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Sivdnideapmi, välsignelse och den välsignade skapelsen

No meio estudantil, as esquerdas se dividiam em três correntes principais: a esquerda católica, os comunistas e os independentes. Esses últimos se identificavam com os ideais da esquerda, mas estavam desvinculados de partidos e correntes. Foram inclusive os independentes que retomaram a UNE em 1956. Era o chamado Grupão, que nos congressos nacionais acabava compondo com os católicos de esquerda e os comunistas. Foi essa aliança que permitiu derrotar as forças udenistas.623 Na gestão 1954-1955 da UNE já era possível notar a articulação. Augusto Cunha Neto havia sido eleito pela direita, mas diante da crise e do suicídio de Vargas, se recusou a assumir posições golpistas, aproximando-se cada vez mais da esquerda. Na sua gestão, por exemplo, a UNE enviou novamente estudantes para um congresso da União Internacional de Estudantes (UIE), mesmo que apenas como observadores. A UIE era uma entidade ligada aos

622 SANFELICE, José Luís. Movimento estudantil: a UNE na resistência ao Golpe de 1964. São Paulo:

Cortez/Autores Associados, 1986, p. 17.

comunistas, com sede em Praga. Ela realizou um congresso em Moscou no ano de 1954. Entre os brasileiros enviados, estava Flávio Tavares, na época presidente da UEE-RS.624

Apesar do interregno progressista dessa gestão, no congresso de 1955 foi vitoriosa, novamente, a chapa udenista na entidade máxima dos universitários brasileiros. Carlos Veloso de Oliveira seria, no entanto, o último presidente udenista. José Batista de Oliveira Júnior, eleito em 1956, deu início a uma hegemonia da esquerda na UNE.625 Entre 1956 e 1960, as chapas

foram marcadas pelas posições nacionalistas, típicas do período, momento em que se forjou um otimismo diante da possibilidade de um desenvolvimento nacional autônomo. Isso ficou bastante marcado na produção do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), criado em 1955. Havia, portanto, um clima nacionalista, que animava também o movimento estudantil.626

Em diversos momentos a UNE se empenhou em lutas que iam além do âmbito meramente estudantil. A entidade não tratava apenas daqueles fatos cujos efeitos eram sentidos diretamente pelos estudantes. Assim, ao logo dos anos 1950, por exemplo, ela participou das campanhas pela exploração nacional e autônoma do petróleo. No entanto, é apenas em 1959, na gestão de Raymundo Eirado, que a UNE assume o seu caráter eminentemente político. Ou seja, a entidade define que a sua função precípua é representar o pensamento dos estudantes brasileiros, seja nas suas demandas imediatas, seja nas suas posições diante dos temas nacionais.627

A esquerda católica teve origem em transformações importantes que aconteciam na Igreja naquele momento, tanto internacionalmente quanto em nível local. A aproximação com o povo e a importância crescente do laicato, junto com um aprofundamento da Doutrina Social da Igreja, levou parte do clero a adotar uma atitude reformista, inclusive como forma de evitar uma revolução socialista. No movimento estudantil brasileiro, a partir de meados dos anos 1950, a JUC assumiu essa linha, tornando-se bastante influente no movimento universitário.

A Ação Católica Brasileira (ACB), era uma organização de católicos leigos, que possuía uma autonomia apenas relativa em relação a hierarquia da Igreja. Faziam parte da ACB a Juventude Agrária Católica (JAC), a Juventude Estudantil Católica (JEC), a Juventude Independente Católica (JIC), a Juventude Operária Católica (JOC), e a Juventude Universitária

624 Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro/Fundo: Daniel Aarão Reis Filho (APERJ/DARF). Relatório da

UNE – Gestão 1954-1955 Ver também: TAVARES, Flávio. O dia em que Getúlio matou Allende. Porto Alegre:

L&PM, 2014.

625 MME, Entrevista com José Batista de Oliveira Júnior, 21 de outubro de 2004.

626 Sobre a relação da UNE com o ISEB, conferir as entrevistas com Raymundo Eirado e Carlos Estevam Martins

ao projeto Memória do Movimento Estudantil.

627 MME, Entrevista com Raymundo Eirado, 14 de outubro de 2004. Ver também: SEGANFREDO, Sônia. UNE:

instrumento de subversão. Rio de Janeiro: GDR, 1963; APERJ/DARF, Relatório da UNE – Gestão 1958-1959.

