Chapter 5 The international background for the development of Norwegian accounting rules
5.4 The beginning of American standard setting
Para Spinoza, devemos partir do que nos é conhecido naturalmente (“a ordem mais natural que temos”)39. Neste sentido, em primeiro lugar, analisaremos esta noção de modos de
percepção (modi percipiendi) discutida no TIE. Os modos de percepção se dizem de quatro formas: 1) ouvir dizer (ex auditu), 2) experiência vaga (experientia vaga), 3) produto de um raciocínio (ratio) e 4) Intuição (scientia intuitive) ou percepção da coisa pela sua essência ou causa próxima. O “[...] quarto modo de percepção é apresentado como sendo exemplificado e tipificado pelas idéias matemáticas ainda abstratas, o que realmente a reduz a um tipo de idéias adequadas [...].” (TEIXEIRA, 2001, p. 31). A diferença entre o terceiro e o quarto é que aquele é dedutivo e este é uma visão imediata da verdade, sem dedução. Para saber o melhor modo de percepção, é necessário conhecer a natureza humana e as coisas. O primeiro modo nos proporciona apenas vagas abstrações tais como a linguagem.40 Há em Spinoza, certa forma, um convencionalismo acerca da linguagem, uma vez que ele considera a linguagem como atribuições estritas da natureza humana, dado a maneira como imaginamos e somos afetados, corporalmente, produzindo imagens, palavras, signos, etc. Assim, a linguagem se torna negativa na filosofia spinozista pelo fato de que ela precisa antes, ser guiada pelo entendimento (ligado às causas das coisas) e não pela imaginação (ligada aos efeitos das coisas).
Neste sentido, Spinoza nos diz sobre o conceito de abstração que, segundo Teixeira (2001, p. 37), “[...] significa separar o pensamento do concreto, pensar puras idéias, em vez de pensar idéias do real, do dado, o que, como já dissemos, não pode ser feito sem que pensemos o todo.” Os modos relacionados à intuição são próximos do concreto, por isso, o melhor dos modos de percepção. A melhor percepção é a que se identifica com a realidade excluindo qualquer possibilidade de erro ou separação do concreto (abstração) que é pensar qualquer coisa fora da ordem universal das causas e efeitos. Numa segunda abordagem, Spinoza tratou
39 “Assim, Espinosa examina os diversos modos de percepção sem ainda nada a dizer sobre a maneira de
empregar o melhor deles a fim de adquirir o conhecimento.” (TEIXEIRA, 2001, p. 26).
40 Para uma análise crítica spinozista acerca da linguagem que, relacionada aos signos, é um modo de imaginar
oriundo do primeiro gênero de conhecimento (imaginativo) cf. CHAUI, Marilena. Da Realidade sem Mistérios
dos modos de percepção, precisamente na segunda parte do Breve Tratado (1650-1660)41
onde chama de opinião o que seria o primeiro e segundo modo no TIE: 1) Opinião, 2) Crença (racional) e 3) Conhecimento claro e distinto. Os dois primeiros são dedutivos, o último, intuitivo. Estes três modos são “causas próximas” de todos os afetos; são conceitos ou a consciência do conhecimento de nós e das coisas fora de nós segundo o qual o primeiro modo leva ao erro, mas o segundo e o terceiro, à verdade. Spinoza classifica-os mais precisamente desta forma: “1. Simplesmente por crença (que provém ou da experiência ou do ouvir dizer). 2. Ou bem por uma verdadeira crença42. 3. Ou bem por uma intelecção clara e distinta.” (KVII1/2).
