Em maio de 1961, Luiz Carlos Prestes visitou as cidades de Santa Maria, Passo Fundo, Caxias do Sul e Porto Alegre. Na ocasião, o PCB lutava pela legalização da sigla, que havia sido posta na clandestinidade em 1947. Não era a primeira vez que Prestes percorria o estado promovendo palestras e comícios, recebendo apoio, mas também oposição. Ao menos em dois momentos anteriores, sua visita gerou protestos, organizados por católicos anticomunistas. Em 1945, a Cúria Metropolitana programou uma “hora santa” para coincidir com o discurso que seria proferido por ele em Porto Alegre.551 Quinze anos depois, em 1960, sua presença em Santana do Livramento foi hostilizada por meio de uma passeata que teria reunido cinco mil pessoas.552. Contudo, em 1961, a sua passagem pelo Rio Grande do Sul seria ainda mais conturbada, pois estava inserida no contexto internacional da invasão da Baía dos Porcos e da afirmação do caráter socialista da Revolução Cubana, e no contexto interno de afirmação de uma política externa independente.
A primeira cidade à qual o líder do PCB se dirigiu foi Caxias do Sul, no dia 15. Naquele momento a cidade já despontava como um importante polo industrial e tanto o PTB quanto o PCB tinham força no movimento operário local.553 Todavia, era uma das cidades da região de
550 Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Caxias do Sul (AHCMCS), Correio Rio-Grandense, 17 de maio de
1961, p.2.
551 RODEGHERO, Carla Simone. Memórias e combates: uma história oral do anticomunismo católico no Rio
Grande do Sul. São Paulo: Letra e Voz, 2017, p. 192.
552RODEGHERO, Carla Simone. O diabo é vermelho: imaginário anticomunista e Igreja Católica no Rio Grande
do Sul. 2ª. ed. Passo Fundo - RS: Editora da Universidade de Passo Fundo, 2003, p. 112.
553 Em abril de 1961, o semanário Novos Rumos, do PCB, noticiava que Caxias do Sul era o município do Rio
Grande do Sul onde a campanha de ajuda à publicação havia alcançado os melhores resultados. In: Novos Rumos, semana de 21 a 27 de abril de 1961, p. 3.
colonização italiana do estado, onde havia a presença de um catolicismo conservador cujo posicionamento alinhava-se ao da burguesia local.554
Nesse cenário, os comunistas haviam marcado uma conferência de Prestes no Cine Central. Ao mesmo tempo, no entanto, havia sido marcada uma manifestação de repúdio à presença do líder comunista. Cerca de duas mil pessoas, em sua maioria estudantes, concentraram-se do lado de fora do cinema, onde empunhavam cartazes de protesto. A confusão se intensificou quando os manifestantes tentaram entrar no recinto, ocasião em que foram impedidos pela Brigada Militar. Bancos de uma praça e pedras foram usados na tentativa de invasão e depredação do local, o que forçou os policiais a atirarem para o alto. Em certo momento, quando o conflito se agravou, o Exército foi chamado para assumir o controle. Prestes acabou escapando pelos fundos do cinema. O Correio do Povo, em edição do dia 16 de maio, contabilizou oito feridos, mas nos dias seguintes foram apresentados números superiores.555
Figura 2 – Cartazes anticomunistas nas manifestações de Caxias do Sul contra Prestes
Fonte: AHCMCS, Pioneiro, 20 de maio de 1961, p. 20.
