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5. Line Tracking Based Analysis by Synthesis Techniques 47

5.2. Experimental Evaluation

5.2.1. Evaluation of Synthetic Image Sequences

A Cabanagem foi um movimento histórico de grande importância para o Brasil, especialmente para a Amazônia e, sem dúvida, para o município de Barcarena. Não é meu objetivo tentar resgatar e interpretar a história da Cabanagem, o que vários estudiosos já tentaram fazer, a partir de fundamentos ideológicos e abordagens metodológicas diferentes, como Antônio Raiol (1970), Pasquale di Paolo (1990), Júlio José Chiavenato (1984), ítala Bezerra da Silveira (1994), Guimarães (2000) e Vicente Salles (1992), este último, segundo Ricci (2007, p. 16),dando um salto nas interpretações sobre a Cabanagem, em relação ao:

[...] debate sobre o papel das lideranças cabanas, pois, ao contrário dos demais, entendem que o fundamental na análise sobre estas lideranças seria perceber empiricamente os quadros do ‘pensamento liberal’ e do ‘socialista’, transpostos da Europa para o Brasil .

Uma crítica geral a muitas correntes historiográficas que versaram sobre a Cabanagem vem de Lima (2004, p. 3), ao alegar que:

[...] as defensoras da ordem às apologéticas do povo, guardam entre si um elemento comum decisivo: a noção de unidade cabana. Nela, diferentes anseios, realidades e motivações foram aglutinadas e postas numa pretensa universalidade notadamente ilusória. A multiplicidade cabana foi transmutada em uma união ou uma hegemonia vaga e sem fundamento concreto.

Segundo Salles (2004, p. 33), a Cabanagem foi “um dos movimentos mais profundos, mais sérios e mais característicos da fase da Regência”, com um aspecto extremamente importante – a intervenção das classes populares dos campos e das cidades nos destinos políticos da província do Grão-Pará.

As raízes da Cabanagem envolvem a chegada dos ideais da Revolução Francesa ao Pará, através de padres e estudantes (como Filipe Patroni e Batista Campos), o crescente descontentamento dos pequenos proprietários de terras com as políticas excludentes e arbitrárias, a intensificação dos conflitos dos proprietários de terras com os mocambos, as disputas partidárias e os subsequentes golpes e divergências sobre a adesão do Pará à independência do Brasil devido à “atitude colonial endógena do Rio de Janeiro” (PAOLO, 1990, p. 150). A Cabanagem configura-se como a expressão de “uma luta secular que

estes empreenderam contra a exploração colonial, alicerçando-se no ‘patriotismo’ e no ‘anticolonialismo’” (RICCI, 2007, p. 10).

Os médios proprietários de terras, os senhores de escravos e a elite letrada cultivavam aspirações de poder. Toda a região do rio Guamá e seus afluentes estavam ocupados por modestos proprietários escravistas que entraram em cena na Cabanagem (RICCI, 2007).

A Cabanagem captou as insatisfações de grupos que se encontravam mais ou menos concentrados. Índios e mestiços se reuniam em cinco lugares principais, e também nos lugares de reunião dos combatentes na região de Conde, Beja, e Barcarena; na região costeira, de Vigia a Cintra; em algumas partes da ilha de Marajó; no Médio Amazonas e seus afluentes; e na quinta, a região do Guamá, Moju, Acará e Capim, lugares de grandes plantações e de concentração de escravos (MARIN, 2000).

O incêndio da fazenda de Malcher, o assassinato de Manuel Vinagre, a perseguição de Batista Campos e sua morte prematura uniram vários grupos na Amazônia contra o despotismo do presidente nomeado (PAOLO, 1990).

Com apoio da população de Belém, os cabanos conquistam a capital. No dia 7 de janeiro de 1835, a Cabanagem saiu vitoriosa, e se insturou o primeiro governo cabano (SALLES, 2004).

Seguiram-se três governos cabanos – de 12 de janeiro de 1835 a 13 de maio de 1836, com conflitos internos, ataques e bloqueios do poder imperial, com apoio de forças de outros países, e muitos atos heroicos e coletivos de resistência.

