Implementation of operational semantics
10.1.1 Lifelines and gates
A interacção entre a Escola e a Família pode ir desde o alheamento profundo à participação mais activa. O cruzamento das actividades de confrontação e das atitudes dessas duas entidades pode ter diversas manifestações e diferentes níveis.
No entanto, não devemos nunca esquecer de que a Escola faz parte do quotidiano familiar de cada criança. Cada Família vive a Escola com diferentes graus de interesse, envolvimento e expectativas.
Perrenoud e Montandon (1987, citado por Diogo, 1998) referem que a entrada na escola básica das crianças, as preocupações com o sucesso escolar destas, a selecção no
acesso ao ensino secundário e superior correspondem a ciclos vividos com incerteza e tensão por muitas famílias. A Escola e o sucesso escolar correspondem à caracterização ou à frustração das expectativas que as famílias formularam para os seus filhos.
As famílias preocupam-se, também cada vez mais com o desabrochar e a felicidade dos seus filhos, esperando que a escola os discipline sem os anular e os instrua sem os privar da sua infância. Consequentemente, a Escola é, com frequência, atentamente vigiada pelos pais que lhe confiam os seus filhos com uma mistura de confiança e de desconfiança. Estes autores referem que o diálogo com a Escola não se instaura numa base de igualdade e que, individualmente, os pais não se relacionam numa base de igualdade, facto que se acentua ainda mais quando em presença dos lugares mais elevados na hierarquia escolar (Perrenoud & Montandon, 1987, citado por Diogo, 1998).
Para Eduardo Monteiro (2008) num artigo de opinião, a questão que se coloca assenta numa pergunta: “O que é que se espera que resulte de uma colaboração mais estreita entre escola e família? O mesmo autor responde mais à frente no artigo: “Eventualmente, mais sucesso académico que conduza, eventualmente, a um maior sucesso profissional e que, consequentemente, conduza a uma melhor qualidade de vida... objectivo feliz!”
Na relação família escola cada parte deve saber o que lhe cabe e quais as expectativas que têm e não se intrometer nos aspectos que não lhe dizem respeito.
O autor levanta uma questão pertinente: “se uma postura de participação dos pais mais informal no processo de instrução dos filhos não será mais vantajosa do que canais mais formais de relação e comunicação, ou ainda, se a única participação eficaz dos pais no que respeita à escola dos filhos não se processa por detrás da porta de casa?”
Importa pois definir com clareza o que se pretende dizer quando se pretende estabelecer uma colaboração, que pressupõe flexibilização para que o processo seja construtivo. Ainda para este autor a família penetra demasiado nas questões escolares, e a escola nas questões familiares.
Cada qual deve saber os seus papéis e perceber como os mesmos são diferentes ”O papel dos pais é de autoridade/cuidador, não forçosamente pedagógico, e o papel da escola é o pedagógico, sem perder o seu carácter de autoridade e sem se esvaziar na componente técnica. Já o objectivo de ambos, junto do aluno, é o seu sucesso académico, ou melhor, a aquisição de competências! E é aqui que se pode encontrar algo de comum.
Parece-nos importante, mais de que o estreitamento de relações entre a família e a escola, uma reflexão acerca do seu papel junto dos filhos-alunos, e a forma como concebem a
escola, percebendo esta como uma dimensão da vida das pessoas em geral e não tanto a própria vida delas. Assisto com frequência à degradação dos laços familiares por focalização excessiva nos insucessos escolares da criança, como se essa fosse a sua única dimensão.
Para o autor atrás referido e, em termos gerais, a direcção do desenvolvimento humano é a autonomia e a escola tem de ser percebida como tal principalmente pelo aluno, algo que permite a autonomia do próprio pelas competências que deverá veicular. Ora a autonomia óptima pressupõe um desenvolvimento "suficientemente harmonioso", em que os pais valorizam e ajudam a desenvolver as potencialidades dos filhos no que respeita aos seus gostos, competências, gestão de insucessos, disciplina, memória e atenção, motivação, criatividade, etc. e , acima de tudo, responsabilidade por si próprio. Tal pressupõe um ambiente familiar onde estas coisas aconteçam de uma forma espontânea e onde a criança se possa expressar de forma a obter feedbacks organizadores que a orientem na sua experiência.
