Ambientada num futuro próximo, no qual um senil Ronald Reagan é o presidente do país, a obra de Miller apresenta algumas semelhanças com o contexto político e social da década de 1980. Na Gotham City do futuro, a redução dos fundos destinados à assistência social, a corrupção e a incompetência dos políticos, o efeito
estufa e uma iminente guerra nuclear contra a União Soviética são algumas das causas da violência e da insegurança que tomam conta da sociedade. Nessa “terra de ninguém”, dominada por gangues de adolescentes assassinos, Batman é mostrado como salvador, cujo retorno é aguardado, tomando formato messiânico. Entretanto, por mais que Batman em O Retorno do Cavaleiro das Trevas apresente-se como uma ameaça ao governo e aos políticos, há algo que é sempre resguardado nos quadrinhos do homem- morcego e que interpreto como um suposto espírito empreendedor norte-americano, que é o seu desejo incansável na busca por justiça. Por isso, diante de um governo que na sua visão se mostra decadente, suas ações de vigilantismo acabam sendo consideradas ilegais. Com isso, o Super-Homem, que também aparece na minissérie (sempre diz sim a alguém com um distintivo ou bandeira norte-americana), é enviado para deter o subversivo Batman.
O papel exercido pelo Super-Homem chama a atenção, por se apresentar como um contraponto ao vigilantismo de Batman, mesmo porque o homem-de-aço desempenha na narrativa a função de uma arma secreta contra os comunistas em pleno mandato da presidência de Ronald Reagan. Ele obedece às ordens presidenciais, no que Batman chamou de “atividades estratégicas”, sem ter sua imagem diretamente ligada a isso, principalmente pela imprensa. É importante lembrar que a Guerra Fria apresenta-se como o cenário onde ocorrem algumas ações da narrativa gráfica da minissérie. Os motivos ideológicos que polarizavam o conflito, como o capitalismo dos Estados Unidos, que se mostravam como salvadores do mundo de um lado, e a União Soviética comunista, como o diabo, do outro, são o pano de fundo para o retorno de Batman. Contudo, é interessante observar que o único herói oficial é o Super-Homem, digno representante do american way of life . O homem de aço detona bombas nucleares em testes atômicos sob ordem do governo, em prol da paz mundial. Além de ser tratado por Reagan como filho, bom moço e agente de colonização, o Super-Homem acaba por lutar com Batman, já que uma parte da sociedade não admite que este último faça justiça com as próprias mãos, contrariando os ideais de justiça americanos.
Figura 39: O Super-Homem impedindo um ataque nuclear soviético contra os EUA e encarando o Batman.
Clark Kent, o Super-Homem, fica encarregado de fazer com que Bruce Wayne aceite as imposições de seu governo referentes à sua atitude com relação ao crime. Por ventura, o Super-Homem encontra um enorme obstáculo diante deste “novo” Batman, que retornava de sua aposentadoria. Além de todos os eventos citados ao redor da vida do cavaleiro das trevas e do homem de aço, o mundo passa por uma ameaça nuclear agravada por uma crise internacional entre a União Soviética e Corto Maltese165, que é transmitida pelos noticiários da televisão norte-americana, deixando clara a semelhança entre alguns trechos da narrativa gráfica e o retorno da corrida armamentista166 dos EUA na Era Reagan.
Quando as negociações chegam ao seu limite diplomático, os soviéticos decidem lançar um míssil nuclear em direção à ilha de Corto Maltese. O único capaz de impedir que tal evento tome proporções catastróficas é, claro, o homem de aço, que parte em retirada em direção ao míssil soviético. O Super-Homem consegue alterar a rota da
165
Corto Maltese é o nome da ilha que é disputada na narrativa por soviéticos e norte-americanos. O nome é uma homenagem ao desenhista italiano Hugo Pratt, autor da revista do personagem Corto Maltese. Pratt recebe citações diretas também no segundo capítulo, na página que mostra a bandeira norte-americana transformando-se no “S” do Super-Homem, adaptada de uma HQ do quadrinista.
ameaça, mas sua explosão167, mesmo que a distância, desencadeia uma série de eventos que traz o caos até as ruas de Gotham City.
A partir daí, Batman, ferido após combater o líder da gangue dos Mutantes e vencê-lo de forma humilhante, assume o comando da cidade para estabelecer a ordem novamente, convocando antigas gangues rivais para que se unam em sua causa, a fim de que se faça surgir uma nova ordem a partir do caos. Feito isso, Batman e seu novo grupo de justiceiros cavalgam até a cidade e impõem com braço forte a ordem sobre uma multidão fora de controle.
Depois de muitos sacrifícios e destruição do centro de Gotham City, a ordem imposta pelo cavaleiro das trevas prevalece, mas resta uma batalha épica, um duelo de titãs, entre Batman e Super-Homem, gerada pelo conflito de ideologias, que encontra na figura do homem-morcego um obstáculo interno ao sonho americano.
Desde seu surgimento, na década de 1930, os dois personagens foram amigos. O Super-Homem acaba representando todas as boas qualidades da sociedade norte- americana ou, pelo menos, as que seus criadores entendiam como tais. Ele é honesto, justo, se importa com os outros a ponto de tomar atitudes, se coloca em perigo para ajudar as pessoas e respeita a vida acima de tudo. Para muitos, ele representa um otimista, daqueles que acreditam que as pessoas são boas por natureza. Mas chamo a atenção para o fato de o Super-Homem ser um alienígena e, neste caso, explicarei de forma breve a tensão formada no seu relacionamento com Batman, em O Retorno do Cavaleiro das Trevas, baseando-me em seus surgimentos.
