizer algo. - Sente pena?
– É a vontade de Deus. Iremos todos para lá – disse Guerássim, arreganhando os dentes brancos, cerrados, de mujique, e, como uma pessoa em pleno trabalho intensivo, abriu rapidamente a porta, chamou um cocheiro, ajudou Piotr Ivânovitch a sentar-se e deu um pulo de volta, com o ar de quem estivesse pensando no que mais tinha a fazer. (2006, p. 17) Para os profissionais do Direito de um modo geral, a obra de Tolstoi surpreende e a qualquer ser humano ela encanta, pela simplicidade com a qual as lições de sabedoria prática são plasmadas na fala e nas atitudes de personagens dos quais menos se espera socialmente, sobretudo diante do mistério para o qual todos se dirigem, não importa a posição jurídica, política ou social que se ocupe nesta efêmera e transitória existência. Essa obra, como tantas outras que permitem discutir as vicissitudes pessoais e profissionais de seus personagens, deveria ser lida e discutida em cursos de formação de juízes, trazendo a cultura humanística para transformar o formalismo ainda reinante no ensino jurídico, inclusive na educação judicial.
Tolstoi inicia a obra com a morte da personagem principal, à semelhança do Brás Cubas, de Machado de Assis. Somente depois, tratará da vida de Ivan Ilitch, na segunda parte da obra aqui comentada, principiando por abordar a sua origem paterna:
A história pregressa da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples e comuns e, ao mesmo tempo, das mais terríveis. Era filho de um funcionário, que fizera em Petesburgo, em diferentes ministérios e departamentos, aquele tipo de carreira que leva as pessoas a uma situação da qual elas, por mais evidente que seja a sua incapacidade para qualquer função de efetiva importância, não podem ser expulsas, em virtude dos muitos anos de serviço e dos postos alcançados, por este motivo, recebem cargos inventados, fictícios, e uns não fictícios milhares de rublos, de seis a dez, com que vivem até a idade provecta. Tal era o conselheiro privado Iliá Iefímovitch Golovin, funcionário inútil de diversas repartições desnecessárias. (2006, p. 17).
Interessante é observar a aguda análise que Tolstoi faz do personagem central da obra, o próprio Ivan Ilitch, desde os tempos da Faculdade de Direito, quando procurava assimilar as maneiras das “pessoas mais altamente colocadas” (2006, p. 20), como se disso dependesse diretamente seu sucesso pessoal e profissional:
ele já era aquilo que seria no decorrer de toda a existência: um homem capaz, alegre, bonachão, comunicativo, mas um severo cumpridor daquilo que considerava seu dever; e considerava como seu dever tudo aquilo que consideravam como tal as pessoas mais altamente colocadas. Não era um adulador quer quando menino, quer já homem feito, mas, desde a idade mais tenra, era atraído, como o inseto pela luz, pelas pessoas altamente colocadas na sociedade, assimilava suas maneiras, a sua visão da vida e estabelecia relações amistosas com elas. (2006, p. 18)
Até mesmo quando praticava ações que a sua consciência reprovava, Ivan Ilitch tinha seu remorso amenizado ou completamente afastado pela observação de que as pessoas em elevadas posições sociais também faziam o mesmo, tonando-se insensível aos apelos da consciência ética:
Cometeu na Faculdade algumas ações que, antes, pareciam-lhe grande ignomínia e que suscitaram nele asco por si mesmo, no momento em que as cometia; mas, percebendo ulteriormente que essas ações eram cometidas também pelas pessoas altamente colocadas e não eram consideradas por elas como ações más, não é que ele as tivesse considerado boas, mas esqueceu-as de todo e não se entristecia um pouco sequer ao lembrá-las. (2006, p. 19)
No exercício do cargo de juiz de instrução, Ivan Ilith destacou-se, pois era “decente, capaz de separar as obrigações funcionais da vida particular, uma pessoa que inspirava consideração geral, como o fizera igualmente quando funcionário para encargos especiais”.
Uma particularidade da sua personalidade, no entanto, se revela na maneira como tratava as pessoas que dependiam diretamente de suas decisões, pois “gostava de tratar com respeito, quase com companheirismo, gente desta espécie, dele dependente, gostava de fazer sentir que ele, capaz de esmagar, tratava-os com simplicidade, amistosamente”.
Um traço daquela hybris (exagero), jactância muito comum em magistrados no início da carreira e que persegue alguns deles até a aposentadoria, como ressalta a professora da USP e psicóloga Lídia Reis de Almeida Prado, autora da obra O Juiz e a Emoção (2008), revela-se na personagem, pois
Ivan Ilitch sentia que todos, todos sem exceção, mesmo as pessoas mais importantes e convencidas, estavam nas suas mãos, e que lhe bastava escrever determinadas palavras sobre o papel timbrado, e aquele homem importante, autossuficiente, seria conduzido à sua presença na qualidade de acusado ou de testemunha, e, se ele não quisesse convidá-lo a sentar- se, o outro ficaria em pé na sua frente e responderia às perguntas. Ivan Ilitch jamais abusou desta sua autoridade e, pelo contrário, procurava atenuar a sua manifestação; mas a consciência dessa autoridade e a possibilidade de atenuá-la constituíam para ele o interesse principal e a atração do seu novo encargo. (2006, p. 21).
