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3.7 PP- LEDERNE : R OLLEN TIL PP- TJENESTEN
Do surgimento da televisão até os dias atuais, as transformações estéticas e expressivas sofreram menos mudanças do que as de ordem técnica. O resultado é uma carência efetiva da sociedade por uma televisão diferenciada, o que coloca no centro da discussão a grade de programação, essência da televisão aberta, e a regionalização, como possibilidade de discursos mais múltiplos na telinha.
É justamente a programação que tem experimentado poucas mudanças. Nelson Hoineff (2001), dentre muitos críticos dos meios de comunicação, questiona os poucos debates em torno da construção de uma linguagem televisiva específica que se equipare à potencialidade técnica e expressiva do meio, e que vise ao atendimento às demandas dos novos públicos. O debate ressurge a efetividade da televisão não apenas como meio tecnológico, mas como meio cultural e social que produz textos os quais são parte de um processo dinâmico de sociabilidade e formação histórica.
Esses contextos congregam novos públicos formados para uma nova televisão. Um público mais diverso que faz com que a televisão se expresse de maneira mais concorrencial e segmentada, e que urge pela alteração da programação e dos programas cujos gêneros e formatos atualmente pouco
diferenciam uma emissora de outra. Esta demanda das audiências é efetiva e diferenciada de acordo com suas culturas, interesses, faixa etária etc.
A experiência que tivemos com a televisão genérica colocou-a no patamar de essência da TV no Brasil. Hoineff (2001: 16) anuncia que “tematizada”, e nós acrescentamos regionalizada, a televisão abre novos caminhos para a efetivação de sua linguagem e de seus objetivos em que a relação com o espectador seja valorizada.
É certo que as mudanças no meio digital são dinâmicas e imprevisíveis, sobretudo porque a televisão por broadcast ainda permanece nesse cenário. Contudo, é urgente, e já há muito tempo, que produtores e fomentadores de políticas culturais, junto com a sociedade, discutam como as novas tecnologias e a digitalização podem ser usadas para favorecer a expressividade da televisão e sua relação com os públicos, e assim enfrentar os ditames políticos e econômicos que rodeiam, como sanguessugas, este poderoso sistema de comunicações.
É nesse cenário que a televisão regional se anuncia. A TV regional está mudando. Seja melhorando sua qualidade técnica, investindo na diversidade de seu conteúdo ou mesmo na acessibilidade da sua audiência. Esta observação pode ser comprovada ao se avaliar os investimentos de muitas emissoras em sites e portais na internet, onde disponibilizam seu conteúdo e abrem canais de participação junto ao seu público, reafirmando, por meio da rede global, a sua condição de proximidade. Contudo, tais mudanças são lentas, pois o modelo de televisão aberta no Brasil, baseado no sistema de redes e na dependência da publicidade, impede maiores investimentos em conteúdos diferenciados.
Por outro lado, outro risco para as audiências de emissoras locais é a manutenção de programas de baixos custos de produção, o que pode acarretar em conteúdos estereotipados e que extrapolam aspectos formadores da regionalidade de cada lugar. Do mesmo modo, programas de baixa qualidade de produção não refletem em produtos de baixa qualidade. A concorrência fomenta a disputa pela audiência nos mercados regionais. Estes, do mesmo modo que as redes nacionais, também mantém a cultura das celebridades13.
13 Nesse sentido, é interessante a reportagem da Revista Veja, de agosto de 2009, sobre a programação regional de televisão. São programas líderes em audiência nas suas localidades, que exploram hábitos e costumes locais e regionais. A reportagem enfatiza que mesmo ainda
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O tipo de TV que temos já dá sinais de obsolescência e pede mudanças, mudanças, sobretudo, no gerenciamento da programação: a TV digital potencializará os processos e a recepção da televisão bem como o aumento da oferta de canais, cuja fidelização vai depender de outros recursos, mais especializados, em vez da memorização do canal e do horário de um programa. Mas a digitalização e a convergência tecnológica da informação e comunicação é uma pequena parte das mudanças que se esperam. Esse processo está relacionado a novas formas de contato do telespectador com a sua TV (sua programação) e, nesse sentido, estão incluídas mudanças na lógica do zapping, na homogeneidade dos conteúdos, e mesmo na noção de assistir TV como uma experiência coletiva.
