Chapter 2 Accounting practice under the UK impairment standard
2.2 Relationship to prior research
Observando as relações dos frequentadores entre si e com o espaço da praça Portugal, é possível constatar a permanência, em 2009, de sentidos elaborados para o lugar ao longo dos anos 2000: espaço para vivências de liberdade de ação e expressão; de realização de escambo ou comércio paralelo de bens simbólicos; de confronto com a diversidade de estilos juvenis; e de estreitamento de laços de amizade.
No entanto, de sujeito para sujeito, foi possível perceber mudanças na forma como cada um experimentava os sentidos referidos. O desafio aos limites do exercício da liberdade de ação no espaço público esteve mais evidente no perfil de Satã e seu grupo identificado como headbanger, quando elegem a praça como espaço para beber e fazer “enxame”. A imagem dos skinheads personificada no perfil de Skin, atuante na comunidade on-line Praça Portugal, também se relaciona com esse sentido do lugar da praça ao negar aos demais
frequentadores o direito de desafiar publicamente normas conservadoras de conduta no espaço público, como consumo de álcool ou drogas e expressões de homoafetividade.
A relação com o sentido do lugar praça Portugal como espaço para o escambo e o comércio informal de bens simbólicos mostrou-se mais evidente na experiência do jovem identificado como otaku Akira. Apesar disso, é provável que o fluxo de produtos ocorra em menor intensidade também para os demais estilos. Akira e seu grupo de tokufãs vivenciavam esse sentido reforçando a prática da troca e desestimulando a venda, numa expressão de um culto aos produtos próximo ao sagrado, cuja relação comercial viria a macular.
A tomada de posição diante do sentido do lugar praça Portugal como espaço de convívio de uma diversidade de estilos por meio dos quais sujeitos juvenis articulam bens simbólicos, outros produtos como artigos de vestuário e brinquedos, atividades lúdicas e ideais de vida para a produção de identidades grupais foi evidente em todos os perfis traçados aqui.
Importante notar que, além de fazer alusão a padrões de consumo estabelecidos por indústrias culturais de projeção global, tais estilos são usados pelos sujeitos juvenis para expressar questões próprias de suas condições subjetivas e sociais elaboradas de forma local. O que se mostra são vínculos de identificação marcados pelo critério da diferença (WOODWARD, 2000). Assim os jovens frequentadores da praça articulam jogos de interação que ocorrem em dinâmicas de enunciação elaboradas com base em códigos preestabelecidos, que são estilos.
Bolinho de Arroz repensava sua condição feminina diante do comportamento de um rapaz com quem havia se relacionado e se decepcionado por meio do culto ao estilo emo. Melancolia, agressividade e expressão de afeto para com os amigos misturavam-se tal qual nas letras e músicas dos sucessos de emocore que ouvia e reproduzia em notas de contrabaixo. Satã rebelava-se contra um sistema organizado a favor de uma elite socioeconômica ao som do que chamava “favela metal”, som local inspirado na musicalidade pesada e pontuada de distorções do heavy metal propagado mundialmente por bandas de sucesso promovidas por gravadoras mainstream. A manifestação de intolerância e a ameaça de violência marcam a posição de Satã diante da diversidade de estilos existentes na Praça Portugal, apesar do desejo de estar no local.
O perfil de Skin, embora não esteja associado ao consumo de produtos das indústrias culturais, se estabelece com base em valores preestabelecidos por um movimento originário da Inglaterra, num contexto de crise econômica e social bastante distante da realidade local em 2009. Apesar disso, ideias, símbolos e signos skinheads foram apropriados para nortear a
atuação local de jovens incomodados com o que caracterizam como desvios de comportamento praticados por outros grupos, como a homoafetividade ou o culto a valores anárquicos.
O grupo de rpgistas, ao transferir seus esparsos encontros para as tardes de domingo, retira-se da convivência com os demais estilos cujas práticas inviabilizavam as condições necessárias para o uso que fazia do espaço: transformá-lo em portal para outras dimensões lúdicas em sessões de RPG.
Os tokufãs adotaram a estratégia inversa à dos rpgistas retratados: preferiram o embate a cada sábado para marcar posição, manter e até ampliar o espaço otaku na praça Portugal. Desejavam com isso avivar as marcas deixadas por tantos encontros de otakus no local, numa tentativa de reelaborar práticas registradas na tradição otaku fortalezense.
É importante observar que a experimentação dos sentidos de lugar discutidos anteriormente ocorreu sempre no âmbito de um grupo em relação a outros. Isso ressalta a importância dos vínculos entre os sujeitos no seio de determinado grupo, o que faz retomar a discussão referenciada na segunda seção da dissertação por menção aos conceitos de neotribos e subculturas.
As observações realizadas na praça Portugal retratam encontros de sujeitos ligados por vínculos diversos. Entre o grupo de headbangers, predominavam vínculos mais estáveis pela relação de vizinhança que ligava muitos dos integrantes, moradores que eram do mesmo bairro. O oposto se dava com o grupo de emos em que se inseria Bolinho de Arroz, que chegava sozinha à praça para estreitar laços com outros jovens com os quais não vivenciava outras relações de proximidade. Desse modo, a complexidade da realidade observada não permite o encaixe perfeito a definições teóricas que, no contexto deste trabalho, aparecem como secundárias.
De outro modo, as mesmas observações reforçam o sentido do lugar praça Portugal como espaço para a formação e o estreitamento de vínculos entre jovens da cidade ao situar-se como um ponto comum para diferentes circuitos de agrupamentos juvenis locais. A interseção de trajetórias de grupos com origens distintas permite a ocorrência de improváveis contatos entre jovens pobres de periferia e jovens de classe média, moradores de bairros próximos à praça. Dessa possibilidade decorrem experiências peculiares de socialização no espaço público, ou na “rua”, como pode ser qualificado o ambiente em que o poder coercitivo, exercido pelo Estado, aparentemente distancia-se dos sujeitos juvenis. Essa é certamente uma peculiaridade do lugar praça Portugal no contexto de Fortaleza.
A comunidade on-line Praça Portugal, onde também se fazem presentes sujeitos juvenis frequentadores da praça, a exemplo dos aqui retratados, funciona como outro anteparo para interações e experiências, as quais também contribuem para a elaboração dos sentidos aqui mencionados para o lugar praça Portugal. Por isso, este recorte no ciberespaço pode ser também considerado um ponto no circuito juvenil da cidade, que já não se constitui somente como um espaço ocupado, como afirma Martín-Barbero (2004, p. 293), “mas também um espaço comunicacional que conecta entre si seus diversos territórios e os conecta com o mundo”.