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No item anterior, caracterizei o quadro de expansão do ensino superior no Brasil e, em especial, no Rio Grande do Sul. Esse processo modificou a composição social dos estudantes

106 NEVES, Clarissa Eckert Baeta. Educação superior (1930-85). In: GERTZ, René (org.). República: da

Revolução de 1930 à Ditadura Militar (1930-1985). Coleção História Geral do Rio Grande do Sul. Volume 4. Passo Fundo: Méritos, 2007, p. 342.

107 DINIZ, Pery Pinto; SOARES, Mozart Pereira. Memória da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1934-

1964. Porto Alegre: PROREXT/UFRGS, 1992, p. 163.

108 DREHER, Martin N. Breve história do ensino privado gaúcho. São Leopoldo: Oikos, 2008, p. 97.

109 JOÃO, Faustino; CLEMENTE, Elvo. História da PUCRS. Volume I. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995, p. 9.

universitários. Meu objetivo agora é discutir os dados disponíveis sobre a população universitária, bem como as implicações teóricas desses dados.

A ascensão dos movimentos estudantis nos anos 1960 estimulou uma produção bibliográfica que buscava descrever as características e explicar as causas daquilo que era identificado como um “radicalismo juvenil”.111 No âmbito acadêmico, o estudo mais

significativo foi a tese de doutorado em sociologia de Marialice Foracchi. Defendido em 1964, sob orientação de Florestan Fernandes, o trabalho foi publicado em livro no ano seguinte. A partir de questionários e entrevistas com estudantes da USP, a autora identificou que a maioria dos estudantes pertencia à classe média e representavam os dilemas de sua origem social.112

Não há no livro uma apresentação de dados de estratificação social que permita avaliar a proporção de estudantes originários dessa classe. No entanto, alguns outros dados relativos à caracterização socioeconômica são apresentados. De acordo com a tabela exposta na página 88, 36,267% dos estudantes eram sustentados totalmente pelos pais; 29,333% eram parcialmente sustentados; e 34,400% dos estudantes sustentavam a si próprios.113 Entre os estudantes que não eram mantidos de maneira total pelas famílias, 34% trabalhavam em atividades relacionadas ao curso que faziam; 25% em atividades não relacionadas; 2% eram comissionados; e 3% eram bolsistas.114 Essas estatísticas demonstram que uma parcela significativa dos universitários da USP (mais de um terço) não realizava qualquer forma de trabalho, vinculando-se provavelmente às classes dominantes ou aos estratos superiores da classe média. Os outros 74% necessitavam exercer algum tipo de atividade remunerada, seja para manterem-se completamente, seja no intuito de complementar a renda familiar.

Para Foracchi, a ação dos estudantes deve ser entendida a partir dos vínculos que eles mantêm com o sistema. Numa primeira instância, os vínculos de manutenção e retribuição que o ligam à família o colocam como parte de um projeto de ascensão e consolidação de sua posição familiar. As experiências universitárias e de trabalho representariam outra instância, em que o projeto de carreira imaginado acaba frustrado pelas condições objetivas de um país

111 São exemplos dessa produção: IANNI, Octavio. O jovem radical. In: Industrialização e desenvolvimento social

no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963; POERNER, Artur José. O poder jovem. História da

participação política dos estudantes brasileiros. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979; BRESSER PEREIRA, Luis Carlos. As revoluções utópicas. Petrópolis: Vozes, 1979.

112 A autora alterna o uso dos termos “classe média” e “pequena-burguesia”, as vezes especificados como “nova

classe média” e “pequena burguesia ascendente”, tratando-os como sinônimos. Ver, por exemplo, a página 221 do livro. FORACCHI, Marialice M. O estudante e a transformação da sociedade brasileira. 2. ed. São Paulo: Companhia Nacional, 1977, p. 221.

