Definition of operational semantics
8.3 The projection system
Quando se utiliza o termo família, todos nós temos uma ideia ou definição na cabeça mais ou menos comum, que é a seguinte: família é o conjunto de pessoas com quem vivemos – o marido, a mulher e os filhos - e que têm o mesmo tipo de sangue. Esta será, por ventura, uma definição rudimentar não deixando, no entanto, de ter um fundo científico.
Em educação, o conceito de família diverge de autor para autor e todos tentam defini- lo sob determinado ponto de vista, e, de acordo com o trabalho que estão a realizar.
Nas últimas décadas a família sofreu transformações que têm implicações para a sua definição. Segundo Canavarro et.al. (2001) no último século, as formas de co-habitação e a estrutura familiar têm vindo a mudar, consequência da industrialização e da urbanização da sociedade e de alterações culturais, económicas, tecnológicas; profissionais, urbanísticas e sociais. Entre estas mudanças, os autores referem que podemos encontrar: a) Maior urbanização e isolamento da família nuclear; b) Emancipação da mulher e o seu acesso ao mundo do trabalho, que veio provocar mudanças nos papéis tradicionais e no funcionamento da família; c) Adiamento do casamento e do primeiro filho; d) Maior esperança de vida e maior número de idosos; e) Maior número de divórcios; Possibilidade de escolha – com quem casar, onde viver, quantas crianças ter, etc.
Para alguns autores, e destacamos Marujo (1997), a família perdeu as suas funções tradicionais – reprodução, socialização/educação, atribuição de papéis sociais, apoio económico e apoio emocional. Outros defendem que estas funções não desapareceram, mas estão alteradas. Assim, e numa perspectiva actual, a função reprodutiva da família não é central. Há famílias que optam por não ter filhos. A família continua a ter um importante
papel na socialização e educação dos seus filhos. No entanto, a educação formal, cada vez mais, assume maior importância e os pais vêem reduzido o tempo que passam com eles. A família continua a ser uma importante fonte de identidade para os seus membros e a função económica permanece não pela capacidade produtiva do núcleo, mas pelas funções de consumo. Por último, a função afectiva é considerada um vector fundamental.
Face à diversidade e permanente mutação das formas familiares, torna-se difícil chegar a uma definição consensual de família. Parece oportuno apresentar alguns dos conceitos encontrados ao longo das diferentes leituras, por parecerem pertinentes.
Assim, e para Davies e Johnson (1996b), “o que caracteriza a família são os pais biológicos, e todos os outros familiares, os avós, irmãos mais velhos, tios, primos, padrastos e madrastas”.
Uma outra definição de família, referida no The New Consensus on Family and
Welfare, citada por Espada et.al. (2004), diz-nos que “A família é a matriz dentro da qual o
cidadão é bem ou mal formado. Nenhuma instituição é tão importante e no entanto tão facilmente negligenciada”.
No entender de Fernandez (2001), “família é um termo que não é possível definir, sendo apenas possível a sua descrição…para esta autora, família é um conjunto de pessoas que gostam umas das outras”, o que vem reforçar a importância das relações afectivas que se estabelecem entre as pessoas que acompanham o dia a dia da criança contribuindo de forma decisiva para o seu desenvolvimento.
Numa Exortação Apostólica de João Paulo II, sobre o tema família retirou-se a seguinte frase, que mostra uma outra perspectiva: “ A família possui vínculos vitais e orgânicos com a sociedade porque constitui o seu fundamento e alimento contínuo mediante o dever de servir a vida: de facto, é da família que saem os cidadãos e é na família que encontram a primeira escola daquelas virtudes sociais que são a alma da vida e desenvolvimento da mesma sociedade”.
Um outro autor, psicólogo estrangeiro, cujo nome não recordamos, mas sim a sua definição pela sua peculiaridade, diz -nos que “ chamamos família, a um homem, uma mulher e um cão”. Esta definição demonstra bem o quanto é difícil chegar a um entendimento sobre este conceito, e o quão é importante clarificá-lo, ou pelo menos, apetrechá-lo de uma forma mais enriquecedora, e por conseguinte, mais criativa e dinâmica.