Àquela criança desejosa de ir para a escola aprender e que sente o mínimo de competência sobre as suas tarefas, gerindo os seus insucessos de forma construtiva e autónoma, pouco sentido lhe faz que os pais vão à escola "colaborar estreitamente" com esta…aliás, pouco sentido faz à escola ter estes pais lá, a não ser como modelos.
Crianças frágeis, com insucesso escolar (e eventualmente com problemáticas comportamentais), de pouco ou nada serve a colaboração família-escola, que grande parte das vezes se vai resumir ao mitigar dos falhanços da criança: os pais não vão propor medidas pedagógicas aos professores, nem os professores têm de propor medidas parentais para os pais.
É neste aspecto que nos parece que o papel mais importante dos pais é o que é realizado em casa, durante o desenvolvimento da criança e que o papel mais importante da escola é o pedagógico (inerentemente relacional e técnico) estabelecendo estratégias operacionais e eficazes para fazer face ao projecto pedagógico da criança, que é esse o objectivo da frequência do aluno na escola. Neste sentido, parece-nos, também, que a melhor colaboração entre a família e a escola é precisamente o veicular à criança confiança acerca da escolarização e ocorrências escolares, suportando e apoiando os anseios da criança e guardando para local próprio reacções relativas à própria escola.
A melhor colaboração da escola relativamente à família será a de aliviar o peso da escola naquilo que é a relação entre pais e filhos, já que uma interacção "infectada" de preconceitos negativos devido ao falhanço escolar apenas mitiga mais o mal-estar e
sentimentos de incompetência do aluno, aspecto pouco reparador no que ao investimento escolar concerne.
É do senso comum que a tarefa de ensinar cabe ao professor e que a aprendizagem é tarefa do aluno. Sabendo que toda a aprendizagem é emocional e que a relação pedagógica, mais do que relação técnica, tem de ser uma relação também ela emocional de forma, a que a sua mediatização seja significativa e suficiente, importa sermos mais criativos nesta dinâmica. Será necessário que o professor dos nossos dias seja criativo e consiga fazer esta aproximação da família com a escola. Ele próprio também faz parte de uma família
Segundo Kaloustian (1988), a família é o lugar indispensável para a garantia da sobrevivência e da protecção integral dos filhos e demais membros, independentemente do arranjo familiar ou da forma como vêm se estruturando. É a família que propicia os aportes afectivos e sobretudo materiais necessários ao desenvolvimento e bem-estar dos seus componentes. Ela desempenha um papel decisivo na educação formal e informal, é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e humanitários, e onde se aprofundam os laços de solidariedade. É também em seu interior que se constroem as marcas entre as gerações e são observados valores culturais.
Gokhale (1980) acrescenta que a família não é somente o berço da cultura e a base da sociedade futura, mas é também o centro da vida social... A educação bem sucedida da criança na família é que vai servir de apoio à sua criatividade e ao seu comportamento produtivo quando for adulto... A família tem sido, é e será a influência mais poderosa para o desenvolvimento da personalidade e do carácter das pessoas.
Relacionados os sustentáculos formais da relação família/escola/educação é importante pontuar ainda alguns aspectos. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a família independente do modelo como se apresente, pode ser um espaço de afectividade e de segurança, mas também de medos, incertezas, rejeições, preconceitos e até de violência. Assim, é fundamental que conheçamos os alunos e as famílias com as quais lidamos. Quais são as suas dificuldades, os seus planos, medos e anseios?