113 Ibid., p. 88.

subdesenvolvido.115 O lugar prometido ao estudante de classe média, no qual o exercício da profissão garantiria a sua autonomia, não é alcançado, tendo em vista que as classes dominantes limitam os canais de ascensão. A autora relata, por exemplo, que apenas uma parcela pequena dos acadêmicos dispunha de capital familiar para, depois de formada, abrir seu próprio escritório ou consultório, restando à maioria o trabalho assalariado. Essa disparidade seria notada ainda no decorrer do curso. No mesmo sentido, o trabalho parcial ou integral realizado por grande parte da categoria estudantil proporcionaria essa experiência de assalariamento e, portanto, seria vivida mais como vinculação e submissão do que como autonomia.

Ela ressalta ainda as condições específicas do que chama de “exploração do trabalho estudantil”.116 Segundo a autora, não seria “inusitado falar-se num mercado de trabalho

estudantil no qual se encontra mão-de-obra abundante, barata, qualificada, transitória, portanto, pouco reivindicativa”.117 Dessa forma, a experiência de trabalho reforçaria as vinculações com

o sistema, sujeitaria o estudante-trabalhador a uma submissão laboral mas, ao mesmo tempo, geraria nele a frustração e o desejo de mudança. O descompasso entre as expectativas familiares e a formação universitária, de um lado, e as condições de exercício profissional, de outro, estabeleceria uma tensão: alguns estudantes se conformariam com a situação, enquanto outros desejariam a sua transformação.118

Foracchi, como outros autores dos anos 1960, estava mais preocupada em explicar e compreender estes estudantes que, diante do quadro social já exposto, engajaram-se para modificá-lo. Esse engajamento, no entanto, é entendido dentro dos limites de sua condição de classe. Ou seja, ele não está desvinculado do projeto de ascensão de classe. Ao contrário, se estabelece exatamente porque estão bloqueadas as condições para que essa ascensão ocorra, embora a experiência de assalariamento aproxime parte da classe média das reivindicações do proletariado. Assim:

a condição de assalariada [da nova classe média brasileira] a vincula, positivamente, às camadas populares, fazendo-a, não raro, compartilhar das suas reivindicações nem que seja exclusivamente em moldes de tímido ou subjetivo apoio. Por outro lado, essa mesma condição de assalariada vincula-a, em termos de dependência e subordinação,

115 Em uma primeira etapa da formação da classe média, a ascensão social teria sido possível com a acumulação

de um pequeno capital. Os estudantes dos anos 1960, no entanto, estariam vivendo uma segunda etapa, quando essa ascensão vertical estava se tornando mais limitada e mesmo a manutenção da condição social era dificultada, por exemplo, pela inflação. FORACCHI, Marialice M. O estudante e a transformação da sociedade brasileira. 2. ed. São Paulo: Companhia Nacional, 1977, p. 94.

116 Ibid., p. 143 e p. 197.

117 Ibid., p. 154.

à experiência acumulada e à visão histórica das camadas dominantes, incapacitando-

a para qualquer efetiva tomada de posição que exija a ruptura desses vínculos.119

Portanto, a aproximação da classe média com as demandas populares nunca seria completa. Os estudantes podem até assumir posições revolucionárias, mas isso ocorre porque percebem que só transformações mais amplas poderiam modificar o padrão profissional reservado ao seu futuro.120 A motivação, como se percebe, seria em última instância uma expressão da ideologia de ascensão social que marca a sua classe de origem.121

As interpretações contidas no trabalho de Foracchi são bastante interessantes, mas não é possível estender suas conclusões para o Rio Grande do Sul sem discutir um conjunto maior e mais aprofundado de dados estatísticos. Uma das limitações de O estudante e a transformação

da sociedade brasileira é que o corpus da pesquisa é constituído por uma amostra de 5% dos

estudantes da USP. Os questionários aplicados foram respondidos por 377 estudantes dessa universidade.122 A cidade de São Paulo, naquele momento, já possuía importantes instituições privadas, como a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e a Universidade Presbiteriana Mackenzie. Parece-me legítimo supor que o perfil dessas instituições não coincida exatamente com o da USP, embora deva-se destacar que as questões levantadas pela autora e as respostas por ela encontradas fossem muito mais abrangentes.