A próxima conferência se realizou em Passo Fundo. Mais uma vez os estudantes organizaram-se em protesto. Durante a tarde do dia 16, realizaram um enterro simbólico de
554 No dia 19 de maio de 1961 o Jornal do Dia publicou um manifesto do Centro das Indústrias de Caxias do Sul,
também referido no Correio do Povo de 21 de maio e no Correio Rio-Grandense de 24 de maio. A íntegra do documento é a seguinte: “Os industrialistas caxienses, por intermédio de seu órgão de classe, que representa mais de 500 empresas, solicita vênia para manifestar à V. Exa. A estranheza e o desagrado que o Partido Comunista, através do sr. Luiz Carlos Prestes, em conferência pública em nossa cidade, faça campanha aberta de seus objetivos, totalitários e escravizantes, lançando a discórdia e, inclusive, provocando derramamento de sangue da pacata e ordeira população que protesto contra a pregação marxista em nosso meio. Esperamos que V. Exa. eleito por um regime de liberdade democrática, saberá salvaguardar o nosso País e garantir a sua Constituição, afastando, de uma vez por todas, o risco da infiltração crescente da tirania vermelha. Respeitosas Saudações, Centro da Indústria Fabril de Caxias do Sul, a Diretoria”. In: BN, Jornal do Dia, 19 de maio de 1961, p. 2.
555 AHMSM, Correio do Povo, 16 de maio de 1961, contracapa. Em carta ao Correio do Povo, o advogado Ruy
Gerhardt Barbosa aponta 25 feridos em Caxias do Sul. Ver AHMSM, Correio do Povo, 21 de maio de 1961, p. 4. O jornal Novos Rumos levantou mais de 30 feridos, sendo 11 deles soldados. Ver BN, Novos Rumos, semana de 26 de maio a 1º de junho de 1961, p. 4.
Prestes, marchando em silêncio pela cidade. Às 20h, Luiz Carlos Prestes deveria discursar no Altar da Pátria, juntamente com outros militantes. No entanto, os opositores não permitiram a continuidade do ato, primeiro vaiando e gritando “Viva o Brasil” e, depois, jogando bombas, segundo o que foi noticiado na imprensa. O líder comunista local José Barbeiro foi espancado e o palanque foi tomado pelos anticomunistas. Discursaram, entre outros, João Cúrio de Carvalho, presidente da UDN de Passo Fundo, e Ivo Biassussi, descrito como um grande comerciante.556
Em Santa Maria, no dia 17, cenas parecidas se repetiram. A cidade era um importante entroncamento ferroviário e abrigava as principais oficinas da Viação Férrea, onde a categoria desenvolvia um trabalho bastante ativo, com forte influência trabalhista, mas contando também com uma significativa inserção comunista.557 Por esse mesmo motivo, quando o palanque em que Prestes discursaria foi quebrado e queimado, após ter sido impedido de falar, ao som de vaias, o ato foi transferido para o interior da Associação dos Ferroviários. Na praça Saldanha Marinho, ponto central da cidade, no entanto, organizava-se o protesto anticomunista. Desde a tarde daquele dia haviam sido distribuídos folhetos incitando a população a participar do repúdio. Compareceram estudantes, políticos, membros da JOC, entre outros. O Exército e a Brigada estavam presentes para garantir a ordem, com cerca de 200 homens. A manifestação acabou se dirigindo para as proximidades da Associação dos Ferroviários. Algumas pessoas tentaram apedrejar a rádio Guaratan, que transmitia o discurso de Prestes. Apesar do clima tenso, não houve feridos em Santa Maria.558
A visita do líder do PCB ao Rio Grande do Sul encerrou com atividades na cidade de Porto Alegre. Ali, na capital do estado, se repetiria de modo ainda mais intenso os protestos anticomunistas. No dia 18 de maio, os comunistas tentaram organizar uma conferência no Cinema América. Por volta das 20h45min, Prestes chegou ao local, onde foi recebido com vaias, gritos de “Viva o Brasil”, ovos podres e entoações do Hino Nacional. Ao mesmo tempo em que a conferência seguia dentro do recinto, do lado de fora o comício anticomunista criticava a ação violenta da Brigada Militar nos episódios recentes. Assim como em Caxias do Sul, a situação se agravou com a tentativa de invasão do cinema e com uma bomba jogada por um menor de 14 anos. O jovem seria aluno do Anchieta, tradicional colégio jesuíta de Porto Alegre.