Católica (JUC), além de suas versões femininas. Com a crescente politização, sobretudo da JEC e da JUC, a Igreja Católica buscou retomar o controle sobre a entidade, disciplinando a participação política de seus membros, o que levou a expulsão de lideranças, como o presidente da UNE eleito em 1961, Aldo Arantes. Diante disso, a esquerda católica mais radicalizada acabou confluindo na criação da Ação Popular em 1962.628

Embora, de modo genérico, tanto a JUC quanto a AP pertencessem ao campo da esquerda católica, havia diferenças importantes entre ambas. A JUC defendia uma linha mais reformista e manteve expectativas positivas quanto aos governos de Jânio Quadros e João Goulart. Os jucistas que formaram a AP, no entanto, aproximavam-se cada vez mais das ideias socialistas e tinham uma visão crítica dos governos “populistas”. Contudo, a AP também era crítica do modelo soviético, defendendo a “liberdade do pluralismo”.629

A esquerda católica esteve à frente de um grande número de entidades estudantis entre 1961 e 1964, mantendo inclusive as direções da UNE. Todavia, a juventude comunista também tinha grande importância, sendo, por exemplo, responsável pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da entidade.630 Além disso, membros do Partido Comunista participaram da composição das diretorias em diversas gestões da UNE. Os comunistas não tinham, no entanto, uma organização especificamente estudantil. A União da Juventude Comunista (UJC) havia se dissolvido entre 1957 e 1958 e, a partir daí, os militantes eram vinculados diretamente ao PCB.631

No Rio Grande do Sul, as ideias comunistas tiveram grande influência entre as lideranças universitárias da UFRGS entre 1961 e 1964, sobretudo no órgão de representação máxima dessa universidade – a FEURGS. Fúlvio Petracco, que foi presidente na gestão 1961- 62, era filiado ao PSB, mas tinha proximidade com o PCB.632 O seu sucessor foi Bruno Mendonça Costa, que era militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). A esquerda católica, por sua vez, tinha sua base na UEE. Segundo Magda de Olivera Pinto:

Em termos ideológicos, a FEURGS, no início dos anos 1960, apresentava na sua base dirigente o predomínio ideológico do PC e do PCdoB; na UEE/RS, assim como

628 MARTINS FILHO, João Roberto. Movimento estudantil e Ditadura Militar no Brasil (1964-1968). Campinas:

Papirus, 1987, p. 49.

629 MAINWARING, Scott. Igreja Católica e política no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2004, p. 86.

630 BERLINCK, Manoel Tosta. O Centro Popular de Cultura da UNE. Campinas: Papirus, 1984.

631 MME, Entrevista com Dyneas Aguiar, 8 de novembro de 2004.

632 MACHADO, Dulphe Pinheiro. A “Frente Única” no movimento estudantil gaúcho: católicos e comunistas.

Porto Alegre: UFRGS, 2010. 110p. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) – Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre, 2010, p. 75.

ocorria no plano nacional, a influência provinha do movimento político originado e

organizado no interior da JUC, a AP.633

Essa esquerda católica local foi formada por um grupo de estudantes oriundos, em sua maioria, das escolas particulares de Porto Alegre, em especial do Colégio Anchieta. Esses jovens tinham ligação com a JUC e a Juventude Democrata Cristã (JDC), vinculada por sua vez ao PDC. A primeira vitória na política universitária veio em 1961 com a eleição de Ernildo Stein, que teve Hélgio Trindade como seu vice. O resultado foi encarado pelo Jornal do Dia como uma vitória dos estudantes católicos.634 Ernildo era ligado à JUC e, desde o ano anterior, assinava algumas matérias para o jornal citado. Em agosto, como veremos, essa gestão enfrentou o episódio da renúncia de Jânio Quadros e se engajou na mobilização pela garantia da posse de João Goulart. Esse fato contribuiu para uma tomada de posição mais à esquerda, visto que aproximou as direções da UNE e da UEE num momento de amplo debate e participação popular. Na continuidade da gestão, realizaram um plebiscito pelo voto direto na UEE, com o objetivo de “descupulizar” a entidade.635

Em 1962, já com a nova regra em vigor, os católicos lançaram Francisco Ferraz para presidente da entidade e Hélgio Trindade, novamente, para vice. Apesar de já situados à esquerda na política estudantil, os candidatos buscavam delinear suas diferenças com os comunistas. Esses, inicialmente, apoiaram a chapa de oposição, mas teriam mudado de posição no decorrer da campanha.636 Em entrevista concedida logo após a vitória, afirmavam que o tema

das reformas não deveria ser monopolizado pelos comunistas, sendo a posição cristã “a atitude mais honesta e capaz de superar positivamente o dilema comunismo-capitalismo”.637

A chapa oposicionista era encabeçada por Luiz Adão Rahde Gonzaga638 e havia sido

articulada por Amaury Martins Müller, ligado ao PTB e tido como de extrema-esquerda.639 Essa

633 PINTO, Magda de Oliveira. A Reforma Universitária como reivindicação estudantil e política pública: a UEE

na luta universitária no Rio Grande do Sul (1960-68). Porto Alegre: UFRGS, 2010. 332p. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) – Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre, 2010, p. 127.

634 BN, Jornal do Dia, 16 de maio de 1961, p. 10. Ver também: BN, Correio do Povo, 16 de maio de 1961, p. 10.

635 O resultado foi favorável ao voto direto.

636 MACHADO, Dulphe Pinheiro. A “Frente Única” no movimento estudantil gaúcho: católicos e comunistas.

Porto Alegre: UFRGS, 2010. 110p. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) – Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre, 2010, p. 75.

