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6. Detection and Tracking of Point Features 61

6.5. Template-Based Tracking

estagnação na vida econômica e social local, pela expansão e declínio da produção de borracha e açúcar, e por uma dinâmica da produção ribeirinha vinculada ao comércio com Belém.

Os fazendeiros de cacau e de cana-de-açúcar foram alvos tanto dos cabanos quanto das forças legalistas, dependendo da posição que ocuparam durante a Cabanagem. A Cabanagem teve como principal consequência a desorganização do

regime escravista. Cessado o movimento cabano, este se refez lentamente e os negros que escaparam foram engrossar os quilombos (SALLES, 2004, p. 38).

Os anos seguintes à Cabanagem marcaram a lenta reconstrução de antigos engenhos, pois o movimento atingiu, sobretudo, a área da cultura canavieira, desorganizando os alicerces do latifúndio e do regime escravista. De muitas casas grandes restaram magníficas ruínas (SALLES, 2004, p. 39). Ou seja, uma das consequências da Cabanagem foi a destruição quase completa do fabrico da rapadura em grande escala, que era excelente em todo o estado, e a despovoação de grandes regiões. Desapareceram, naquela época, as Vilas de São Miguel de Murucupicuara e de Mojucuara, de Madre de Deus e do Carnapijó (BORROMEU, 1946, p. 13). Outras comunidades cresceram, como a Vila de São Francisco, que recebeu um grande número de refugiados embrenhados nas matas. Alguns construíram suas moradas aí e influenciaram o crescimento da Vila de São Francisco (SOARES, 2012).

Além do declínio da produção de açúcar em razão da Cabanagem, houve uma diminuição da demanda no mercado geral, devido à substituição da cana-de- açúcar por sucedâneo (SALLES, 2004). Somente no século XX a produção de cana-de-açúcar e de aguardente voltou a crescer, até a década de 1980.

A descoberta da vulcanização da borracha por Goodyear, em 1839, aumentou muito a demanda por borracha, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos. Esta demanda estimulou a exploração do látex na Amazônia, “fazendo forte apelo a uma organização produtiva de tipo escravagista, da qual o índio constrangido foi o primeiro e principal sustentáculo” (SANTOS, 1980, p. 75).

Já na época da Cabanagem, a borracha era um produto importante para a economia de Belém e arredores, como Barcarena. Em 1830 (antes da Cabanagem), foram produzidos 156.060 quilos, e depois de uma drástica queda no início da Cabanagem, em 1835, já no último governo cabano, produziu-se 189.225 quilos em oito meses (PAOLO, 1990). Até 1850, a exploração da borracha estava restrita à região de Belém e às ilhas, sendo o produto mais exportado entre 1900 e 1910, ao lado do café.

Roberto Santos (1980) reforça a importância que a borracha ganhou na segunda metade do século XIX, substituindo a produção de cacau, gerando a entrada de dólares americanos e uma corrida em busca do látex, de tal forma que a mão de obra para outras atividades tornou-se escassa. Observou-se o enriquecimento de poucos, principalmente os estrangeiros, os deslocamentos dos

trabalhadores livres e escravos em busca da exploração da borracha e o governo começando a se preocupar em como fixar a população nos seu lugar de origem, para que a lavoura dos gêneros alimentícios pudesse desenvolver-se.

Há indicações de que de 1825 a 1850 a exploração da borracha restringia-se principalmente aos arredores de Belém e às ilhas. A mobilidade interna na Província do Pará tornou-se expressiva quando os seringais mais próximos da capital já tinham sido ocupados e tornaram-se menos produtivos, em face dos métodos destruidores do trabalho de coleta (SANTOS, 1980). De 1850 a 1870, novas frentes de exploração da borracha foram abertas, passando pelos rios Xingu e Tapajós, chegando até o Madeira e o Purus. “Naturalmente o Pará ficava desfalcado de grande parte de sua população ativa, face às correntes que emigravam na direção do ocidente” (SANTOS, 1980, p. 72).

Portanto, tudo indica que Barcarena teve o seu auge de extração de borracha durante a Cabanagem e nas décadas seguintes, mesmo com sua população dizimada. Pautada na sua inserção na extração da borracha, é provável sustentar que uma parte da sua população deve ter migrado com a abertura de novas áreas de exploração da borracha e da exaustão das áreas de seringais em Barcarena. Até os anos 1990, ainda se encontrava exploração de borracha em pequena escala em Barcarena, como na ilha de Trambioca, entre os resquícios do século XIX.

O despovoamento da região pela perseguição e extermínio durante várias décadas pós-Revolução Cabana, e a abolição da escravidão (1888) provocaram novas políticas de imigração, estimulando a imigração de europeus de várias nacionalidades, de portugueses, espanhóis, italianos, sírios, libaneses e japoneses (EMMI, 2013).

Durante as duas últimas décadas do Império, as elites do Pará apoiavam vigorosamente a colonização agrícola através de imigrantes europeus e criticavam abertamente o governo imperial por não direcionar à Amazônia a imigração estrangeira subvencionada e, nesse sentido, encaminhavam pleitos ao imperador (EMMI, 2013). Porém, não há informações sobre a sua inserção na região de Barcarena, pois o nordeste paraense foi a área escolhida.

