Definition of operational semantics
8.2 Communication model
Para (Félix, 1994), a Família é, como já referimos anteriormente, o primeiro e o mais marcante espaço de realização, desenvolvimento e consolidação da personalidade humana, onde o indivíduo se afirma como pessoa, o habitat natural de convivência solidária e desinteressada entre diferentes gerações, o veículo mais estável de transmissão e aprofundamento de princípios éticos, sociais, espirituais, cívicos e educacionais, o elo de ligação entre a consistência da tradição e as exigências da modernidade.
No entanto, não está isolada ou imune às transformações que se vão verificando necessitando de ajustamentos e adaptações na sua estrutura. O fim da Família como unidade de produção económica, a baixa da taxa de natalidade, o divórcio, a união livre, a mulher que trabalha fora de casa, os filhos entregues não aos cuidados maternos, mas a Jardins de Infância e à Escola, são alguns dos aspectos reveladores das mudanças ocorridas na Família.
Félix (1994) aponta alguns factores que actualmente atingem e condicionam a estrutura familiar:
- A horizontalização da comunicação entre as pessoas, que hoje caracteriza as sociedades modernas favorecendo a relação entre membros da mesma geração e desfavorecendo a produzida verticalmente de uma geração para a seguinte;
- A administração do tempo que jamais se fará do mesmo modo das gerações que nos antecederam, pois o tempo familiar é alternado não só com o tempo de trabalho como também com os tempos de lazer e formação;
- O trabalho e a consagração de igualdade entre o homem e a mulher que origina grandes transformações na existência, formação, vivência e até dissolução familiares passando a
existir uma maior partilha das responsabilidades familiares, designadamente no que se refere à educação dos filhos e à orientação e desempenho das actividades domésticas; - Os factores demográficos como a queda da nupcialidade, fecundidade e crescimento
natural, o aumento dos nascimentos fora do casamento, o retardamento do nascimento do primeiro filho e diminuição da dimensão média das famílias, o aumento da esperança de vida e da taxa de dependência dos idosos, têm vindo a provocar adaptações importantes no desenvolvimento da instituição familiar.
Todas estas situações acarretam consequências para o bem-estar material e psicológico das crianças. Em todas as épocas, pais e filhos sempre aprenderam uns com os outros mas, hoje em dia, os campos experiências de interacção e de aprendizagem recíproca têm progressivamente diminuído (Diogo, 1998).
Por exemplo, o vínculo que o bebé estabelece com a mãe ou substituta nos primeiros tempos de vida vai determinar todos os outros que se estabelecem entre a criança e o meio. Se for um vínculo frágil e superficial os outros também serão (Caracóis, 2001). Assim, o pouco tempo que a mãe actualmente dedica ao seu filho devido à sua carga horária no campo profissional não permite criar, por vezes, uma ligação profunda e harmoniosa podendo então concluir que esta dificuldade poderá originar uma inadaptação e incapacidade de estabelecer relações afectivas com os outros por parte da criança. A má vinculação leva a crianças inadaptadas, ansiosas e inseguras.
Segundo Bronfenbrenner (1998) uma criança para se desenvolver necessita de um envolvimento estável de um ou mais adultos, implicando atenção e actividades conjuntas -
care and joint activity - com a criança.
Neste sentido, as crianças precisam de ter actividades conjuntas que lhes proporcionem um desenvolvimento equilibrado através do estabelecimento de uma forte relação afectiva. Para a realização destas actividades é necessário que as actuais famílias as promovam e tenham tempo para as concretizar, o que nem sempre é fácil.
Desta forma, a Família que precariamente exerce as suas funções, passa a “concorrer” com outros meios institucionais ou informais de educação e formação.
Segundo Félix (1994), a Família perdeu o monopólio da informação e formação dos seus membros. A função de transmissão de informação, valores e comportamentos passa a ser repartida com a Escola. E começa a enfrentar uma outra forma de interesses, ideias e valores não necessariamente familiares.
A Escola surge então como o segundo grupo onde a criança se vê forçada a inserir. No início a Família esperava apenas que a Escola lhes ensinasse a ser alguém, servia apenas para ministrar os conhecimentos necessários à transformação da criança num ser “útil” à sociedade.
A escolaridade obrigatória concede à escola uma importância que a Família tende a considerar como “substituição” das suas funções, levando-a a não saber como agir e a sentir- se de certa forma invadida, o que leva a uma maior ausência.
Segundo Lousada (1998, citado por Caracóis, 2001) as duas instituições preocupam-se com a formação integral dos alunos e torna-se necessário conjugar esforços e desenvolver as interacções professor/pais para poder facilitar a tarefa que ambos têm - a da formação dos alunos/filhos mas na realidade o que acontece é uma ambivalência de atitudes e comportamentos dos dois grupos perante a criança.
O mesmo autor, afirma que os professores desejam que as suas orientações tenham continuidade em casa, mas por vezes não gostam nem permitem que os pais interfiram nas suas salas de aula. Por outro lado, os pais nem sempre apoiam os professores, pois raramente estão presentes aquando das solicitações da Escola.
Na verdade, vemos muitas vezes os pais a livrarem-se da sua responsabilidade, a coberto de métodos educativos utilizados pelos professores e, por outro, lado os professores oferecem aos pais “receitas educativas” que criam uma certa ansiedade no acto educativo tornando toda esta relação pouco natural. Existe uma “sentimentalização” do instrumental e uma instrumentalização da afectividade, que Montandon (1987, citado por Diogo, 1998) descreve do modo seguinte:
Nas famílias actuais os pais são, por um lado, impelidos a considerar as relações afectivas com as crianças numa óptica quase profissionalizada, seguindo à letra os conselhos dos pediatras e de outros especialistas da infância e, por outro, são impelidos a encarar tudo o que é instrumental, por exemplo, a escolarização, a integração profissional ou o futuro, com a ansiedade típica de um investimento afectivo…as relações entre pais e filhos têm sido psicologizadas mais do que sentimentalizadas (p.47).
Entende-se que o desenvolvimento da criança é fortemente condicionado pelos dois principais contextos em que esta cresce e se desenvolve - a Família e a Escola. Desta forma é importante que os dois grupos se consciencializem de que o trabalho em comum, desenvolvido adequadamente, pode conduzir a resultados positivos para a Família, para os professores e principalmente para os alunos.
Segundo Caracóis (2001) a Escola poderá ser um meio de comunicação e intercâmbio de conhecimentos e experiências. No mesmo sentido Félix (1994) afirma que a disponibilidade e entrega da Família não deverão ser apenas de carácter físico e temporal, mas afectivo e intelectual.
O acompanhamento da vida escolar, pode, em muitos casos, fazer-se a um nível não necessariamente técnico. O interesse pelo quotidiano dos filhos, a compreensão dos seus anseios, aspirações, dificuldades e angústias constituem poderosos estímulos para os motivar no desenvolvimento dos estudos.