556 AHMSM, Correio do Povo, 17 de maio de 1961, contracapa.
557 BERNI, Antônio Augusto Durgante. Fim do pragmatismo: as relações entre Estado e os ferroviários em Santa
Maria/RS durante o primeiro período da Ditadura Civil-Militar no Brasil (1964-1968). Santa Maria: UFSM, 2012. 131p. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2012.
Ele foi detido e revelou agir a mando de Edson Pereira que, no entanto, não foi identificado. O conflito terminou com oito feridos.559
Nos quatro dias em que Prestes esteve no Rio Grande do Sul e nas semanas que se seguiram, talvez a cobertura que a imprensa local deu aos fatos tenha sido tão reveladora da histeria anticomunista quanto os atos de protesto. Alguns dos adjetivos e epítetos dirigidos a ele em editoriais, manifestos e nas próprias notícias foram: “assalariado de Moscou”;560
“mercenário do entreguismo vermelho”;561 “perturbador do regime”;562 “propagandista da
escravidão russa”563; “agente da propaganda moscovita”;564 “’bonzinho’ emissário
moscovita”;565 “desgastado e decrépito comunista”;566 “traidor confesso de sua Pátria”;567
“porta-voz de Moscou”;568 “ardiloso”; 569 “velhaco”;570 “traidor”;571 “representante do
comunismo russo”;572 “prócer vermelho”;573 “representante do Comunismo Internacional”;574 “líder vermelho crioulo”;575 “encarnação do comunismo no Brasil”;576 “Agente Internacional
do Comunismo em nossa Pátria”;577 “chefe do Marxismo”;578 “cacique vermelho em solo pátrio”.579 Em todos os casos, ele era representado sempre como alguém à serviço de países estrangeiros, sobretudo da União Soviética: um traidor do Brasil cujos verdadeiros ideais seriam, segundo essas publicações, cristãos e democráticos.
O Jornal do Dia - diário católico de Porto Alegre - e os jornais de Caxias do Sul Pioneiro e Correio Rio-Grandense (esse último também católico) narraram em tons épicos os atos anticomunistas.580 Destacaram o forte aparato policial-militar e sua ação supostamente violenta
559 AHMSM, Correio do Povo, 19 de maio de 1961, contracapa e p. 11.
560 AHMSM, Correio do Povo, 18 de maio de 1961, p. 5
561 AHMSM, Correio do Povo, 18 de maio de 1961, p. 5
562 AHMSM, A Razão, 19 de maio de 1961, p.6
563 AHCMCS, Pioneiro, 20 de maio de 1961, capa.
564 AHCMCS, Pioneiro, 20 de maio de 1961, capa.
565 AHCMCS, Pioneiro, 20 de maio de 1961, capa.
566 AHCMCS, Pioneiro, 20 de maio de 1961, capa.
567 AHMSM, Correio do Povo, 21 de maio de 1961, p.7
568 AHMSM, Correio do Povo, 21 de maio de 1961, p.7
569 AHMSM, Correio do Povo, 23 de maio de 1961, p. 4
570 AHMSM, Correio do Povo, 23 de maio de 1961, p. 4.
571 AHMSM, Correio do Povo, 23 de maio de 1961, p. 4.
572 BN, Jornal do dia, 23 de maio de 1961, p. 4.
573 AHCMCS, Correio Rio-Grandense, 24 de maio de 1961, p. 2.
574 AHCMCS, Correio Rio-Grandense, 24 de maio de 1961, p. 2.
575 AHCMCS, Correio Rio-Grandense, 24 de maio de 1961, p. 2.
576 AHCMCS, Correio Rio-Grandense, 24 de maio de 1961, p. 2.
577 AHCMCS, Correio Rio-Grandense, 24 de maio de 1961, p. 2.
578 AHCMCS, Pioneiro, 27 de maio de 1961, p. 6
579 AHCMCS, Pioneiro, 27 de maio de 1961, p. 14
580 Os jornais A Razão e Correio do Povo, também consultados, relataram os acontecimentos sem manifestar
diretamente uma opinião favorável a eles. Fay Azevedo, colunista do Correio do Povo, chegou inclusive a caracterizá-los como fascistas. Ver AHMSM, Correio do Povo, 21 de maio de 1961, p. 7.