É possível dispor, para o período pesquisado, de um conjunto de dados publicados em 1968 pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais,123 com o título de Caracterização

sócio-econômica do estudante universitário. A pesquisa foi realizada no ano de 1965 em dez

capitais brasileiras: Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Niterói,124 Rio de Janeiro, São

Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Brasília. Os estudantes, que estavam no primeiro ano de cada uma das faculdades dessas cidades, responderam a um questionário de 70 itens objetivos e mais uma questão aberta para observações e comentários. Ao todo, 18.230 questionários foram

119 FORACCHI, Marialice M. O estudante e a transformação da sociedade brasileira. 2. ed. São Paulo:

Companhia Nacional, 1977, p. 222.

120 A autora afirma, na página 266, que “o objetivo das camadas ascensionais é a eliminação das camadas

dominantes porque estas representam, sem dúvida, um obstáculo ao progresso e à libertação dos grupos em ascensão”. Ibid., p. 266.

121 Segundo Faracchi, o “estudante, enquanto agente de uma camada em ascensão que deseja transformações

estruturais, com o fito de consolidar sua posição no sistema e manter o seu projeto de ascensão”. Ibid., p. 275.

122 Ibid., p. 9.

123 Órgão vinculado ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP).

124 Niterói era, na ocasião, capital do estado do Rio de Janeiro. A cidade do Rio de Janeiro era capital do estado da

aplicados, sendo 274 eliminados. Os 17.956 considerados válidos representavam 66,9% do total de matrículas.125

Pelos dados apresentados na pesquisa, sabemos que eram 26.109 os estudantes matriculados nos primeiros anos no conjunto dessas dez cidades. Eles se distribuíam por 260 faculdades. A cidade de Porto Alegre se encontrava em quarto lugar no número de faculdades (25), atrás do Rio de Janeiro (54), São Paulo (47) e Recife (29). Em número de matrículas, a cidade ocupava a terceira posição (2.662 matrículas), atrás do Rio de Janeiro (6.920) e de São Paulo (5.752).126 No Brasil, o total de estudantes no ensino superior era de 142.386 para uma

população de 79.837.000 habitantes, o que significa 1,78 estudantes para cada mil habitantes.127

O Rio Grande do Sul tinha 6.028.000 habitantes e 17.153 estudantes. O índice por mil habitantes era de 2,85. Isso colocava o estado em segundo lugar no país nesse índice, atrás apenas da Guanabara (6,02) e logo à frente de São Paulo (2,66).128

O Rio Grande do Sul e sua capital, portanto, estavam entre os centros universitários mais importantes do país. Seria possível supor que estudantes de outros estados fossem atraídos pelas possibilidades de estudo da região. Os dados, no entanto, mostram que esse tipo de migração não era comum, pois a maioria dos estudantes frequentava o curso superior no estado em que nasceu. Daqueles que estudavam em Porto Alegre, 88,54% eram sul-rio-grandenses.129 Outro resultado esperado seria a vinda de jovens do interior para estudarem nas capitais. A estatística geral mostrava que 52,17% eram naturais das próprias cidades onde estudavam. Além disso, 17,30% haviam chegado há 10 anos ou mais, ou seja, o motivo da mudança não era o ingresso no ensino superior.130 Em Porto Alegre, 49,67% dos primeiranistas havia nascido na cidade. Os que vinham de fora residiam na cidade, em média, há 8,23 anos. Apenas 7,48% residia há um ano ou menos.131 Talvez as elites interioranas tivessem um projeto de mais longo prazo, enviando seus filhos para a capital mais cedo a fim de se prepararem desde o ensino básico. No entanto, os dados disponíveis não permitem uma apreciação mais conclusiva dessa hipótese.

125 CARACTERIZAÇÃO sócio-econômica do estudante universitário. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de

Pesquisas Educacionais, 1968, p. 17-18.