Exemplo disso é o que nos diz Gervilla (2001), quando apresenta a metáfora do
nossa família forma-se ao longo da vida, assemelhando-se a uma viagem num comboio, onde se partilha o espaço com diversas pessoas nas diferentes carruagens. Nos primeiros anos viajamos ao lado dos nossos pais e mais à frente juntam-se os nossos amigos e familiares próximos. À medida que o comboio alcança outras estações (fim da escola, fim do liceu, primeiro emprego, casamento, etc.) as pessoas que nos acompanham vão mudando. Umas saem e outras entram, e como consequência disso mudam as pessoas que nos proporcionam apoio; nem todas as pessoas que nos acompanham nessa viagem têm igual importância para a nossa vida, ou seja, o tipo de pessoas que estão na carruagem e a sua proximidade connosco nem sempre é igual. Especificando, no comboio existe um grupo de pessoas a quem estamos ligados, e pelo facto, de termos a capacidade de podermos estabelecer uma série de relações baseadas nos afectos, na nossa valorização pessoal e na expressão livre dos nossos sentimentos, que vamos sendo influenciados e construindo a nossa personalidade, e a nossa maneira de ser.
A ideia que se pretende defender é que a rede familiar de parentescos que desenvolvemos ao longo da vida, e principalmente, nos tempos que correm
,
é a que dará o suporte afectivo que se necessita para encontrar o bem-estar presente e futuro.A Família é, sem dúvida, considerada como o espaço educativo por excelência e que Diogo (1998) descreve da seguinte forma:
“Ela é vulgarmente considerada o núcleo central do desenvolvimento moral, cognitivo e afectivo, no qual se “criam” e “educam” as crianças ao proporcionar os contextos indispensáveis para cimentar a tarefa de construção de uma existência própria. Lugar onde as pessoas se encontram e convivem, a família é também um espaço histórico e simbólico no qual e a partir do qual se desenvolve a divisão de trabalho, dos espaços das competências, dos valores, dos destinos pessoais de homens e mulheres. A família revela-se, portanto um espaço privilegiado de construção social da realidade em que, através das relações entre os seus membros, os factos do quotidiano individual recebem o seu significado”. (p.37).
O mesmo autor afirma que, a Família surge como o primeiro e o principal habitat socializante transmitindo e emprestando à criança toda a grande variedade de conteúdos, hábitos, normas e estruturas racionais.
A visão de família é remetida para um sistema complexo de múltiplos processos interactivos entre os elementos que a compõem e o supra sistema (família alargada e comunidade) que a engloba sofrendo diferentes metamorfoses ao longo da vida, no entender
de Canavarro et al. (2001), ela, é composta por diferentes sub-sistemas (conjugal, parental, fraternal e filial) que devem estar diferenciados e delimitados de forma clara, nem demasiado rígida, nem demasiado flexível, para que possam cumprir as suas funções.
Também a definição apresentada por Relvas e Alarcão (1989) é abrangente e ao mesmo tempo delimitadora, para estas autoras, a família é “um sistema social natural e, por isso, aberto e auto-regulado; por outras palavras é um conjunto de pessoas, unidas por laços sanguíneos e/ou afectivos, em interacção contínua”, e, lembram que a teoria sistémica da família se baseia na teoria geral dos sistemas que foi criada por um biólogo, Ludvig von Bertalanffy, para responder à necessidade de compreender a complexidade dos organismos vivos, e defender de uma forma global a organização complexa dos seres vivos.
O conceito central desta teoria é o de sistema: “ O sistema é a unidade global organizada por inter-relações entre elementos, processos ou indivíduos que está, ela também, em constante interacção com aquilo que a rodeia” (Chambel e Curral, 1995, pp.126).
Seja qual for o motivo que está na base da constituição da família, na maior parte das vezes são os laços de consanguinidade que estão na sua origem mas seja qual for essa origem, o que realmente interessa é que existam afectos, interesses, valores comuns a todos os elementos que a compõem e que as relações que estabelecem entre si sejam fortes e verdadeiras, permitindo um bom ambiente familiar.
Diferentes formas de família que podem ser adaptativas sendo os processos mais importantes do que as formas. Neste contexto o conceito de família normal é substituído pelo de família sã, uma vez que se assume não existir uma única forma de saúde.
Segundo Canavarro et al (2001), um modelo integrador que se enquadra nesta perspectiva é o Modelo de Ciclo de Vida Familiar de Carter e McGoldrick (1989), também citado por (Relvas, 1996, pp. 16): “ O Ciclo Vital da Família pode ser definido como uma sequência previsível de transformações na organização familiar, em função do cumprimento de tarefas bem definidas.
