A fazenda Alagadinha originou-se no processo de partilha de sesmaria, passando de geração em geração por meio de herança. É composta por uma fazenda, sede onde fica a casa grande85, o rancho86 e vários retiros87, e outras fazendas menores. A fazenda mede aproximadamente duas léguas de frente e uma de fundo, desenvolvendo criação de bois, búfalos, carneiros, bodes, cavalos, porcos, entre outros.
A produção é voltada para o fornecimento de carne, sendo uma parte para a exportação e a outra para o abastecimento da cidade. Esse tipo de fazenda, geralmente, atende ao mercado interno e ao município de Abaetetuba. Além da carne, também produz leite, do qual são feitos queijos e doces para o consumo dos trabalhadores e para o da família do proprietário.
Na fazenda sede moram os vaqueiros e alguns senhores que ajudam na manutenção da casa, e no rancho, que fica bem próximo, mora o feitor com sua família. As fazendas menores são ocupadas por uma espécie de subfeitores88 que estão interligados ao feitor89 geral. Nesta fazenda em particular, ainda existe uma relação de trabalho sustentada por um forte laço de compadrio. Os trabalhadores ainda criam seus animais como galinha, porcos, carneiros, cabras etc., uma parte do pagamento é feita em
85É a casa em que o proprietário da fazenda mora e lá geralmente o feitor e/ou gerente administra a
propriedade, isto é, a fazenda principal.
86 É uma casa menor localizada ao lado da casa grande e onde ficam os vaqueiros, mas também pode ser
local de moradia do feitor quando a casa grande é frequentada constantemente pelos proprietários.
87 São pequenas casas afastadas das fazendas em que fica um vaqueiro com a família ou moradores que
trabalham nas terras criando animais de pequenos portes, como porco, galinha e outros, além de estar disponível para realizar atividades de apoio ao feitor, ao fazendeiro, principalmente nos abastecimentos alimentícios com coleta de frutas, caça, pesca etc.
88 São fazendas menores, mas fazem parte do complexo da propriedade de um determinado fazendeiro. 89 Segundo o dicionário Aurélio, é o administrador do bem alheio.
gêneros alimentícios e a outra em espécie; podem caçar e pescar para sua manutenção e para oferecer carne ou frutas a algum parente e amigos. No entanto a extração de produtos como madeira, açaí, palmito está sujeita ao pagamento de meia ou terça parte.
Na área da fazenda, não existe escola, posto de saúde, nem capela religiosa. A maioria das crianças estuda em uma fazenda próxima ou sai para a sede municipal para morar com parentes90; a prática está centrada na diversidade de credos, nos cultos católicos, nas festas de santos, mas também vão ao pajé quanto ao tratamento de saúde, quando não se vai à sede municipal, vai-se para Belém.
Quando sofrem algum acidente de trabalho, estes não são vistos como graves, ficando as pessoas sem cuidados médicos. As crianças, quando saem da região para estudar, vão logo servir de empregados domésticos na casa do patrão e acabam sendo apenas alfabetizadas ou então vão para a casa de amigos, parentes dos pais. Muitas vezes não conseguem se adaptar à cidade e voltam logo para a fazenda. Lá os homens (os meninos) começam a desenvolver a profissão do pai e as meninas casam no início da adolescência, principalmente a partir dos 15 anos de idade. A maioria das crianças que sai da fazenda e que vai morar na casa dos patrões é de afilhados destes; há, portanto, uma obrigação moral do padrinho em mandar “educar” a criança. Alguns passam a vida toda na capital, onde moram os patrões, às vezes chegam a estudar um pouco (ensino médio), mas como não têm onde morar acabam passando a vida como domésticos (principalmente as mulheres).
A criança começa a desenvolver, desde cedo, a profissão do pai e geralmente chega à fase adulta sabendo trabalhar somente como vaqueiro. Nota-se isso quando se observa que quase todos os trabalhadores desta fazenda são filhos de antigos empregados, e que por isso estão no emprego, principalmente por ter herdado a confiança dos patrões, baseada na relação de obrigações e contraobrigações subjacente à relação patrono-cliente.
