3. PP-LEDERNES VURDERINGER AV I PP-TJENESTEN
3.2 KOMPETANSEN TIL PP- LEDERNE
Ao pesquisar a caracterização dos super-heróis para este trabalho, chamaram-me a atenção as reflexões de Umberto Eco, em seu estudo sobre o mito do Super-Homem, revelando que,
por ser um arquétipo, o super-herói deve apresentar certa inércia para permitir a fácil identificação, ou seja, nada de grandes mudanças em sua vida. Por essa razão, as editoras costumam resistir a deixar seus personagens casarem ou terem filhos172.
Segundo Eco, os arcos de história se sucedem, o herói enfrenta e debela inúmeras e semelhantes ameaças, mas, no final, perdura essencialmente o combate ao mal, o exemplo de coragem e heroísmo, geração após geração, sem nunca envelhecer ou evoluir. Caso o Super-Homem, ou qualquer super-herói sujeito a essa mesma lei, provoque alguma ação que altere essa continuidade, daria um passo em direção a seu fim. E esse fim, como sabemos, não é a morte173.
Quando a obra O Retorno do Cavaleiro das Trevas apresentou uma nova caracterização de Batman, em 1986, o contexto dos super-heróis não se limitaria mais a aventuras “do cara que usa cueca vermelha em cima de um colã azul”, e não se duvidaria mais da força de um super-herói que anda por aí com um companheiro de “macheza” duvidosa, como em Batman e Robin. Batman emergiu nesse contexto, causando uma ruptura em sua caracterização sendo apresentado como um herói frio e psicologicamente complexo como ele jamais fora.
Contudo, essa caracterização era encontrada dentro do universo do personagem dos quadrinhos, profundamente influenciada pelo mundo que cercava seu autor, o norte- americano Frank Miller. A narrativa de O Retorno do Cavaleiro das Trevas é atualmente considerada como uma história Elseworlds, linha DC, de histórias definidas fora da cronologia tradicional do personagem. Após a obra de Miller e a obra de Alan Moore Watchmen (1986), apareceram muitos questionamentos no mundo criativo do
172 ECO, Umberto. “O Mito do Superman”. In: ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. 4a ed., São
Paulo: Perspectiva, 1991, p. 239.
gênero. No entanto, a caracterização dos super-heróis nos quadrinhos passava por mudanças profundas. Neste estudo sobre Batman, percebo alguns vestígios do herói em sua concepção inicial (1939) presentes também no contexto apresentado em O Retorno do Cavaleiro das Trevas. Por meio desta caracterização de Batman, entendo que o que Miller fez foi abordar sua perspectiva do herói, utilizando-se de métodos pouco comuns ao que geralmente se esperava de um super-herói de quadrinhos até então. O personagem passou de mais um “herói colorido do universo DC” para uma figura das sombras, obcecado por sua guerra contra o crime, que fala só o estritamente necessário e pouco interage com as autoridades governamentais. A realidade norte- americana na década de 1980 permitia um Batman assim.
Em O Retorno do Cavaleiro das Trevas pode-se analisar por meio da rememoração do trauma do assassinato de seus pais, a construção de uma narrativa gráfica, que mostra o fato como um catalizador para a transformação de Bruce Wayne em Batman, somantizando-se com a situação social, econômica e política da cidade de Gotham City representada na obra. O ambiente urbano apresentava muitas semelhanças com a Nova York da década de 1980, com muitos desabrigados e violência nas ruas.
Essa proposta de mudança na caracterização de Batman foi precedida de algumas propostas revolucionárias para a linguagem dos quadrinhos do gênero super- heróis, que interagiam com outras fontes e meios de comunicação de massa da época. Na composição das cenas narrativas por Miller, esta caracterização rompe com a continuidade observada na cronologia tradicional de Batman.
Cena narrativa 11: Batman de O Retorno do Cavaleiro das Trevas chega até mesmo ser irônico perante as situações de perigo. No entanto, ele demonstra saber o que está fazendo a todo instante e principalmente, demonstra gostar do que está fazendo.
Cena narrativa 12: Batman retorna a ser um vigilante implacável nas ruas de Gotham City, apesar da idade, ele parece não perder o vigor nem a vontade de fazer justiça onde a lei não pode chegar.
Cena narrativa 13: Em O Retorno do Cavaleiro das Trevas, Bruce Wayne parece não precisar usar a máscara para incorporar o “homem-morcego”.
Nestas cenas narrativas da minissérie que selecionei acima, percebo que Miller, que é escritor e desenhista, buscou referências neste trabalho em suas influências artísticas, que nos quadrinhos envolvem o traço de Bernie Krigstein, Will Eisner e um pouco dos mangás japoneses, explorarando uma nova concepção de ação nos quadrinhos de super-heróis. Também vejo influências do cinema da época, como a caracterização de Batman muito semelhante a do ator Clint Eastwood (1930) nas séries de filmes Dirty Harry (1970/1980); da postura irredutível e vingativa de Charles Bronson (1921-2003) em Desejo de Matar (1974/1994) sendo muito semelhantes a atitude de anti-herói presente na narrativa gráfica da minissérie, e sobretudo na concepção de justiça do homem- morcego.
O próprio surgimento do personagem apresentado na minissérie já impõe certas condições ao seu perfil. O assassinato de seus pais, que foi o início de tudo, fez com que ele partisse em busca de vingança. Em suas primeiras histórias, durante a conhecida Era de Ouro, ele carregava uma pistola e pouco se importava se os bandidos viviam ou morriam, contanto que eles pagassem por seus crimes. Esse perfil foi abrandado durante os anos por uma série de razões, principalmente com a censura proposta aos quadrinhos com o Comic Code Authority, que como vimos anteriormente, contou com o auxílio da própria sociedade norte-americana na fiscalização das revistas dos superseres.