O espaço de transmissão das imagens é público, e é nesse termo que ela deve ser pensada. As diferenciações que a televisão pode refletir da sociedade também podem ser usadas como estratégias de mercado diferentes ou mesmo congruentes com as formas tradicionais de fidelização (hábito de ligar na mesma estação, rotina de seguir a sequência de programação, horários fixos), na medida em que, por exemplo, a programação local pode ser um ponto eficaz de fidelização do espectador14.
Vivemos tempos de mudanças, embora não saibamos ao certo se acontecerão na proporção que imaginamos ou para as quais apontam as possibilidades tecnológicas. Na programação e nos fluxos televisivos estão possibilidades para o surgimento de novos e distintos modelos de televisão e de novas e distintas relações entre a televisão e a sociedade. Uma transformação que perpassa pela reflexão, pela produção de conhecimentos diversos, expressivos, criativos e democráticos.
obedecendo a padrões rígidos de qualidade (como os impostos pela rede Globo e mais atualmente pela rede Record), os temas locais são alvos de investimentos. A entrevista mostra que na cidade de São Paulo a rede Globo tem a menor audiência em relação ao resto do Brasil, pois as redes concorrentes, que têm bases na capital paulista, investem muito nos conteúdos locais (VEJA, ano 42, n. 31, 5 de julho de 2009, pp. 144-151).
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A Revista Tela Viva de julho de 2009 fala sobre o investimento das emissoras e redes regionais de televisão aberta em vídeos na internet e páginas personalizadas que deixem o internauta mais próximo do canal de televisão, mais confiantes que o seu pedido seja atendido. Cita emissoras como a Rede Paranaense de Comunicação (RPC), a Amazon Sat e a TV Alterosa (Minas Gerais). “Se a estratégia dos grupos regionais de mídia com vídeo na internet está baseada na exaltação de elementos locais, explorando conteúdo diferenciado do que é exibido na TV, o modelo de negócios que viabiliza os projetos é bem tradicional e universal: a publicidade” (TELA VIVA. Ano 18, n. 195, jul/2009, p. 17).
Nosso objetivo é mostrar que é preciso apostar nas mudanças na televisão brasileira e não apenas fazer apologias ao caráter integrador da televisão regional. A programação da televisão genérica regional é ainda amadora, despreocupada com o gosto ou as demandas das suas audiências. Contudo, tanto a TV genérica nacional quanto as emissoras regionais estão em transformação, não para eliminar as diferenças, sobretudo para mostrar que elas compõem o todo social ao qual nos integramos. Nesse sentido, questiona-se: como manter generalizado um meio inserido em regimes sócio-culturais plurais?
O primeiro passo é não fechar os olhos ao fato de que o sistema de redes está se desintegrando e caminha para mudanças significativas em suas estratégias de sobrevivência. A opressão das redes de televisão aberta tem demonstrado sua ineficiência. Por exemplo, quando as emissoras regionais não conseguem manter um programa nos horários destinados pelas redes ao conteúdo local e é obrigada a transmitir programas específicos da região da cabeça-de-rede; ou quando é imposta a transmissão da mesma programação sem critérios, o que implica a aplicação da classificação etária de horário (programação antecipada, com até quatro horas de antecedência no período de horário de verão, nos Estados da Região Norte, com fusos horários diferentes). Isto para citar apenas discrepâncias mais acentuadas e visíveis.