Depois da retirada voluntária de Belém (furando o bloqueio de navios), os cabanos ainda resistiram em toda Amazônia durante vários anos, porém, com a prisão do Eduardo Angelim, em Acará, o movimento ficou sem liderança. Sob o comando do General Andreia, tropas militares formadas por prisioneiros, oriundas do Sul e do Nordeste do Brasil, realizaram um genocídio na Amazônia, calculado em 30 mil mortos (PAOLO, 1990).

Os múltiplos fatores que influenciaram o movimento cabano, os marcadores de identidade, as diferentes motivações e contradições dos interesses entre os grupos e dentro dos grupos fizeram da Cabanagem um episódio complexo na história do Pará, e de grande relevância para a região de Barcarena.

De fato, Barcarena, a região do baixo Tocantins e a região metropolitana não podem ser entendidas sem considerar a importância da Cabanagem. Líderes

cabanos se esconderam e organizaram suas ações a partir daquela região, quando Conde, Beja e Barcarena se firmaram como focos da resistência cabana, onde os engenhos foram destruídos e seus donos assassinados, enquanto Abaetetuba e Cametá concentraram as forças anticabanas.

Foi aí também que as lideranças do movimento foram mortas ou presas. E mesmo sem registros escritos, entende-se que a perseguição e matança dos cabanos depois da retomada do poder pelos legalistas, comandados pelo general Andreia, deve ter devastado e despovoado a região de Barcarena.

A representação da Cabanagem nestas breves palavras pouco evidencia as contradições, os conflitos internos e entre grupos, a diversidade das lutas unidas e isoladas num vasto território. Um exemplo disso é a atitude ambivalente de Eduardo Angelim, o terceiro presidente cabano, em relação à escravidão:

Reconheceu na prática política a emancipação dos escravos que participaram ativamente da revolução e manteve os outros em regime de escravidão (PAOLO, 1990, p. 291).

Dos três chefes cabanos que chegaram ao poder, foi Angelim o que mais contribuiu para frear a marcha da ideia abolicionista e republicana, mandando fuzilar os dois maiores líderes dos escravos, Joaquim Antônio e Patriota. [...] O conselho de guerra cabano comprovou o ‘crime’ da reivindicação da liberdade, incluída a de escravos em geral, e condenou ao fuzilamento aqueles patriotas (SALLES, 2004, p. 91-92).

A Cabanagem envolveu toda Amazônia, como bem resume Lima (2004, p. 5): A Cabanagem atingiu um território de imensas proporções: desde os arredores da capital Belém, passando por toda a calha amazônica e seus principais afluentes, até as redondezas de Manaus. Nestas regiões não houve sujeito, ou grupo, que não tenha participado, ou pelo menos vivenciado de perto os combates. Todos os povoados e vilas estavam em disputa.

Isto também incluía, com muita evidência, a região de Barcarena. José Varella Pereira (2011), um grande estudioso da história do Marajó, refere-se às raízes do movimento da Cabanagem em Barcarena:

O caso particular da aldeia Murtigura (Vila do Conde e vila dos Cabanos) chama atenção. Era aí onde brabos tapuias10 descidos, na marra, de altos

rios foram catequizados e domesticados para aprender artes e ofícios, antes de ir servir a proprietários da cidade e vilas dos arredores da capital. Daí mesmo nasceu a subversão dos excluídos na Cabanagem de 1835. Foi à

10 O termo “tupuias” tem várias interpretações: “O cabocolo, ou tapuia, como disse Veríssimo, é o

sombra do Diretório transplantado que se formou o catolicismo popular mestiço, prenhe de crenças indígenas e deuses africanos, mesclado de reminiscências bárbaras através da religiosidade ibérica no fecundo processo dialético de adaptação aos trópicos (PEREIRA, 2011).

