3. PP-LEDERNES VURDERINGER AV I PP-TJENESTEN
3.5 PP- LEDERNE : KOMPETANSE I FORHOLD TIL STATLIGE FORVENTNINGER
3.5.8 PP-ledere: Etablerte arenaer for kunnskap- og erfaringsdeling
A contemporaneidade apresenta dois movimentos centrais em se tratando de circulação dos produtos culturais: o surgimento de um mercado cada vez mais global e, em contrapartida, a revalorização das culturas locais. Se por um lado percebemos com o resgate de manifestações culturais (folclore, histórias e tradição) a nostalgia pelo passado no sentido de cravar uma identidade cultural local “imaginada”, percebemos que a dinâmica construtiva da cultura é na verdade a construção do cotidiano, do viver e do fazer presentes. Nesse ínterim, os programas de televisão apresentam não apenas realismos, mas as articulações culturais que estão no âmago das relações sociais na contemporaneidade.
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E é neste sentido que Montoro afirma que a televisão é parte de uma cotidianidade a qual revela a capacidade que os meios de comunicação têm de “construir agendas, marcos e categorias culturales con las cuales tenderán a actuar
los miembros de una cultura” (MONTORO, 2001, p. 12).
A televisão se configura em um espaço de significações da vida cotidiana, e por isso mesmo, é na atualidade também um local de cultura, um espaço de antagonismos, e por isso mesmo o local onde as diferenças podem ser realizadas e negociadas, pois que nos deparamos em todo momento com a necessidade de viver numa sociedade nacional, porém de espaços liminares. Assim, a televisão tornou-se um espaço de negociação de identidades culturais, “campo”8 no qual as diversas audiências e a televisão estão em disputa. Como processo e como experiências cotidianas, portanto, a televisão está sujeita a mudanças.
Os Estudos Culturais aplicados à análise da televisão a colocam como meio integrante do processo de sociabilização dos indivíduos nesse estágio da sociedade cada vez mais liquefeito, no sentido dado por Bauman9. As identidades estão em constante processo de negociação. Negociação não no sentido de reformismo, mas de articulação de elementos antagônicos e oposicionais sem a superação de uma ou de outra identidade (BHABHA, 1998, p. 52).
E nesse campo de disputas estão as grandes redes de televisão aberta e as emissoras afiliadas, espaço em que a regionalização ganha destaque. A discussão
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Campo social, de acordo com a concepção de Bourdieu, “é um espaço social estruturado, um campo de forças – há dominantes e dominados, há relações constantes, permanentes, de desigualdade que se exercem no interior desse espaço – que é também um campo de lutas para transformar ou conservar esse campo de forças” (BOURDIEU, 1997, p. 57). No caso do jornalismo e da televisão a noção refere-se a um microcosmo com leis próprias definido pela posição do campo no mundo global (BOURDIEU, 1997, p. 55).
9 Crise das relações humanas. Os efeitos da globalização e do capitalismo atual tornam as relações humanas e afetivas também objetos a serem consumidos. Manutenção tensa e incerta da individualidade na modernidade em oposição a representação de identidades cada vez mais fragmentadas. As identidades são postas em condições de conflito e reafirmação que reproduzem a identidade mas deixam de lado sua essência: identidade simulada, fragmentada e individualizada nos espaços públicos. O mundo globalizado tem criado situações cada vez mais conflitantes e excludentes, provocadas pela polarização caracterizada pelos que têm mobilidade no globo e pelos que não a têm. Por outro lado, as forças do mercado têm gerado situações de grandes conflitos à medida que impõem suas regras em todo lugar por onde passa, ou melhor, aos lugares onde encontra boas condições de implantar seus negócios com maior lucratividade. Enquanto isso, os Estados modernos se encarregam de manter a ordem e a lei no seu território garantindo a imobilidade da mão-de-obra. Dessa forma “as ordens são locais, ao passo que a elite e as leis do livre mercado são translocais”. Nesse jogo, apesar de ser ocultada esta relação, elite e periferia estão internamente ligadas, e as consequências humanas, melhor seria desumanas, provocadas pela primeira em relação à segunda são nefastas e grotescas (BAUMAN, 1999).
sobre a regionalização vai além da programação de uma emissora local ou mesmo sua localidade geográfica, pois as dinâmicas da globalização, que transformam “sujeitos locais em cidadãos globais”, não são homogêneas, uniformes, centrais e efetivas, ainda que se evidenciem seus reflexos em diversos lugares do globo.
