A retomada da democratização no país resultou na aplicação de direitos constitucionais necessários à garantia da cidadania. Esse fenômeno exigiu que práticas costumeiras perdessem sua função. No caso da sociedade marajoara, isso implicou alterações relativas à função social da terra, o que vem provocando o redimensionamento do próprio direito de propriedade e embora haja equívocos na interpretação do uso desse instrumento em alguns lugares, como nos braços de rios, igarapés e lagos que surgem no período chuvoso, momento em que os campos ficam cheios de água, alagados, a chamada “invernada”.
Busco analisar como essa nova figuração da terra nos campos naturais tem gerado processos, que penso a partir da noção de “transformação social” de Shalins (2003). Trata-se de eventos relacionados a alterações significativas que atingem à sociedade que se organizou a partir da pecuária. Considero especialmente os últimos anos, os quais têm se mostrado com aceleradas modificações em função da redemocratização do país. Destarte, vários acontecimentos têm contribuído para que o espaço social apresente outras cores, daí desenhar uma nova estrutura social.
Nesse sentido, observei no cotidiano dos campos, hoje e ontem, como diversos tipos sociais que formam a sociedade, mas que estavam à margem da dinâmica da lida com o gado, vêm ganhando espaço e provocando mudanças nessa área e na atividade até então preponderante. São eventos particulares e universais que dão conta de uma diversidade humana, que, assim como as formas de se comunicar, como em “Ô de casa”, estão em sintonia com os trabalhadores nas diferentes atividades. Um modo de vida em que as pessoas demonstram características de ser nos campos do Marajó.
No entanto, com as mudanças recentes, os tipos marajoaras do campo estão em processo de alteração, particularmente porque a lida com o gado, em muitos casos, já não se caracteriza como atividade principal. O vaqueiro, por exemplo, nesse processo de mutação pode se constituir como um extrativista ou mesmo como um pescador. Assim, a vida na fazenda vai se transformando na sua relação com o poder instituído por um modo de trabalho; a relação de compadres desenvolvida outrora vai perdendo sentido em um novo cotidiano marcado por transformações e mudanças definidas pelas políticas públicas, como a demarcação de terra, a certificação do gado e o segurodefeso.
Para compreender melhor essa nova figuração de um espaço social mais complexo, que vai para além da vida na pecuária, precisei entender como essas
particularidades ganharam força e evidenciam novas características elencadas por atividades em áreas afastadas do grande comércio, mas também pelas atividades como a lavoura, a caça, a pesca e o extrativismo (vegetal, mineral e animal), até recentemente atividades complementares de renda e de condições de auto sustentação160 dos grupos sociais como de vaqueiros e demais moradores, mas que se tornam, em alguns casos, atividades principais, apesar da pecuária renitente. Também existe outra característica de trabalho ligado aos ofícios, como carpintaria, olaria, cestaria, culinária e tantos outros que dão conta de um desenho local necessário para o grupo sobreviver nesses espaços sociais.
Nesse exercício de transição e superação, os modelos antigos – os quais, no que concerne ao espaço físico e social, perduram por cerca de três séculos, se contarmos desde o surgimento das primeiras fazendas – agora estão se decompondo e dando lugar a outros personagens, nessa história local. Antigas estruturas e relações sociais passam a ser superadas para compor novos movimentos que são introduzidas nos instrumentos da vida social de hoje.
Observei que, com o declínio do espaço social estruturado nas grandes fazendas, seus ex-trabalhadores foram adquirindo pequenos lotes, principalmente com as indenizações, que geraram uma nova distribuição de terras e, em consequência, concentração de pessoas do lugar, muitas vezes, pertencentes à mesma família, o que favorece o acesso a políticas públicas e sociais.
Nas pequenas propriedades, vi uma diversificação da produção; eles criam animais, mas também realizam o extrativismo vegetal e a pesca. No período chuvoso recorrem à coleta de frutos do açaí, bacaba e outros como: cupuaçu e bacuri, por exemplo. Esses produtos passaram a compor a renda das famílias, portanto o seu sustento não vem mais apenas do trabalho com o gado.
