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1.5 Background of the study

1.5.2 The assessment practice

O primeiro a ser entrevistado foi Inglês, principalmente porque era amigo de minha família e casado com a filha da filha da irmã da mãe de meu pai. Quando jovem era muito amigo de meu irmão. Assim, para quebrar o gelo, procurei aqueles com quem tinha mais aproximação. Em uma tarde, marcada com antecedência, fui à sua casa, sendo recebida como membro de sua família, pois parente e amigo no Marajó é parte da família mais ampla.

A entrevista iniciou com a informação sobre o destino dos filhos, rendendo um pequeno lanche para melhor fluir o diálogo. Inglês parecia bem à vontade para tratar de um tempo que ele sabia muito bem, com maestria, haja vista que sua juventude inteira esteve relacionada ao mundo da pecuária.

Desse modo que entrei na conversa sobre seu passado de vaqueiro, pois quando casou passou a morar no mesmo Rancho que seu pai adotivo/padrasto havia morado. Depois se tornou feitor de uma subfazenda, no município, na mesma fazenda em que ele foi adotado pelo feitor. Saindo da primeira condição de trabalhador, vaqueiro, mudou de local e deixou seu primeiro filho para ser criado pela esposa do mesmo feitor que o havia adotado aos 14 anos.

O pai do vaqueiro Inglês se tornou feitor. A história deste vaqueiro é marcada por adoções, já que teve dois pais adotivos. Seu pai de sangue foi feitor e não o criou, porque sua mãe casou com outra pessoa; assim, o marido de sua mãe foi seu primeiro “pai de criação”, o qual também trabalhou como vaqueiro. O segundo pai, como seu primeiro pai adotivo/padrasto, foi vaqueiro em uma fazenda na qual morava com a família no “Rancho”, a ilharga da casa grande.

No momento da entrevista, Inglês, já aposentado e morando na cidade de Muaná, administrava um pequeno comércio do filho mais velho, aquele adotado pelo casal da fazenda. O empreendimento fora montado com o capital da herança deixada pelos pais adotivos de seu filho mais velho. Naquele momento, estava só ele e a esposa, Dalcinda, que teve de ir para a venda enquanto ele concedia a entrevista.

Depois ela veio até a sala, pois é minha amiga e me considera como prima. Disse que o serviço no comércio é mais de Inglês, ela só dá uma ajuda. Sua atividade mesmo é cuidar da casa. A vinda para a cidade foi uma decisão impulsionada por ela, que não queria ver os filhos crescerem sem estudo. No início vieram apenas os filhos e Dalcinda, com o tempo o marido também veio.

Inglês e Dalcinda tiveram seis filhos, cinco homens e uma mulher, motivo de sua saída da fazenda, porque estes precisavam de escola e no local não havia. Seus filhos acabaram seguindo outros ramos de atividade, pois Dalcinda se mudou para a cidade de Muaná com o marido e ela se empregou em uma fábrica de palmito. Juntamente com os filhos, Dalcinda entrou na escola, pois dessa forma acompanhava-os em seus estudos. Dalcinda diz que não houve nenhum arrependimento de ter saído da fazenda, pois aqui moram na casa deles67 e lá na fazenda era do patrão.

O filho mais velho, depois de ter separado da mulher, saiu do país e foi morar com a avó materna na fronteira do Brasil com o Paraguai; o segundo tornou-se marceneiro; o terceiro técnico em eletricidade e foi trabalhar em outra cidade do Estado; o quarto trabalha em uma casa comercial na cidade de Muaná e a filha casou-se e mudou de Estado. Por último, o filho caçula tornou-se funcionário público municipal.

Dalcinda é de uma família de criadores de gado, por parte de mãe, mas logo o pai a deixou. Ela, como se diz no local, terminou de ser criada pela madrinha, uma senhora que já havia criado outros meninos de parentes e amigos. Esta senhora era pobre, mas muito trabalhadora, morava com seu segundo marido na casa de um fazendeiro, no local de embarque chamado de Caiçara68. Nesses lugares há uma circulação constante de pessoas, particularmente daquelas que trabalham no embarque de gado; muitos portos desses chegam a ser entreposto comercial.

Esses tipos de lugares são poucos, daí o costume de se pedir a outras pessoas água para beber, hospedagem para aguardar o transporte do barco de viagem. Dalcinda conviveu em uma casa de porto de embarque, a qual vivia cheia; as pessoas, muitas vezes, passavam horas aguardando o barco, às vezes até pernoitavam, e isso obrigavam a se preparar comida e atear rede para que os transeuntes pudessem dormir. (Foto 2).

67 O sentimento e a racionalidade de autonomia camponesa afloram nessa declaração de Dalcinda. 68As caiçaras podem ser um local somente para embarque de animais sem necessariamente haver criação

de gado no local, mas há fazendas situadas às margens do rio que possuem a caiçara para embarque do gado.

Foto 2: Caiçara.

Fonte: Ferrão, 2012.

Enfim, esse espaço social de intensa movimentação favorecia encontros de jovens, na época de sua solteirice, o que permitiu o casamento de Dalcinda com Inglês, que aconteceu por meio de fuga69. Inglês levou-a para a casa da fazenda onde foi criado pelo feitor. Naquela época, a fuga de mulheres com o namorado, principalmente nas festas, era um fato normal. Neste caso, os dois moravam em propriedade do mesmo fazendeiro.

Dalcinda é de origem de uma família que era dona de uma propriedade de criação de gado, de grande porte. No entanto sua mãe empobreceu devido a receber pouca terra na partilha da herança de seus pais, ou seja, dos avôs de Dalcinda. Portanto sua mãe acabou ficando com apenas um pequeno quinhão, suficiente para construir sua casa e criar gado de pequeno porte.