Portanto, os paradigmas da globalização como centro das relações sociais, políticas e econômicas, da moldura dos contextos locais não se apresentam suficientes para discutir as dinâmicas do espaço cultural televisivo, embora atestamos que as relações sociais e os lugares de cultura são assuntos complexos e se complexificam ainda mais com a inserção da televisão como parte da vida cotidiana das pessoas.
A televisão constrói-se como uma rede de relações complexas, em que o envolvimento do espaço sociocultural está permeado por lógicas políticas e comerciais. Nessa perspectiva, o enfoque teórico-metodológico desta pesquisa contempla as parcialidades das representações televisivas.
Essas imagens, representações esparsas e fragmentadas da totalidade social, acabam construindo um todo coerente – o imaginário social por meio do qual nós percebemos os ‘mundos’, as ‘realidades vividas’ dos outros e, imaginariamente, reconstruímos as suas vidas e as nossas, de modo inteligível, dentro de uma totalidade vivida e vivenciada (MONTORO, 2006, p. 21).
Entendendo a televisão como forma cultural portadora e provocadora de significados e prazeres, e a cultura como a geração e circulação dessa variedade de significados e prazeres dentro da sociedade é que poderemos entender a processualidade da cultura à luz dos Estudos Culturais, que, como vimos, não tem a ver com o indivíduo e sua tribo, mas com a produção dos indivíduos dentro de instâncias de negociação e diferenciação social, como o é a televisão.
Television-as-culture is a crucial part of the social depramics by which the social structure maintains itself in a constant process of production and reproduction: meanings, popular pleasures, and their circulation are therefore part and parcel of this social structure (FISKE, 1987, p. 1)10.
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“A televisão como cultura é parte crucial das dinâmicas sociais pelas quais a estrutura social se mantém em constante processo de produção e reprodução: significados, prazeres populares e sua circulação são portanto parte e parcela da sua estrutura social” (tradução livre da autora).
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Como cultura, portanto, a televisão pode ser analisada além do seu caráter tecnológico, o que significa pensá-la em três ordens: desde a sua estrutura, ou seja, seus aspectos formais em que se inserem a programação, os fluxos e programas de TV; sob a ordem das relações de intertextualidade e diálogos entre as diversas fontes de produção simbólica que compõem seus discursos; e pensá-la ainda no que diz respeito aos processos sociais de recepção que integram a experiência social dos indivíduos, repertórios culturais, e o texto televisivo em si, processos que moldam a efetividade da televisão no mundo da vida e são dotados de sentidos os quais podem ser decodificados das mais variadas maneiras pelas audiências.
Nesse sentido, este trabalho analisa os programas de acordo com a concepção de televisão a partir das características principais de sua linguagem, que são complexas: sua polissemia, heterogeneidade, contradição e segmentação. A proposta recai sobre a valorização do conteúdo televisivo, com suas dinâmicas, processos de codificação e decodificação11. A ideia de “massa” é substituída pela pluralidade e pelo “Diverso”, uma vez que, menos do que homogeneizar, as desigualdades e diferenças estão confrontadas na televisão.
Segundo Hall (2003), a TV é ainda essencialmente convencional e conservadora. A maioria das leituras feita por diferentes espectadores, mesmo de programas de televisão que convidem ao engajamento, reflete mais posições convencionais e não radicais, a chamada “leitura preferencial”, pouco afastada da hegemonia e da mensagem preferencial emitida pelos produtores. Contudo, as audiências podem ultrapassar os significados preferenciais e chegar a decodificações opostas, embora a produção social de significados seja marcada pelo quadro de referência histórica e institucional do processo de comunicação.