Desde o início da Cabanagem, Barcarena servia como lugar de refúgio de suas lideranças, como relata o Padre Borromeu (1946, p. 12):

Aos 31 de Dezembro de 1834 faleceu no sítio Rosário em Atituba, aliás Arrozal, o lutador da independência, Cônego Batista Campos. A sua morte foi o sinal das lutas e das guerras civis que devastaram as terras de Barcarena durante dois anos (1835-1836).Os Cabanos organizaram as suas tropas de assalto com os Unços ou Onços: negros – escravos que fugiram dos seus patrões e se tinham escondido nas ilhas desabitadas neste tempo. Assaltavam as fazendas e queimaram muitos engenhos de Barcarena, existentes naquela época. [...]

O elemento predominante era formado por Africanos e alguns ‘Cearenses’ entre outros o afamado Eduardo Angelim, que soube arranjar a Pescaria real de Madre de Deus como propriedade. [...]

Sem misericórdia assassinaram os ‘Brancos’, quer dizer, os Portugueses. [...] O lugar da execução foi Tucumanteua, do qual resta o Cruzeiro do Cemitério dos Cabanos.

Paolo (1990) também não deixa dúvida de que durante a Cabanagem, as localidades de Conde e Beja se constituíram em importantes focos de resistência e revolução. Conde era a base da operação do Eduardo Angelim, de onde ele obilizava os cabanos de Barcarena, Beja e Muaná (PAOLO, 1990, p. 253), e de onde lançou, a 29 de julho de 1835, a proclamação revolucionária (PAOLO, 1990, p. 253).

[...] na freguesia de Conde havia uma grande concentração de cabanos, sendo as cabeças o padre Casimiro, Eduardo Angelim e Geraldo, seu irmão [...] O número de homens armados eram trezentos sendo eles mulatos, cafuzos e tapuios.

Esta força cabana, juntamente com outras, reconquistaram Belém pela terceira vez no mesmo ano, empossando Angelim como o novo presidente. Sob o comando do general Andreia, as forças legalistas que bloquearam o acesso a Belém e conquistaram aos poucos lugares estratégicos no interior, montaram a sua base na ilha de Arapiranga, ao norte do território que hoje é compreendido como parte de Barcarena, estrategicamente próximo a Belém. Quando os cabanos fugiram de Belém, de lá Andreia entrou na capital; e de Belém comandou a perseguição e o genocídio de mais de 30 mil pessoas, aproximadamente, em toda a Amazônia (PAOLO, 1990, p. 352). Ninguém sabe quantas pessoas morreram em Barcarena.

É difícil falar em sistemas migratórios num contexto de guerra, mas não é impossível. As análises e interpretações sobre a Cabanagem mostram uma clara relação das mobilidades entre Barcarena e Belém, sendo que os lugares que se formaram como vilas de índios serviram de base para as forças cabanas, e as ilhas mais próximas da capital foram tomadas pelas forças legalistas como base para atacar a cidade de Belém.

Desde o início, a Cabanagem contou com a participação ativa dos negros livres, libertos e escravos (SALLES, 2004, p. 37).

As tropas para combater as forças cabanas vieram do Rio de Janeiro e de Recife, pois necessitavam de militares que não tivessem nenhum vínculo com a região, nem com a história do Pará e, principalmente, nem com a população local. Havia navios de guerra da Inglaterra e de Portugal. Ou seja, o sistema migratório da Cabanagem envolvia a mobilidade dos ex-colonizadores europeus e dos novos dirigentes (colonizadores) localizados no Rio de Janeiro. Nenhum dos estudos consultados sobre a Cabanagem aborda o papel das mulheres e a sua mobilidade. As mulheres acompanharam e participaram das lutas, das preparações, migraram para a cidade ou ficaram no interior?

Durante da Cabanagem, o sistema migratório que se estruturou era de disputas pelo território, pelo controle sobre a região e pelo projeto político. Os cabanos (indígenas, africanos e colonos) se caracterizaram pela mobilidade que desenvolveram no interior do Pará (fugas e organização para a tomada de Belém) e nas fugas de Belém, virando refugiados de guerra, escondendo-se e circulando pela Amazônia.

3.3 Borracha, cacau, cana-de-açúcar: sistema migratório de regatão e pendular