Pensar a televisão no Brasil é perceber que a questão não se limita às tecnologias. A cultura televisiva no Brasil “está profundamente ligada à ausência de alternativas de uma sociedade sem acesso a outros tipos de consumo cultural, em especial aqueles que levam o espectador para fora de casa” (HOINEFF, 2001, p. 53). A TV aberta se bastou na programação que tem e se fechou para a busca de modelos diversificados; o resultado disso é a repetição dos mesmos gêneros, formatos e temáticas, embora algumas tentativas criativas tenham sido observadas durante sua existência, conforme vimos no capítulo anterior.
O fato é que as redes sucumbiram, a programação multicanal carece ser renovada, do mesmo modo a TV genérica no Brasil. Esta pesquisa demonstra que a programação em muitas emissoras regionais tem capacidade de expandir, tecnicamente e distintamente, apontando novas perspectivas para a nossa televisão.
O próprio significado do termo programação, portanto, deve estar também, e principalmente, em reflexão. A definição de programação deve atentar a novos
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parâmetros e às novas configurações na relação das audiências com o veículo e da mesma forma nas demandas diferenciais verificadas regionalmente.
A programação é o cerne da narratividade da TV e a essência da transformação da televisão genérica, aberta ou segmentada. Nesse sentido, alguns aspectos têm sido postos em evidência e podem acelerar os debates em torno de mudanças, tais como: a evidência do “mito dos quinhentos canais” na TV segmentada, os quais em vez de diversificar os conteúdos, multiplicam as distorções presentes na própria TV genérica. Em consequência, o zapping é visto como confusão, ação desinteressada e pouco descritiva dos índices de audiência tendo em vista que o espectador “passeia” pelos canais sem uma intenção específica ou mesmo crítica. A partir disso, a interatividade surge como peça-chave para mudar as relações do espectador com a televisão. Mas ela não pode ser a única, sob o risco de continuarmos negligenciando as possibilidades de diferenciação do veículo, as mudanças em sua linguagem e em sua atuação social.
Um dos pontos iniciais para se começar uma mudança é pensar na especificidade da própria televisão, na sua linguagem. Para alguns autores, a primeira dificuldade para a concepção dessa linguagem, que ao mesmo tempo é uma forma de ação/atuação na vida cotidiana, é o fato de que a televisão “nunca se levou a sério”, em grande parte pelos fortes elos dos sistemas de comunicação no Brasil com os poderes políticos e econômicos.
Assim, um começo eficaz é caracterizar o que é específico da televisão. Depois, identificar um novo “modo de ver televisão” em oposição à concentração de programas, tais como: a intimidade e a continuidade, por meio do endereçamento, o qual “permite especificar, ao nível do formato, a maneira pela qual o texto de televisão é sempre construído como estando continuamente lá pra alguém” (HOINEFF, 2001, p. 93).
Esse novo modo de ver televisão, portanto, ancora-se em sua segmentação e regionalização, por meio de redes temáticas ou segmentadas, bem como das possibilidades da convergência tecnológica compõem a televisão do futuro15.
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Os debates divulgados pela revista Tela Viva anunciam que a linguagem da TV pode vir a ser definida em termos da segmentação em duas ordens: 1) Na programação temática, e isto significa identificar a imagem mais com a rede (emissora) do que com o veículo; e 2) Na aposta na multiprogramação, que tem sido elogiada por vários produtores, que para muitos é “o verdadeiro
É possível que, por meio de esforços dos produtores e pelas cobranças da sociedade, a televisão regional se torne um lugar do exercício de desconstrução e construção de significados aberto às singularidades regionais por meio da “experimentação em vez da representação”, “da produção do sensível em lugar da reprodução da cópia ou do simulacro” (LINS, 1997, p. 110).
Nesse ponto encontra-se a atualidade dessa pesquisa: em discutir em que medida a programação e os programas da televisão regional avançam no pensar as identidades e as singularidades sociais e oferecem um novo modo de ver e de interagir com o meio. E nesse sentido, qual a dinâmica subjetiva das emissoras regionais no que diz respeito aos processos de construção e afirmação de identidades culturais.