Os pequenos proprietários, geralmente, têm um “galinheiro” e um “chiqueiro” para criação dos animais. Entre estes existe uma variedade, como galinha, pato, peru, picote, jacu (Penelope ochrogaster), marreca (Dendrocygnaautumnalis)118
. As galinhas
têm uma imensa diversidade, são de pena no pescoço, sem pena no pescoço, com rabo, sem rabo, garnisé. (Fotos 12 e 13).
Foto 12: Galinheiro e perus.
Fonte: Ferrão, 2015.
118 Estas três últimas aves, menos frequentes são: Picote (Galinha-de-angola), ave trazida pelos
portugueses da África Ocidental, usada muito em ritual para Oxum; Jacu, pássaro nativo do qual algumas pessoas trazem os filhotes ou ovo da ave e cria junto com os pintos; Marreca, ave que existe em toda a América, a mais frequente na Amazônia é a marreca-cabocla.
Foto 13: Galinheiro nos campos.
Fonte: Ferrão, 2015.
Essa criação de pequenos animais serve para garantir o sustento da família, bem como para ser comercializada no momento que precisar. Para isso são construídos locais a eles destinados, alguns bem modestos e outros mais bem acabados.
Os animais são criados soltos durante o dia e presos no final da tarde para evitar o ataque de predadores. Na maioria das casas há criação de porcos e gado de pequeno porte. Independentemente de ser proprietário ou apenas morador na terra de outrem, basicamente todos têm a criação do porco. É com o porco que muitos mantêm a família, princpalmente os que não são empregados nas fazendas, eles estabelecem-se em um pequeno sítio e, dependendo das condições de circulação de gado de grande porte, às vezes fazem alguma plantação.
Os espaços de criação de porco ficam geralmente próximos das casas, sendo, especialmente, criação semiextensiva, com os animais se alimentando diretamente dos frutos encontrados no mato. Alguns retornam no final da tarde e são recolhidos nos chiqueiros. São poucos os que têm os animais em cativeiro. Quase não há criação em cativeiro. O animal é criado para consumo da família e comercialização. Esta vida rural demarcada pela pecuária envolve quem mora na área.
Como se têm muitas propriedades de fazendas com mais de uma casa de moradia, aqueles que, sendo feitor, vaqueiro ou trabalhador, moram na fazenda e os moradores de sítios, na terra das fazendas, vivem da criação de porcos, da coleta de frutos e da pesca artesanal para o abastecimento da casa. (Foto 14).
Foto 14: Chiqueiro para porcos.
Fonte: Ferrão, 2015.
Em certas casas existe uma pequena horta, com plantação de alguma hortaliça para uso nos alimentos, sendo, na maioria, aquelas utilizadas como “tempero”: chicória, alfavaca, pimenta-de-cheiro ou malagueta. Outros plantam alguma cultura permanente, como limão, goiaba, coco, manga, diversificando conforme o município. (Foto 15).
Foto 15: Horta caseira.
Na verdade, pouquíssimos são aqueles que cultivam uma horta, devido à circulação dos animais que, por serem de criação extensiva, invadem todas as áreas. Muitos fazem a horta suspensa, fora do alcance dos animais. Mesmo assim elas precisam ser construídas em armações de madeira, bem reforçadas e com uma cerca no entorno, porque animais como búfalo derrubam os“tendais” das plantas.
A paisagem a cada ano se modifica desde o final da década de 90 do século passado; as antenas parabólicas apareceram e fazem parte da cena local. Junto a elas há a torre de telefone rural. As antenas são instaladas e o acesso à informação com outros lugares tornou-se mais rápido. Outro produto que se vem expandindo é o motor de luz, um produto de consumo daqueles pequenos e grandes proprietários, porque o médio acaba selecionando a ordem de prioridade. Como, geralmente, não mora no local, onde vai mais de passagem, o médio proprietário pouco investe, porque não possui capital ou porque há outro interesse mais importante. (Foto 16)
Foto 16: Antena parabólica.
Fonte: Ferrão, 2015.
Na prosa de Cora o avô da narradora é alguém solícito com os transeuntes, dando hospedagem e apoio. O mesmo é percebido no modo de vida da população da microrregião dos campos da ilha de Marajó, onde a casa é um espaço preparado para a reciprocidade, tendo água disponível, convidando as pessoas para apearem, servindo, algumas vezes, algo para comer, principalmente se for o horário do almoço, oferecendo
um lugar para descanso de pessoas e dos animais, com receptividade como parte da prática comum, transmitida de geração em geração, e como bem atender quem passa em sua casa, como se observa nas análises visualizadas em relação à população camponesa no Brasil.
A reprodução da sociedade e das unidades familiares de produção tem por base uma série de práticas, sujeitas a regras coletivas marcadas pela reciprocidade: uso de recursos comunitários, transmissão intergeracional de bens (doação de animais, terras, dotes e dotações), transmissão de saber pela família e pelas redes sociais (SABOURIN, 2009, p. 24).
Nesse sentido, vê-se que o universo marajoara reproduz novas experiências, como o aparecimento das antenas parabólicas, das pequenas embarcações motorizadas para facilitar a circulação das pessoas, tornando-as mais ágeis, servindo no transporte diário das crianças para a escola.
As embarcações motorizadas têm contribuído para o acesso à escola. No passado, as crianças não estudavam, devido à distancia e à dificuldade para chegar à escola. Em alguns casos, as crianças tinham que morar nos próprios espaços em que funcionava a escola durante o período do estudo. Por outro lado, essa embarcação motorizada também ajuda nos serviços, como na pescaria. (Fotos 17, 18,19).
Foto 17: Crianças indo para a escola em canoa motorizada.
Fonte: Ferrão, 2004.
Foto 18: Rabudo no uso da pesca
Fonte: Ferrão, 2012.
Foto 19: Rabudo usado no lazer.
Fonte: Ferrão, 2015.
A prática da pescaria muda em função da quase superação do uso da canoa a remo, que exige a força humana e tem o deslocamento mais lento e, portanto, demorado. Com a canoa motorizada os alimentos para comercialização pode chegar ao ponto ainda frescos, diferentemente de antes quando se tratava de um alimento perecível; o peixe
muitas vezes era comercializado salgado. Agora, segundo Raimundo, marreteiro da área do rio Tauá, consegue-se receber peixes ainda frescos para abastecer a “geleira”.
Essa compreensão de mudança apresentada pelo autor ocorre visivelmente na Ilha de Marajó, quando se vê que fazendas famosas da década anterior a 1970 e até 1990 desapareceram totalmente, em função das partilhas e venda dos espólios de herdeiros. Alguns casarões antigos permanecem, mas já não têm expressividade; muitos são mantidos pelo ‘valor sentimental’, enquanto outros perderam seu glamour como um lugar de encontros, festas e de grande poderio119.
Os momentos de lazer também são facilitados pela chegada desse novo instrumento. Em um porto, em momento festivo, chega-se a ver uma grande quantidade dessas pequenas embarcações de modo multiuso. São as mesmas usadas na pesca, no transporte para a escola, na viagem para a cidade, na coleta de frutos.
119Fato semelhante é mostrado nas séries Downton Abbey e Velho Chico (Rede Globo), uma retratando a
decadência de uma família aristocrata inglesa e a outra o contexto do domínio dos coronéis às margens do Rio São Francisco, no Nordeste Brasileiro. Esses fatos mostram que as transformações são processadas na história da humanidade, trazendo desconstruções e construções de novos valores.