A relação do gado com a terra permanece, mas já não acontece da mesma forma. O empregado, o morador da casa da fazenda, o morador na terra da fazenda, o pequeno proprietário com a criação de algum tipo de gado, quem tem um pequeno sítio e está na
160Na Amazônia e em todo o Brasil encontramos inúmeros estudos que apresentam particularidades que
tratam da diversidade da vida ligada ao trabalho, iguais ou diferentes à dos criadores de gado da Ilha de Marajó. Neste sentido, aponto exemplos: Motta-Maués (1993), que fala das mulheres em uma comunidade de pescadores, no Norte do Brasil; Santos (1978), que tratados os colonos lavradores e produtores de vinho no Sul do Brasil; Menezes (2014), que fala sobre os extrativistas da piaçaba, no Norte do Brasil, e tantos outros estudos que tratam de uma atividade de trabalho, mesmo com análise específica, e mostram que os grupos rurais – especialmente – sociabilizam-se em atividades centrais e complementares. São estas particularidades que revelam o mundo do trabalho na Antropologia Social – aqui nos estudos do meio rural – no Brasil.
relação constante com a vida das fazendas e aquele comerciante – marreteiro principalmente – que vivencia o espaço da pecuária, de alguma forma, esses grupos recebem assistência técnica de órgãos do Estado, como a EMATER e a ADEPARÁ.
Na região é forte a ação da igreja católica, havendo sempre uma capela161 ou uma casa de oração da igreja evangélica. Nesses espaços, há a abertura de escolas, com transporte escolar. Essas são instaladas em capelas comunitárias, particularmente quando nesse espaço não há o poder de um grande proprietário. Nesse sentido, observo que houve uma quebra na estrutura anterior, tornando mais igualitária a relação entre os compadres162.
Também vejo que houve elevação no número de transportes de grande porte e ainda de canoas, bem como no das pequenas embarcações, os chamados “rabudos”, “popopô”, fazendo circular mais mercadorias, além de barcos e navios de transporte de passageiros. Assim, os deslocamentos tornaram-se rápidos. Dependendo da cidade da Ilha em relação a Belém, capital do Estado, a viagem pode durar cerca de quatro a cinco horas, como para Muaná; duas horas a Ponta de Pedras; de duas a quatro horas para Soure e Salvaterra. Cachoeira do Arari e Santa Cruz fogem ao ritmo em função do período chuvoso ou seco. Chaves é distante, sendo mais fácil o trajeto por Macapá, capital do Amapá, através de transporte aéreo; por embarcação se gasta mais de um dia de viagem. As bicicletas também são hoje um meio de transporte muito utilizado no período da estiagem (seca), elas garantem agilidade quando se compara com o boi, com isso as pessoas vão de uma localidade a outra em poucas horas163.
A circulação de informações é outro evento que tem provocado mudanças, como é o caso da telefonia rural, substituindo práticas das mensagens através do rádio, das fonias e das cartas. A maioria das casas possui televisão e, com isso, os moradores recebem informação diariamente e em “tempo real”, como se diz. Pode-se saber o que está acontecendo nos grandes centros urbanos do país e de outras localidades, além de haver, nos municípios, rádios com programação local que informam os acontecimentos que ocorrem ou irão ocorrer na municipalidade.
161 Um fato importante em relação à igreja católica é que o batizado das crianças das fazendas era feito na
capital, onde morava a maioria dos proprietários, os quais se tornavam padrinhos das crianças nascidas nas fazendas. Com o surgimento das capelas comunitárias, os batizados começaram a ser conjuntos. Com padrinhos da localidade, muitas lideranças comunitárias se interessaram por batizarem seus filhos, e isso pelo que percebi gerou certo valor a esses novos padrinhos.
162 Relação de compadrio já foi tratada na primeira parte da tese.
163 Culturalmente, não se mensura na região a distância por quilometragem. Continua-se calculando por
As grandes fazendas, aquelas que se mantiveram como tal, estão também inserindo outras práticas. Mesmo que tenham permanecido com a criação de gado, tiveram que se adequar às exigências do mercado para garantir um produto de qualidade, como o padrão de higienização, a certificação, a documentação da propriedade da terra, a declaração do imposto territorial rural – ITR. Muitos estão melhorando o rebanho com a criação do gado em confinamento. Para isso, tiveram que cercar as terras e investir na melhoria da pastagem e na inserção de novos produtos de consumo do animal. Fez-se um investimento na propriedade porque o mercado se tornou mais exigente quanto ao produto, haja vista que houve uma maior concorrência de novos campos produtores, os quais foram abertos para a entrada de produtos de outras regiões do país e mesmo do próprio Estado, o que os levou a essa adequação na produção.
Nesse sentido, os dados apontam que a Ilha não é o principal polo produtor de carne e para permanecer participando no mercado tem que se renovar e melhorar seu plantel, tanto na saúde do animal quanto nos padrões sanitários, para o abastecimento de seu produto no mercado.
Assim, as transformações puderam ser identificadas por diferentes movimentos de mudanças e permanências como passo a mostrar nos itens seguintes desta terceira parte da tese.
III.2 GRANDES FAZENDAS, PARTILHA E NOVA FIGURAÇÃO DA TERRA