Neste caso, acho interessante salientar que Bruce Wayne é o Batman, que é um super-herói. No entanto, sabemos também que é um super-herói sem super-poderes, se comparado a outros de seu universo de convivência. Apesar de algumas de suas aventuras nos quadrinhos o apresentarem em situações incomuns, para um homem comum, Batman não é um homem comum. Muito menos um herói comum:
Um super-herói é um herói com poderes sobre humanos, ou pelo menos habilidades sobre-humanas, ou que se desenvolveram a nível sobre-humano.168
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Pulso magnético, que na obra foi chamado de “arauto do inverno”. Tinha como finalidade destruir o meio ambiente, poupando as zonas industriais.
Mas Bruce Wayne possui o que a maioria das pessoas deseja numa sociedade capitalista: muito dinheiro para satisfazer suas vontades. É o dono, nos quadrinhos, das Empresas Wayne internacional, de inúmeros bens e posses, da mansão onde se encontra a “bat-caverna” e a maioria de seus “bat-equipamentos”, ou seja, este é, na verdade, seu grande poder, o que lhe possibilita um enorme investimento em treinamento físico, tecnologia e experiências científicas, para fazer a justiça “pelas próprias mãos”.169
Neste sentido, em O Retorno do Cavaleiro das Trevas, Bruce Wayne é sagaz, inteligente e usa todos os recursos que seu império lhe pode proporcionar, em uma luta contra o homem de aço, na qual visa incutir no kryptoniano170 sua razão, por meio da violência e da humilhação. No entanto, ele tem apenas poucos minutos para fazer com que isso aconteça, ao ser mais poderoso da Terra, e o faz com sucesso.
O combate entre os super-heróis demonstra para mim, dentro da narrativa da minissérie, um aspecto de Batman que se tornou muito comum nos quadrinhos do gênero, que é a postura independente do cavaleiro das trevas em preparar “armadilhas” para vencer o Super-Homem. Teoricamente, ambos estariam do mesmo lado. No entanto, o Batman de O Retorno do Cavaleiro das Trevas não considera o homem de aço como um inimigo mortal, mas uma ameaça que poderia se revelar a qualquer momento, e que ele deveria estar preparado um dia para encarar:
Sangramento nasal. Muito cedo, Clark. Não caia agora. A noite é uma criança... e eu preparei tantas coisas. Temos que terminar aqui, nesta calçada imunda... onde meus pais morreram... onde posso usar a energia de toda a cidade para tostar seu cérebro. Ainda falando, Clark? Continue. Você sempre soube o que dizer... diz sim a qualquer um com distintivo... ou com uma bandeira. (...) Já passou da hora de aprender o que é ser um homem! Você traiu a todos nós, Clark. Deu a eles o poder... que devia ter sido nosso. Exatamente como seus pais ensinaram. Meus pais me ensinaram coisas diferentes. Caídos nesta rua... sangrando muito... morrendo sem razão nenhuma... eles me mostraram que o mundo só faz sentido quando você o força a fazer171.
168 LOEB, Jeph e MORRIS, Tom. “Heróis e Super-Heróis”. In: IRWIN, Willian (coordenador),
MORRIS, Tom e MORRIS, Matt (coletânia). Super-heróis e a filosofia: verdade, justiça e o caminho socrático. Madras, 2006. p. 26.
169
RAMA, Maria Ângela Gómez. A representação do espaço nas histórias em quadrinhos do gênero super-heróis: a metrópole nas aventuras de Batman. p. 66.
170 O Super-Homem é nativo do planeta Krypton. 171
Trechos retirados da legenda, referentes ao pensamento de Batman durante sua luta no Beco do Crime contra o Super-Homem. In: O Cavaleiro das Trevas. p.40,41 e 42.
No clímax da luta, ambientada no Beco do Crime, o coração de Batman para. O Super-Homem, com sua super-audição, acompanha o momento e se rende à sua determinação, segura Bruce Wayne em seus braços, morto. É meia-noite. Alfred, o fiel mordomo, destrói os vestígios do temido herói e da mansão Wayne e, em seguida, também morre. O Super-Homem, tocado pela morte de Batman, não permite que as autoridades “toquem no corpo dele”.
O noticiário da televisão relata a morte de Batman como decorrente de um ataque cardíaco durante enfrentamento com tropas governamentais. Bruce Wayne acaba tendo sua identidade revelada, sem terem sido relatados mais detalhes sobre sua vida, a não ser que sua fortuna havia desaparecido, suas contas bancárias esvaziadas e todas as suas ações vendidas. Seu corpo havia sido reclamado por um primo distante.
Contudo, Bruce Wayne domina os produtos químicos e acabou forjando sua própria morte com a ajuda da Robin, o que o Super-Homem só percebe quando escuta os batimentos cardíacos retornando ao seu normal, logo ao final do sepultamento. Mas a luta no Beco do Crime teve um forte impacto na vida do Super-Homem, que acabou deixando o Bruce Wayne em paz, desde que Batman “não dê bandeira”. Agora, oculto sob o solo da “interminável caverna”, Bruce Wayne buscaria um novo começo para si e seu novo grupo de aliados.
4.5 A mudança na caracterização do super-herói em O Retorno do Cavaleiro das