Algumas críticas à televisão avaliam o desgaste e o esvaziamento de conteúdos propiciados pelo excesso e pela repetição tanto de conteúdos como de formatos. Mayra Gomes pontua que, na repetição, o discurso é perdido pelo excesso, excesso em relação a ser “mais do mesmo”, provocar o efeito nivelador/neutralizante dos conteúdos. Desconstruir o texto televisivo e observar a forma como sua linguagem produz representações pode levar a perceber a aparente
11 Raymond Williams destaca que a tecnologia de transmissão e recepção em televisão também foi desenvolvida antes do seu conteúdo, tornando este um subproduto da tecnologia, ao invés de ser o foco principal.
repetitividade característica da linguagem do meio televisivo. Repetitiva, descontextualizada e esvaziada, a programação da televisão é, contudo, híbrida, pois trabalha diversos códigos linguísticos (texto/imagem/som), significações que são engendradas no cotidiano das pessoas e são contextualizadas pelas audiências no momento da leitura.
Os conteúdos televisivos fazem parte dos processos culturais e chegam para as audiências de maneiras distintas. A relação familiar que as audiências têm atualmente com a televisão ajuda a perceber determinadas ações intencionais veiculadas com objetivos de seduzir e persuadir, mas também criam um processo
cultural vivido no cotidiano. Ou seja, algumas características dos códigos televisivos,
como a redundância, podem-se tornar um modo de articulação para novas realizações sociais, sobretudo porque “é impossível que algo se repita como idêntico” (GOMES, 2005, p. 178).
A televisão não é essencialmente um agente do status quo, pois a sociedade e os valores hegemônicos não são estáticos e a televisão é parte deste movimento. Ela não é originadora da mudança social, mas tem uma existência material sociocultural capaz de ser parte desta mudança. Embora muitos programas de televisão, como telenovelas e seriados, incorporem valores dominantes e conservadores, são reflexos de novas posturas emergentes no cotidiano e abrem-se a elementos que podem emergir para uma nova realidade cultural (WILLIAMS, 1980).
As marcas da televisão na atualidade, então, seriam: a) autorreferencialidade, em que eventos e acontecimentos são criados e construídos como realidade em si, numa dinâmica de voltar a si própria; b) diluição da dicotomia realidade/ficção; e c) irrealidade, como poder de criação de realidades. Tais marcas não descontextualizam, mas recontextualizam o mundo real em torno de realidades instituídas e difundidas pela “telinha” presente na maioria dos lares brasileiros. Há, portanto, uma nova forma de interpretação da realidade a partir dessa nova linguagem construída pela televisão: “Verdadeiro e falso o são por referência a realidades instituídas” (GOMES, 2005, p. 113).
Os contextos culturais e o complexo jogo de linguagens e de trocas entre televisão e audiências mudam a avaliação dos efeitos da televisão, ou seja, a perspectiva criativa da TV pode mobilizar experimentações. A televisão promove a
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criação de novas linguagens, pois que as audiências reconhecem o produto televisivo como um “jogo de diferenças socialmente construído". Em outras palavras, as características gerais do modelo de televisão atual podem não ser tão maléficas e, ao contrário, se posicionar como processo de recuperação do sujeito e de sua subjetividade, da sua identidade por meio da interação de sentidos negociados.
Paralelo a conceitos como hibridismo, identidade, diversidade e diferença cultural e à inserção da televisão no cotidiano por meio de processos como a repetição e o excesso e as suas marcas acima discutidas, o esforço desta pesquisa para descrever as dinâmicas dos programas regionais de televisão recai essencialmente sobre as formas culturais desenvolvidas pela televisão por meio de suas especificidades tecnológicas e do legado histórico cultural que traz no seu desenvolvimento. Retomamos os estudos de Raymond Williams sobre a televisão e suas formas de atuação na sociedade. Como processo, as formas culturais de transmissão da realidade televisiva estão em constante formação de novas formas, as quais, ancoradas a elementos já conhecidos da comunicação pelas audiências, multiplicam e transformam o conteúdo recebido.