contra os manifestantes. Enfatizaram também a quantidade grande de pessoas presentes em cada uma das cidades, consideradas como multidões. Assim, por exemplo, o Jornal do Dia narrou os acontecimentos em Passo Fundo:
Uma multidão de mais de duas mil pessoas impediu ontem que Luiz Carlos Prestes falasse nesta cidade. Não obstante o forte policiamento mantido no local, o povo rompeu os cordões de isolamento e levou de roldão os soldados de armas embaladas, obrigando o líder comunista, como ocorreu em Caxias, a se retirar apressadamente
pelos fundos.581
Aqueles que repudiaram Prestes e o impediram de falar eram heroicizados, inclusive tendo enfrentado corajosamente a polícia e os militares. “Apesar da grande quantidade de soldados do Exército e da Brigada, uns duzentos, o povo não se intimidou”,582 como relatou o mesmo jornal sobre os incidentes em Santa Maria. Ou, então, foram vitimizados: “alguns cavalarianos da BM investiram de espada contra o povo”, nas palavras do mesmo jornal;583 “por causa de um indivíduo que, atualmente, não tem profissão definida, a não ser o de propagandista da escravidão russa, populares caxienses foram espancados pela polícia”,584 de acordo com o Pioneiro.
Nessas publicações, as reportagens se confundiam com editoriais, como na matéria de capa do jornal Pioneiro:
Caxias do Sul, dando um exemplo de sadio patriotismo através de populares e de estudantes preparou-lhe uma recepção ao contrário para demonstrar sua repulsa a sua nefanda ideologia e ao mesmo tempo gritar a plenos pulmões que preferimos a liberdade [...] à escravidão russa. [...] Cidade que sempre se manteve na vanguarda por sua religiosidade e que teria de passar pelo vexame de ter, mesmo por alguns
momentos, a presença de um agente da propaganda moscovita.585
O mesmo jornal chegou a publicar uma poesia, com o título “Prestes em Caxias”. Os primeiros versos eram assim: “Os estudantes que, num ato assaz louvável / A demonstrar, a larga, arrojo e patriotismo / Vociferaram contra o chefe do Marxismo”.586
Nos editoriais de fato, os jornais se posicionaram abertamente favoráveis às manifestações. Em alguns casos, inclusive justificando a violência. O Correio Rio-Grandense, por exemplo, afirmava que a sua “opinião é de irrestrita solidariedade e de vivos aplausos aos estudantes caxienses que assim se manifestaram [repudiando Luiz Carlos Prestes]”. E, ainda:
581 BN, Jornal do Dia, 17 de maio de 1961, p. 2.
582 BN, Jornal do Dia, 18 de maio de 1961, p. 2.
583 BN, Jornal do Dia, 18 de maio de 1961, p. 2.
584 AHCMCS, Pioneiro, 20 de maio de 1961, capa.
585 AHCMCS, Pioneiro, 20 de maio de 1961, capa.
Nos Colégios ensina-se o repúdio ao Comunismo. Há condenação formal a toda ideia comunista. É ensinada a incompatibilidade da vivência democrática com o Comunismo em nossa Pátria. Condena-se e repele-se a ditadura bolchevista e todo o Totalitarismo estatal, como desumano e contrário à natureza humana. Eis o ambiente em que vivem e crescem os estudantes caxienses. / Porventura, esses ensinamentos não constituem a linha justa? Não expressam a lídima doutrina da Democracia, do Humanismo, do Cristianismo? / Ora, Prestes é a encarnação do comunismo no Brasil.