Enquanto os pequenos aglomerados urbanos de Barcarena se concentraram nas antigas vilas de índios (Vila do Conde e São Francisco), uma decisão política mudou a sede do município de São Francisco para o lugar atual, onde o rio

Barcarena e o furo de Arrozal se juntam, geograficamente, entre a antiga sede e o Porto do Cafezal, onde se localizava um dos maiores engenhos da região (hoje só restam as ruínas). A mudança da sede ocorreu em 1952, durante o segundo governo do então presidente Getúlio Vargas.

A primeira vereadora da cidade informou o autor sobre a mudança da sede do município:

[...] que seu mentor, o ex-prefeito Frederico Duarte de Vasconcelos (falecido em 15/01/1975), que teve todo apoio do Legislativo (1951 até 1954) para ter a proximidade com Belém, e pelo próprio crescimento da Cidade que se fazia necessário devido à navegabilidade do Rio Mucuruça, o que favorecia o escoamento do extrativismo e outras potencialidades da época (SOARES, 2012, não paginado).

Prefeito por dois mandatos, Frederico Duarte de Vasconcelos foi uma pessoa importante na mudança da sede do município. Como prefeito nomeado no primeiro governo Vargas (1943), ele se empenhou para o reconhecimento de Barcarena como município, o que aconteceu oficialmente em 1944; e durante o seu segundo mandato, entre 1951 e 1954, ocorreu a mudança da sede.

Conceição e Guimarães (1999) elaboraram um rico dossiê sobre a história de Barcarena e nele juntaram transcrições de documentos oficiais em relação à decisão da mudança da sede municipal. Constam desde a exposição de motivos, de 1946,do então prefeito Frederico Duarte de Vasconcelos para o Interventor Federal do Pará até a aprovação, por unanimidade, da mudança da sede pela Câmara Municipal de Barcarena, em 1951.

Em meados da década de 1940, líderes políticos e famílias influentes iniciaram uma campanha para transferir a sede do município, o que se materializou na exposição de motivos do prefeito, que foi levada a debates no estado e passou por várias instâncias até ser formalizada na Lei Municipal n. 71, de 29/10/1952, e na Lei Estadual n. 534, de 23/08/1953 (CONCEIÇÃO;GUIMARÃES,1999, p. 98).

Na exposição de motivos, o prefeito Vasconcelos descreveu a então sede do município como:

[...] sem indústria, sem comercio, sem vida econômica nem social por ser quase que despovoado [...], sede do governo municipal de Barcarena, uma irrisão de não pequena extensão territorial do município (VASCONCELOS, 1946, apud CONCEIÇÃO; GUIMARÃES, 1998, p. 100).

Em seguida, elencou as vantagens da área pretendida para a nova sede, como a qualidade da terra para construção e agricultura, a situação, inclusive a rota

topográfica, acessibilidade para todo tipo de embarcação, ligações de muitas destas para outros lugares, além de situar-se ali uma área povoada por uma numerosa e ativa população ribeirinha.

O diretor do Instituto Regional de Geografia e Estatística, por onde passou o pedido de transferência, brindou o pedido com um parecer favorável, transcrito por Conceição e Guimarães (1999, p. 98):

O progresso de Barcarena exige a mudança de sua atual sede municipal para outro lugar que reúna condições indispensáveis ao desenvolvimento de sua vida, onde haja facilidade de transporte e comunicações, quer interiores quer exteriores. Situada como está no alto rio Barcarena sujeita a precariedade dos meios de transporte da região, a atual cidade não pode atender aos encargos administrativos da comuna entrevando por assim dizer seu próprio desenvolvimento.

Depois de vencer a resistência por parte do senador Magalhães Barata contra a aprovação da mudança da sede (CONCEIÇÃO; GUIMARÃES, 1999, p. 108), foi iniciado o processo de mudança:

Foi só com a mudança do centro da administração municipal com a edificação do prédio da prefeitura na gestão do prefeito Raimundo Alves Dias que o projeto de transferência da sede se tornou realidade. Coube a seu sucessor, o prefeito Lourival Campos Cunha a ‘colonização’ da nova cidade, incentivando os antigos moradores da ‘velha vila de São Francisco’ a transferirem-se para a ‘cidade nova’, cedendo para estes terrenos e inclusive materiais de construção para que pudessem edificar suas novas residências (CONCEIÇÃO; GUIMARÃES, 1999, p. 98).

Lógicas econômicas e políticas pautaram esta operação, num período em que a mudança da sede da capital do Brasil também foi agendada na nova Constituição de 1946. Os interesses das elites se referiam às suas possibilidades econômicas (escoamento de produção e proximidade das suas terras) e políticas (proximidade e facilidade de acesso a Belém, centro político da região). O estímulo à migração interna se deu pela oferta de lotes e material de construção, além da atração de uma dinâmica econômica devido às atividades da gestão municipal. Com isso, a antiga Vila de São Francisco foi parcialmente esvaziada. Este fato configura-se como um sistema migratório gerado pelo deslocamento coletivo, organizado por um movimento e por uma decisão política local (pelas elites locais, pois não há relatos de participação da população, e teve o respaldo político na esfera nacional e estadual em termos do reordenamento territorial, a partir do interesse de gestão e de desenvolvimento econômico).

Curiosamente, 20 anos depois, o (novo) porto de São Francisco se tornou uma movimentada entrada de material e de pessoas para a instalação do novo projeto de desenvolvimento do Governo Federal, que decidiu, sem nenhuma participação dos governantes e comerciantes locais, implantar fábricas, portos e construir um novo núcleo urbano.

3.4 Sistema migratório tradicional no contexto da chegada dos grandes projetos