Por fim, a questão dos modos de percepção é tratada na Ética como gêneros de conhecimento (genero cognitionis)43. “Os gêneros de conhecimento já não são ‘faculdades’ separadas e distintas, mas partes ou, mais exatamente, graus de uma única e mesma atividade. “ (RAMOND, 2010, p. 29), pois Spinoza recusa a análise do conhecimento que envolve a distinção entre entendimento e vontade. Os gêneros de conhecimento são modos de existência
na medida em que constituem os tipos de consciência e de afetos que lhes correspondem. Spinoza descreve o processo, na Proposição 40 da Parte II da Ética, como se originam os
Gêneros de Conhecimento a partir do momento em que nós percebemos muitas coisas e formamos noções universais44:
Iº A partir de singulares, que nos são representados pelos sentidos de maneira mutilada, confusa e sem ordem para o intelecto [...], por esse motivo costumei chamar essas percepções de conhecimento por experiência vaga. IIº. A partir de signos, por exemplo, de que, ouvidas e lidas certas palavras, nos recordamos das coisas e delas formamos ideias semelhantes àquelas pelas quais imaginamos as coisas. [Conhecimento de primeiro gênero: opinião ou imaginação]. IIIº. Finalmente, porque temos noções comuns e ideias adequadas das propriedades das coisas [...] [Conhecimento de segundo gênero: Razão]. (E2P40S2).
Além disso, segundo Spinoza, temos um conhecimento de terceiro gênero: a Intuição
(scientia intuitiva), que ‘‘[...] procede da ideia adequada da essência formal de alguns atributos de Deus para o conhecimento adequado da essência das coisas.’’ (E2P40S2). Em
41 O Breve tratado de Deus, do Homem e de seu Bem-Estar foi considerado um dos primeiros escritos de
Spinoza. Segundo alguns spinozanos como Deleuze (2002), há uma tradução latina do KV, mas existem dois manuscritos holandeses cujas anotações parecem de ouvintes onde Spinoza teria contribuído em algumas partes.
42 Segundo Delbos (2002, p. 98), “Essa forma de marcar os graus de conhecimento e a própria expressão da
crença ou fé verdadeira para designar um deles lembra o platonismo, que nesse ponto, certamente por algum intermediário, inspirou Espinosa.”
43“O que há de mais interessante na Ética a respeito dos modos de percepção é que o assunto é exposto tendo
como ponto de partida uma teoria das ideias gerais.” (TEIXEIRA, 2001, p. 161).
44São as noções gerais que constituem o conhecimento de primeiro gênero por meio da experiência vaga e pela
utilização de sinais de linguagens, inutilizáveis e mal fundados. Spinoza deu alguns exemplos de noções gerais que formamos, como homem, cavalo, cão, etc.
suma, podemos definir os principais aspectos dos gêneros de conhecimento da seguinte forma: 1) Através da Imaginação (imaginatio) como um conjunto de ideias inadequadas (passivas); imagens confusas e obscuras da nossa experiência sensível. 2) Pela Razão (ratio), como as noções comuns (notioni communis)45 sobre leis necessárias entre um todo e suas partes; é também a consciência das relações de causas e efeitos. E por fim, 3) a Intuição
(intuitione), que é a ideia adequada (ativa) das coisas conhecendo sua natureza íntima pelas
suas causas e efeitos necessários, ou seja, é a certeza intelectual que nos faz saber que sabemos.
Spinoza (E2P40 e 42) conclui dizendo que o conhecimento de primeiro gênero (imaginativo) é a única causa de falsidade enquanto o de segundo e o de terceiro (racional e intuitivo) são verdadeiros. (E2P40). E, por conseguinte, o conhecimento de segundo e de terceiro gênero nos ensinam a distinguir o verdadeiro do falso. (E2P42). Quanto à imaginação, ela é o conhecimento de primeiro gênero que, diferente da intelecção, é um efeito da ação de causas externas sobre nós e não nos oferece a própria coisa tal como é em si mesma. ‘‘A Imaginação possui suas leis necessárias de operação e a linguagem, enquanto produto da imaginação, não é um amontoado de contingências, mas um conjunto de acontecimentos inteligíveis. ’’ (CHAUI, 1981, p. 35). Segue-se que a imaginação consiste em apreender a natureza partindo de qualidades que atribuem o homem; ela é falsa quando tomamos como parte do intelecto. Assim é a memória, como sensação das impressões do cérebro junto com o pensamento de uma determinada duração.