Enfim, que características e particularidades marcam a trajectória de cada família e consequentemente, do educando a quem atendemos? Estas informações são dados preciosos para que possamos avaliar o êxito de nossas acções enquanto educadores, identificar demandas e construir propostas educacionais compatíveis com a nossa realidade. Em segundo lugar, na relação família/educadores, um sujeito sempre espera algo do outro. E para que isto
de facto ocorra é preciso que sejamos capazes de construirmos colectivamente uma relação de diálogo mútuo, onde cada parte envolvida tenha o seu momento de diálogo, mas também de escrita, onde exista uma efectiva troca de saberes.
A capacidade de comunicação exige a compreensão da mensagem que o outro quer transmitir e para tal faz-se necessário o desejo de querer escutar o outro, a atenção às ideias emitidas e a flexibilidade para as recebermos pois podem ser diferentes das nossas. Uma atitude de desinteresse e de preconceitos pode danificar profundamente a relação família/escola e trazer sérios prejuízos para o sucesso escolar e pessoal dos educandos.
Para terminar esta linha de pensamento, muitos podem ser os significados da palavra participar. É preciso que conheçamos as razões pelas quais as famílias não têm correspondido ao que nós educadores/professores esperamos da sua participação na escola. Para tal, precisamos de nos despir da postura de juízos que condenam sem conhecer as razões e incorporarmos o espírito investigador que busca as causas para o desconhecido.
Um diálogo frágil porque, apesar de desigual, o diálogo existe. Os pais vêem os seus filhos como seres únicos, estando permanentemente atentos às suas particularidades e às suas necessidades. Os professores, pelo contrário, vêem em cada aluno um membro do grupo, no seio do qual é necessário instaurar uma dinâmica colectiva que passa por uma certa uniformização nas formas de tratamento.
No estudo realizado em escolas portuguesas sob a orientação de Davies (1989), no qual foram conduzidas 134 entrevistas aos educadores de infância e professores (de ambos os sexos) em 7 distritos do país (Castelo Branco, Coimbra, Faro, Lisboa, Porto, Santarém e Setúbal). Esta amostra engloba três níveis de escolaridade: Jardim de Infância, 1º e 2º ciclo do Ensino Básico em comunidades urbanas e rurais com estatuto socio-económico baixo, médio e alto.
O estudo atrás referido visava saber que género de contactos existia entre a escola e os pais, os entrevistadores colocaram questões relacionadas com a natureza e frequência desses mesmos contactos. Constataram que no 1º Ciclo cerca de 20% dos pais não tinham contacto de nenhuma espécie com a Escola durante o ano. A resposta média é de duas ou três mensagens por ano ou contactos individuais. Quase invariavelmente, a razão do contacto devem-se a problemas académicos ou comportamentais da criança. Os pais entrevistados quase não referem a sua participação noutro tipo de actividade na Escola.
Do estudo de Benavente (1990) realizado em 63 escolas do 1º ciclo (23 da região de Lisboa e 40 de outros concelhos do país) com 105 professores retiram-se as seguintes
conclusões: a) em Lisboa, 1/3 dos pais foram contactados pela professora e 39% nunca receberam solicitações nem da escola nem da professora; b) nos restantes concelhos, 33% dos inquiridos dizem realizar uma reunião por período; 30% dos professores referem que raramente as realizam ou quase nunca fazem reuniões e apenas 1/3 dos professores referem fazer reuniões. Os restantes preferem os encontros individuais por terem pouca frequência, pela falta de interesse dos pais e por terem já tido experiências difíceis.
Deste modo, podemos dizer que o diálogo é inexistente, verificando-se na relação professores/encarregados de educação uma comunicação de carácter unilateral. Lightfoot (1978, citado por Diogo, 1998) utiliza o termo “worlds apart” para descrever a separação, entre as famílias e as escolas, em particular das famílias minoritárias e de baixos rendimentos, mas igualmente aplicado à colaboração entre a Família e a Escola, para a promoção do sucesso escolar dos alunos e a tradicional corrente burocrática das escolas. Para que haja uma verdadeiramente comunicação, é necessário que esta seja bilateral, na qual ambas as partes possam discutir as suas diferenças.