As formas culturais da televisão são sua essência. Sintetizamos as principais categorias estudadas por Williams que conformam a televisão como formas culturais e evidenciam a potencialidade também de seus códigos tecnológicos, são elas: notícias, debates, educação, drama, filmes, variedades, esportes, anúncios e passatempos. Estas formas culturais configuram modos de leitura diferenciados, portanto, provocam ações variadas nas realidades vividas uma vez que o telespectador se constitui e reconstitui através dessas linguagens diversas.
As “notícias” são as principais formas que caracterizam o meio televisivo, elas atravessaram os tipos modernos de comunicação ao longo dos tempos e atualizam o papel dos meios de comunicação na sociedade como um observatório da atualidade, daquilo que é importante para a vida. Outras formas como os debates e programas educativos têm sido ampliadas, tornando a televisão uma instituição de fato, arena de discussão dos assuntos de interesse público e de transmissão de conhecimentos. Os programas educativos também garantem uma boa imagem para o meio como propiciador do acesso à cultura, à ciência e ao desenvolvimento. A educação na televisão está atualmente situada em contornos culturais variados como transmissão de valores e de conhecimentos sobre temas diversos.
Por outro lado, formas televisivas como o “drama” modificam substancialmente a experiência televisiva, por meio da combinação de formas ficcionais e documentais que conduzem as audiências a se auto-referenciarem nos conteúdos trabalhados nas séries e seriados. Além disso, os filmes exibidos na televisão, por sua vez, transformam a indústria do cinema e criam novas dimensões de leituras pelos telespectadores, até mesmo porque alcançam o publico majoritário. A dinâmica dos gêneros e formas televisivas altera a sua efetividade e a formação de sua própria linguagem. Os programas de variedades como formas culturais alimentam a vinculação da televisão com o entretenimento e constituem um parâmetro para um conceito moderno de televisão. O esporte na televisão, ancorado pelo interesse histórico do homem por jogos e competição, se transforma em um fenômeno mais complexo, onde a própria televisão se insere na indústria do setor esportivo e suas vinculações com outros sistemas de consumo. A publicidade, nesse ínterim, também ganha contornos complexos que inundam todos os processos e formas televisivos e chegam a compor a própria grade de programação televisiva e a noção de fluxo televisivo, formando uma experiência sequencial de novos ritmos visuais e novas marcas de sentidos para as audiências. A última forma inicialmente trabalhada por Williams, os passatempos”, evidencia o lado humano e as relações privadas, transformando as experiências sociais familiares em entretenimento.
Outras formas culturais vão surgindo a partir destas primeiras tornando a comunicação mais fluida e ainda mais vicária, (exemplo do documentário). Mas são as observações do autor sobre sequências, fluxos e ritmo televisivo, horizontalmente, dentro de um programa, ou verticalmente, em conformação com outros programas, incluindo os intervalos comerciais, que comporão o estudo das novas formas culturais da televisão que consolidam esta nova experiência de realidade no mundo contemporâneo: as concepções de fluxo e programação televisivos.
Na concepção de Williams o fluxo planejado é, antes de tudo, uma nova forma cultural que molda o modo como as pessoas assistem e selecionam os programas, influenciando também no julgamento que essas pessoas farão do conteúdo recebido. O fluxo é, portanto, caracterizado como experiência principal de assistir televisão, que torna os programas menos unitários e mais interdependentes.
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Williams enfatiza que esse desenvolvimento do fluxo na programação precisa ser observado de variados modos. Segundo o autor, houve uma troca do conceito de sucessão como programação para o conceito de sucessão como fluxo, pois os programas não são distribuídos aleatoriamente e sua posição na grade televisiva é, menos do que garantir audiências, efetivar e reforçar determinadas leituras.
Todas essas questões abordadas devem ser analisadas de acordo com cada contexto, cada momento histórico e cada tipo de emissora e programa. As condições de produção televisiva não são as mesmas, tampouco serão os efeitos, ou melhor, a efetividade de seus conteúdos na realidade social e cultural de suas audiências.