No fundo, o personagem não vê na sua função uma maneira de aplicar as leis de modo a realizar a justiça em cada caso concreto, mas o que o fascina é exercer poder sobre os outros, aumentar cada vez mais o seu prestígio, figurar entre as “pessoas mais altamente colocadas”.
Ainda desconhecendo o que a vida reservaria para ele, até o seu casamento foi o resultado de um frio cálculo utilitarista, ponderando custos e benefícios. Ivan Ilitch prosseguia perseguindo status, prestígio e reconhecimento. E o casamento ajudaria neste processo de ascensão funcional e social, pois
Prascóvia Fiódorovna era de boa família nobre e nada feia; e havia ainda uma pecuniazinha. Ele podia contar com um partido mais brilhante, mas também este não era mau. Ivan Ilitch tinha o seu ordenado, e ela, segundo esperava o noivo, teria outro tanto. A parentela era boa, e ela, uma mulher simpática, bonitinha, direita. Dizer que Ivan Ilitch casou-se porque se apaixonara pela noiva e encontrara nela compreensão para as suas concepções sobre a existência seria tão injusto como afirmar porque as pessoas das suas relações aprovaram o partido. Ivan Ilitch casou—se de acordo com os seus próprios cálculos: conseguindo tal esposa, fazia o que era do seu próprio agrado e, ao mesmo tempo, executava aquilo que as pessoas mais altamente colocadas consideravam certo. (2006, p. 23).
Após algum tempo, porém, o relacionamento se fez conturbado, tendo a esposa se revelado ciumenta, grosseira e desagradável, ocasião na qual o marido Ivan se volta totalmente para a atividade judicante, como uma fuga daquela situação, até porque
O serviço infundia respeito a Prascóvia Fiódorovna, e Ivan Ilitch começou a lutar com a mulher por meio do serviço e das obrigações dele decorrentes, estabelecendo assim barreiras em torno do seu mundo independente (…) Na medida que sua mulher se tornava mais irritadiça e exigente, ele transferia cada vez mais para o serviço o centro de gravidade da sua vida. Passou a gostar mais do serviço e tornou-se mais ambicioso. (2006, p. 24). O relacionamento familiar de Ivan piorou consideravelmente e ele o manteve apenas para resguardar “aquela decência das formalidades exteriores determinada pela opinião pública”. À medida que a situação se agravava, ele mergulhava ainda mais em seu mundo judiciário, como uma fuga para a crise familiar:
Todo o interesse da existência concentrou-se para ele no mundo judiciário. E este interesse absorvia-o. A consciência de seu poderio, da possibilidade de aniquilar qualquer pessoa, a imponência, mesmo exterior, ao entrar no tribunal e nas entrevistas com os subalternos, o seu êxito diante dos superiores e dos que lhe eram subordinados e, sobretudo, a sua maestria em conduzir os casos criminais, que ele sentia, tudo isto alegrava-o e enchia-lhe a existência, a par das conversas com os amigos, os jantares e o uíste.(2006, p. 26-7).
Um evento desagradável na vida do personagem, decorrente de desentendimentos com os chefes imediatos, fez com que ele se sentisse prejudicado nas promoções. Preterido na carreira, “sentiu que todos o abandonaram, considerando sua situação, com três mil e quinhentos rublos de ordenado, como a mais normal e, mesmo, feliz”. (2006, p. 27).
Bastou conseguir uma promoção para um cargo mais elevado, onde ganharia mais e para uma província mais desenvolvida, para que a vida se reordenasse, inclusive em sua relação conjugal, pois, “embora tivessem passado pouco tempo em comum, uniram-se tão intimamente como não lhes acontecia desde os primeiros anos da vida conjugal”. (2006, p. 30).
Acontece que um acidente doméstico, enquanto subia uma escadinha para mostrar ao forrador de paredes, no novo apartamento que adquirira, como ele queria o serviço, foi o suficiente para desencadear uma série de problemas que o levariam lentamente ao diagnóstico de sua doença, à agonia e à morte.
No novo imóvel, adquirido com o ordenado do cargo mais elevado que obteve, o desejo de imitação da classe mais abastada, que uniformiza os gostos e revela o ridículo da farsa social, Ivan e sua família mantinham todas as aparências:
Na realidade, havia ali o mesmo que há em casa de todas as pessoas não muito ricas, mas que desejam parecê-lo e por isto apenas se parecem entre si: damascos, pau-preto, flores, tapetes e bronzes, matizes escuros e brilhantes; enfim, aquilo que todas as pessoas de determinado tipo fazem para se parecer com todas as pessoas de determinado tipo. (2006, p. 31).