A família progride ao longo de diferentes estádios do desenvolvimento caracterizados por acontecimentos familiares importantes e por diferentes tarefas desenvolvimentais”. Para um desenvolvimento bem sucedido é necessário realizar as tarefas de desenvolvimento das fases precedentes. Normalmente, as transições de ciclo de vida criam perturbação e disfunção, principalmente quando ocorre mais do que uma transição em simultâneo. Este modelo de Ciclo de Vida de Carter e McGoldrick (1989) procura descrever a forma como a família vai sofrendo transformações, fornecendo, simultaneamente, uma perspectiva intergeracional da
família (este modelo tem como referencial as famílias de classe média, americanas, no final do séc.xx, e não contempla famílias sem filhos, famílias monoparentais e reconstruídas, nem as famílias de outras etnias) Este modelo considera dois tipos de pressões que se exercem sobre a família:
a) padrões de relacionamento e funcionamento que são transmitidos através de gerações (padrões familiares, mitos e heranças transmitidas de geração em geração)
b) ansiedade provocada pela família por acontecimentos normativos e não normativos, ao longo do tempo.
b.1) acontecimentos normativos: transições esperadas e previsíveis, que fazem parte do desenvolvimento da maior parte dos sistemas familiares (ex. nascimento de um filho).
b.2) acontecimentos não normativos: transições não esperadas e, normalmente repentinas e, por isso, associadas a níveis mais intensos de stress (ex. morte não esperada, doença crónica e acidente).
O conhecimento das pressões que se exercem sobre as famílias e a forma como lidam com as transições ao longo da vida bem como o grau de aceitação ou não, permitirá a uma maior compreensão das crianças e do seu processo de aprendizagem. Mesmo que em muitas situações a criança critique ou não a entenda, é nela e com ela que encontrará o suporte necessário para a sua caminhada de vida.
No período pré-industrial encontrávamos a família extensa ou família tradicional. Nessa época, a Família era bastante numerosa, pois a subsistência da mesma dependia da agricultura e quantos mais familiares pudessem trabalhar no campo mais benefícios trariam para toda a família.
A hierarquia da Família estava bem definida e estruturada. Os mais novos deviam respeito e obediência aos mais velhos, pois eles detinham o poder económico e toda a autoridade. A mulher era dominada pelo homem e a sua função como dona de casa estava bem delineada. Permanecia vinculada a uma união apenas por razões económicas e sociais (Caracóis, 2001).
A autoridade e o direito paternal predominava havendo pouco espaço para os laços afectivos. As relações familiares eram vistas numa perspectiva utilitária. Os próprios casamentos eram efectuados por questões económicas e pela necessidade de aumentar o
agregado familiar e assim dar continuidade à família (Lousada, 1998, citado por Caracóis, 2001).
O mesmo autor defende que este tipo de família trazia algumas vantagens. Existia um sentimento de segurança muito grande pela proximidade dos familiares. A criança, ao estar em contacto com várias gerações, era abraçada por conhecimentos de extrema riqueza. E tudo de uma forma espontânea porque decorria no dia-a-dia. O contacto com os irmãos mais velhos era vantajoso na aquisição dos costumes e de moral, pois a aprendizagem realizava-se no seu grupo de pares juntamente com os primos da mesma idade e os manos mais novos.
Na era industrial surge a família nuclear. Com o quase desaparecimento da actividade que unia a família - o trabalho rural e o aumento da emigração para as cidades uma reestruturação no seio da Família torna-se quase obrigatória.
As relações sociais alargam-se aos companheiros de trabalho e há uma reorganização das funções dos membros do agregado familiar. O chefe de família, de quem se espera que trabalhe no sentido de sustentar a família, zelar pela segurança, orientar e dirigir os respectivos membros passa a dividir o seu papel com a mulher, que assume as mesmas obrigações que ohomem. O pai passa a dar ternura e carinho, a vestir, a dar banho aos filhos, enfim, atitudes que antes se esperavam apenas da parte da mãe.
O número de elementos na família diminuiu devido à velocidade do dia-a-dia das cidades, ao trabalho e à própria estrutura da habitação. O casal escolhe ter poucos filhos não só por questões económicas, mas porque as questões afectivas passaram a ter mais importância (Caracóis, 2001). Para a mesma autora, a importância da interacção da criança com outros grupos continua a ser fundamental para desenvolver todo o seu ser. Com a família nuclear esta situação é muito vulnerável, pois há o risco de, por um lado, se fechar em si mesma e por outro, se abrir demais à sociedade.
Quando a Família se fecha a criança fica privada de se relacionar com os outros membros da sociedade e com outras gerações, mas quando se abre tanto aos outros e à sociedade a criança despersonaliza-se, pois deixa de contactar com os seus familiares, mas sim com indivíduos estranhos ao lar.
No entanto, continua a existir uma rede de laços entre os membros da família nuclear com a família alargada. É verdade que a independência e a realização pessoal é o grande objectivo de cada pessoa, mas a permanência de familiares nas proximidades é muito importante. Por exemplo, muitas mulheres pedem o auxílio das avós para cuidarem dos netos
a assim poderem enfrentar as suas múltiplas tarefas. A coabitação não é desejada, mas a proximidade é considerada vantajosa (Lousada, 1998, citado por Caracóis, 2001).