Assim continua o ciclo até hoje: o menino reproduz a profissão do pai, as meninas na maioria moram na capital, como empregadas domésticas dos proprietários. Outro detalhe é que as mulheres, isto é, as esposas destes trabalhadores, são quase todas empregadas das casas dos patrões, por ser a maioria filhas de antigos empregados.
90 Com a obrigatoriedade, os pais vêm matriculando seus filhos em escolas rurais em áreas distantes da
fazenda, mas muitos não são bem sucedidos devido à distância. Considere-se igualmente que enquanto está na escola esta criança deixa de apoiar os pais nas tarefas do dia a dia, o que antes era comum.
A visita dos patrões é frequente, geralmente passam as férias com a família na fazenda. Este é um período muito alegre para os trabalhadores, a casa grande fica cheia; os empregados levam os seus filhos para tomarem a bênção dos padrinhos; as comadres pobres levam xerimbabos91 às comadres ricas, em troca as comadres ricas presenteiam- nas com roupas usadas, brinquedos que pertenciam aos filhos e netos, um pedaço de tecido, maquiagem para a comadre se enfeitar.
O trabalho da casa grande aumenta e as esposas dos vaqueiros vão para lá ajudar nos trabalhos domésticos, e os vaqueiros também dão assistência, pescando, matando animais, caçando, cortando lenha, fornecendo água, preparando cavalos para o passeio da garotada, conduzindo-os as outras fazendas etc. Nesse período ocorre a festividade do santo padroeiro à qual comparece toda a vizinhança, aí então o trabalho se intensifica. Mas também é um período de diversão, todos comemoram juntos, dançando, bebendo, realizando corridas de cavalo ou búfalo etc.
A jornada de trabalho da fazenda é extensa, absorve todas as atividades que já descrevi no capítulo anterior. E como vimos são mais intensas nas férias, que ocorrem geralmente nos meses de janeiro e fevereiro, e, às vezes, em julho. Apesar de certa hierarquização – o patrão não almoça na mesma mesa com o empregado, principalmente quando seus familiares se encontram na fazenda, verifica-se relação pessoal próxima, uma vez que os proprietários são homens voltados exclusivamente para a vida do campo. Pessoas que estudaram pouco: não completaram nem mesmo o ensino médio.
Quando o trabalhador adoece e quando isso é muito grave, os fazendeiros o levam para tratamento de saúde em Belém92. Ouve-se com frequência na linguagem deste patrão as mesmas palavras usadas pelo caboclo marajoara, observando-se um nível de aproximação do patrão com os vaqueiros. São companheiros das festas da região, alguns desses patrões têm filhos casados com mulheres da região, filhas de vaqueiro. Mas apesar disso existe o tratamento respeitoso ao patrão, como nomes de tratamento do tipo “meu senhorzinho” ou “meu branco” ou “minha branca”.
O proprietário desta fazenda pertence à camada média; não tem outra fonte de renda, a não ser a produção do gado e alguns aluguéis de casas de vila na capital. A sua profissão é basicamente a de vaqueiro, pois quando está na fazenda ajuda os
91Nos estados do Amazonas e Maranhão nome atribuído a qualquer animal de criação ou estimação. 92 Geralmente há um médico na família, que supervisiona o tratamento.
empregados no reparo do gado e acompanha os embarques. Como estão constantemente na fazenda não sobressai a figura do feitor.
Esses patrões são as figuras típicas do caboclo marajoara que não é um vaqueiro, mas ao mesmo tempo é semelhante, tratam todo mundo de mano, parente, compadre, e, quando estão próximos de pessoas ilustres, sentem-se humildes, por conta da baixa escolaridade. Têm dificuldade de expressão em público. Por causa disso já perderam pedaço de suas terras para outros indivíduos que se instalaram nos últimos anos na região, onde compram apenas uma fazenda e daí estendem sua propriedade para as áreas próximas.