• No results found

A fazenda Ribeirinha, adquirida a partir da década de 70, através de financiamento com recurso da SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), compõe-se de uma fazenda sede, um rancho com três retiros, mais duas fazendas menores e alguns retiros. No início possuía um feitor geral e, em cada fazenda menor, um feitor representante. Não há escola, posto de saúde, igreja ou qualquer outra instalação. A maioria dos empregados é negra e analfabeta. Toda a produção que não tem vínculo com o gado fica sob a administração de um membro da família do patrão, ou então é arrendada para outros.

A sua produção abastece o mercado municipal de Abaetetuba e Belém. Os donos exercem um poder muito representativo sobre os órgãos municipais. Na capital são funcionários públicos de alto escalão. Os políticos locais têm muito respeito por eles, principalmente porque estes têm um grau de instrução mais elevado do que eles.

Eu não gostava de estudar, gostava mais de trabalhar em pescaria, em roça. Não tinha carteira assinada. Quando tem o seguro-defeso fica quatro meses sem trabalhar na mesma... Na emergência passava uns dois dias de barco a vela. Comecei a trabalhar com barco, tinha carteira de marítimo. Viajava oitenta dias para levar o gado até Quito [Equador]. Subia o rio Amazonas. Marajó é muito rico, tem muitas fazendas...Também quem tinha rádio se comunicava assim. Agora tem a internet (Florindo94, 68).

94 Família de 12 irmãos.

Os empregados têm longa jornada de trabalho e salários pagos com gêneros alimentícios e carteira profissional assinada; esse modelo aos poucos tem se modificado. Não podem criar animais sem pagar a metade. É proibido morar pessoas na fazenda sem vínculo empregatício. A casa grande só é habitada pelos fazendeiros quando estes vão à fazenda, que fazem visitas constantes à área.

Os rebanhos são constituídos por bovinos, bubalinos, equinos, caprinos, suínos e outros. Há averiguação constante do gado, principalmente porque é subsidiado. Não existe vínculo de compadrio entre os trabalhadores (vaqueiros) e os fazendeiros e são poucos os filhos dos empregados que são empregados domésticos em suas casas. A reprodução da força de trabalho é feita também pelos filhos dos vaqueiros.

Com o falecimento dos genitores, os herdeiros, que também são funcionários públicos federais de alto escalão, escolhem apenas um deles para fazer a administração direta da fazenda. Nos últimos anos, algumas terras foram distribuídas aos antigos empregados como indenização95. Nela tem se aplicado melhoramento genético e há uma aproximação entre trabalhadores e proprietários, melhoramento do padrão de vida dos empregados, pois mesmo aposentados continuam com uma relação amistosa e contribuição mútua.

Segundo dados de entrevistas realizadas em janeiro de 2013 com técnicos da ADEPARÁ, essa fazenda, como espólio, tem se adequado à cria e recria de gado, fazendo engorda e inseminação artificial, trazendo novos reprodutores e assim vem melhorando o plantel da fazenda.

Nela também tem se desenvolvido lazer, com festas de aparelhagens, corridas de cavalos e outras manifestações festivas. Nessas manifestações existe um grupo produtor do evento, geralmente vindo da cidade de Muaná, que leva a aparelhagem, a cerveja e outros atrativos para comercializar durante a festa.

Como sua estrutura vem se adequando aos acontecimentos mais recentes na região, os dados coletados sobre essa fazenda ainda não puderam ser aprofundados. Ao analisar a organização dessas fazendas, é possível verificar que as relações de compadrio passam por um processo de transformação, mas que mantêm algumas práticas relacionadas a um espaço social figurado.

Com as caracterizações acima encontrei 40 (quarenta) propriedades no percurso entre os rios Anabiju e São Miguel, uma área recortada a partir do rio Atuá, que estão na

95 Este fato foi relatado na área, mas não precisei se foi como dispensa do trabalhador e serviu para pagar

lida com o gado. Vê-se que nestas há poucos trabalhadores e que a maioria possui um administrador ou responsável, no lugar do proprietário. Ao observar o quadro seguinte com os nomes das fazendas, vê-se que, em muitas delas, o proprietário é o mesmo, significando que ele é quem cuida dos trabalhos. Naquelas em que não aparece o nome do responsável se conhece apenas o proprietário, e vice-versa (Quadro 3).

Quadro 1: Propriedade da área e suas denominações.