126 Ibid., p. 18.

127 A título comparativo, utilizando-se os dados do Censo de 1960, a Argentina tinha 124.730 universitários para

uma população de 20.013.793 habitantes, o que dava um índice de 6,23, muito superior ao brasileiro. Isso demonstra que, mesmo com um processo de expansão das matrículas, o acesso ao ensino universitário continuava sendo muito restrito no Brasil. Os dados foram retirados do Censo Nacional de Población – 1960. Disponível em: < http://www.deie.mendoza.gov.ar/tematicas/censos/censos_digitalizados/>. Acesso em: 11 jul. 2017.

128 CARACTERIZAÇÃO, op. cit., p. 390.

129 Ibid., p. 23.

130 Ibid., p. 26.

Cerca de dois terços dos estudantes porto-alegrenses eram homens, mas havia grande variabilidade dependendo do curso e da faculdade. As mulheres, por exemplo, predominavam na Faculdade de Ciências da PUCRS132 (54,09%), na Escola de Jornalismo da PUCRS

(60,00%), na Escola de Artes da UFRGS (65,38%), na Faculdade de Filosofia da UFRGS (70,61%), na Faculdade de Filosofia da PUCRS (77,15%), na Escola de Enfermagem da UFRGS (78,57%), na Escola de Serviço Social da PUCRS (88,23%) e na Escola de Enfermagem Madre Ana Moeller133 (92,30%).134 Os cursos mais prestigiados e concorridos,

como Medicina, Direito e Engenharia, eram predominantemente masculinos. Essa assimetria de gênero era uma característica nacional: 64,86% dos primeiranistas eram homens.135

A maioria dos estudantes porto-alegrenses era solteira (89,25%), sendo que o número de casados era significativamente maior na PUCRS, onde representavam 16,59%. Nessa mesma universidade, 14,07% tinham filhos, quando a média geral nesse aspecto era de 7,88%.136 Esses

dados condizem com a diferença na média de idade entre a UFRGS e a PUCRS. Na primeira, a média é de 21,38 anos, enquanto na segunda é de 23,63 anos.137 É possível agregar outra informação relacionada: na Federal, 65,28% dos estudantes não trabalhavam; na Católica, 60,44% trabalhavam.138 O número de estudantes exercendo atividade remunerada era, portanto, muito superior na universidade particular do que na pública. Com estudantes em média um pouco mais velhos, maior número de casados e de pais, e mais da metade de estudantes- trabalhadores, parecer-me-ia lícito supor que a PUCRS tivesse mais cursos noturnos. Tal suposição, no entanto, não se sustenta. A Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas dessa universidade funcionava apenas à noite, e a Faculdade de Direito possuía turmas diurnas e noturnas. Mas essas são as únicas exceções. Na UFRGS, cursos noturnos estavam disponíveis na Faculdade de Ciências Econômicas, na Faculdade de Direito, na Escola de Engenharia e na Faculdade de Farmácia.139 A baixa oferta de cursos noturnos, entre outros fatores, explica porque a maioria dos estudantes realizava apenas trabalho parcial: 27,17% trabalhavam entre 17 e 24 horas por semana.140

132 Desmembrada da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

133 Essa escola era vinculada à Diocese de Porto Alegre e funcionava integrada à Santa da Casa, juntamente com

a Faculdade Católica de Medicina. Ambas eram instituições isoladas.

134 CARACTERIZAÇÃO sócio-econômica do estudante universitário. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de

Pesquisas Educacionais, 1968, p. 296. 135 Ibid., p. 21. 136 Ibid., p. 296. 137 Ibid., p. 298-299. 138 Ibid., p. 308. 139 Ibid., p. 304. 140 Ibid., p. 310.

Quanto à situação socioeconômica da família, apesar de não trazer dados relativos à remuneração, várias informações importantes são reveladas pela pesquisa. Para classificar a ocupação dos pais, ela utilizou a escala elaborada por Ben Hutchinson e composta dos seguintes níveis: 1 – sem habilidades manuais e semi-habilidades manuais; 2 – habilidades manuais; 3 – inspeção, supervisão e outras ocupações não manuais de padrão baixo; 4 – inspeção, supervisão e outras ocupações de padrão alto; 5 – dirigentes e executivos; 6 – profissionais e administradores.141 Em Porto Alegre, apenas 8,17% dos estudantes indicaram que os pais