637 BN, Jornal do Dia, 20 de maio de 1962, p. 8.

638 Luiz Adão já havia sido candidato no ano anterior e, embora derrotado em ambas as ocasiões para a UEE,

logrou conquistar por duas vezes a presidência do DCE da PUC (em 1961 e 1962). Ver: BN, Jornal do Dia, 31 de outubro de 1962, p. 8. Em 1962, o candidato à vice na UEE na chapa de Luiz Adão era Ruben Ilgenfritz da Silva, aluno de agronomia

639 Além de comunistas e católicos a Ala Moça do PTB atuou de maneira relevante no Rio Grande do Sul, o que

foi um elemento peculiar no movimento estudantil do estado. Segundo Pedro Simon, apenas no Rio Grande do Sul a juventude do partido se organizou. Simon, que fazia parte dessa corrente, foi presidente do Centro Acadêmico Maurício Cardoso, da Faculdade de Direito da PUCRS, por três anos, na década de 1950, além de atuar como

eleição foi marcada por trocas de acusação entre os envolvidos. Dizia o grupo oposicionista que a gestão de Ernildo Stein havia sido omissa quanto as faculdades do interior e que não havia trabalhado para a união entre UFRGS e PUC. A situação, por sua vez, criticava os supostos interesses partidários de seus adversários.640 O resultado deu ampla vitória à chapa Ferraz- Trindade.641

Imediatamente após sua posse, a nova diretoria da UEE liderou no Rio Grande do Sul a Greve do 1/3, deflagrada pela UNE.642 Essa greve marcou um segundo momento na

constituição da esquerda estudantil católica no Rio Grande do Sul, que esteve cada vez mais engajada na luta pelas reformas de base, refletindo o mesmo movimento que se dava no plano nacional. Nesse contexto e já atuando como AP, conquistaram um conjunto considerável de entidades. Com Roberto Brinco e Paulo Renato Crochemore, respectivamente presidente e vice, garantiram a continuidade na UEE em 1963, sem que concorresse chapa da oposição. Conquistaram também a FEURGS, no mesmo ano, que ficou sob a liderança de Plínio Dentzien. Tinham ainda a direção de vários Centros Acadêmicos, consolidando sua posição de destaque também no interior das faculdades.

Em algumas ocasiões, a JUC e a AP atuaram em conjunto com o PCB e o PCdoB. Já na Legalidade, houve algum contato com os comunistas,643 o que foi aprofundado nos dois anos seguintes em torno da bandeira comum da Reforma Universitária e das Reformas de Base. Era o contexto de mobilização e debates sobre os problemas nacionais que permitia essa aproximação.644 Segundo Maria Josefina Becker, que na época era estudante da PUCRS e vinculada à JUC:

“[...] durante esse processo, a gente acabou lutando por alguma coisa que a gente chamava de frente única, que eram os movimentos de esquerda e acabavam trabalhando junto. Em algumas ações, a gente era um grupo unido, como, por exemplo, na greve do terço. A gente tinha nossas pautas: a reforma política, a reforma agrária, a reforma bancária. Na verdade, se tinha uma visão bastante

presidente de uma Junta Governativa na UNE. Ver: MME, Entrevista com Pedro Simon, 2 de dezembro de 2004. Em Santa Maria, setores ligados à juventude trabalhista assumiram a União Santamariense de Estudantes e criaram o Grupo de Vanguarda Cultural. Cf. LIMA, Mateus da Fonseca Capssa. Movimento estudantil e Ditadura Civil-

Militar em Santa Maria (1964-1968). Santa Maria: UFSM, 2013. 147p. Dissertação (Mestrado em História) –

Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, Santa Maria, 2013.

640 BN, Jornal do Dia, 5 de maio de 1962, p. 8; BN, Jornal do Dia, 6 de maio de 1962, p. 16; BN, Jornal do Dia,

11 de maio de 1962, p. 10.

641 BN, Jornal do Dia, 20 de maio de 1962, p. 16.

642 Essa greve será aprofundada ainda nesse capítulo.

643 MACHADO, Dulphe Pinheiro. A “Frente Única” no movimento estudantil gaúcho: católicos e comunistas.

Porto Alegre: UFRGS, 2010. 110p. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) – Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre, 2010, p. 68.

ampla, pois a reforma universitária não era uma pauta isolada; ela estava no contexto, que a gente chamava, de uma revolução brasileira”.645

Inicialmente, havia uma incompatibilidade, tendo em vista que os comunistas viam as lideranças do grupo de católicos como “conservadores”,646 enquanto esses criticavam os

primeiros pela posição materialista.647 Como já vimos, ainda em 1962, com a eleição de Ferraz e Trindade para a UEE, havia a necessidade de demarcar as diferenças. Mesmo após a aproximação, as desconfianças mútuas não foram eliminadas e, em diversas ocasiões, as diferentes forças de esquerda continuaram se opondo nas disputas pelo comando das agremiações estudantis.648