Propriedade Proprietário Responsável

Fazenda Bom Sossego (Rio São

Miguel) José Barbosa José Barbosa

Fazenda Toco Preto (Rio São

Miguel) Orlandino Vieira Magno

Fazenda Anjo (Rio São Miguel) Orlandino Vieira João do Moca

Terreno Ingazal Antônio Ferreira Contente Antônio Ferreira Contente Terreno Tirirical Paulo Pires Paulo Pires

Terreno Menino Jesus Sebastiana Calandrini dos

Santos Sebastiana Calandrini dos Santos Terreno Fé em Deus Manoel Silo Sicinho Chermont

Terreno Enseada do Veado João Bosco G. Ferreira Bibi

Terreno Vai Quem Quer Nego Nego

Fazenda Boa União Carlito Edilson Baena

Fazenda Andirobal Carlito Orlando Barbosa/Vira Bicho Fazenda Invernada Cláudio Góes Reco

Fazenda São José Orlandino Vieira Benedito/Foca Fazenda Santo Antonio Orlandino Vieira Fabrício Fazenda Trindade Orlandino Vieira Foguete Fazenda Tauari Otávio Mendes Pelado Fazenda Santa Eulália Antonio Mendes João Ferreira

Terreno Retiro Francisco Ferrão Antonio Carlos/ Totonho Fazenda Firmeza Durval Barbosa Roberto Santos

Fazenda Campo Grande Gildo Colo

Fazenda Charneca (Tauá) Ricardo Ferreira No momento sem responsável Fazenda Santa Rita (Tauá) Iolanda Negrão/Marcos

Negrão Geison

Fazenda São José Bosco Calandrini No momento sem responsável Fazenda Seringa Fuluquinha Sebastião Calandrini/Batica

Fazenda Ingá Fuluquinha Diniz

Fazenda Primavera Fuluquinha Eduardo

Fazenda São Benedito Ney Haroldo

Fazenda S. Manoel Osvaldinho Marcílio Fazenda São João Cláudio Góes Ferrujo

Fazenda Cruzeiro Cláudio Góes No momento sem responsável Fazenda Jenipapo Cláudio Góes No momento sem responsável Fazenda São Sebastião Saulo Raimundo Gemaque Filho/Diquinho Fazenda Santa Luzia Gilberto No momento sem responsável Terreno Centro Neco Brasileno Neco Brasileno

Fazenda Espírito Santo Luiz Bulamarq No momento sem responsável Fazenda Santo André Luiz Bulamarq No momento sem responsável Fazenda Cumaru Miroca No momento sem responsável Fazenda Anabiju Não obtive o nome do

proprietário Antonio Gemaque e Inês Fazenda Monte Alegre Luiz Bulamarq No momento sem responsável Fazenda Três Irmãos Carloz Diniz No momento sem responsável Fonte: elaborado pela autora com base nos depoimentos de

Este espaço social em constante mutação demarca a disposição da área de criação identificada por mim. Embora não trate de suas particularidades, ele simboliza dinâmicas socioeconômicas e culturais recorrentes nesta tese, principalmente em relação aos limites dos campos do Marajó, no espaço da pesquisa etnográfica96, ou seja, no município de Muaná, na área que compreende a margem esquerda do rio Atuá entre seus afluentes Anabiju e São Miguel.(Figura 3).

96Assim, procurei estender minha inserção em campo em outras áreas e municípios para ampliar minha

visão sobre a realidade dos campos naturais do Marajó, ou seja, os sete municípios que compõem a microrregião do Arari que são Cachoeira do Arari, Chaves, Muaná, Ponta de Pedras, Salvaterra, Santa Cruz do Arari e Soure, muito embora procure mostrar essas realidades de forma mais precisa no município de Muaná.

Figura 3: Área de concentração dos diferentes tipos de ocupação de terra no rio Átua entre os

rios Anabiju e São Miguel

A figura acima apresenta a concentração das propriedades na área do rio Atuá entre os afluentes Anabiju e São Miguel, lócus da pesquisa, havendo diferentes tipos (grande, média e pequena), de acordo com a nova figuração dada pelos diversos movimentos de distribuição e apropriação de terras nos campos naturais do Marajó, a exemplo de criadores de porcos, minifazenda de criação de búfalo para o trabalho de transporte de palmito, os quais aos poucos são substituídos por tratores, e algumas propriedades com criação de gado bovino e bubalino, com um número de animais chegando até mil cabeças, localizadas próximo ao rio Anabiju.