No decorrer da pesquisa bibliográfica deparámo-nos com uma infinidade de trabalhos de investigação, independentemente da língua em que eram escritos, do uso de expressões como: “parceria”, “participação”, ”ligação”, “relação”, “envolvimento”,
“cooperação”, “colaboração”, entre outras, que eram utilizadas de forma um pouco confusa e, de certo modo, pouco rigorosa nesta terminologia que pretendia traduzir a aproximação entre a escola, a família e a comunidade, podendo variar a sua utilização de autor para autor, ou de acordo, com a data da investigação.
No entanto, nota-se cada vez mais a procura de maior rigor conceptual, e verifica-se a tendência crescente de se utilizar a expressão “envolvimento parental dos pais /da família”,
por exemplo, nas publicações de Joyce Epstein (1987;1992;1997), quando pretende referir “actividades relacionadas com a comunicação escola-casa e ajuda nas actividades de aprendizagem em casa”. A expressão “participação dos pais /da família” é referida por Davies
et. al. (1997) para indicar “as actividades que pressupõem a tomada de decisões, o exercício
do poder deliberativo. Mais recentemente, a maioria dos autores prefere manter o termo envolvimento, utilizando a expressão “envolvimento individual e envolvimento colectivo” para explicar as duas situações apontadas por Joyce Epstein (1997).
A palavra parceria começa a ser utilizada por quase todos os autores. Este conceito é esclarecido pelo sociólogo Steven Stoer (1995) na análise que fez dos sete estudos de caso que fizeram parte de um estudo multinacional, três dos quais realizados em Portugal, onde faz a distinção entre o termo “partenariado”, aplicado a uma equipa formal e introduzido graças a programas de índole social e económica, e “parceria”, aplicado a um trabalho informal “entre pessoas ou entidades com interesses comuns”.
Segundo Davies (1989, p.24):
Pais e família – estes termos apresentam neste estudo uma grande proximidade. O termo,
Pais, no plural, refere-se aos adultos que têm responsabilidade legal sobre a criança, e o termo, Família, refere-se ao grupo de adultos e crianças no qual a criança se insere e a que está ligada por laços de parentesco ou adopção.
Envolvimento dos pais – esta designação cobre todas as formas de actividade dos pais na
educação dos seus filhos – em casa, na comunidade ou na escola. Por vezes, é usada a expressão participação dos pais exclusivamente para referir aquelas actividades dos pais que supõem algumpoder ou influência em campos como os do planeamento, gestão e tomada de decisões nas escolas.
No que diz respeito à relação escola-família os dois aspectos devem ser considerados. Seeley (1989) refere, sem querer invalidar uma perspectiva interactiva, que a utilização do termo parceria implica certamente uma maior responsabilização dos “parceiros”com iguais direitos e deveres perante um objectivo comum, o da aprendizagem. A preferência desse termo em relação ao tradicional, “envolvimento parental”, deve-se ainda, segundo Davies e Johnson (1996b), à necessidade de assinalar uma relação tripartida com a escola e a comunidade.
Independentemente da terminologia adoptada, parece importante salientar que a influência da família, da comunidade e da escola na aprendizagem das crianças é universal e aceite por todos. Para além deste aspecto, há que juntar a influência de teorias ecologistas na Educação que nos levam a falar na diminuição das descontinuidades entre as instituições, explicando a importância de todos os ambientes que envolvem as crianças.
A ligação da família com o ambiente foi apresentada por Bronfenbrenner (1987), que defende na sua obra intitulada “The ecology of Human Development” um modelo ecológico, considerando o ambiente em que a criança se desenvolve como um macro sistema com quatro níveis distintos entre si: i) num primeiro nível são consideradas as situações primárias (Microssistemas) de que fazem parte a família e a escola; ii) num segundo níveis são consideradas as interacções entre essas estruturas (Mesossistema); iii) as estruturas do terceiro nível (Ecossistema) são constituídas pelas situações que estão para aquém da criança, mas que a afectam, tais como o tipo de emprego dos pais, tempo disponível, desemprego; iv) no quarto e último nível, são consideradas outras situações que afectam a família, tais como guerras, crises económicas, migração (Macrossistemas).
Desta forma poderemos dizer que para além da maturação biológica, o ambiente, considerado relevante para o processo de desenvolvimento humano, não se limita ao contexto imediato em que se encontra o sujeito, mas engloba uma série de estruturas de níveis diferentes, interligadas entre si.
Além da importância que tem uma situação de aprendizagem, há que entender que em cada mudança de nível existe a oportunidade de desenvolvimento e o risco desse desenvolvimento não se fazer. Convém notar no âmbito deste trabalho, a relevância do Mesossistema, descrito como as interacções entre a família e a escola.
Deste modo, e referindo Sall e Ketelle (1996), situações como a não existência de relações, ou no caso destas não serem alicerçadas numa base de respeito mútuo e num empenhamento partilhado relativamente à criança, afectarão o desenvolvimento da criança, ou do jovem, que corre o risco de não se tornar o cidadão informado e responsável que a sociedade pretende. O desenvolvimento do indivíduo é então visto como função da relação entre a forma como esse desenvolvimento se processa no ambiente familiar e a forma como ele vai ser promovido na escola.
Para as duas autoras, atrás referidas, o desenvolvimento do indivíduo depende da continuidade que for estabelecida entre as duas situações primárias (contextos imediatos) e implica, necessariamente, para além duma comunicação efectiva, o conhecimento da criança e
da cultura em que está inserida e, ainda a sua integração progressiva na ordem social. No seguimento dum estudo longitudinal que acompanhou crianças desde o momento que precedeu ao seu nascimento até ao final dos quatro anos de escolaridade, Heath (1992b) refere o peso da descontinuidade cultural no insucesso escolar e a consequente necessidade de se fazer a aproximação entre a cultura da escola e a da família.
Segundo Bernstein, citado por Domingos et. al. (1986), a socialização é o processo pelo qual um indivíduo “se torna membro de um grupo social, adquire uma identidade cultural específica e responde em função dessa identidade, tornando-se membro dum determinado grupo social.”
Em virtude do que foi apresentado, envolvimento, ambiente, parceria e socialização são conceitos importantes e devem estar suficientemente claros e definidos, pois, complementam-se e estão directamente relacionados uns com os outros. A abordagem dos mesmos deve ter presente a ideia de que devem ser vistos em conjunto e que uns afectam ou facilitam o desenvolvimento da criança.