(homens) tinham ocupações nos níveis 1 e 2. Atividades de inspeção, supervisão e outras ocupações não manuais de padrão baixo eram realizadas por 14,81% dos pais. A maioria dos pais (62,46%) possuía profissões classificadas entre os níveis 3 e 6. Entre as mães, apenas 11,90% exerciam atividade remunerada.142

A origem escolar dos estudantes é outro dado importante. Seguem percentuais: 18,98% estudaram o Ensino Médio apenas em escola pública; 38,72% apenas em escolas particulares e 40,88% estudaram parte em escola pública, parte em escola particular. Portanto, 79,6% fizeram pelo menos uma parte de seus estudos em escolar particulares.143 Além disso, eram 50,67% os que haviam feito curso pré-vestibular.144 Este último dado, no entanto, é bastante inferior à proporção encontrada para o total do país, que foi de 65,71%.145 De qualquer forma, é possível perceber que o acesso ao ensino superior era bastante restrito, beneficiando apenas uma pequena parcela da juventude cujos pais tinham boa situação financeira, puderam estudar em escolas particulares e bancar um curso pré-vestibular. O número de estudantes que trabalham, que parecia bastante significativo no estudo de Foracchi, tem relevância mas não parece ter sido uma situação generalizada. Em Porto Alegre, 65,28% não exerciam atividade remunerada.146 Outro dado importante é o motivo alegado para trabalhar: apenas 16,41% disseram trabalhar por necessidade. O desejo de adquirir alguma independência financeira (mesmo que parcial) e a experiência de trabalho eram mais relevantes, totalizando 25,10%.147 Soma-se a isso o fato de 67,25% dos estudantes receberem ao menos alguma ajuda financeira da família.148

A questão da elitização e seletividade do ensino, aliás, foi uma das conclusões da pesquisa. Segundo os autores:

141 CARACTERIZAÇÃO sócio-econômica do estudante universitário. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de

Pesquisas Educacionais, 1968, p. 15. 142 Ibid., p. 306. 143 Ibid., p. 310. 144 Ibid., p. 305. 145 Ibid., p. 33. 146 Ibid., p. 308. 147 Ibid., p. 309. 148 Ibid., p. 310.

O fato dos pais (genitor masculino) dos primeiranistas exercerem atividades remuneradas de nível alto ou médio, a existência de inúmeros irmãos maiores ainda dedicados ao estudo, a ausência de ocupação assalariada em relação à maioria das mães, a inexistência de propriedades em um número proporcionalmente pequeno de famílias, a frequência a escolas médias particulares em um grande número de casos são elementos que atestam um certo grau de seleção econômica no que se refere à clientela universitária; este privilégio educacional pode ser traduzido através de um único elemento: apenas 8,52% dos genitores masculinos se dedicam a atividades manuais (níveis ocupacionais 1 e 2 da escola de B. Hutchinson). Os dados obtidos na presente pesquisa apontam, entre várias causas possíveis, dois elementos de seleção econômica: a escola média paga e as dificuldades decorrentes do exame vestibular,