/ Logo, a manifestação de repulsa a Prestes era natural. Inevitável.587
A relação entre catolicismo e anticomunismo é evidente nas fontes consultadas. O editorial do Correio Rio-Grandense, citado acima, revela sem constrangimento que o “repúdio ao Comunismo” era ensinado nas escolas da cidade. Em todas as cidades visitadas por Prestes existiam várias escolas e faculdades confessionais. Foi um aluno do Colégio Anchieta que lançou a bomba no Cinema América em Porto Alegre.588 Em Caxias do Sul, o Jornal do Dia
destacava a presença de “moças” do Colégio São José.589 O Centro de Estudos Brasileiros
Alberto Pasqualini, do Colégio Dores, enviou telegrama para Brizola condenando a visita de Prestes. Assinavam o telegrama, entre outros, representantes do Colégio Bom Conselho e da Juventude Estudantil Católica Feminina (JECF).590 O Centro Lítero-Cultural Carlos de Laet, do
Colégio Rosário, enviou telegrama para Jânio Quadros. E os estudantes da Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas da PUCRS publicaram um “A Pedido” no Correio do Povo.591
Em Santa Maria, os protestos contaram com a presença de membros da JOC.592 Tratavam-se
todos de colégios, faculdades e entidades católicos.
Essa ligação era visível também do ponto de vista simbólico. Em Caxias do Sul, “os sinos da Catedral Diocesana dobravam a finados”.593 O mesmo ritual católico se repetiu em Santa Maria, onde estudantes carregaram um caixão no qual atearam fogo.594 Em Passo Fundo houve o enterro simbólico de Prestes, manifestação que foi realizada em silêncio,595 com “luto na lapela e um sino batendo”. As igrejas da cidade também “tocaram os sinos em sinal de luto pela visita do líder comunista”.596
Nos debates reproduzidos pela imprensa, em mais de uma ocasião surgiram acusações de que os estudantes teriam sido incitados pelos padres e líderes religiosos.597 Ruy Gerhardt
587 AHCMCS, Correio Rio-Grandense, 24 de maio de 1961, p. 2
588 AHMSM, Correio do Povo, 19 de maio de 1961, contracapa e p. 11
589 BN, Jornal do Dia, 16 de maio de 1961, capa.
590 AHMSM, Correio do Povo, 21 de maio de 1961, p. 7.
591 AHMSM, Correio do Povo, 18 de maio de 1961, p. 5.
592 BN, Jornal do Dia, 18 de maio de 1961, p. 2.
593 AHCMCS, Correio Rio-Grandense, 24 de maio de 1961, p. 2
594 AHMSM, A Razão, 19 de maio de 1961, p. 6.
595 AHMSM, Correio do Povo, 17 de maio de 1961, contracapa.
596 BN, Jornal do Dia, 17 de maio de 1961, p. 2.
597 O radialista Estevam Romano, que cobriu os acontecimentos em Porto Alegre, afirmou em entrevista ao projeto
Barbosa, em carta enviada ao Correio do Povo e publicada no dia 21, afirmou que os alunos foram instigados pelo clero. A cobertura do semanário Novos Rumos, organizada pelo PCB, destacou a atuação de Eugênio Giordani na organização dos protestos, bem como na ação para influenciar os jovens. Giordani era padre católico e vereador em Caxias do Sul pelo PDC. O
Correio do Povo chegou a ressaltar seu papel na tentativa de acalmar o povo,598 e o Jornal do
Dia o registrou como um dos oradores do “verdadeiro comício popular contra os comunistas”,
que aconteceu em Caxias do Sul.599 Por outro lado, uma matéria publicada na capa da edição
111 de Novos Rumos foi bem incisiva nas suas acusações, mostrando uma outra perspectiva da intervenção do padre naquele evento. Com o título de “Padre fascista queria matar”, afirmou que ele “comandou pessoalmente nas ruas a baderna com que a reação tentou, inutilmente, impedir que Prestes falasse”. A reportagem prosseguia:
Ora empunhando um cacete ora sacando um punhal, em gestos criminosos que nada tem a ver com a sua missão de sacerdote, esse discípulo de Hitler açulava histericamente os jovens imberbes e uma malta de desocupados a investir contra Prestes. O fascista Giordani, apontando para o Cavaleiro da Esperança, esbravejava apoplético: “Mata! Mata!”. Mas os gaúchos esmagaram a provocação. Prestes foi
aclamado em sua terra natal.600
O trecho acima revela o conflito generalizado de representações. Giordani é comparado com Hitler e chamado de fascista. Sua caracterização é de uma pessoa violenta, empunhando objetos capazes de ferir. Por outro lado, a juventude aparece como objeto da maquinação do padre. Por fim, em tom apoteótico é anunciada a vitória dos comunistas, que “esmagaram a provocação”. Enquanto a imprensa conservadora superestimava o resultado das ações anticomunistas, a publicação comunista fazia o inverso, tentando apresenta-las como ineficazes, dirigidas por um pequeno grupo e sem representatividade.