A mudança parecia salutar ao relacionamento do casal, pois,
Ainda que surgissem algumas desavenças entre marido e mulher, ambos estavam contentes, e havia tanto a fazer, que eles terminavam sem grandes brigas. Quando não havia mais nada a arrumar tudo ficou um tanto cacete e sentiu-se falta de algo, mas então já se fizeram algumas relações, estabeleceram-se hábitos, e a vida se encheu. (2006, p. 32).
A ideia de viver de aparências e cultivar sempre as “amizades” da gente de classe social mais elevada e distinta também conseguia unir a família sob o artificialismo destas relações sociais, recorrentes não apenas entre aqueles que exercem algum tipo de poder sobre os outros, mas muito comuns em alguns grupos.
E assim viveram. O círculo social que formaram era o melhor possível, visitava-os gente importante e também jovens. O marido, a mulher e a filha concordavam plenamente no ponto de vista sobre o seu círculo de relações, e, sem combinar nada entre si, enxotavam de maneira idêntica e livravam- se de toda espécie de amigos e parentes, uns pés-rapados, que acorriam com afagos à sala de visitas, ornada de pratos japoneses nas paredes. Em breve, estes amigos pés-rapados deixaram de acorrer para ali, e os Golovin ficaram somente com a melhor sociedade. (2006, p. 35).
Quando precisou ir ao médico, em decorrência das dores que sentia, provocadas inicialmente pelo acidente doméstico aparentemente insignificante, Ivan Ilitch defrontou a frieza profissional do médico, que tratou seu problema de saúde de modo como ele próprio sempre cuidava dos acusados como juiz, com
(...) um ar importante e artificial, doutoral que já conhecia, aquele mesmo que ele sabia que tinha no tribunal (…) Tudo era exatamente igual ao que sucedia no tribunal, Assim como ele assumia certa expressão para falar com os acusados, o médico famoso também assumia determinada expressão. (2006, p. 37).
Assim como a esposa, os colegas de trabalho no tribunal mantinham uma relação exterior com a sua doença, com o seu problema de saúde, pois,
(...) no tribunal, ele notava ou julgava notar a mesma relação estranha com a sua pessoa: ora tinha a impressão de que prestavam atenção nele como alguém que, em breve, deixaria uma vaga; ora os amigos começavam a caçoar carinhosamente da sua hipocondria, como se aquilo que havia de terrível, de assustador, de inaudito, que se instalara nele, que o sugava incessantemente e arrastava-o incoercivelmente para alguma parte, fosse o mais agradável pretexto para brincadeiras (2006, p. 42).
A solidão de Ivan Ilitch, ante a certeza da morte, perante sua finitude, é assustadora, sobretudo com as palavras cirúrgicas com as quais Tolstoi a descreve: “Ivan Ilitch fica sozinho com a consciência de que a sua vida está envenenada, que ela envenena a vida dos demais e que este veneno não se enfraquece, mas penetra cada vez mais todo o seu ser”. (2006, p. 43).
Desde o diagnóstico, nem mesmo a atividade judicante, que tanto amava e a qual se dedicara como uma fuga dos conflitos oriundos de uma relação familiar problemática, era capaz de aplacar o sentimento de angústia, que revelaria a sua condição idêntica à de todos os demais homens, mesmo dos mais simples, a sua situação de de ser-para-a-morte, Assim,
Leu processos, trabalhou, mas não o abandonava a consciência de ter um caso importante, íntimo, posto de lado, e do qual se ocuparia depois de acabar a tarefa (…) Desde o início da doença, dormia sozinho, num quartinho junto ao seu escritório (…) Ivan Ilitch via que estava morrendo, e o desespero não o largava mais. Sabia, no fundo da alma, que estava morrendo, mas não só não se acostumara a isto, como simplesmente não o compreendia, não podia de modo algum compreendê-lo. O exemplo do silogismo que ele aprendera na Lógica de Keisewetter: Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe, durante toda a sua vida, correto somente em relação a Caio, mas de modo algum em relação a ele. Tratava-se de Caio-homem, um homem em geral, e neste caso era absolutamente justo; mas ele não era Caio, não era um homem em geral, sempre fora um ser completa e absolutamente distinto dos demais. (2006, p. 46).
Ivan Ilitch não tardaria a descobrir, paulatinamente, que a mulher, a filha, o filho, os criados, os conhecidos e os médicos tinham, de modo quase imperceptível, uma só preocupação: “se não demoraria muito a desocupar finalmente o seu lugar, a livrar os vivos da opressão causada pela sua presença, e a livrar-se ele mesmo de seus sofrimentos”. (2006, p. 52).