obrigando a frequência a cursos especializados, em sua maioria, particulares.149

Esses aspectos constituem características gerais do sistema universitário brasileiro nos anos 1960. Os dados relativos à Porto Alegre não diferiram significativamente dos dados nacionais na maioria dos quesitos investigados. Portanto, é justo afirmar que o perfil médio do estudante porto-alegrense é semelhante ao perfil do estudante brasileiro. Outra possibilidade interessante da pesquisa é a comparação entre instituições e, nesse caso, as características dos estudantes da UFRGS e da PUCRS não são totalmente coincidentes, como apontei anteriormente. Uma informação adicional que podemos inferir da pesquisa é a importância relativa de cada uma das instituições de ensino superior de Porto Alegre. Em 1965, havia 1.666 estudantes matriculados no primeiro ano na UFRGS. A PUCRS tinha aproximadamente a metade de alunos (869). As faculdades e escolas isoladas eram pequenas: a Escola Superior de Educação Física tinha 28 matriculados; a Escola de Enfermagem Madre Ana Moeller, 13; a Faculdade de Filosofia Marcelino Champagnat, 6; e a Faculdade Católica de Medicina, 80. A UFRGS, portanto, concentrava quase dois terços os calouros da cidade (62,58%); a PUCRS concentrava próximo de um terço (32,64%); e o conjunto das isoladas apenas 4,77%. Dentro da UFRGS, 5 faculdades contavam com mais de cem calouros: Faculdade de Agronomia e Veterinária (147); Faculdade de Ciências Econômicas (250); Escola de Engenharia (420); Faculdade de Filosofia (293) e Faculdade de Medicina (140). Algumas dessas unidades possuíam diversos cursos, o que explica o grande número de estudantes. Pode-se destacar ainda as Faculdades de Farmácia (90) e Direito (93), ambas ofertando apenas um curso. Na PUCRS, as maiores faculdades eram: Faculdade de Filosofia (282); Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas (173); Escola de Engenharia (120) e Faculdade de Direito (90). Entre as isoladas, a maior era a Faculdade Católica de Medicina, com 80 primeiranistas.150

149 CARACTERIZAÇÃO sócio-econômica do estudante universitário. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de

Pesquisas Educacionais, 1968, p. 42.

A pesquisa traz, portanto, muitos dados importantes para a caracterização socioeconômica do estudante universitário. Porém, possui alguns limites. Foram consideradas apenas as capitais e, dessa forma, não é possível ter uma dimensão do conjunto dos estados ou, ao menos, de algumas cidades mais importantes do interior. Além disso, as informações levantadas são estáticas, tendo em vista que representam a situação universitária num momento específico, impossibilitando perceber as mudanças que poderiam ou não estar ocorrendo. Para romper essas dificuldades, seriam necessários outros trabalhos estatísticos. Contudo, localizei apenas alguns e, mesmo assim, com resultados bastante parciais.

Os anuários estatísticos do IBGE, por exemplo, não apresentam os mesmos dados de maneira regular. Algumas edições dos anuários das décadas de 1940 e 1950 nos trazem, além da matrícula geral no ensino superior do Rio Grande do Sul, o número de estudantes da capital. Em 1939, o estado tinha 1.533 estudantes, sendo que 1.096 estudavam em Porto Alegre. Isso corresponde a uma concentração de 71,49% dos estudantes na capital.151 Em 1949, eram 2.877 matriculados, sendo 2.295 destes em Porto Alegre. A concentração subiu nesse intervalo para 79,77%.152 Os anuários de 1960 e 1970 não discriminam as matrículas de Porto Alegre.153 Esses dados seriam importantes para que fosse possível estabelecer se de fato houve um processo de interiorização a partir dos anos 1950 e, sobretudo, 1960, conforme afirma Clarissa Neves. Para mensurar esse critério, uma possibilidade é usar dados indiretos. Nesse intuito, construí o quadro abaixo a partir dos dados das eleições para a União Estadual de Estudantes (UEE) de 1962 e para o Diretório Estadual de Estudantes (DEE) de 1965 e 1966. O número de votantes foi divulgado em notícias na imprensa e no Boletim Informativo do DEE.

Tabela 2 – Número de Votantes nas Eleições da UEE/DEE

MUNICÍPIO 1962 1965 1966 Porto Alegre 3.395 8.842 9.666 Santa Maria 486 2.019 2.281 Pelotas 461 1.213 1.582 Passo Fundo 250 784 931 Caxias do Sul 343 786 886 São Leopoldo 285 677 747 Rio Grande 109 402 512 Ijuí 118 422 479 Bagé 125 374 447

151 IBGE. Anuário Estatístico do Brasil – Ano VI – 1941/1945. Rio de Janeiro: IBGE, 1946, p. 403.

152 IBGE. Anuário Estatístico do Brasil – 1952. Rio de Janeiro: IBGE, 1952, p. 435.

153 Os dados discriminando a taxa de matrículas da capital estão disponíveis para os anos de 1938, 1939, 1940 e