pediram para os alunos fazer [sic] anarquia, anarquizar o comício do partido comunista e do seu líder especialmente que era, e foi durante muitos anos, Luiz Carlos Prestes”. In: Projeto Vozes do Rádio, Entrevista com Estevam
Romano, 18 de setembro 2001. Disponível em: <www.pucrs.br/comunicação/vozesrad>. Acesso em: 12 mar.
2017. Ver também: MOLICA, Fernando. O homem que morreu três vezes. Ed. Kindle. Rio de Janeiro: Record, 2003., posição 744.
598 AHMSM, Correio do Povo, 16 de maio de 1961, contracapa.
599 BN, Jornal do Dia, 16 de maio de 1961, capa.
600 BN, Novos Rumos, semana de 26 de maio a 1º de junho de 1961, capa. Um manifesto dos comunistas de Caxias
do Sul também associou ao fascismo as manifestações contra Prestes: “Só os reacionários e os fascistas não reconhecem esse direito [a liberdade de pensamento], porque necessitam da sua eliminação para oprimirem, torturarem assassinarem e silenciarem as vozes que se alteiam contra as injustiças sociais e na defesa dos interesses e direitos dos indivíduos e da coletividade”. In: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul/Delfos – Espaço de Documentação e Memória/Acervo do Partido de Representação Popular (PUCRS/DELFOS/PRP), Fundo 5 – Diversos, Série 7 - Panfletos e Cartazes, 7.1.1 - Panfletos e Cartazes de partidos e movimentos políticos diversos, Ao Laborioso, Honrado e Culto Povo de Caxias do Sul, Caxias do Sul, 20 de maio de 1961. O texto é assinado por: Dr. Percy de Abreu Lima, Dr. Henrique Ordovás Filho e Antonio Rosa.
Apesar do tom exagerado das acusações, é provável que a ação de propaganda levada adiante pelos padres católicos tivesse um efeito na formação e ação dos jovens. Como destaquei, os jornais mostram a participação de estudantes de vários colégios e escolas católicas. Além do editorial citado anteriormente declarando que o repúdio comunista era ensinado nas escolas, destaca-se uma reunião de 21 diretores de escolas e cursos superiores de Caxias do Sul realizada na Faculdade de Filosofia, buscando “traçar diretrizes de combate mais intenso contra o comunismo”.601 Na mesma semana, D. Benedito Zorzi, bispo de Caxias do Sul, enviou
telegramas ao presidente Jânio Quadros e ao governador Leonel Brizola defendendo a “liberdade para tudo e para todos, menos para o mal e os malfeitores”, entendendo-se aí, para o comunismo e os comunistas. No Jornal do Dia de 31 de maio, uma nota supostamente assinada pela “totalidade do clero de Santa Maria”, também assumia posição contrária ao comunismo, embora tenha também se posicionado de maneira crítica à “máquina capitalista”.602
Setores importantes da Igreja Católica, com forte ação no campo educacional, estavam, portanto, envolvidos em uma pregação anticomunista, com efeitos na política estudantil. No